StarCraft: Ponto Crítico

Christie Golden · Capítulo 12 de 29

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StarCraft: Ponto Crítico

Capítulo doze

 

 

2500

Depois da revelação de Sarah, foi uma surpresa para Jim que ela se contentasse em explodir a estação em vez de arrancar os membros de todos os cientistas loucos um por um. Ele suspeitava que sua força de vontade real estivesse voltando a se afirmar. Qualquer um com uma arma — um Colt, um rifle gaussiano ou telepatia — pode matar, Jim Raynor sabia muito bem disso, mas a profunda aversão de Sarah ao ato de matar dava-lhe forças para escolher não fazê-lo. Agora ele começava a compreender o que a motivava, e a compreensão aumentava ainda mais a admiração que sentia por ela.

Os dois já tinham trabalhado juntos antes, mas isso era diferente. Essa missão era muito mais delicada. Encontrar e libertar as cobaias, uns pobres desgraçados, era a parte mais simples. Mas eles também tinham que encontrar as pessoas decentes no meio de imorais doentios e libertá-los com as vítimas. Ah, e também armar bombas para explodir o lugar. A única ajuda que teriam seria a voz de Jack — não, droga — Matt Horner em seus ouvidos, orientando-os pelo local. Jim fez força para não deixar a inquietação sair do controle — por si mesmo e para evitar que Sarah percebesse e afundasse numa espiral negativa junto com ele.

— Eu sei — adiantou-se Sarah, lendo seus pensamentos mais uma vez. — Já é difícil e eu estou dificultando mais ainda, mas você sabe que estou certa.

Jim assentiu.

— Com certeza. Vamos acabar logo com isso. — Ele ergueu os braços para que ela prendesse as algemas em seus pulsos e tornozelos.

As algemas eram sólidas e pesadas como legítimos itens da Confederação deveriam ser, e as correntes de metal produziam um som satisfatoriamente verossímil, embora fossem inúteis. Sarah encarou Jim por um instante.

— Desculpe.

— Pelo quê?

Jim deveria estar esperando pelo soco, mas não estava. Por um instante ele viu estrelas. Sentindo a mandíbula inchar, ele resistiu ao ímpeto de limpar o sangue do queixo. Ele entendia a razão de ela ter feito aquilo, claro.

— Sarah, meu amor — sibilou ele, por causa do inchaço —, você bate feito uma moça.

Ela sorriu pela primeira vez depois da conversa sombria que tiveram:

— Eu sei.

O primeiro a descer da nave foi Jim, seguido de perto por Sarah. Um homem vestido de branco e com cabelos grisalhos perfeitamente penteados esperava no atracadouro acompanhado de dois guardas armados, tão animados quanto ele.

— Doutor Orville Harris — disse ele, estendendo a mão para Sarah. Jim conhecia o nome. Era ele o carniceiro culpado por todo sofrimento, o cientista-chefe que fazia vista grossa para os horrores e sabia de todos os segredos sombrios daquele lugar; o sujeito que dava todas as ordens. Sarah encarou a mão estendida à sua frente por um instante, então rejeitou o cumprimento.

— Eu não aperto a mão de ninguém — disse friamente.

— Ah — respondeu Harris com um sorriso amarelo —, é claro que não. — O médico voltou a atenção para Raynor, perscrutando-o dos pés à cabeça como a um animal capturado e trazido para o abate. Que era precisamente o que ele seria se a situação não fosse uma farsa.

— Preciso inspecionar as instalações antes de passar a custódia do Prisioneiro 493 para você — disse Sarah.

— Claro, claro — respondeu Harris. — Obrigado por trazer um troféu tão valioso, agente…?

— Sou uma fantasma — retorquiu ela. — Você não tem que saber meu nome. E esses gorilas, mande-os saírem, por favor. A menos que ache que sou incapaz de cuidar de um único prisioneiro algemado. — Seus lábios se abriram em um sorriso de escárnio.

Jim fez força para conter o riso. Sarah manipulava o homem com maestria, praticamente fazendo-o murchar diante de seus olhos.

— Não! Claro que não foi o que quis dizer. Dispensados, senhores. Por aqui, agente… er… agente.

A porta deslizou, e os três — Kerrigan, Raynor e Harris — entraram no corredor. Apenas dois saíram do outro lado.

Jim escondeu o corpo do homem num canto escuro logo depois de remover um chip retangular do bolso do jaleco branco impecável e enfiar uma das pequenas bombas — menores que seu punho — no mesmo lugar. Ainda havia várias bombas para armar, e todas seriam ativadas ao mesmo tempo. Como coisinhas tão pequenas podem ser tão letais?, pensou Jim. Considerando a destruição de que são capazes, elas deveriam ser maiores, mais impressionantes..

— Tá na mão — disse, mostrando a chave a Sarah.

Sem olhar, Sarah fez um sinal positivo com a cabeça. Ela era um predador em plena caçada, totalmente absorta na missão que tinha à frente. A expressão em seu rosto, contudo, era uma que Jim começava a reconhecer — Estou escutando pensamentos, diziam seus olhos, ao mesmo tempo penetrantes como lâminas e distantes como as estrelas.

— Certo, Matt — disse Jim em voz baixa —, Harris já era. Estamos com a chave dele, rumando para o sul.

Sarah já conhecia a planta das instalações, claro, mas assim ela poderia se concentrar totalmente em outras tarefas. Sem ter que se preocupar em lembrar o caminho, poderia ouvir pensamentos e antecipar qualquer ataque.

— Podem continuar — indicou Matt, usando o ponto eletrônico. Sarah também estava equipada com um. — A porta dez metros à frente leva para uma área de segurança reforçada. Não há guarda algum lá, e a chave do Harris deve dar acesso sem nenhum problema.

— Já vi — respondeu Jim. Assim que o chip deslizou pela fenda, a porta emitiu um zumbido e se abriu. — Estamos dentro.

— Certo — prosseguiu Matt. — Agora vocês verão três portas, duas à direita e duas à esquerda. As duas à direita são um laboratório e um escritório; tentem não atrair atenção. A da esquerda leva para a… hum… área de contenção principal. A chave também deve dar acesso a essa área, mas tem um bocado de cientistas e guardas lá.

Jim e Sarah se entreolharam.

— Então vamos continuar blefando. Quando eu encontrar alguém confiável, farei um sinal — disse ela.

Jim concordou.

— Está ótimo.

Sarah reatou as falsas algemas e os dois repetiram a farsa, mais uma vez com sucesso. Apesar de alertas, os guardas obedeciam às ordens dos cientistas, que por sua vez mal conseguiam esconder a excitação diante da possibilidade de literalmente pôr as mãos no cérebro do famigerado James Raynor. Mas Jim sabia que, pelo menos para alguns, o macabro interesse era tão falso quanto as algemas que o continham.

Os olhos de Sarah cruzaram os seus por um instante quando ela notou o terceiro cientista e sorriu discretamente para ele — então esse era o sinal. Logo Sarah o repetiu. Dos oito cientistas na sala, aparentemente apenas dois tinham compaixão suficiente para odiar secretamente o que faziam: um asiático e uma loira. Só. Jim torceu para que encontrassem mais.

A chave, por algum motivo, não funcionou, mas os olhos de Sarah coagiram o cientista a tentar quantas vezes fosse necessário até que a porta se abrisse. Três cientistas os acompanharam, passando com eles pela enorme chapa de metal blindado e chegando a um local tão diferente que poderia ser outro mundo.

Raynor nem se preocupou em esconder o choque diante do que viu. Tornaria o ardil mais convincente e, no fim das contas, era o que sentia de fato. Seres humanos, pessoas comuns, de acordo com os documentos que conseguiram interceptar, estavam pelo chão, sentadas, agachadas ou deitadas, jogadas como coisas sem valor. Os que tiveram os cérebros afetados tinham as cabeças raspadas e marcadas por imensas cicatrizes. Outras tinham pedaços de sabe-se lá o que enxertados à força nos próprios corpos. Uma estranha compaixão, provavelmente involuntária, podia ser notada: às “cobaias” ainda era permitido usar roupas, subterfúgio invariavelmente usado para esconder as deformidades físicas. Jim quase não se conteve quando viu uma criança de não mais que 10 anos parada de costas para o grupo; a feia incisão que cruzava a pequena cabeça calva ainda cicatrizava.

O cientista que os guiava, um homem moreno, alto e corpulento cujas têmporas começavam a agrisalhar, dizia algo horrível sobre ajuste e adaptação em nível genético quando os olhares de Jim e Sarah se cruzaram.

Com um urro, o prisioneiro “arrebentou” as algemas e deu um salto. Os olhos do guia encheram-se de horror quando Jim investiu; toda a pose de superioridade doentia desapareceu ao ver o fora da lei James Raynor atirando-se sobre ele. Sem medir a força, Jim acertou em cheio um soco no queixo proeminente do homem, o derrubando numa posição extremamente desconfortável. Ele sequer soube dizer se o homem estava vivo ou morto. E nem se importava, também. Não daquela vez. Assim que pegou a chave no bolso do cientista, Raynor correu para desbloquear as portas.

No mesmo instante Sarah disparou na direção do outro homem, que arregalou os olhos azuis, aterrorizado — com a eficiência de sempre, ela esmagou sua traqueia com um único chute no pescoço.

Sarah girou e agarrou a mulher. A cientista tomou fôlego para gritar, mas Sarah cobriu sua boca bruscamente.

— Estamos aqui para ajudar vocês a fugir, se quiserem. Vocês querem?

Alívio e felicidade transpareceram na expressão da mulher, que concordou sacudindo a cabeça vigorosamente. Sarah retirou a mão.

— Você precisa nos ajudar. Existem outros que pensam como você. O Dr. Phan, por exemplo. Você sabe de mais alguém?

— A-acho que sim. Não falamos abertamente aqui. Acho que entende o porquê.

O rosto de Sarah era lindo e terrível quando tomado de fúria, pensou Jim enquanto ouvia a conversa e libertava os prisioneiros.

— Claro que entendo — respondeu Sarah. — Fale com eles. Em dez minutos haverá módulos de transporte esperando na área de pouso 4. Leve essas pessoas em segurança até lá. — Sarah estendeu uma pistola para a mulher. — Leve isso. Você irá precisar. E seja rápida. O lugar inteiro vai explodir logo, logo.

A médica segurou a arma com cautela e caminhou na direção de Jim, para ajudá-lo a abrir as portas. Alguns dos prisioneiros entenderam o que estava acontecendo e ansiavam por fugir; outros, assustados, tentavam desesperadamente se esconder.

— Certo, Matt, estamos dentro e temos uma amiga, a doutora…?

— Elizabeth Martin — respondeu a mulher.

— Elizabeth Martin — repetiu Jim. — Ela vai ficar responsável por este pavilhão e contatar seus amigos.

— Entendido — disse Matt. — Agora, a próxima fase.

Ao se virar, Jim viu Sarah ajoelhada sobre o cientista que ele nocauteara. Ela enfiou uma bomba no bolso do casaco do homem inerte, levantou-se e apressou-o.

— Vamos, Jim!

Havia quatro áreas de contenção ao todo. Quando Jim e Sarah subiram no último módulo de transporte, quarenta e quatro cobaias haviam sido salvas, além de treze cientistas devidamente inspecionados por Kerrigan. Matt os acompanhou e os manteve atualizados o tempo todo, alertando quando o disfarce era descoberto e guiando-os para saídas improváveis no último segundo pelo menos duas vezes. Sarah armou uma trilha de bombas enquanto avançavam, às vezes simplesmente depositando as pequenas esferas no chão. Quanto mais Jim Raynor via — tanto Kerrigan em ação quanto mais detalhes da estação, dos cientistas e dos experimentos —, mais ele compreendia. E mais concordava com a decisão dela. Aquilo tinha que acabar, e eles fariam o que estivesse ao alcance. Havia outras instalações, outros cientistas, mas pelo menos ali aquelas experiências monstruosas e torturas abomináveis terminariam. Para sempre.

Sarah segurava algo enquanto armava a última bomba. Jim nem precisou perguntar para saber o que era, e contentou-se em perguntar:

— Quanto tempo?

— Cinco minutos — respondeu ela.

— Cacete, ruiva, você gosta mesmo de viver perigosamente.

— Nós vamos conseguir.

E conseguiram. Por pouco. O último módulo de transporte, no qual estavam os dois, quatro cientistas e seis prisioneiros, ainda decolava quando a estação explodiu. Os explosivos detonaram numa pequena cadeia de destruição, do primeiro, deixado no corpo do Dr. Harris, ao último, largado sobre uma mesa; uma série de clarões seguidos de imensas labaredas alaranjadas. Vinte segundos depois da primeira explosão, tudo o que restava era o esqueleto calcinado da construção e línguas flamejantes sedentas por destruição.

Sarah assistia satisfeita, o olhar preso à cena. Jim esperava ver raiva, ou alegria, mas, em vez disso, deparou com algo que jamais havia visto: a expressão de Sarah Kerrigan transmitia apenas tranquilidade. Ela fizera a coisa certa e não sentia nenhum arrependimento.

As palavras irromperam inesperadamente:

— Sarah? Que tal um drinque de verdade comigo quando chegarmos em casa?

 

2504

Após entrar pela passagem, esgueirando-se, virando e esticando o corpo o quanto podia, Matt foi parar em uma área ligeiramente mais espaçosa, iluminada apenas pelo facho de luz que vinha da entrada. Em flagrante contraste em relação à “construção” aleatória do lado de fora, este lugar fora obviamente projetado e estruturado em plasticimento; era algo como uma pequena casamata. Valerian bloqueou a luz por um instante e veio parar ao lado de Horner. A pequena antecâmara parecia ser o que procuravam, mas os dois sabiam que não seria tão simples.

— Procure uma porta — disse Matt.

Valerian começou a examinar as paredes. Horner esquadrinhava com as pontas dos dedos e dava pequenas batidas no chão, procurando meticulosamente pela fresta que indicaria a presença de uma passagem.

Ao ouvir uma batida metálica de baixo, Matt se levantou rapidamente e viu um quadrado de luz delinear-se no chão de plasticimento. A tampa deslizou e quatro homens, todos portando o símbolo de Mira e armas imensas, surgiram.

Os dois ergueram as mãos ao mesmo tempo.

— Matt Horner e Sr. V. — apressou-se Horner.

Assim que os reconheceram, os guardas abaixaram as armas.

— Porra, pivete — resmungou um deles —, a Chefona não ensinou o sinal pra vocês?

Valerian lançou um olhar malicioso para Matt, que sacudiu a cabeça negativamente. Maldita Mira. Era a epítome da mulher de negócios racional e prática, exceto quando ele estava por perto; sua mera presença a transformava numa mulher totalmente diferente... uma súcubo piadista, por assim dizer.

— Não — respondeu Horner, gravemente. — Não disse.

— Bem, como estamos esperando por vocês, podem vir.

Tão rápido quanto surgiram, os homens desapareceram pela passagem. Horner e o príncipe os seguiram usando uma escada decididamente primitiva, indo parar em um mundo totalmente diferente, rodeados pelo que havia de mais avançado tecnologicamente.

— Eu sou Gary Crane — apresentou-se um dos homens que havia apontado uma arma para eles menos de dois minutos atrás. Alto e com os cabelos pretos lambidos, a cor dos olhos enrugados era indistinguível na luz fraca. — Fui incumbido de apresentar o lugar a vocês e levá-los até a sala de comunicação privada.

Aparentemente nem o príncipe nem o “marido” de Mira andariam por ali sem escolta. Claro que Horner não protestou. Aquele era certamente o procedimento padrão, e contanto que Valerian conseguisse usar um canal seguro de comunicação, ele obedeceria ao protocolo sem problemas.

— Este é o nervo central da operação de Mira — disse Crane, apontando para as paredes cobertas de luzes piscantes, botões, interruptores e monitores.

— Um pouco arriscado manter tudo no mesmo lugar — comentou Valerian.

— Não tanto quanto parece — respondeu Crane. — Tudo aqui opera em redundância. Se esse lugar fosse destruído ou invadido, ela poderia continuar operando normalmente de outros lugares. Ter tudo junto aqui é só uma conveniência. — O homem sorriu para os dois. — Além disso, se vocês fossem invasores e não tivéssemos conseguido acabar com vocês lá em cima, vocês seriam despachados em segundos pelo aparato de segurança que temos aqui embaixo.

— Aposto que sim — disse Matt.

— Venham comigo. Está tudo pronto para vocês.

Crane os guiou pelo saguão principal e entrou em uma das seis portas laterais. A sala era absolutamente desprovida de qualquer conforto. Era, na verdade, desprovida de qualquer coisa além de um console solitário no meio da sala.

— Aperte este botão. Ele vai criar um código aleatório que você tem que inserir aqui. — Crane apontava para diversos pontos do painel enquanto falava. — Isso vai abrir um canal seguro para falar com quem quiser. Você tem seis minutos até o canal limpo ser reiniciado. Aí, só depois de quarenta e sete minutos.

— Entendido — respondeu Valerian. — Serei sucinto.

O príncipe lançou um olhar penetrante para o homem, que o fitou sem entender por alguns segundos antes de dizer:

— Ah. Claro. Vou esperar lá fora.

— Obrigado.

Quando a porta se fechou logo atrás de Crane, a tela granulosa e de baixa resolução piscou rapidamente e estabilizou no rosto de um homem velho e distinto, dotado da altivez e da pose de um oficial militar do passado, com cabelos brancos bem penteados, bigode de morsa e um pequeno tufo no queixo. Os olhos, penetrantes mesmo no holograma de baixa qualidade, fixaram-se em Valerian por um instante; o homem os estreitou e, subitamente, suas sobrancelhas arquearam-se.

— Príncipe Valerian? — perguntou o Dr. Emil Narud.

O Herdeiro Legítimo riu e fez uma saudação formal.

— O próprio — disse. — Ainda que um tanto amarfanhado.

— Para dizer o mínimo. Mas contanto que esteja vivo e bem, pode estar parecendo até o próprio demônio. Eu soube de uma batalha na qual as naves da Supremacia enfrentaram umas às outras. Não foi difícil presumir o que aconteceu. Seu pai…?

— Não sei. — Valerian assumiu um tom mais sóbrio. — Ele desaprovou minha decisão, como pode imaginar. A Estrela Branca sofreu sérios danos, mas saímos antes de saber o resultado. Tenho certeza de que se estiver vivo e em condições, ele logo estará no nosso encalço de novo.

A expressão de Narud, um misto de satisfação e alívio, abriu-se ainda mais.

— “Nosso” quer dizer…

— Sim, obtivemos sucesso. Sarah Kerrigan está viva e praticamente livre da infestação.

— “Praticamente”?

— Você vai entender quando chegar aqui. Obviamente não posso ir até a base central Moebius agora; com toda a certeza ela está sendo vigiada. Você terá que vir até nós. Aparentemente há alguns aspectos nela, geneticamente falando, que não foram completamente transformados. Tenho esperança de que você consiga nos ajudar. Ah — acrescentou Valerian —, ela não está muito bem. Precisamos levá-la para a base reserva o mais rápido possível, ou temo que a perderemos.

A descontração desaparecera completamente; o tom de Narud ficou absolutamente profissional:

— Isso não pode acontecer. Partirei imediatamente. Onde vocês estão?

— Num lugar pitoresco chamado Porto do Enforcado.

Narud contorceu o rosto numa careta.

— Não admira que esteja usando esse… disfarce. Foi um risco imenso levá-la até aí.

— Um minuto e meio — indicou Horner.

Valerian acenou positivamente com a cabeça.

— De fato. Quando chegar, vamos tirá-la daqui o mais rápido que pudermos. Logo terei que desligar. O canal será reiniciado e não sei quando poderemos nos falar novamente.

— Não se preocupe — amenizou Narud. — Concentre-se em manter a Rainha das Lâminas segura e sua própria pele a salvo enquanto isso.

— Faremos o possível. Prepare suas instalações para nossa chegada.

— Estamos prontos desde que entrou em contato comigo pela primeira vez, Valerian. Tenha cuidado. Não… você... momento de…

O holograma distorceu-se, travou e desapareceu.

— Vocês falavam como se fossem próximos — observou Horner.

Só depois de esfregar os olhos Valerian lembrou-se de como suas mãos estavam sujas; o príncipe grunhiu enquanto seus olhos ficavam vermelhos e lacrimejavam.

— O Dr. Emil Narud é um gênio — disse. — Quando se trata de ciência sou só um infante comparado a ele, mesmo com tudo o que estudei e aprendi. Se alguém pode ajudar Sarah Kerrigan a voltar a ser o que era, esse alguém é o Dr. Narud. Agora, vamos dar outro passeio animado pelo centro chique de Porto do Enforcado.

— Eles estão aí?

— Eles, sim. Raynor não.

— Não, eu tenho certeza de que ele está com Kerrigan. Você e seus homens estão prontos para agir quando eu der o sinal?

— Sim.

— Sua Excelência vai ficar profundamente grato. Tenho certeza de que o pequeno feudo de Mira não é nada comparado ao que você vai receber.

— É melhor mesmo. O que quer que seja um “feudo”.

Uma gargalhada.

— Apenas não faça nada antes da hora, ou vai estragar tudo. Espere o meu sinal. Quando as coisas começarem a acontecer, vai ser bem rápido.

— Parece bom.

— Coop! O que vai ser bem rápido? — Annabelle sorria, os olhos felizes e brilhantes por baixo do boné. Postado ao lado dela estava Travis Rawlins, da Bucéfalo.

Cooper sorriu para eles e encerrou a conversa imediatamente.

— Alguns clientes queriam que eu deixasse as cervejas servidas e prontas no final do turno — respondeu o barman. — Eu disse que não podia, mas ia ser bem rápido quando chegassem aqui. Mas e vocês? — O homem inclinou o corpo para frente, os olhos indo de um para o outro. — O que posso fazer pra vocês?

Crane continuava do lado de fora. Uma das mãos repousava sobre a coronha da arma no coldre enquanto a outra pressionava uma das orelhas. Quando saíram, Matt e Valerian viram que ele encerrava uma conversa naquele instante. Virando-se para cumprimentá-los com um aceno, o homem comentou:

— Relatório da chefa. Prontos para voltar?

— Mais que prontos — disse Valerian.

Os dois seguiram Crane pela área principal. Matt examinou alguns dos equipamentos enquanto caminhavam e sacudiu a cabeça.

— Olha, eu sabia que ela tinha contatos, mas confesso que não fazia ideia de que Mira era um peixe tão grande por aqui.

— Considerando o que vimos até agora, diria que ela é o maior dos peixes — observou Valerian. — Estamos todos acostumados a olhar o tempo todo por sobre os ombros, mas percebo que, com razão, ela deve fazer isso com muito mais frequência que nós.

— Mira é uma excelente líder — disse Crane. — Trata todos com justiça. Quem quiser perturbá-la vai ter que passar por nós antes.

Matt acenou positivamente com a cabeça. Era bom ouvir aquilo. Enquanto subiam pela escada, sua mente perdeu-se nas contradições e complexidades de Mira Han. Com toda a sinceridade, o capitão da Hipérion esperou que a guarida que Mira concedera a ele, Valerian e Kerrigan não se tornasse um gesto generoso do qual ela viria a se arrepender.