StarCraft: Ponto Crítico
Capítulo vinte e dois
Os “engenheiros” enviados para “reparar” a Hipérion e, teoricamente, a Bucéfalo, haviam feito uma coisa boa sem querer. Para manter o disfarce enquanto sabotavam as baterias, eles realmente realizaram alguns reparos. Essa era a razão pela qual a Hipérion aguentara os ataques de três cruzadores e dos Miragens que eles traziam.
A engenharia trabalhava duro para desfazer o dano causado e restaurar a comunicação entre as duas naves e a estação espacial Prometeu. Porém, não parecia haver nenhum problema em receber comunicações da Estrela Branca.
— Quem está falando é o imperador Arcturus Mengsk — declarou a voz odiada e familiar assim que a frota saiu do campo de asteroides. — Rendam-se e não os destruiremos.
— Mengsk — respondeu Matt, sem sequer se preocupar em fingir respeito usando o título —, aqui é o Capitão Matthew H...
— Ah, eu já conheço a sua voz, Matt — falou Mengsk. — Sei onde está o seu chefe... e a namoradinha dele. Há pessoas a bordo da sua nave e da Bucéfalo que trabalharam para mim. Eu realmente prefiro não matá-las. Nem você, se quer saber. Está em desvantagem e mal consegue se arrastar. Portanto, renda-se e poupe-nos o tempo e o trabalho.
— Sabe, isso parece uma ótima proposta. Só que eu acho que meu chefe ficaria chateado se eu aceitasse — respondeu Matt enquanto sinalizava para o controle tático. Sem aviso, eles dispararam o canhão Yamato com força máxima contra a Estrela Branca.
E as coisas só ficaram mais intensas depois do disparo: as ameaças furiosas de Mengsk, o ataque retaliatório e a ofensiva contra a estação. Ela parecia ser o alvo principal, e Matt concluiu amargamente: por que não seria? Tanto Kerrigan quanto Raynor estavam na estação.
Ele tinha certeza de que Valerian os denunciara ao pai. Matt realmente não queria acreditar nisso. Valerian chegara muito perto de conquistar sua confiança. Mas a Bucéfalo estava parada, sem atacar nenhum dos lados, e Matt Horner julgou compreender a falta de atitude de Vaughn. Não era surpresa que o verme covarde não fosse homem o suficiente nem para se juntar a Mengsk no ataque.
— Eu disse desligado, senhor — repetiu Elias Thompson, o chefe de engenharia da Bucéfalo. Ele soava irritado e assustado, uma combinação que o capitão entendeu perfeitamente. — E por desligado, eu quero dizer que não podemos abrir fogo!
— Eles vão vaporizar a estação espacial e nosso príncipe junto se não ajudarmos a Hipérion! — gritou Vaughn. Seu plano era ajudar a Hipérion no ataque contra Mengsk, que parecia claramente não ter nenhuma intenção de se reconciliar com o filho, posto que estava atacando a estação espacial com toda força. Vaughn queria lançar os caças e dar cobertura a eles, para que pelo menos tivessem algum apoio da Bucéfalo, já que eram tão poucos restantes.
O problema é que os engenheiros e especialistas em armas enviados para ajudá-los tinham feito exatamente o contrário. Pessoas morriam a cada minuto, mesmo com a equipe de engenharia trabalhando o mais rápido possível. E ele podia adivinhar o que Matt Horner devia estar pensando sobre ele.
Vaughn esfregou os olhos com a mão trêmula.
— Envie os caças.
— Senhor, com todo respeito, sem receberem cobertura... — argumentou Travis.
— Eu sei. Mas nós precisamos fazer alguma coisa. Thompson, quanto tempo?
— Até o quê? Até podermos lutar, nos mexer ou contatar Valerian?
— Qualquer coisa!
— Não faço ideia, senhor. Estamos fazendo o melhor possível.
Todos estamos, pensou Vaughn. Ele abriu o canal de comunicação para que o ouvissem por toda a nave.
— Aqui é o capitão Vaughn. Todos os tripulantes com experiência de voo em naves de pequeno porte devem se apresentar ao atracadouro imediatamente. Não temos muito com o que enfrentar Mengsk, mas vamos fazer o melhor possível. Se a Bucéfalo tem que cair, nós vamos cair atirando.
Cooper sabia que tinha que dar o fora de lá. E rápido.
Não era para acontecer daquele jeito. Os caras da estação espacial Prometeu deveriam ter sabotado completamente a engenharia e feito reféns. Depois, eles escapariam para se juntar a Mengsk e levariam o barman sorridente e amigável que todos subestimavam junto.
Mas o maldito Horner fora esperto demais. De algum jeito, e Cooper não sabia como, ele descobriu algo errado na engenharia. O contato de Cooper foi misteriosamente silenciado no meio de uma frase. Agora, Mengsk havia finalmente chegado e estava atacando tanto a estação quanto a Hipérion.
Ninguém iria para o bar numa hora daquelas, no meio do combate, então Cooper simplesmente pegou a mochila e partiu. Sua mente estava acelerada. O único contato que tinha era com os sabotadores. Ele falara com Arcturus Mengsk e com Narud várias horas atrás, mas agora não conseguia contato com eles. Com um xingamento furioso, Cooper jogou o comunicador longe enquanto corria pelos corredores.
Seu único pensamento era que, em algum momento, eles estariam enviando naves para combate mano a mano. Ficariam surpresos em vê-lo, mas ele sabia pilotar um Miragem e concluiu que poderia usar o bom e velho “quero ajudar como puder”. E em breve eles precisariam da ajuda dele, pois os pilotos mais experientes já não passariam de pedaços de carne flutuante.
Era uma tentativa desesperada, e não havia muita chance de sucesso. Se não tomasse muito cuidado, as próprias pessoas para as quais estava trabalhando o destruiriam. E se fosse muito óbvio, os Saqueadores acabariam com ele sem pensar duas vezes. Precisava parecer convincente, mas não ameaçador. Estava suando de nervosismo.
Isso não devia estar acontecendo, pensou ele, pela centésima vez. Não devia estar acontecendo.
— Senhor — chamou Marcus —, estou detectando várias naves menores saindo da Bucéfalo.
Matt franziu a testa e se aproximou. Mas o que...
— Por que não estão dispa... — Então ele entendeu. — Droga. Deem cobertura aos caças! Agora!
— Sim, senhor! — respondeu Marcus.
— E, Swann, preciso recuperar as comunicações!
— “Sabotagem” geralmente significa que eles bagunçam com tudo! — rebateu Swann. — Estou fazendo o melhor que posso!
Os pensamentos de Matt estavam acelerados, porém claros. Jim estava na estação, o que significava que Matt precisava encontrar um jeito de manter todos vivos até que o comandante retornasse. E agora ele também tinha um dever para com a Bucéfalo. Ela não fugira quando teve a oportunidade, e escolhera mandar seu pessoal para a batalha mesmo sem ter uma maneira apropriada de protegê-los. Essa atitude significava muito para Horner, e ele não deixaria aquelas pessoas morrerem se pudesse evitar.
A estação ainda estava sendo atingida pelos ataques. Horner precisava distrair Mengsk e chamar a atenção de volta para a Hipérion, e ao mesmo tempo, de alguma forma, proteger a nave e os pilotos enviados em uma missão suicida. Se ao menos tivesse um jeito de...
— Swann!
— Ah, cacete, o que foi agora?
— A sabotagem não nos deixa saltar por enquanto, não é?
— Ainda não, tem uma equipe inteira trabalhando nisso comigo.
— Você e dois dos seus melhores homens podem parar de trabalhar nisso. Eu quero que vocês façam o seguinte...
Narud era muito esperto, Jim tinha que admitir. Talvez ele até concordasse com a declaração de Valerian de que o cientista era um gênio. Mas gênios geralmente costumam saber que são superiores e gostam muito de deixar isso claro para os outros, o que, ironicamente, às vezes os torna idiotas.
E Narud fora idiota daquela vez. Ele se esforçara tanto para mostrar a Jim e Valerian o quão esperto era que revelou inadvertidamente como pretendia escapar. Narud estava camuflado.
Assim como a porta pela qual passara, de certa forma.
— É um holograma! Vamos! — gritou Jim, e correu em direção à parede aparentemente sólida. Valerian hesitou somente um instante, mas depois deu cobertura enquanto os dois corriam para atravessar a abertura camuflada. Jim estendeu a mão, para ver se Narud havia trancado a porta atrás dele. Alcançou a maçaneta, abriu a porta e eles atravessaram, trancando-a em seguida.
O rosto de Valerian parecia feito de pedra. Somente uma leve coloração e a intensidade do olhar revelavam que ele estava vivo.
— O que foi?
Valerian começou a falar, mas parou e balançou a cabeça. Seus cachos dourados se soltaram do rabo de cavalo e caíram sobre o ombro.
— Nada.
Então, Jim entendeu.
— Você... essa foi sua primeira vez?
— Não, mas isso não faz a menor diferença. Eram homens, Raynor. Agora são só cadáveres.
— Sinto muito que você tenha tido que fazer isso, Valerian. Sinto mesmo. Mas a ironia dessa vida de merda é que, para fazer a coisa certa, às vezes, é preciso sujar as mãos. Você fez a coisa certa. O que tinha que fazer. E fez bem.
O olhar de Valerian era bem familiar a Jim. Ele vira o mesmo olhar muitas vezes em batalha — o olhar de alguém que havia matado. A vontade de que pudesse haver outro jeito.
— Eu também queria que fosse de outro jeito. Toda vez que tenho que fazer isso. Mas agora é melhor sairmos daqui — sussurrou Jim.
Eles estavam em um corredor escuro, obviamente uma passagem de fundos raramente usada. Só podiam seguir em uma direção, para a frente. Jim verificou a arma e começou a correr silenciosamente pelo corredor acarpetado, pegando o comunicador.
— Merda, bloquearam o sinal — praguejou.
No mesmo instante houve um alto estrondo e a estação estremeceu. Eles se desequilibraram e se entreolharam.
— Estão atacando a estação — concluiu Valerian, furioso. — O conhecimento científico que será perdido...
— Mengsk não dá a mínima pra isso — respondeu Jim. — Ele só quer matar todos nós. Eu, Sarah, você. Você conhece a planta deste lugar?
— Eu ajudei a projetar.
— Por tudo que há de mais sagrado, finalmente alguma coisa boa! — Jim respirou fundo. — Para que lado fica a enfermaria?
Valerian franziu o cenho.
— Se me lembro corretamente, a sala é cercada por vários corredores de serviço. Eles servem para que as equipes de manutenção e os serventes possam ir para onde precisam sem ter que interromper nada. Há uma conexão alguns metros adiante onde o corredor se divide em vários caminhos secundários.
— E um deles vai nos levar para a enfermaria?
— Sim.
— Mas você não sabe qual deles?
— Bom... não. Jim, meu foco nos últimos anos não foi memorizar a planta da estação.
Jim engoliu uma resposta, principalmente porque Valerian tinha razão.
— Talvez haja um mapa.
* * *
— Moleque maluco — murmurou Swann, enquanto trabalhava com Earl e Annabelle no plano de Horner. — As chances de isso dar certo são poucas ou nenhuma. Só alguém que não sabe nada de engenharia bolaria um plano desses.
O plano bolado pelo moleque maluco atualmente capitaneando a Hipérion era mesmo radical, mas Annabelle sabia que Rory o considerara factível, ou não teria concordado em perder tempo tentando. O coração dela ficara mais leve ao ouvir o plano. Qualquer coisa que pudesse proteger a Hipérion e a Bucéfalo era algo que valia a pena tentar. Ela ainda não conseguira falar com Travis para ter certeza de que ele estava bem, mas afastou o rosto dele dos pensamentos e se concentrou novamente no projeto atual.
Quanto mais olhavam para a situação, mais possível parecia.
— Bem, chefe, talvez nós devêssemos pedir mais ideias a pessoas que não sabem nada de engenharia — brincou Earl.
— Fecha essa matraca — rosnou Rory, mas sem maldade. Ele também estava começando a se sentir melhor. — Talvez isso realmente funcione...