StarCraft: Ponto Crítico
Capítulo seis
Jim soltou um xingamento que teria deixado até Tychus Findlay sem graça.
— Como foi que eles conseguiram nos rastrear?
— Não faço ideia, senhor — respondeu Cade. Ele parecia tão frustrado quanto os outros. — O capitão Horner nos deu instruções específicas para um salto coordenado e criptografado. Não tem como o Mengsk ter decifrado a criptografia tão rápido!
Matt não perdeu nem um segundo procurando desculpas. Voltou para seu posto de capitão e começou a dar ordens.
— Estações de batalha! Levantar escudos!
Jim correu até Valerian, aproximando o rosto a um centímetro do rosto do príncipe.
— Você tem alguma coisa para me dizer?
Os olhos de Valerian se estreitaram. Ele colocou uma das mãos no peito de Jim e o empurrou com firmeza.
— Não — respondeu. — E não gosto de ser acusado.
— Nós estamos sendo seguidos. E a Hipérion com certeza não está atraindo eles.
— Eu também não estou! — rebateu Valerian. — Perdi vários cruzadores cheios de tripulantes, Raynor, só para poder me aliar a você e...
— Jim — interrompeu a voz rouca de Swann —, ele parece estar limpo nessa. É um idiota, mas está limpo.
— O que você quer dizer?
As telas se encheram de fogo e a Hipérion balançou. De repente, Valerian disse:
— Preciso retornar à minha nave!
— Não antes que eu ouça o que Rory tem a dizer — declarou Jim. Ele também estava ansioso para voltar à Bucéfalo, se juntar a Kerrigan, descobrir o que estava acontecendo e acabar com tudo. Quanto mais fossem atrasados pelo Mengsk pai, mais tempo levariam para cuidar de Sarah.
Rory olhou para Valerian, mas dirigiu-se a Jim.
— Quando você... “requisitou” a Hipérion de Mengsk, encontrou um monte de rastreadores e gravadores a bordo que precisaram ser arrancados, lembra? Pelo que você me disse, levou um bom tempo para dar um jeito na coisa toda. Aposto que a Bucéfalo tem a mesma quantidade de escutas; ela também já foi a nau capitânia de Mengsk. Nós estamos em vantagem dessa vez, porque você deve se lembrar de onde encontrou os aparelhos na Hipérion. Tenho certeza de que Arcturus simplesmente mandou colocar as escutas seguindo o mesmo padrão.
Jim franziu o cenho, mas concordou.
— É, é a explicação mais provável.
— Vou levar uma parte da minha tripulação para a Bucéfalo e começar a fuçar. — Ele olhou Valerian de soslaio. — Nós estamos muito mais acostumados a correr e fugir do que você, príncipe encantado.
— Swann consegue fazer milagres com naves — comentou Jim, batendo no ombro do amigo.
Valerian fez um som de reprovação ao imaginar aquele homem rude fuçando sua nave querida.
— Que seja, então — consentiu, como se tivesse alguma escolha. — Levando em conta o quanto você se saiu bem na hora de enganar o meu pai, eu diria que sabe uma coisinha ou outra. — Ele deu um sorriso que pareceu realmente genuíno. — Qualquer ajuda que puderem oferecer, aceitarei de bom grado. Mas, por favor, vamos logo. Homens e mulheres sob meu comando estão sendo atacados. Eu quero ficar ao lado deles.
— Eu chego lá num piscar de olhos — respondeu Rory.
Annabelle Thatcher estava trabalhando dobrado, assim como todo o resto do pessoal. Descobrira que ser um dos Saqueadores de Raynor consistia em horas de puro tédio ajudando seu chefe, Swann, a consertar a Hipérion ou cumprindo intermináveis tarefas de manutenção, e horas menos tediosas passadas no bar com os amigos, bebendo os mai tais magníficos do Cooper. Havia também os minutos de terror intenso.
Nos últimos tempos, esses minutos pareciam durar cada vez mais. As coisas aconteciam tão rápido que, na metade das vezes em que entravam em batalha, Annabelle e muitos outros não sabiam exatamente quem estava lutando contra quem.
Primeiro, houve toda a história de ir a Char e dezergnificar Kerrigan. Aquela decisão deixara uma parte da tripulação bem nervosa, a ponto de se opor a Raynor abertamente. Para alguns como Milo Kachinsky, o mais ruidoso dos dissidentes, parecia que Raynor estava se aliando à Supremacia. Até Annabelle cogitara isso.
Tychus Findlay, que, para Annabelle, parecia assustador mesmo se estivesse sem armadura e dormindo feito pedra, atiçara as brasas. Começara a falar sobre os problemas de Raynor com bebida — algo que preocupara muito a própria Annabelle — e dissera abertamente que Jim não pensaria duas vezes se tivesse que fugir do perigo e deixar a tripulação para trás.
Nisso, Annabelle nunca acreditara. Raynor havia chegado, apagado o charuto em Tychus e começado uma boa e velha briga de bar. Apesar da vantagem aparente de estar em uma armadura completa, Tychus levara uma surra na frente de todo mundo. Até Milo, ao ver a cena, dissera: “Esse é o comandante que eu esperava.”
Depois de chegarem à órbita ao redor de Char e tentarem resgatar Kerrigan, as coisas aconteceram tão rápido e de forma tão violenta que Annabelle não entendera quase nada. Horner anunciara que o resgate de Kerrigan, agora em forma humana, havia sido bem-sucedido. Então, de repente, Arcturus Mengsk aparecera. Ninguém sabia o que estava acontecendo, só sabiam que estavam em perigo de novo, e todos se concentraram em seguir ordens e disparar onde ordenassem.
Cumprindo mais ordens, eles haviam saltado e estavam em... bem, Annabelle não fazia a menor ideia de onde estavam. Parecia-lhe que tiveram uns seis nanossegundos para respirar aliviados antes que Mengsk conseguisse encontrá-los e os atacasse pela segunda vez.
— Os ímpios não têm paz — murmurou seu amigo Earl. Assim como Annabelle e o resto do pessoal da engenharia, ele estava sujo e cansado.
— Se você está dizendo... — respondeu Annabelle. A nave sacudiu suavemente, ocultando a verdadeira fúria da batalha que ocorria lá fora.
— Calem a boca e venham comigo — ordenou Rory, entrando de supetão na engenharia. Em geral, Swann era um cara simples e gentil, mas tinha um temperamento explosivo, e a equipe sabia que era melhor não mexer com ele quando estava de mau humor. Earl e Annabelle trocaram olhares e deram de ombros, mas obedeceram. Apanharam os kits de ferramentas e apertaram o passo para acompanhar o chefe pelos corredores amplos e acarpetados da antiga nau capitânia de Mengsk.
— Senhor — disse Annabelle —, para onde estamos indo?
— Para a Bucéfalo — respondeu Swann, curto e grosso. Ele começou a andar mais rápido, e os dois o imitaram. — Vocês provavelmente nem sabem disso, mas, na última batalha e nessa agora, o papai estava lutando contra o filhinho, além de lutar contra nós.
Annabelle arregalou os olhos.
— Não sabíamos, não. Lá na engenharia, só tentamos manter a Hipérion inteira enquanto os zergs e os cruzadores da Supremacia atacavam por todos os lados.
— O “Júnior” e algumas naves dele vieram para cá conosco. Mas, quinze minutos depois que saltamos, Mengsk nos achou. Por isso, agora nós vamos dar uma passada na nave do rapazinho de ouro para procurar transmissores e outras tecnologias que o pai dele pode ter plantado por lá.
— Porque se não fizermos isso, Mengsk vai conseguir nos seguir aonde quer que a gente vá — concluiu Annabelle. — Nossa, onde foi que já ouvi isso antes...
Ela estava a bordo quando Raynor tomou a Hipérion, e lembrava-se de ter varrido a nave toda à procura de escutas. Não estava nem um pouco ansiosa para fazer tudo aquilo de novo, mas era bem melhor do que ser caçada e atacada pelo imperador. Eles correram pelos tubos de acoplagem e entraram na Bucéfalo.
— Primeiro — disse Rory —, engenharia.
Valerian estava na ponte. Não se sentia tão furioso e impotente desde que ele e sua mãe foram forçados a se esconder dos assassinos da Confederação. Embora não o demonstrasse, estava muito perturbado com a traição do pai. Ainda não conseguia entender a decisão de Arcturus. Era limitada e idiota — duas características que ele nunca esperara do pai, mas era obrigado a ver agora.
Também estava lutando contra outro sentimento incomum: culpa. Ordenara a seus soldados que abrissem fogo contra o imperador e, em seguida, pedira-lhes que escolhessem o seu lado, e não o de Arcturus, o que equivalia a cortar todos os laços. Era bem verdade que alguns dos que serviam nos cruzadores de batalha eram “ressocializados”, ou seja, fuzileiros que tiveram as memórias alteradas para se tornarem totalmente obedientes. Mas mesmo assim eram pessoas, e não máquinas como as adjutoras, interfaces de computadores humanoides. E muitos dos que estavam sob seu comando ainda tinham controle de suas próprias mentes e haviam feito a escolha consciente de seguir o Herdeiro Legítimo; não estavam simplesmente seguindo ordens.
Muitos desses homens e mulheres perderam a vida por escolhê-lo. E mais deles morreriam, porque seu pai fora astuto o suficiente para plantar rastreadores na Bucéfalo. De repente, ele se deu conta de que seus punhos haviam se cerrado e forçou-os a se abrirem.
Apertou os lábios e observou com um prazer mórbido que, se o número de naves de sua frota diminuíra, o mesmo acontecera à do pai. Não era uma batalha equilibrada, mas o quadro não era tão desesperador quanto poderia ter sido. Tanto ele quanto o pai haviam trazido vinte e cinco naves para a batalha, fora a Estrela Branca, a Bucéfalo e a Hipérion. Não precisava ditar ordens para o capitão; Everett Vaughn sabia muito bem o que tinha que fazer, e Valerian era sensato o bastante para perceber os benefícios de encontrar os melhores profissionais para cada posto e deixá-los trabalhar.
Seus punhos ainda se fechavam sozinhos cada vez que uma das naves era atingida. Uma em particular, a Antígona, parecia ser o alvo preferido, só perdendo para a Bucéfalo. Das duas naves que conseguiram escapar da batalha anterior, fora a que recebera mais danos. Mengsk obviamente pretendia inutilizá-la de uma vez por todas e torná-la inofensiva, ao mesmo tempo que continuava atacando a Bucéfalo.
Vaughn olhou para Valerian e disse:
— Senhor, estamos recebendo uma transmissão da Estrela Branca.
— Ignore-a. Meu pai não tem nada a dizer que possa me interessar.
— ... Sim, senhor.
Havia, porém, alguém com quem ele de fato queria falar. Caminhou até uma das anteparas e pressionou o intercomunicador.
— Valerian para Swann. Como está indo a operação?
— Eu iria mais rápido se não precisasse ficar ouvindo a sua matraca — reclamou o engenheiro. — Estamos indo o mais rápido possível, garoto. Lembre-se de que não é só você e a sua navezinha que estão levando chumbo.
— É claro.
— Mas já encontramos três escutas. Vamos subir para verificar a ponte logo, logo.
— Confesso que não esperava ver três Saqueadores de Raynor na ponte da Bucéfalo bem no meio de uma batalha — respondeu Valerian. No mesmo instante, as escotilhas explodiram em laranja e a Bucéfalo tremeu.
— Relatórios de dano chegando dos níveis quatro e sete, seis fatalidades — relatou Vaughn.
— Quanto mais rápido fizermos a limpa, mais rápido poderemos saltar novamente — interrompeu Swann.
— Senhor — disse Vaughn, voltando-se para Valerian —, recebi uma mensagem da Héracles e da Antígona. Eles estão sofrendo muitos danos e não sabem se vão poder fazer um novo salto se não realizarem alguns reparos.
Valerian franziu o cenho.
— Entre em contato com Raynor — disse. O rosto de Raynor apareceu na tela.
— Como estão as coisas por aí, Valerian?
— Swann parece estar mesmo fazendo milagres, mas não rápido o suficiente — respondeu Valerian. — Minhas outras naves podem não conseguir saltar se esperarmos mais tempo.
— Bom, é inútil fazer isso agora se vamos precisar saltar de novo logo depois.
Os olhos de Valerian estavam fixos na batalha, não em Raynor. As duas naves ainda estavam lutando, mas a Antígona estava visivelmente em más condições, e a Héracles não ficava muito atrás.
— Precisamos saltar agora. Eu vou ganhar tempo para que Swann e sua equipe continuem trabalhando.
— Mas eles vão nos encontrar...
— Eu não me importo! — gritou Valerian, virando-se para encarar o holograma de Raynor. — Nós vamos saltar quantas vezes forem necessárias para salvar a minha tripulação, Raynor. E se você não entende o que quero dizer, então eu o julguei muito mal.
Raynor fechou o rosto. Valerian não precisava de telepatia para saber o que ele estava pensando. Sem dúvida estava se perguntando se era só uma pose nobre que Valerian estava encenando ou se o filho realmente era um homem melhor do que o pai.
— Eu entendo você — disse Raynor, por fim, e virou-se. — Matt, arrume novas coordenadas para o salto. Mesmo se só nos der dez ou quinze minutos, vai valer a pena.
Valerian fechou os olhos, aliviado.
— Obrigado, Sr. Raynor. — Ele desligou a imagem. — Aqui é o Príncipe Valerian para Antígona e Héracles. Vamos receber coordenadas para o salto da Hipérion em breve. Esperem o sinal do capitão Horner para partirmos.
Os próximos minutos duraram uma eternidade. Valerian lutou contra a vontade de andar de um lado para outro e, em vez disso, procurou respirar de forma ritmada para se acalmar; era uma arte antiga. A Estrela Branca estava sendo atacada incansavelmente e estava sofrendo danos. Mas não o suficiente, nem rápido o bastante.
Vamos lá, vamos lá...
— Recebendo transmissão da Hipérion, senhor. Estão enviando as coordenadas para o salto. Mandam que a gente se prepare para saltar em menos de dois minutos.
Por um breve e horrível segundo, Valerian se perguntou se as transmissões também estariam sendo monitoradas. Mas logo concluiu que não. Porque se estivessem, Mengsk e sua frota teriam chegado em muito menos de quinze minutos. Era um pequeno consolo.
— Transmita para Héracles e Antígona — ordenou Valerian. — Diga que abram um canal para receber o sinal do Horner. Nós...
Ele precisou fechar os olhos por causa do clarão na tela. Ao abrir os olhos novamente, presenciou o horror. A Antígona recebera o golpe final. As chamas, alimentadas pela atmosfera da nave, ainda brilhavam intensamente. Uma torrente de estilhaços e corpos vazava pelo grande buraco no casco da nave. Diante de seus olhos, houve mais um disparo, e a nave se partiu em duas.
A Antígona e todas as almas a bordo estavam perdidas.
— Horner para frota. Preparem-se para saltar quando eu der o sinal. Três... dois... um... agora!
A Bucéfalo e a outra nave da “frota” foram tudo o que acompanhou Hipérion em sua fuga para o próximo ponto de repouso.
Fúria queimava na garganta de Valerian. Ele pressionou um botão.
— Tenho certeza de que você viu isso, Raynor.
— Sim, eu vi, e sinto muito. — A voz de Raynor estava carregada de verdadeira compaixão.
— Não podemos nos dar o luxo de perder mais naves e homens.
— Concordo, mas tenho certeza de que Swann e sua equipe estão trabalhando o mais rápido possível. A julgar pela última vez, nós temos mais ou menos quinze minutos ou menos até que seu pai nos encontre de novo, supondo que Swann ainda não tenha encontrado todas as escutas. Parece que ele ainda não chegou à ponte.
Valerian ficou sério.
— Não, ainda não.
— Então venha para cá enquanto ele faz o que tem que fazer aí. Eu andei conversando um pouco com o Matt, parece que talvez tenhamos um bom lugar para nos escondermos por um tempinho quando nos livrarmos das escutas.