StarCraft: Ponto Crítico

Christie Golden · Capítulo 7 de 29

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StarCraft: Ponto Crítico

Capítulo sete

 

Jim observou Valerian avançar pela ponte. O homem sabia fazer uma entrada triunfal, isso era inegável. Comparado à própria tripulação, suja e amarrotada, até parecia brilhar. Também era inegável que os últimos eventos tinham apagado um pouco desse brilho. Jim notou que, por mais jovem que Valerian fosse, rugas começavam a aparecer em sua testa, e sua postura já não era tão altiva e orgulhosa quanto antes. Jim achava que isso deveria de alguma maneira deixá-lo satisfeito, mas, para sua própria surpresa, tristeza foi o que sentiu.

Horner, que parecia cada vez mais desconfortável, suspirou e cruzou os braços nervosamente quando Valerian caminhou em sua direção, como se estivesse a ponto de cutucar uma hidralisca. O príncipe levantou a sobrancelha loira e esperou.

— Primeiro, Alteza — começou Horner —, gostaria de dizer que sinto muito pela perda da Antígona. Se tivéssemos saltado um minuto antes, ela teria escapado. Quero que saiba que agi o mais rápido que pude.

A frieza nos olhos cinzentos de Valerian suavizou sutilmente.

— Obrigado — respondeu. — Qualquer ideia para impedir a perda de mais vidas e levar Sarah Kerrigan para um lugar onde possa receber cuidados apropriados será bem-vinda.

— Bom... Na verdade acho que tenho uma solução — declarou Horner.

— Fala logo, rapaz! — A voz de Swann estalou, e Jim divertiu-se com o susto de Valerian. O Herdeiro Legítimo sorriu sem graça quando se deu conta de que Swann estava participando da conversa pelo rádio.

— Eu não sei se é uma boa solução — prosseguiu Horner. — Na verdade, quanto mais penso sobre ela...

— Matt, desembucha — interrompeu Jim. — É uma ordem.

Matt assentiu.

— Sim, senhor. Bem, eu estava pensando em nos escondermos no Porto do Enforcado por um tempo.

— Porto do Enforcado? — gritou Valerian, incrédulo. — Está ficando louco, Sr. Horner? Aquele lugar está cheio de patifes! Os piratas vão estar na nossa cola no momento em que sairmos da transdobra!

Mas Jim acenava positivamente, concordando. Ele sabia o que Matt estava pensando:

— Seu paizinho não poderá simplesmente arrastar o arsenal pesado para lá e forçar você a ir para o quarto sem jantar, Valerian — explicou. — A Supremacia não tem nenhum controle sobre aquela área. Arcturus precisaria preparar uma invasão planetária antes de sequer pensar em nos encontrar, e ele não está preparado para isso. Talvez no futuro, mas não agora.

Valerian recuperou-se do choque e agora parecia pensativo:

— Isso é verdade — finalmente concordou. — Ele perdeu a Bucéfalo e outros dois cruzadores de batalha que saltaram comigo. Também não faço ideia da condição em que estão os que não conseguiram fazer o salto. Mas ainda assim, como iremos impedir que os honrados cidadãos do buraco mais sujo da galáxia nos ataquem e pilhem nossas naves?

— Isso não vai acontecer — disse Jim, sorrindo e dando um tapinha no ombro de Horner. — Em algum lugar daquele bueiro tem um trunfo guardado para nós. Não é, Matthew?

Horner chegou a corar.

— Eu, hum... tenho um contato lá, sim. Alguém que poderia nos dar abrigo, pelo menos por um tempo.

A voz de Swann estalou pelo rádio outra vez:

— Você é um doido varrido, Horner! Mira Han? Aquela mulher é uma mercenária imunda!

— Vai com calma, Swann — disse Jim. — Olha como fala. Você está falando da espo...

— Não precisa entrar em detalhes, obrigado — interrompeu Matt abruptamente.

Valerian virou-se para ele com as sobrancelhas arqueadas. Horner não olhou o príncipe nos olhos, abanando rapidamente uma das mãos:

— É uma… longa história.

— Que estou certo de que vale a pena ouvir — murmurou Valerian, que mesmo obviamente intrigado, retornou logo em seguida ao assunto em questão. — Então essa Mira Han estaria disposta a espantar os piratas e ladrões do Porto do Enforcado, que espantam até as forças da Supremacia, só por sua causa?

— É um tiro no escuro, mas existe uma possibilidade de eu conseguir convencê-la.

— Bem, tudo o que eu sei é que o Matthew tem um jeitinho todo especial com ela — declarou Raynor. — Vamos lá, Swann, você tem ideia melhor?

— Com a Supremacia na nossa cola toda vez que tentamos assoar o nariz? Claro que não. E você sabe o quanto odeio ter que admitir isso. Como vai entrar em contato com ela, Horner?

— Eu sei de um jeito.

Valerian deu um passo à frente.

— Sr. Horner, apesar de apreciar sua disposição em fazer algo que claramente não gosta para me ajudar…

— Com todo o respeito, não estou fazendo isso por você. Estou fazendo pelos Saqueadores. — A voz de Matt era fria como gelo.

— Entendi o recado. Porém, considerando o risco, ainda quero saber como entrará em contato com ela.

Horner olhou para Raynor e o viu balançar a cabeça em acordo com o príncipe, afinal, ele também estava curioso. Matt baixou a cabeça, derrotado:

— Ela me envia informações regularmente, dizendo quais são os canais seguros caso eu queira falar com ela. Esta será a primeira vez.

— Ah, pobre Mira — disse Jim. — Acho que vou te dar uma folga enquanto estivermos lá.

— Por favor, senhor — disse Matt, preocupado —, prefiro fazer hora extra.

— Bem, então é melhor você entrar em contato com essa… pessoa — disse Swann, claramente irritado com o palavrório desnecessário. — E é melhor eu terminar meu serviço na ponte. Avisem se precisarem de mim. Alguém aqui precisa trabalhar; esses trecos não vão se desativar sozinhos. — Um clique decisivo encerrou a comunicação.

— Como sempre, Swann está certo — concordou Raynor. — Estamos perdendo tempo batendo boca. Valerian, é melhor voltar para a ponte. Temos só mais alguns minutos antes do seu pai chegar.

— Uma reunião um tanto indesejável — respondeu Valerian.

— Na verdade — disse Horner —, tenho uma ideia sobre isso também.

Earl e Annabelle ouviam calados a conversa do chefe com Raynor, Horner e Valerian. Quando as palavras “Porto do Enforcado” foram mencionadas, Annabelle fechou o semblante e viu Earl fazer o mesmo. A expressão de Swann era ainda mais sombria, uma nuvem negra e tempestuosa em um céu que passava o ano inteiro ensolarado. O Porto do Enforcado era um lugar do qual se devia manter distância. Mas como diz o ditado, em tempestade qualquer porto serve, e se Mira Han podia manter a Supremacia fora de seus calcanhares por tempo suficiente para fazerem reparos, o risco valia a pena.

E claro, eles teriam que encontrar todos os dispositivos de rastreamento antes de poderem saltar para lá. Se Arcturus e o resto da frota da Supremacia se materializassem antes que a Hipérion, a Héracles e a Bucéfalo pudessem fugir, Annabelle sabia que todo o planejamento não serviria de nada. Earl era especialista em nanotecnologia, sabia onde instalar aquelas coisas, e justamente por isso tinha alguma noção de onde outros poderiam tê-las instalado. Coordenando-se com Annabelle, que se lembrou de onde estavam muitos dos rastreadores na Hipérion, e com Swann, dotado de um vasto conhecimento e de uma intuição afiada, o trabalho andou consideravelmente rápido, mas não o bastante. De modo geral, e demonstrando uma óbvia falta de criatividade, rastreadores e gravadores eram sempre plantados nos mesmos lugares: ponte, cabine do capitão ou dos passageiros, sala de engenharia... nunca em pontos aleatórios ou inusitados da nave.

Podia-se dizer que a ponte da Hipérion era suntuosa, mas a da Bucéfalo era um exagero. Aberta, arejada, mais parecia um iate de luxo que uma nave de batalha. Enquanto os Saqueadores do Raynor não tinham nada que sequer lembrasse um uniforme e muitas vezes ostentassem uma aparência desalinhada e com a barba por fazer, os homens e as mulheres aqui estavam todos impecáveis. Os uniformes não apresentavam um vinco fora do lugar, e as vozes denunciavam riqueza e educação. Annabelle, mesmo tendo tomado um banho sônico e vestido roupas limpas pela manhã, sentiu que cheirava mal assim que se postou ao lado de um dos navegadores. O jovem moreno, cabelos e olhos escuros, dotado de uma beleza opressora, a encarou, inquisitivo.

— Eu, hum, preciso olhar aí embaixo — disse Annabelle pelos cantos de um sorrisinho tímido. — Ver se tem escutas, sabe como é.

— Sim, claro. — Imediatamente o navegador se levantou para permitir que ela se enfiasse embaixo do console. Dedos ágeis e sensíveis, a despeito dos calos resultantes de muito trabalho pesado, deslizavam pelas superfícies frias de plástico e metal, e a jovem sorriu de satisfação quando tocou um pequeno disco ovalado oculto nas sombras.

— Achei um! — gritou para Rory.

Rápida e eficiente, ela estendeu o braço para pegar uma pequena ferramenta com a ponta brilhante. Era preciso ter mãos firmes para desprender o rastreador, uma vez que ele era projetado para se quebrar se removido inabilmente; se isso acontecesse, ele continuaria trabalhando sem maneira de parar.

Subitamente, as sirenes de alarme soaram. Annabelle tomou um susto, mas manteve as mãos firmes. Ouviu Rory xingar baixinho:

— Não é que o maldito do Arcturus chegou bem na hora?

— Merda — impacientou-se Annabelle, perguntando-se brevemente se o oficial bonitão tinha escutado e, em caso positivo, o que diria sobre seu linguajar; mas então se concentrou na tarefa. Ao morder o lábio, a jovem sentiu o gosto salgado do próprio suor, enquanto decidia se continuava tentando remover a escuta ou se esperava até que a batalha chegasse ao fim.

Sem aviso, um par de botas parou a três centímetros de seu quadril, competindo pelo pequeno espaço abaixo do console que, mesmo encolhida, ela já ocupava quase completamente. O navegador tinha tomado a decisão por ela: ele ficaria na estação de trabalho, e ela, presa. Resignando-se, a jovem voltou a se concentrar na tarefa.

— Contate a Estrela Branca — disse Valerian.

Annabelle fez uma pausa. Ele estava tentando ganhar tempo ou se rendendo?

— Ora, ora, ora. Agora você quer falar comigo, não é mesmo? — irrompeu a voz de Arcturus Mengsk.

Embaixo do console, Annabelle se encolheu um pouco ao ouvi-la, sabendo que a imagem do imperador estava a apenas alguns centímetros dela.

— Sim, eu quero — respondeu Valerian. — Pai, isso é loucura. Você está jogando vidas fora para caçar uma mulher que nem existe mais.

— Enquanto ela respirar, existe. Ela é um perigo tanto como Rainha das Lâminas quanto como Sarah Kerrigan. Se você não estivesse tão embasbacado por profecias alienígenas infantis, veria que ela é um perigo para todos à sua volta, inclusive você.

— Não, Pai. A melhor maneira de se livrar de um inimigo é torná-lo seu aliado.

Arcturus explodiu em gargalhadas.

— Aquela cadela é incapaz de amizade. Mesmo antes de pôr minhas mãos nela, já era um caos ambulante, e é isso que sempre será. Você deveria ter permitido que Tychus completasse a missão que recebeu.

Annabelle ficou surpresa. Pensando agora, ela não ouvira nada sobre Tychus ter voltado com os outros, e ele não era exatamente discreto. O tempo que passara enfurnada na sala de engenharia fazia com que muitos boatos não chegassem até ela. Teria Tychus sido contratado para matar…

— Seu fantoche está morto, Pai. O senhor falhou. E falhará sempre, pois não consegue ver…

— Basta! É sua última chance, Valerian. Renda-se, entregue Kerrigan e Raynor, e poderemos esquecer tudo isso.

— Eu desafiarei o senhor até meu último suspiro, Pai.

— Isso pode ser providenciado — retrucou Arcturus. — Tentei ser razoável, mas…

Outra voz intrometeu-se abruptamente:

— Senhor, aqui é o capitão Roger Merriman, da Héracles. Sinto muito em informar que estou descumprindo suas ordens.

— O quê? — A voz de Valerian subiu vários tons, tornando-se quase um ganido.

— Ha! — Arcturus soou triunfante. — Viu, filho? Sua gente já está passando para o lado vencedor.

— Não, Imperador Arcturus. Juramos servir ao Príncipe Valerian com nossas vidas. Sabemos que plantou dispositivos de rastreamento nesta nave, e que é por isso que consegue nos seguir mesmo após os saltos. Esta nave provavelmente está muito danificada para um salto, mas podemos dar ao Herdeiro Legítimo algum tempo.

— Não — gritou Valerian, notando o que acontecia ao mesmo tempo que Annabelle, que apertou os olhos, aterrorizada. — Eu o proíbo! Dispare contra a Estrela Branca! Se a incapacitarmos poderemos todos…

— Não, senhor — prosseguiu a voz de Merriman. — É o único jeito. Faça com que nossas famílias recebam nossas lembranças.

Annabelle agarrou os joelhos, tentando impedi-los de tremer, enquanto lágrimas marejavam seus olhos. Quase seis mil pessoas estavam prestes a dar a vida por Valerian, por Raynor, pela esperança que Kerrigan significava.

— Senhor, a Héracles está se aproximando da Estrela Branca a toda velocidade — disse alguém. — Tempo para o impacto… sete segundos.

Instintivamente, e indiferente a como seu ato seria interpretado, Annabelle esticou a mão e tocou a perna do navegador, desesperada por contato humano. Ela esperava que o oficial fosse dar um pulo para trás, mas, em vez disso, ele segurou a mão dela entre as dele; mesmo sem saberem os nomes um do outro, seus dedos entrelaçaram-se e apertaram-se sem que uma palavra fosse dita.

Mesmo debaixo do console, Annabelle podia ver os clarões que sinalizavam o destino da investida suicida. Depois de uma longa pausa, que durou uma eternidade, Valerian suspirou e disse:

— Parece que funcionou. A Estrela Branca está sofrendo sérias avarias.

— Cacete, Valerian, você teria dado um excelente ator — disse a voz familiar de Raynor. — Ele mordeu a isca, a linha, e, se não tiver cuidado, vai se engasgar com a vara.

— Como estão meus homens?

— Estão se integrando até bem demais: até agora nenhuma briga. Vai ficar um pouco apertado com três mil bocas a mais para alimentar, mas vamos dar um jeito.

— O quê? — As palavras saltaram da boca de Annabelle antes que ela pudesse impedi-las, e o navegador afastou a cadeira para vê-la. Alguns segundos depois foi o rosto de Valerian que apareceu, o pequeno rabo de cavalo caindo pelo ombro com o movimento.

— Ah, Srta. Annabelle — disse o príncipe —, temo que não a tenhamos informado. Minhas mais sinceras desculpas.

Ela piscou, olhando para Valerian e o navegador, que a encaravam com serenidade.

— E-era um truque?

— Um que funcionou — respondeu Valerian. — Tivemos tempo apenas de transferir a tripulação da Héracles, que infelizmente já havia sofrido numerosas perdas, para a Hipérion e a Bucéfalo. Fizemos com que o capitão falasse dos meus aposentos pessoais, ameaçando usar a Héracles num ataque suicida enquanto a adjutora a guiava direto para a Estrela Branca. Arcturus nos deixará em paz por algum tempo, mesmo que eventualmente venha a descobrir onde estamos. A Héracles estava em péssimas condições, mas a tripulação está perfeitamente bem.

— Oh — foi tudo o que Annabelle conseguiu dizer, e bem baixinho. A jovem enxugou os olhos ainda repletos de lágrimas e sentiu as bochechas corarem. — Me sinto uma idiota — resmungou.

O navegador apertou sua mão, que ainda estava entre as dele.

— Não — disse. — A verdade é que esses homens e mulheres realmente dariam a vida por Valerian, apenas não tiveram que fazê-lo. Se você acreditou, Arcturus provavelmente fez o mesmo.

O príncipe assentiu, satisfeito por Annabelle estar bem.

— Por favor, prossiga com sua tarefa, senhorita. Mal acredito que esteja dizendo isto, mas quanto mais cedo chegarmos ao Porto do Enforcado, melhor.

Ela concordou e puxou a mão de volta, mas o oficial a reteve um instante antes de soltá-la. Falando o mais baixo que conseguia, Annabelle perguntou:

— Por que você fez… aquilo? — E apontou para a mão. — Você sabia que era um truque.

Ele sorriu gentilmente, fitando-a com os olhos escuros e cheios de tranquilidade:

— Porque você não sabia.

Sarah não parecia melhor quando Jim retornou à Bucéfalo. Ele sabia que não deveria esperar que ela melhorasse, mas todos os tubos e tralhas aos quais ela estava conectada o fizeram achar que seria o caso. Frederick cumprimentou-o com a cabeça ao entrar.

— Está apagada, mas estável.

— Certo. Vou me sentar com ela por um instante.

— Fique à vontade.

Jim estremeceu quando a cadeira fez um ruído estridente, mas Sarah nem se mexeu; ela estava mesmo apagada. Ele segurou a mão dela outra vez, lembrando-se de ter ouvido que mesmo em coma ainda era possível perceber essas coisas. O que lhe restava era esperança de que fosse verdade.

De olhos fechados, ele repassou mentalmente as últimas horas. Sua confiança em Valerian crescia, ainda que de maneira relutante, pois até agora o garoto mantivera integralmente a palavra. Matt sugerira o plano de lançar a Héracles, já danificada, contra a Estrela Branca. Primeiro tinham pensado que seria necessário manter uma tripulação reduzida na nave, mas para a surpresa de Jim e Matt, Valerian recusara-se categoricamente a aceitar.

“Já perdi muita gente leal hoje. Meu pai pode passar por cima dos seguidores como se fossem capachos, mas eu não. Se não pudermos salvar as naves, salvaremos as tripulações, ou eu não darei a ordem”, disse.

Então, a despeito das dificuldades, decidiram pela evacuação em massa e programaram a adjutora para um último voo suicida com a nave vazia, na esperança de que isso fosse também a ruína da Estrela Branca e de Arcturus Mengsk.

Mas àquela altura Jim já abandonara esperanças vãs. Mesmo que a nave não sobrevivesse, Mengsk sobreviveria. O homem era como uma barata: uma criatura nojenta, mas dotada de uma imensa capacidade de sobrevivência. Ele apareceria de novo, Jim tinha certeza. A questão era quando, onde e como.

Era impossível acreditar que ele mesmo um dia tivesse sido um ardente seguidor do Imperador. Aos poucos ele se desiludira com o terrorista — e aliado — que Mengsk fora, que dizia tudo o que ele queria ouvir; mas Jim Raynor não esperara ser traído nem nos momentos de maior raiva ou de maior suspeita.

Nem Sarah, que agora jazia com a alma despedaçada.

 

2500

Desde a tomada de Antiga Prime pelos zergs, Sarah ainda não tinha recuperado a cor natural do rosto, nem perdera as marcas escuras em volta dos olhos. Ela e Jim, depois do primeiro café juntos, passaram a andar sempre juntos. Algo parecia tirar as energias dela, algo maior que exaustão física, mas Jim não queria pressioná-la. Ambos sabiam que o futuro era sombrio, mas depois que Sarah teve as forças exauridas ao implantar o emissor psi, ambos preferiam simplesmente fechar os olhos para o porvir e desfrutar ao máximo do que o momento permitia.

Os dois foram convocados ao escritório de Mengsk; era a primeira vez que o encontravam depois de Antiga Prime. Ele parecia tranquilo, descansado, e os recebeu com entusiasmo, empurrando-lhes taças de licor. Kerrigan a princípio recusou, mas Arcturus insistiu com um sorriso gentil, e quando Arcturus Mengsk insiste, poucos resistem. O homem apontou para um par de cadeiras, onde ambos se sentaram.

— Onde está Mike? — perguntou Sarah.

O repórter Michael Liberty, aparentemente um animal de estimação especial para Arcturus, tornara-se um amigo para Kerrigan e Raynor, que se divertia pensando que se Mike era um animal de estimação, provavelmente era um desses cães que vez ou outra rosnam para o dono.

— Normalmente gosto de conversar com vocês três — disse Mengsk enquanto girava a taça —, mas a devoção de Liberty é… digamos, condicional. Depois dos acontecimentos recentes, fiz questão de ter alguns momentos com aqueles que considero mais... digamos, sintonizados com meus ideais. Eu queria agradecê-los. Aos dois. Há coisas se aproximando no horizonte e… Bem, ninguém sabe exatamente quando chegará sua hora. Mais do que nunca, é importante que permaneçamos juntos. Que trabalhemos juntos pela liberdade e progresso da humanidade, como vocês dois têm feito.

Ele sorriu, revelando um sorriso branquíssimo por trás da barba grisalha cuidadosamente aparada.

— Também quero dizer que meu coração se alegra ao vê-los se dando tão bem.

Jim se achava um cínico calejado, mas ao ouvir as palavras de Mengsk, sentiu o rosto corar. Não que Kerrigan já não soubesse o que ele pensava, mesmo sem o enrubescimento delator.

Ela também fitou o horizonte por um instante, depois voltou a mirar Jim calmamente.

— Acho que fizemos julgamentos precipitados um do outro — disse Sarah. — Estou feliz que Jim esteja conosco.

— Com a cooperação de ambos, podemos alcançar nossos objetivos. Sei que podemos — disse Mengsk, e sua voz parecia sincera. — Imaginem: criar um mundo melhor sem a Confederação. Derrubar aquele sistema brutal e antiquado. Essa é uma missão tão pura que qualquer anjo a realizaria de bom grado. Vocês dois são meus melhores soldados, meus anjos.

Jim irrompeu em gargalhadas ao ouvir aquilo, então recompôs-se, coçando o pescoço.

— Já me chamaram de tudo nessa vida, Arcturus, mas anjo é a primeira vez.

Mengsk riu por entre os dentes e bebericou da taça.

— Às vezes só os outros podem ver o que realmente habita o coração de um homem. Eu sou um excelente juiz de caráter, Jim Raynor. Foi o que me levou tão longe nessa missão de finalmente livrar este setor da Confederação e estabelecer algo justo e duradouro. Você, meu amigo, tem os ideais de um anjo. E você, Sarah — a voz dele encheu-se de calor e afeto ao brindar com ela —, você é meu anjo vingador.

Kerrigan baixou os olhos. Raynor não precisava de poderes telepáticos para sentir a dor dela. Mas Sarah não protestou. Todos ali sabiam que era verdade.

Jim não conseguiu controlar seu ímpeto:

— Você está certo numa coisa — disse, deleitando-se com o gole do licor que queimava garganta abaixo. — Alguém precisa impedi-los. Isso é um fato. Se existe vida depois da morte, esses calhordas vão queimar no inferno. As políticas que eles criam só servem para encher os bolsos deles e nada mais, e isso custa vidas. Vidas de gente boa, decente, que só quer ganhar a vida honestamente. Gente que confiou porque… porque tinha mesmo que confiar, cacete. Confiar que o governo daria comida boa e não veneno. Confiar que se entrassem numa guerra começada pelo governo, para lutar e talvez morrer, eles seriam honrados se morressem, e bem cuidados se voltassem para casa. Confiar que os líderes davam a mínima para eles.

Sua voz saía trêmula, mas ele não se importava. Sarah e Mengsk o encaravam com os olhos arregalados, esquecidos das taças em suas mãos.

— Vocês também veem. — Raynor dirigiu-se aos dois. — Mengsk, eles o chamam de terrorista, mas se fizer o que diz que vai fazer, você é nada menos que um herói. A história vai olhar para trás e ver você, ver a gente. Todo mundo vai ver o que fizemos e, diabo, vai ver por que fizemos, e aí nós não seremos mais os terroristas.

Mengsk estendeu a mão, e Raynor a apertou com força.

 

2504

Eu confiei em você, seu filho da puta, pensou Raynor. Confiara em Mengsk.

Confiara em Tychus.

Seus olhos fitaram a própria mão segurando a de Sarah, e ele encheu-se de remorso quando percebeu que quase a esmagava, afrouxando os dedos num impulso.

Sarah também tinha confiado.

Tinha.

Algum tempo atrás, Jim costumava carregar consigo uma bala especial com a palavra Justiça escrita. Agora ele teria que arrumar outra, pois a original tinha estourado os miolos de Tychus Findlay. E mesmo engolindo em seco com a lembrança, ele percebeu uma coisa.

Tychus, talvez isso não tenha sido mesmo sua culpa. Eu sei o que Mengsk consegue fazer às pessoas. Eu sei como ele consegue entrar na sua cabeça e invadir seu cérebro… fazer você pensar que está fazendo a coisa certa. Talvez… talvez você pensasse mesmo que estava.

Tal pai, tal filho?, irrompeu outro pensamento. Quanto dá pra confiar naquele mauricinho? Até agora ele manteve a palavra. Até agora. Mas Mengsk também estava lá no começo. Assim como Tychus. Mengsk a arrancou de mim uma vez, e Tychus quase conseguiu de novo. Não posso deixar que a levem mais uma vez. Não posso.

Não vou.