StarCraft: Ponto Crítico
Capítulo quinze
Valerian arquejou.
— Mas… Você trabalha para Mira Han!
— Cale a boca e continue caminhando na direção da porta — disse Crane, entredentes. — Ninguém precisa se machucar.
Jim e Matt obedeceram. O capitão da Hipérion arrastava um aflito Narud pelo braço enquanto Raynor corria os olhos pelo local, e sua mente, funcionando à velocidade da luz, buscava uma oportunidade. Ele sabia que Matt fazia o mesmo, mas Valerian, o imbecil mimado, acabaria fazendo todos eles serem mortos.
— Você está se amotinando contra ela e nos vendendo, não está? — continuou o príncipe, falando cada vez mais alto. Jim percebeu que sua voz transparecia pânico, e sentiu algum desgosto. O garoto ficava bem desde que estivesse a salvo em sua nave, mas quando tinha que meter o pé na lama, seu autocontrole ruía. — Não está?
— Cale a boca — resmungou Jim.
— Ouça o Raynor. Ele sabe o que diz — balbuciou Crane, virando-se em seguida para fitar o lendário fora da lei. — Você só sabe…
Mas o que Valerian só sabia seria para sempre um mistério. A expressão no rosto do príncipe, que parecia a de um animal assustado até um segundo antes, tornou-se dura e fria. Ágil como uma serpente, sua mão segurou o pulso que apontava a pistola e o torceu. Valerian tomou a arma no segundo em que Crane a soltou berrando, e aplicou um chute bem dado atrás do joelho do malfeitor. Movendo-se com fluidez, Valerian afundou o cotovelo na garganta do segundo traidor.
Jim sentiu ondas de alívio e surpresa passarem por ele. Aproveitando a oportunidade que o astuto príncipe proporcionara, ele agarrou a outra pistola presa ao cinto de Crane e, com uma coronhada, o derrubou. Várias cadeiras arrastaram-se ruidosamente, e Raynor soube que o tempo arranjado por Valerian estava perto do fim.
— Vamos! — berrou ele.
Os quatro saíram em disparada.
O processo era lento. A Hipérion era uma fera imensa enterrada viva, lutando para emergir e estremecendo com o esforço. Swann suava, não de medo, mas resistindo ao impulso de correr para os motores, que urravam com o esforço para libertar a nave. Cobrirem-se com toneladas de camuflagem parecera uma boa ideia na hora, mas agora Swann se perguntava como havia concordado com aquilo.
— Perdemos dois motores no combate, e ainda não conseguimos fazer todos os consertos. — A voz de Annabelle soava tensa e aguda. Swann sabia que a agonia dos motores a afetava como a ele próprio.
— Eu sei, eu sei — respondeu Swann —, mas temos que sair debaixo desse monte de entulho!
— Os sensores indicam que eles devem estar chegando…
Os consoles da nave acenderam.
— ... agora — completou Cade.
Swann soltou um palavrão.
— Vamos lá, gracinha — disse ele à nave. — Você não vai deixar algumas toneladinhas de escombros segurarem você, vai?
Enfim a Hipérion começou a se mover. Eles estavam se soltando!
— Um tiro a estibordo, através dos escombros — disse Cade. — Também estou detectando mais Miragens a caminho. — Então fez uma pausa e acrescentou: — E Vikings também.
— Quantos?
— Até agora oito Miragens e três Vikings.
Nada bom. Na verdade, isso era terrível. Um, talvez dois Miragens ou Vikings contra dois cruzadores de batalha era uma coisa, mas se fossem muitos…
— Vamos, vamos — rogou Swann. A nave se moveu de novo, mais livremente dessa vez, tentando se libertar das toneladas de lixo espacial que a enterravam. — Alguma notícia da Bucéfalo?
— Negativo, senhor.
— Tente outra vez. Diga que estamos nos soltando. Pergunte se vêm conosco ou se vão esperar o chumbo grosso sentados.
— Eu vou… ahm… mudar um pouco a frase.
— Faça isso, garoto. Avise que se não mexerem logo os traseiros, vai ser tarde demais.
Quase todos os tiros erraram o alvo, exceto um: um disparo de rifle gaussiano atravessou o braço de Matt. Sangue vermelho e reluzente jorrou, e Horner soltou um urro. Ele cobriu a ferida com a mão livre, avançando enquanto Jim respondia fogo com fogo. Estavam tendo sorte, pensou Raynor, e coisas assim não duram. Tinham deixado o levitraz afastado do centro da cidade, e ele sabia que jamais chegariam ao veículo a tempo, muito menos às coordenadas de emergência combinadas com Swann.
O que significava que o tempo deles em Paraíso também não duraria muito.
Eles não conseguiriam chegar até o resgate; o resgate teria que chegar até eles. Jim notou que uma das estruturas próximas do limite da cidade parecia abandonada. Teria que servir.
Narud tropeçou e caiu pesadamente no exato instante em que um projétil cortou o ar no ponto onde ele estava — sua vida foi salva pela sorte. Sem diminuir o passo, Valerian agarrou o cientista, endireitou-o e continuou a correr.
— Lá! — berrou Jim, apontando para a estrutura à esquerda. — Vamos nos proteger lá!
Valerian o encarou horrorizado, mas não parou de correr. Jim não o culpava — parecia que apenas uma brisa mais forte poderia derrubar o lugar. Porém, era a única opção. Continuar correndo em campo aberto era cortejar a morte, e enquanto Sarah vivesse, Jim não faria isso.
O grupo entrou tropegamente na casa pré-fabricada e fechou a porta. Raynor jogou uma pistola para Narud e acenou com a cabeça para Valerian:
— Cada parede tem uma janela. Cuidem da defesa. Eu vou cuidar de Matt e arrumar uma saída.
Narud fitou a pistola em sua mão.
— Uma pistola contra eles todos? — questionou, incrédulo. — Eles vão derrubar o abrigo e acabar com todos nós!
— Não vão, não. — Raynor pegou um kit de primeiros socorros, rasgou a manga da camisa de Matt e avaliou o ferimento. O espinho hipersônico trespassara completamente o braço, mas a cor do sangue que pulsava indicava uma artéria danificada. Jim borrifou uma bandagem sobre a ferida e fez pressão.
— Eles nos querem vivos, lembra? Significa que não vão atacar com tudo. Ainda temos algum tempo.
— O que houve, Jim? — perguntou Matt enquanto o amigo trabalhava.
O sangue escorrendo sob a bandagem de plastigaze começou a preocupar Jim, que não conseguiu disfarçar. Para distrair Matt enquanto analisava a ferida atrás de um ponto de pressão, ele falava:
— Recebi uma mensagem de Swann. — Jim falava alto, para que os outros dois também o ouvissem em meio ao tiroteio. — A Hipérion e a Bucéfalo estão sob fogo cerrado, mas a caminho. Seu capitãozinho se recusa a partir, Valerian. Swann está fazendo de tudo para sair de debaixo dos escombros e chegar ao espaço, onde as condições de combate são mais favoráveis. Temos que nos encontrar no ponto de emergência.
— Se não estivesse tão ocupado atirando — disse Valerian, empunhando a pistola com uma familiaridade que surpreendeu Jim —, torceria o pescoço do Vaughn com minhas próprias mãos.
— Quando conseguir contatar Swann, digo que você mandou um alô. Matt, mantenha o braço levantado. — Isso ajudaria a estancar a hemorragia. Sem questionar, Matt ergueu o braço como uma criança na sala de aula. — Enquanto se concentra nisso, será que você consegue entrar em contato com Mira? Acho que ela consegue chegar aqui mais rápido que a Hipérion — sugeriu Jim.
— Vou tentar — disse Matt. — Mas não faço ideia se essa linha é segura ou não.
— Não faz mais diferença. Eles sabem que ela será avisada de um jeito ou de outro. Nesse exato momento, precisamos mais de ajuda do que passar despercebidos.
Matt fez que sim com a cabeça, sacando o fone e digitando um código com a mão boa. Jim se levantou, limpou o excesso de sangue da camisa e foi até o lado de Valerian.
— Manda seu capitão vir com tudo.
— É o Capitão Vaughn, senhor — disse Marcus, sorrindo um pouco apesar da gravidade da situação.
— É impressão minha ou você está menos metido agora? — provocou Swann no instante em que o rosto de Vaughn apareceu na tela.
— Eu, hum, recebi novas ordens do meu comandante, se é isso que quer dizer — respondeu Vaughn friamente, apesar da tensão que dominava seu rosto.
— Senhor, mais três Miragens a caminho — disse Marcus. Vaughn teve a decência de arregalar os olhos.
— Estamos quase saindo — declarou Swann. — Vamos dar cobertura para os seus traseiros lerdos. Agora, deem o fora daí!
Se a nave fosse uma fera, a tensão a faria urrar. Mas eles estavam quase livres, e Swann rogou em voz baixa pra que os motores aguentassem.
O violento solavanco da libertação pegou todos de surpresa, mas Swann e o resto da tripulação comemoraram assim que se puseram de pé novamente.
A tela antes não mostrava quase nada, apenas formas vagas em meio aos destroços. Agora, todos viam o ferro-velho se distanciar enquanto subiam pesadamente, lentamente... tornando-se alvos perfeitos.
Os disparos começaram.
— Onze Miragens e seis Vikings no total, senhor — informou Cade. — Responder ao fogo?
Swann alisou o bigode, pensativo, então balançou a cabeça:
— Não, ainda não. Força máxima para os escudos agora. Quando ganharmos altitude e a Bucéfalo sair do chão, aí vamos matar alguns mosquitos.
A nave colossal continuava a ganhar os céus sob intenso fogo inimigo, e os escudos absorviam completamente — ou quase — o castigo. As telas focalizavam não nos Miragens e Vikings que atacavam, mas no ponto de onde a Bucéfalo lutava para emergir.
— Vamos lá — suplicava Swann enquanto assistia às pilhas de metal que cobriam a nave subir e descer.
Enfim, a nave de Valerian se libertou também, emergindo dos destroços como um pássaro do ovo, oscilando e se debatendo antes de começar a ganhar altitude.
— Certo — disse Swann —, mirem nos malditos Vikings e Miragens; acabem com todos. Marcus, envie as coordenadas do ponto de resgate para Vaughn, caso ele tenha perdido isso também. Diga que estamos nos movendo, e a menos que eu erre feio meu palpite, haverá um comitê de boas-vindas assim que sairmos da atmosfera.
Quase tão rápido quanto o pensamento, a Hipérion, que instantes atrás se debatia desajeitadamente sob o entulho da superfície, disparou para cima num rastro de fogo, galgando os céus na direção do espaço. Swann estava certo. Mais Miragens esperavam por eles, além de um único cruzador espacial que certamente já vira dias melhores e se parecia muito mais com o lixo que dera cobertura à Hipérion e à Bucéfalo do que com um adversário à altura. Claro que Swann conhecia mercenários o suficiente para saber que cada crédito fora investido onde faria diferença — e não seria na aparência. Não era boa ideia subestimar o aparentemente dilapidado cruzador de batalha.
— Ative nosso canhão Yamato. Aponte para o cruzador de batalha e dê a ele tudo o que temos! — berrou Swann.
Os Miragens causavam a maior parte do dano, mas sem o cruzador ficariam presos, impedidos de realizar transdobras. E não poderiam atracar para receber reparos.
Além disso, sendo caças... eles não tinham canhões Yamato.
Cade mirou no cruzador e disparou. O tiro acertou em cheio, mas a nave continuou operacional. Os Miragens investiram para se vingar, enxameando como vespas enlouquecidas.
— Senhor, eles estão alvejando os aceleradores de gravidade — informou Cade.
— Reforce os escudos — vociferou Swann.
— Já fizemos isso, senhor, mas com o fogo concentrado… Senhor! É a Bucéfalo!
A formidável nave finalmente se libertara do planeta e vinha ao resgate. Enquanto seu canhão disparava contra o cruzador de batalha mercenário, Vikings impecáveis, de última geração, travavam combate com os Miragens e Vikings que atacavam a Hipérion.
Vaughn conseguira.
Agora, talvez até conseguissem chegar ao encontro com o capitão e comandante.
— Sim, sim — dizia a voz provocadora de Mira —, já estou ciente da… situação. Meu pessoal está a caminho. Diga ao querido James que não se preocupe com sua amiga. Ela já está a caminho da Bucéfalo. Mas, amor, vocês têm que sair da cidade! Não posso enviar naves até aí!
— Não dá! — berrou Matt a plenos pulmões, para ouvir a própria voz acima dos tiros. Seu braço continuava elevado e o sangramento reduzira, mas ele sabia que perdera muito sangue. — Estamos encurralados, abrigados em uma estrutura abandonada perto dos limites da cidade. É impossível cruzar tanto espaço em campo aberto. Jim acha que eles querem nos pegar vivos, mas você sabe como são essas coisas.
— Humm… — respondeu Mira.
Matt não deixava de se impressionar — e se frustrar — com o fato de que a mercenária parecia estar escolhendo uma tintura de cabelo em vez de preocupar-se em salvar a vida dos quatro. Era fácil imaginá-la fazendo uma careta pensativa, tamborilando o queixo com o olhar perdido.
— Mira, por favor, você tem que se apressar…
— Matthew, Matthew, você se preocupa demais. Onde vocês estão?
— Perto dos limites da cidade, na ponta noroeste. Perto do covil de drogados que você limpou. Do mesmo lado.
— No último prédio da rua?
— Acho que sim.
Com um baque, um projétil atravessou o que restava das janelas. O objeto era pequeno, redondo e rapidamente começou a emitir um gás verde pálido.
— Merda — berrou Jim. Ele cobriu a boca com um braço, mergulhou na direção do pequeno objeto e o arremessou de volta. Então se curvou e começou a tossir violentamente
— Mira — disse Matt, reprimindo a tosse e piscando os olhos lacrimejantes —, atiraram uma granada de gás. Com certeza foi só a primeira. Estão tentando… — O resto perdeu-se em meio à tosse.
— Matthew, querido, você precisa me ouvir. Algum tempo atrás mandei instalar túneis de fuga nos prédios mais distantes da cidade. Você está em um deles. Procure a escotilha embaixo do assoalho!
Matt a princípio animou-se, mas foi tomado em seguida por uma sensação de desespero. Depois de respirar fundo e tossir por quinze segundos, respondeu com a voz fraca:
— Alguns dos homens que estão atirando em nós eram dos seus. Eles sabem dos túneis!
— Matthew, seu bobinho — retrucou ela, parecendo se divertir —, você acha mesmo que conto tudo para todo mundo?
Matt sorriu.
— Mira, você é maravilhosa! — E virando-se para os companheiros, gritou: — Debaixo do assoalho tem um túnel de fuga!
— Mira, eu amo você! — gritou Jim. Matt a ouviu gargalhar.
Raynor puxou Valerian e os dois começaram a arrancar as tábuas do chão, procurando por qualquer sinal da existência de um alçapão.
Uma segunda granada de gás voou para dentro do edifício periclitante, sibilando enquanto liberava seu conteúdo abjeto. Narud correu e jogou longe o projétil, mas outros dois vieram pelo lado oposto. Os quatro começaram a tossir sem parar.
Horner sentiu uma tontura, mas não tinha certeza se era causada pela perda de sangue ou pelo gás. Suas pernas curvaram-se e ele se viu sentado, perplexo, no chão do edifício.
— Ali — apontou Valerian.
A voz do príncipe soava fraca e distante para Matt. A de Mira Han também.
— Matthew? Continue falando. Vocês encontraram o túnel?
— Acho que sim. — O capitão da Hipérion surpreendeu-se com a maneira como suas palavras soavam arrastadas. Ele ainda sangrava. — Mira? Acho que não vou conseguir sair.
— Besteira. — Mira Han soava animada e confiante. — Ainda não estou pronta para ser viúva, Matthew Horner.
Subitamente, um par de botas entrou no campo de visão de Matt. Mãos o agarraram e o ergueram com violência. Sem resistir, ele entregou-se à escuridão. Depois, não viu mais nada.
— Eles escaparam.
— Como assim? Eu entreguei todos de mão beijada! — Cooper tinha a voz carregada de fúria. Como a Hipérion estava no meio de uma batalha, ele estava completamente sozinho.
— Encurralamos os quatro em um prédio abandonado, atiramos algumas granadas de gás e, quando entramos, eles tinham desaparecido.
— Desaparecido? Como você pôde perder… — Então percebeu. — Crane, seu desgraçado, só pode ser um túnel no chão!
— Eu, hum… Acho que sim. É a única opção.
— Deixa eu adivinhar. Você nem faz ideia de aonde esse túnel leva.
— Não.
O barman lançou um olhar pesaroso para a pequena bolsa escondida atrás do balcão.
— Certo, duvido que isso vá ajudar, mas estou enviando as coordenadas do ponto de encontro original. Conhecendo Jim, aposto que ele já mudou pelo menos meia dúzia de vezes, e você nem faz ideia de onde o túnel vai dar. Se fosse você, eu enviaria alguns homens para vigiar o ponto de encontro. O resto entra no prédio e descobre aonde leva esse maldito túnel!
Cooper enviou rapidamente as coordenadas e desligou. Aparentemente ele não ficaria rico tão cedo, mas talvez ainda houvesse alguma esperança.
Assim que retomou a consciência, Matt sentiu os pulmões e as vias áreas arderem e uma forte náusea apoderar-se dele. O braço ardia em agonia, mas sua mente ainda estava clara o suficiente para registrar três fatos: um, ele estava vivo; dois, eles conseguiram escapar; três, Valerian carregava-o desajeitadamente sobre o ombro, como se fosse um saco de batatas.
— Me ponha no chão.
— Ainda não — respondeu Valerian.
Nesse instante, Matt percebeu um quarto fato: Valerian estava correndo. Jim e Narud também. Onde, ele não sabia dizer. A perspectiva que tinha do chão e das pernas apressadas de Valerian não dava muitas pistas.
Quando cogitou se debater, ele rapidamente concluiu que isso atrapalharia na fuga e provavelmente poria todos em risco. Ao somar a isso a dor de cabeça, efeito colateral do gás, Horner fez uma careta e decidiu ficar quieto.
— Mira é uma mulher e tanto — disse Valerian. — Enviou um transporte e homens. Só para garantir que vamos conseguir... chegar lá. — O príncipe ofegava. — Estamos quase.
— Os mercenários também — respondeu Jim.
— Nós… vamos… conseguir — afirmou Valerian enquanto ajeitava a carga no ombro. — Segure-se firme, Matt.
Da posição ignóbil em que estava, era tudo o que ele podia fazer. Valerian correu com todas as forças, e Matt logo começou a ouvir o zumbido das naves acima. Os disparos levantavam poeira, acertando perto demais dos fugitivos. A resposta veio na forma de saraivadas disparadas contra os mercenários e uma voz que alegrou seu coração:
— Não ousem machucar meu Matthew!
Mira Han soava muito enfurecida. Matt começou a sentir pena dos mercenários. Alguns instantes depois, que pareceram séculos, Valerian parou de correr e pôs Matt no chão.
— Você precisa parar de comer doces — resfolegou o herdeiro do império. Seu rosto estava vermelho e ensopado de suor. Matt não fazia ideia de quanto tempo Valerian correra, carregando um peso igual ao seu próprio.
— Eu não como doces — retrucou Matt. — Bem, quase nunca. Uma bomba de chocolate de vez em quando, às vezes um…
— Matthew!
Primeiro Matt viu os cabelos rosa-shocking, depois o sorriso estampado no rosto de Mira. No instante em que viu a bandagem ensanguentada, contudo, a expressão no rosto dela mudou completamente:
— Você tem bons amigos. Mas agora é melhor correr. As naves sofreram muitos danos, mas ainda podemos conseguir!
Os olhos de Matt percorreram os arredores. Jim e Valerian, agora livre do fardo que estorvava seus movimentos, disparavam contra os mercenários que avançavam por terra, enquanto as sombras das naves corriam rapidamente pelo solo arenoso e vermelho. Mira passou um braço em volta de sua cintura:
— Vamos, vamos — disse, embarcando-o na nave.
Enquanto Mira Han o ajudava a se acomodar em um assento, Matt viu uma enorme mancha vermelha ainda úmida no peito dela.
— Você foi atingida! — arquejou ele, surpreso com a dor que percorreu seu corpo.
Ela sorriu.
— Não, Matthew, esse sangue é seu. Você ainda está sangrando. Eu estou bem. Mas você fica uma gracinha preocupado! — Erguendo seu queixo, Mira Han deu-lhe um longo e apaixonado beijo. Matt beijou de volta, certo de que a experiência de quase morte bagunçara suas emoções.
A mercenária partiu apressada logo em seguida, e Jim, Narud e Valerian embarcaram. Raynor foi direto para o assento do comandante; o príncipe, para o do copiloto.
— Onde estão os suprimentos médicos? — perguntou Narud. — Sr. Horner precisa de cuidados.
— Essa não é a minha nave — retrucou Jim, fechando as portas para a decolagem —, mas eu tentaria debaixo do último assento. Como você está, Matt?
— Vivo, senhor.
— Isso é bom. Narud, mantenha o Sr. Horner assim. Apertem os cintos e não ponham os braços para fora da nave.
Valerian riu.
Com uma brusquidão que fez Matt sentir-se aliviado por estar com o estômago vazio, a nave ascendeu. Dois segundos depois, no entanto, o fogo inimigo recomeçou. A nave sacudiu violentamente, e Matt também se sentiu aliviado por ter afivelado o cinto de segurança.
Narud parecia extremamente desconfortável ao lado de Horner, segurando o kit médico. Matt pousou a mão sobre o ferimento e o observou. Mira Han tinha razão, a ferida era grande demais para apenas uma bandagem de plastigaze. O sangue voltara a correr; Matt reuniu suas forças e fez pressão acima da parte atingida. Fazendo uma careta, ele disse:
— Nós vamos conseguir. Jim é um baita piloto.
— Temo que ele terá que servir — disse Narud com a voz suave e resignada. O cientista teve que cuidar para que os instrumentos não caíssem enquanto remexia o kit de primeiros socorros.
— Isso? Isso não foi nada — zombou Jim. — Olha só isso.
E ele arremeteu bruscamente, embicando a nave em posição praticamente vertical. Narud choramingou fracamente. A embarcação da qual fugiam estava tão próxima que os olhos de Matt cruzaram com os do outro piloto; Narud franziu o cenho e fez um gesto aborrecido.
Incapaz de conter-se, Matt irrompeu em gargalhadas. Talvez fosse a perda de sangue, a fuga por um triz ou o beijo de Mira, mas ele não conseguia se controlar. Sabia que era inapropriado, talvez até um pouco histérico, mas por que não? Eles poderiam sair vivos ou morrer, não dependia dele. Narud continuava a fitá-lo aterrorizado.
— Esse é o meu garoto — aprovou Jim do cockpit. — Se é pra morrer, que morra sorrindo!
Narud empalideceu, o que fez Horner rir ainda mais.
— Swann, aqui é Raynor.
— Em que buraco da galáxia você se meteu, caubói? Tivemos que dar cabo de alguns Miragens, Vikings e sabe-se lá que diabos mais, mas já estamos no local combinado.
— Eu sei. Tivemos que tomar um atalho para não ser mortos. Achei que você não fosse se importar.
— Então traga logo sua carcaça imunda para a Hipérion enquanto ainda tem uma para salvar. — E acrescentou: — E enquanto ainda estamos inteiros.
Matt se recostou no banco, sentindo o sangue quente escorrer por entre os dedos. Narud falava calma e claramente, certificando-se de que os olhos do paciente miravam os seus:
— Sr. Horner, a artéria braquial foi danificada. Uma única bandagem jamais estancaria esse sangramento. Não tenho os instrumentos necessários aqui, mas a bordo da Bucéfalo poderei cuidar de tudo. Só o que posso fazer no momento é cobrir a ferida com três bandagens para conter o sangue. Você compreende?
— Três para um. Certo.
Jim continuou a subir em velocidade máxima, deixando para trás a feiura do Porto do Enforcado. Enquanto Narud trabalhava, Matt olhava pela janela. Será que era tão feio assim? Aquele ferro-velho os havia salvado de uma caçada, pelo menos durante algum tempo. Além disso, em algum lugar lá embaixo estava a amazona de cabelos cor-de-rosa que jamais seria a garota dos seus sonhos, mas que conquistara sua admiração e seu carinho.
Talvez não fosse tão feio assim.
Conforme a Hipérion subia, as formas dos prédios desapareciam em meio à poeira vermelha, já meio encobertos pelas nuvens. Em meio aos solavancos, Matt viu um clarão quando um inimigo os atingiu. Uma sirene disparou e as luzes principais apagaram, dando lugar ao vermelho da iluminação de emergência. Matt continuava a olhar para frente, para a tela principal.
A Hipérion poucas vezes parecera tão adoravelmente encantadora, mas seu capitão se contorcia ao vê-la recebendo tantos danos. Ele não ficou feliz ao ver uma vida se perdendo na bola de fogo em que se transformara um Miragem, mas a certeza de que a pequena nave não representava mais ameaça era um alívio. Jim dirigia a nave danificada para o atracadouro da Hipérion, taxiando para encontrar a entrada, que se abria lentamente.
Lentamente demais.
— Não vamos conseguir! — gritou Narud.
— Feche a matraca, doutor — retrucou Jim, sereno. — Sua descrença prejudica minha capacidade de operar milagres.
Outro disparo contra a nave, desta vez na proa. O console faiscou e estalou violentamente. Jim apertou o botão do extintor, liberando uma torrente de espuma. Falando por sobre os ombros, disse a Narud:
— Viu só o que você fez?
Matt engoliu em seco quando seus olhos cruzaram os do amigo. O console estava completamente inutilizado. A nave não poderia ser desacelerada — no espaço, a inércia impede que os objetos se desacelerem sozinhos —, nem seu curso poderia ser mudado. Se Swann não percebesse e tirasse a Hipérion do caminho…
Mais um disparo. Outro princípio de incêndio na popa.
— O que você está fazendo? — gritou Narud.
— Nada — respondeu Jim. — Não tem nada que eu possa fazer. Estamos sem navegação, comunicação ou condições de lutar… Está nas mãos do Swann agora.
Para o deleite de Matt Horner, Jim Raynor cruzou os dedos atrás da cabeça, recostou-se na cadeira e começou a assoviar. Ao lado de Matt, o Dr. Emil Narud enterrou o rosto entre as mãos e gemeu quase inaudivelmente.
Valerian encarou Jim por um instante antes de sorrir e imitá-lo:
— Quando não há nada a ser feito, não faça nada.
— Você está começando a entender, Valerian. — Jim apertou os olhos e franziu o cenho. — Merda. Agora somos alvos fáceis.
* * *
Matt também vira, do lado de fora da escotilha. Um Miragem dilapidado, mas ainda capaz de chegar ao espaço e travar combate. Aparentemente, o plano de capturar e levar Raynor, Horner e Valerian para Mengsk, com Narud como bônus acidental, ficou no Porto do Enforcado. Vulneráveis como estavam, um tiro certeiro acabaria com tudo ali mesmo. Mengsk não se importaria se os “procurados vivos ou mortos” aparecessem mortos.
Subitamente, o caça explodiu. Matt esticou o pescoço para ver de onde viera o disparo e viu a Bucéfalo.
— Valerian — disse ele —, talvez você e sua gente não sejam uma causa perdida.
Por um longo momento, nada aconteceu. A entrada do atracadouro estava aberta, pronta para recebê-los, mas todos sabiam que àquela velocidade seria impossível. Outro Miragem os encontraria antes. Lentamente, o atracadouro começou a se mover. Matt abriu um largo sorriso. Sabendo que a nave não chegaria ao destino, o fantástico Swann estava trazendo o destino até a nave. O problema ainda não estava totalmente resolvido: como a entrada era estreita, qualquer erro de Swann significaria um choque.
Mas Swann era bom. Durante a aproximação, o transporte chegou a arranhar a lateral da passagem, fazendo Matt prender o fôlego, mas no fim as portas se fecharam, a atmosfera foi restaurada e a nave pousou pesadamente na plataforma.
— Falei que ia dar certo — disse Jim.
Dois minutos depois, a Bucéfalo e a Hipérion iniciaram o processo de transdobra.
Mira assistia à partida da nave. Os quatro homens sob sua proteção estavam vivos. Matt havia se ferido, mas sobreviveria, forte como era. Não como ela, mas de seu próprio jeito, gentil de um jeito estranho. A mercenária se perdeu em pensamentos, com os olhos fixos até não haver nada além de um ponto brilhante no céu.
Matthew Horner, seu marido, deixaria saudades.
A mercenária então se voltou para os inimigos, observando-os do solo. Mercenários contratados por sua própria gente — gente que queria tomar algo seu. Pessoas em quem ela confiara. Em suas mãos ela segurava uma lista de nomes. Com uma expressão dura, Mira Han levantou o rifle e mirou primeiro naqueles que via e reconhecia com seu olho cibernético.
Trair a mercenária Mira Han? Ameaçar Matthew e seus amigos, fugitivos em busca de refúgio?
Ah, ela faria com que eles pagassem. Cada um deles.
Crane foi o primeiro.