StarCraft: Ponto Crítico
Capítulo quatro
Matt Horner ponderava sombriamente, estirado em sua cadeira: Eu sabia. Eu sabia que esse dia chegaria.
O dia em que Arcturus Mengsk encontraria o grupo “terrorista” conhecido como Saqueadores de Raynor e faria a embarcação que fora sua nau capitânia sofrer toda a fúria da Supremacia.
Com o calmo equilíbrio que era parte arraigada de sua natureza, Matt percebeu imediatamente que apenas metade da frota da Supremacia avançava em direção a eles. A outra metade — originalmente vinte e cinco, e agora um total de quatorze cruzadores de batalha e seus contingentes de Miragens, módulos de transporte etc. — estava sob o controle do outro Mengsk, e disparando contra as naves do pai. Valerian conectara a Hipérion ao canal de comunicação em que Mengsk pai conversava com o filho, de forma que Matt sabia qual Mengsk ele deveria atacar. Seu amigo e comandante James Raynor também permanecia a bordo da Bucéfalo.
De todo modo, aquela situação não era nem um pouco agradável, e Matt não tinha certeza de que conseguiriam escapar dessa vez. O imperador parecia bastante capaz de abrir mão do amor pela família quando seus desejos eram frustrados, e agora ele atacava implacavelmente as embarcações que estavam sob o comando do filho.
Até o momento, aquela era a única vantagem, se é que poderia ser chamada assim. A tela estava tomada por imagens do horrendo planeta vermelho-alaranjado Char e de terríveis explosões de fogo conforme as naves eram atingidas. Era uma guerra de titãs, uma briga de cruzadores de batalha; certamente haveria uma grande carnificina. Os grandiosos cruzadores se moviam mais lentamente que os Miragens, alvejando e sendo alvejadas, e o espetáculo era horrivelmente impressionante.
— E eu pensava que os zergs seriam nossa maior preocupação — murmurou Matt para si mesmo. Então, disse mais alto: — Foque a imagem na Bucéfalo.
— Pronto, senhor — respondeu Marcus Cade, o navegador.
A imagem na tela mudou e o cruzador de batalha classe Górgona apareceu. A nave já sofrera alguns danos, mas estava batendo tanto quanto apanhava. Matt sabia que, sendo a nau capitânia da frota de Mengsk, o cruzador tinha as defesas e o arsenal mais avançado, e era a maior nave que a humanidade jamais vira. Enquanto Horner observava, a Bucéfalo atirava com o canhão Yamato. A pequena e concentrada explosão nuclear atingiu o alvo com resultados devastadores. O cruzador de batalha classe Beemote, mais antigo e não tão bem equipado, não teve a menor chance. Uma bola de fogo brotou em seu casco, a nave desacelerou e começou a flutuar à deriva. Ela e as seis mil pessoas que a ocupavam não mais representavam uma ameaça.
Entretanto, outras duas naves classe Minotauro acercavam-se deles. Enquanto a Hipérion se aproximava, Horner viu um campo verde envolver a Bucéfalo. O cruzador estava ativando a matriz de defesa e, com alguma sorte, suportaria até o momento em que a Hipérion estivesse dentro do alcance de tiro.
Houve um borrão repentino do lado de fora.
Zergs.
As mutaliscas moviam-se desorganizadamente, mas continuavam ferozes como nunca, e Matt deu ordem para atirar. Cada segundo que perdiam estourando os zergs, que mergulhavam em ataques suicidas, era mais um segundo de perigo para a nave que abrigava Jim e outros Saqueadores.
— Destruam os zergs, cada um deles que entrar em nossa linha de fogo — ordenou Matt. — E mantenham a Bucéfalo sob observação em outra tela. Nós vamos... — Ele hesitou. — Suspenda essa ordem.
— Senhor? — perguntou Marcus Cade.
— Atirem na direção dos zergs, mas não atirem neles. Façam com que sua atenção esteja focada exclusivamente na Hipérion. Afastem-nos das naves da Supremacia e façam com que nos persigam.
Cade ficou confuso, mas obedeceu.
— Mais duas naves da frota de Valerian estão se movendo para uma interceptação. Ele só tem quatorze das vinte e cinco agora, e várias delas estão em condições muito ruins.
— Entendido — disse Matt. — Vamos continuar seguindo na direção deles.
Com um bando de zergs enfurecidos em nossa cola, pensou, e se permitiu um sorriso discreto.
A Bucéfalo sacudiu levemente ao sofrer os ataques vindos do lado de fora. Jim não perdeu tempo se preocupando. Não havia nada que pudesse fazer por sua nave ou pela de Valerian. Eles sairiam — ou não — daquela enrascada sem sua ajuda.
Mas havia uma pessoa que ele poderia ajudar. Talvez.
A enfermaria da Bucéfalo se assemelhava à da Hipérion, mas parecia superior aos olhos destreinados de Jim. Era grande, quase cavernosa, e sua frieza sugeria eficiência asséptica.
Finalmente, Sarah estava em uma cama hospitalar adequada. Diversos tubos estavam conectados às suas veias e um painel acima de sua cabeça exibia informações em caracteres eletrônicos dourados. Jim podia ler as palavras, mas a maioria delas estava além de sua compreensão. Os três médicos e o cientista, entretanto, pareciam dar enorme importância às leituras.
Jim, agora sem o traje, estava em uma cadeira ao lado de Sarah. Ele tomou a mão dela nas suas.
— Eu sei que esses caras parecem assustadores — sussurrou ele —, mas você está segura agora. Todos aqui vão tentar te ajudar. E, se eles fracassarem, eu mesmo chutarei eles pra fora por uma escotilha.
Por um longo momento, ele pensou que ela ainda estava adormecida. Então, seus olhos tremeram, se abriram e Sarah piscou algumas vezes. Ela olhou ao redor e seus olhos encontraram os de Jim.
— ... Jim?
— Estou aqui, amor — disse ele, sorrindo.
Sarah também começou a sorrir, mas então Jim adivinhou, pela expressão dela, que as lembranças do que ocorrera tinham retornado. O sorriso congelou e tornou-se uma careta. Ela fechou os olhos e se virou para o outro lado.
— O que quer que você tenha feito — murmurou ela —, queria que não tivesse.
Jim tomou fôlego por um instante, mas manteve a voz calma.
— Você não quer isso realmente — falou. — Deixe que façam o trabalho deles. Não se preocupe.
— Não me preocupar? — Sarah voltou a cabeça e o fitou fixamente. Seus lábios se crisparam e sua voz se elevou na última palavra. Aquele tom fez os médicos esquecerem os números que pareciam fasciná-los e voltarem os olhos para a paciente. — Como você pode dizer isso? Jim, eu sei o que eu fiz. Eu me lembro. Bilhões de mortos... por minha causa!
— Não foi você — asseverou Jim. — Foi a Rainha das Lâminas. Foi aquilo no que eles transformaram você. Mas você voltou a ser a Sarah de sempre. E nós estamos juntos agora. Então não fale mais nada, meu bem.
Ele evitara tocar os estranhos tentáculos que adornavam a cabeça de Sarah em vez de cabelos. Todo o resto era tão humano, tão como a mulher de quem se lembrava, mas aquilo... Agora ele os tocava, entretanto, mantendo os dedos entrelaçados aos dela enquanto esticava a outra mão e acariciava gentilmente as protuberâncias espinhosas. Ele se preparou para o contato. Para sua surpresa, elas eram cálidas ao toque, como pele. Como a pele de Sarah. E quaisquer incertezas que ele ainda pudesse ter quanto a amá-la — incertezas que ele reprimira tão profundamente que não se dera conta delas até então — esvaíram-se como um sonho ruim.
Mas o toque não a reconfortou. Ela virou a cabeça, tentando se afastar. Jim respeitou o desejo de Sarah e retirou a mão.
— Não importa. Sarah Kerrigan, Rainha das Lâminas... você não entende — murmurou. — Talvez você nunca seja capaz de entender. Eu sempre destruí as coisas ao meu redor. Tudo o que eu toco, tudo com que me importo... foi por isso que me escolheram, Jim. Justamente porque eu destruo as coisas ao meu redor.
Ela cerrou os olhos e adormeceu. Jim recostou-se na cadeira, tentando compreender o que ela falara. Quanto daquilo era real e quanto era apenas uma expressão da dor que sentia?
A despeito do que ele dissera — do que ele teimava em dizer a si mesmo —, a dúvida persistia: quanto do massacre de bilhões de pessoas fora obra da Rainha das Lâminas... e quanto fora de Sarah Kerrigan?
Era a coisa mais bonita do mundo, do mundo inteiro. Sarah a capturara e estava indo mostrar para a mamãe e o papai.
As pequenas pernas da menina a impulsionavam pelos campos de flores amarelas, cujas corolas se voltavam para o Sol. Ela tinha a coisa mais bela do mundo em suas mãos. Sarah podia senti-la adejar; ela estava assustada, mas Sarah a libertaria depois que a tivesse mostrado a seus pais.
— Sarah Louise Kerrigan!
Os passos de Sarah desaceleraram. Tardiamente, ao fitar os pais no alpendre (papai conferia o relógio de bolso e mamãe franzia a cara), lembrou-se de que iriam à cidade naquele dia.
— Desculpa. Eu me esqueci — falou. Seu amplo sorriso voltou enquanto estendia as mãos ainda juntas. — Mas olha o que eu...
— Olhe o seu cabelo! — vociferou a mãe, exasperada. Ela começou a arrancar as pétalas de flor dos cabelos ruivos de Sarah na tentativa de transformar aquela crina selvagem em um rabo de cavalo apresentável. — Quando é que você vai tomar jeito? Está coberta de imundícies e não temos tempo para te lavar, temos?
— Bom — disse o papai —, vocês duas têm que se apressar.
— Eu queria uma menina comportada, que gostasse de manter uma boa aparência! Em vez dessa...
As palavras doíam, mas Sarah já as ouvira antes. Tudo estava bem. Mamãe ficaria tão atônita e admirada quanto Sarah ao ver o que ela encontrara. A voz de sua mãe esvaneceu, tornando-se um zumbido zangado, e Sarah abriu as mãos, expectante.
Estava morta. A coisa mais bela no mundo estava morta.
E Sarah a matara.
— Ah, veja o que você fez, Sarah! Você esmagou o bicho e sujou as mãos...
Sarah gritou.
Ela gritou, furiosa por causa das palavras da mãe. Ela gritou, horrorizada com a morte, causada literalmente por suas próprias mãozinhas, e pela culpa, pois sussurrara promessas de segurança à frágil criatura.
Havia vermelho por toda parte.
Quente e úmido, espirrando em seu rosto, nas tábuas do alpendre, na cadeira de balanço; o sangue se movia devagar demais para ser real e de forma onírica demais para ser tão terrível.
Vagamente, Sarah ouvia o pai gritar de maneira incoerente, mas era como tentar escutar quando se está debaixo d’água — um som surdo e indistinto e distante, bem distante. Ela estava paralisada pela visão da cabeça de sua mãe — bem, o lugar onde a cabeça da mãe costumava ficar. Pois não havia mais nada lá além de parte de uma mandíbula e pedacinhos de ossos, sangue e cérebro.
O corpo desmoronou como uma marionete cujos fios fossem cortados repentinamente. E, com impiedosa brusquidão, o estranho estado de sonho se esvaiu e tudo entrou em foco nítido e brutal. Sarah compreendeu o que seu pai não cessava de gritar.
— A cabeça dela foi arrancada... a cabeça dela foi arrancada...!
— O que cacete está acontecendo com ela? — gritou Jim.
Sarah ficara rígida como uma prancha. Seus olhos verdes arregalaram-se fitando algo que Jim não podia ver, mas o horror neles o dilacerava. O Dr. Frederick se aproximou, pálido de preocupação, e averiguou o estado de Sarah.
— Era pra ela estar bem. Ela não teve reação adversa aos medicamentos... — Frederick só faltou dizer “eu não sei”, mas não havia necessidade.
Sarah arquejou bruscamente e começou a se debater. Jim não gostara da ideia de mantê-la presa à cama, mas, naquele momento, ficou aliviado por não haverem dado atenção aos seus protestos. Sarah foi impedida não apenas de machucar outras pessoas, mas também a si mesma.
Valerian se postava de pé na ponte de comando. Ele tinha os punhos cerrados e os olhos cinzentos estavam duros como novoaço enquanto assistia ao desenrolar da batalha.
Ele pensava que deveria ter previsto aquilo. Valerian não imaginara estar iludido por ideais quanto à natureza de Arcturus, mas aparentemente o filho não esperara que o pai fosse tão longe. Havia entre quatro e seis mil pessoas a bordo de cada cruzador de batalha. As vidas dos outros nada significavam para seu pai.
Nem mesmo a de seu filho.
As coisas não iam bem. Quatro dos quatorze cruzadores de batalha restantes de Valerian — Eneias, Anfitrite, Métis e Meléagro — flutuavam inertes no espaço. As outras naves estavam severamente danificadas. Destroços do tamanho de subúrbios giravam e flutuavam, interferindo nos ataques. Por vezes, um repentino e penetrante fulgor eclodia quando escombros se aproximavam da atmosfera e pegavam fogo. Os outros dez cruzadores de batalha prosseguiam com o ataque e uma das naves de Arcturus foi eliminada por uma investida bem coordenada de Antígona e Eos. As naves flanquearam o inimigo e, apesar dos valentes esforços, o cruzador de batalha fora destruído. Valerian agradeceu em silêncio aos homens e às mulheres a bordo de todas as suas naves por não terem fugido em segurança para o lado do inimigo. Poucos os teriam culpado — Valerian com certeza não os culparia.
Ele fora um tolo por não ter se preparado para aquela contingência. Arcturus outrora dissera: “Você ainda tem muito a aprender”. E o desgraçado estava certo.
— Senhor, a Hipérion está se aproximando de nós — disse o Capitão Everett Vaughn. Jovem, porém já grisalho, ele se saíra surpreendentemente bem com os acontecimentos dos últimos dias em seu primeiro comando. — Eu acabei de receber uma mensagem do Capitão Horner. Ele diz... — Vaughn pareceu ligeiramente confuso. — Ele diz para termos cuidado com cães vira-latas.
— O quê?
A Hipérion entrou vagarosamente no campo de visão e, então, Valerian compreendeu. Um lento sorriso lhe cruzou os lábios e ele recordou uma passagem de um dramaturgo cujos trabalhos eram ainda mais antigos que a ópera que ele escutara antes: “Grite ‘Massacre!’ e solte os cães da guerra.”
A Hipérion estava coberta de zergs.
Alguns a atacavam diretamente; outros voavam fervorosamente em seu rastro. Eles zumbiam como abelhas, porém tinham ainda menos consciência que elas. E a Hipérion estava em rota de colisão com a Estrela Branca — a nave que transportava Arcturus Mengsk.
— Eles... eles não vão tentar bater nela, vão? — perguntou Vaughn.
Valerian meneou a cabeça, incapaz de responder. Raynor e seus Saqueadores eram completamente imprevisíveis. O príncipe não acreditava que o jovem rapaz que capitaneava a Hipérion estivesse disposto a destruir tudo e todos a bordo por causa de Raynor e Kerrigan — mas ele não podia ter certeza. E aquele elemento caótico dava aos Saqueadores uma enorme vantagem.
Pois, se Valerian não sabia o que Horner faria, então Arcturus certamente não o saberia também.
As duas poderosas naves, a Hipérion e a Estrela Branca, aproximavam-se uma da outra. Valerian franziu o cenho. A Hipérion fora remendada e turbinada até onde fora possível, e assim poderia — ao menos teoricamente — aguentar, por algum tempo, os ataques da rival mais nova, a Estrela Branca. Ainda assim, era a que tinha mais a perder. Ele estava contente por Raynor não assistir àquilo; de alguma forma, Valerian não achava que ele, mesmo sendo o fora da lei que era e odiando Arcturus Mengsk como odiava, seria capaz de explodir sua própria nave e todos a bordo dela em um ataque que poderia até mesmo não funcionar.
— Senhor, eles com certeza estão em rota de interceptação — disse Vaughn.
— Isso eu posso ver, Capitão, obrigado — respondeu Valerian friamente, incapaz de desviar os olhos do desastre iminente.
A investida da Estrela Branca à Hipérion foi violenta. Miragens mergulhavam como um enxame de marimbondos furiosos metralhando tudo em seu caminho. A Estrela Branca disparou o canhão Yamato, e Valerian estreitou os olhos, ofuscado pelo clarão. Mas a sorte estava com Hipérion; a nave estava em manobra quando o canhão disparou e o golpe a atingiu de raspão. Ainda assim, o estrago foi grande. Estranhamente, a Hipérion não contra-atacou; apenas prosseguiu.
— Suicídio — murmurou Valerian. Mas... aquilo não fazia sentido...
Então ele deu uma gargalhada sonora que denotava deleite e admiração. Pois, embora a Hipérion tivesse de fato sofrido os danos de um disparo de raspão, o ataque também servira para enfurecer os zergs. Todos os zergs — dúzias, naquele momento — começaram a mergulhar em direção à Estrela Branca.
— Hipérion chamando Bucéfalo... prossigam para espaço livre, coordenadas quatro um sete, marco oito.
— Aqui é Valerian — disse ele, antecipando a resposta padrão. — Notificarei minha frota. — Ele se voltou para Vaughn. — Você ouviu o cavalheiro. Encaminhe a mensagem e certifique-se de usar o nível três de encriptação. Não quero correr o risco de meu pai saber.
— Sim, senhor.
Valerian voltou a atenção para a batalha encarniçada. As naves pareciam estar à distância do toque e ele sentiu a Bucéfalo sacudir ao ser atingida.
— Recebemos confirmação, senhor. Eos, Pátroclo, Héracles e Antígona relatam diferentes graus de avaria, mas se esforçarão para chegar ao local. O restante da frota perdeu os motores, estão todos parados.
Valerian meneou a cabeça. Ele não estava surpreso, considerando o que Arcturus estava fazendo. Mas seu pai iria se arrepender por cada vida perdida. Aquilo não deveria ter acontecido. Tudo ia tão bem... mas aquela era uma lição que ele aprendera bem cedo. As coisas podem mudar em questão de segundos, e raramente para melhor. Tratava-se, então, de uma guerra entre pai e filho, e milhares de pessoas seriam pegas no fogo cruzado. Tal era a natureza da situação.
Os zergs ainda atacavam a Estrela Branca, indiferentes a quantos estavam morrendo, e Valerian e seus soldados ganhavam precioso tempo. A Bucéfalo e suas outras naves começaram a girar lentamente, seguindo para as coordenadas que Horner lhes dera. Mas iam devagar demais... Valerian cerrou a mandíbula quando viu uma rajada forte quase atingir a Eos.
Quatro. De vinte e cinco... Bem, então seriam quatro. Ele sabia que o piloto estava manobrando a Bucéfalo, bastante danificada, à velocidade máxima, mas séculos pareceram se passar até que Valerian pudesse começar a ver estrelas e o espaço livre nos visores em vez de Char, zergs e explosões. À frente, a Hipérion esperava por eles, bastante danificada, mas inabalável.
— Bucéfalo, onde estão vocês? — inquiriu a voz de Horner.
— Estamos a caminho. Quatro outros cruzadores estão vindo conosco.
— Acho bom eles chegarem logo. Não temos tempo a perder. Parece que sua ausência foi notada.
— Mostre a retaguarda — vociferou Valerian, fixando o olhar no visor. Como era de se esperar, várias das naves de seu pai também começavam a se virar para iniciar a perseguição. Valerian viu suas quatro embarcações tentando segui-lo. Enquanto isso, a frota do imperador abriu fogo e a Eos, já danificada, parou bruscamente e ficou à deriva.
Três.
— Vamos lá... — murmurou Valerian. Ele sentiu suor porejando na testa e censurou-se. Orgulhava-se de sua conduta estável e controlada, mas nunca antes estivera naquela situação.
— Senhor, estamos recebendo uma mensagem da Estrela Branca — relatou Vaughn.
Aquilo surpreendeu Valerian. Por um instante, ele cogitou ignorar o pai. O príncipe não estava disposto a aturar mais ameaças ou impropérios. Mas e se Arcturus tivesse mudado seus planos?
Improvável. Sinceramente, impossível. Mas Valerian nunca teria certeza, a não ser que ouvisse.
— Senhor?
— Ponha-o na linha — disse Valerian, e se aproximou do console, satisfeito por sua voz não refletir a agitação que sentia.
A imagem do pai apareceu diante dele.
— Como você é meu filho, e pelo menos até hoje, meu herdeiro, farei algo que nunca fiz por alguém contra quem lutei. Eu engolirei meu orgulho.
Um raio de esperança mesclada a alegria e medo passou por Valerian feito um jorro de adrenalina. Será possível?
— Pedirei pela última vez que reconsidere. Você está com o inimigo em sua nave, rapaz. Podemos matá-los juntos. Eu até dividirei o crédito com você. Eu prometo. Não jogue fora sua vida e as de sua tripulação em prol de uma empreitada inútil...
Não. Valerian estava certo em seu primeiro impulso.
Ele respondeu com o coração pesado, melancólico e resignado.
— Você já matou milhares de pessoas, pai. O mínimo que posso fazer por aqueles que perderam suas vidas me defendendo é lutar por aquilo em que acredito. E, se há algo em que eu não acredito... é em você e suas promessas.
Ele desligou o console com força e a imagem desapareceu. Uma luz começou a piscar quase imediatamente, indicando que Arcturus queria dar a última palavra, mas Valerian já ouvira o bastante.
Atrás dele, a Estrela Branca, depois de ter se livrado da maioria dos zergs, rodeava-os lentamente para disparar contra uma das naves que seguia a Bucéfalo. Ela atingiu a Pátroclo em cheio, fazendo brotar mais morte vermelho-alaranjada.
Dois cruzadores de batalha, então.
Dois dos vinte e cinco que acompanharam Valerian conseguiriam saltar com ele. Os capitães das naves incapacitadas que foram deixadas para trás poderiam ou não se render a Arcturus; o imperador poderia ou não aceitar a rendição. De todo modo, a situação já não estava mais nas mãos de Valerian. O príncipe tomara sua decisão e, a despeito das perdas que se multiplicavam a cada segundo, tinha certeza de que fizera a escolha certa. Na enfermaria, ele tinha Sarah Kerrigan — chave para a profecia sobre o retorno dos xel’nagas. Ele não poderia colocar isso em risco — e não o faria.
— Senhor, a Estrela Branca está entrando em linha de tiro — disse Vaughn.
— Prossiga com a transdobra — respondeu Valerian.