StarCraft: Ponto Crítico

Christie Golden · Capítulo 18 de 29

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StarCraft: Ponto Crítico

Capítulo dezoito

 

O transporte que carregava Raynor, Sarah, Valerian, Narud e o doutor Egon Stetmann, junto de alguns Saqueadores, aportou na rampa. Jim ordenara que seus homens viessem por duas razões: primeiro, achara prudente ter alguns amigos por perto, e depois, o lugar parecia incrível e ele supunha que alguns quisessem conhecê-lo. O piloto confirmou algo que Jim já concluíra: havia uma atmosfera artificial, ainda que temporária, apropriada para humanos. Eles poderiam descer na plataforma e andar até a estação espacial como se estivessem caminhando numa calçada de Mar Sara.

Jim queria que Sarah fosse levada de maca, ou pelo menos numa cadeira de rodas, mas ela recusara.

— Eu vou entrar por vontade própria, ou não vou de forma alguma. Com as próprias pernas ou nada feito — teimara.

Jim a conhecia o suficiente para entender pelo tom de voz que ela não negociaria mais. Na verdade, ele se sentia aliviado por vê-la disposta a pelo menos pisar naquela estação.

O doutor Narud abordou Sarah com um semblante afável, estendendo a mão.

— Senhorita Kerrigan, estou muito contente em vê-la.

Ela não apertou a mão dele, e Jim, apoiando Sarah pelo cotovelo, sentiu-a se enrijecer.

— Gostaria de poder dizer o mesmo.

— O Dr. Narud está ansioso para começar a tratar você, Sarah — disse Valerian, sempre diplomático. — Estou aliviado de saber que você está enfim em um lugar onde pode receber o tratamento adequado.

Ela o encarou e se sentou na nave, sem trocar mais palavras com Narud ou Valerian. Então sussurrou no ouvido de Jim:

— Tem algo estranho em Narud. Já o vi antes.

— Bem, você não era exatamente quem é hoje, meu bem. Mas você o conheceu, sim. Não me surpreende que ele lhe seja familiar.

Ela sacudiu a cabeça, impaciente, procurando as palavras certas.

— Não, não desse jeito. Eu não lembro dele particularmente. Não digo “conhecer” como... É difícil explicar. Ele parece familiar, mas não como ele mesmo. Psionicamente.

Jim aquiesceu, porém um pouco preocupado. Os poderes de Sarah estavam retornando, e claramente não estavam sob controle. Ela passara por uma terrível provação, sua memória dava sinais de falha e ela estava, compreensivelmente, desconfiada.

Mas Jim não sabia se havia motivos para desconfiança ou se ela estava só paranoica. De qualquer forma, ele também não ia com a cara de Narud, e vigiaria o homem como um falcão ainda que Sarah não o tivesse alertado.

O voo fora tenso, mas felizmente curto. Agora eles saltavam na reluzente plataforma branca. Um suspiro curto escapou dos lábios de Egon, o tipo de suspiro que um homem dá quando se apaixona.

— É... tão bonito — concluiu.

A alguns metros, a superfície lisa da estação começava a se abrir como a íris de uma câmera.

— Há alguns testes que eu gostaria de fazer antes de começar o tratamento propriamente dito, claro — disse Narud.

Jim ensaiava uma resposta quando a porta se abriu completamente, revelando o grupo que os recebia na Estação Prometeu. Ele imaginara ver médicos e uma maca.

Mas viu guardas armados.

Ele pensou duas coisas ao mesmo tempo.

Primeiro: Sarah estava certa. Depois: por que ele não trouxera uma arma?

— Que porra é essa? — cuspiu, girando para ficar na frente de Sarah, de forma a protegê-la.

— Se a senhorita vier tranquilamente, podemos começar os testes que... — começou Narud.

— Porra nenhuma! — gritou Sarah, saindo de trás de Jim.

Ela não parecia frágil de forma alguma. Seu rosto estava vermelho e o corpo, quente de raiva.

— Não vou virar cobaia de vocês! — Ela apontou para o fundo da plataforma. — Eu pulo se algum dos seus homens encostar um dedo em mim. Eu juro!

— Ela vai pular — reforçou Jim.

— Jim, por favor, antes de tratar um paciente é necessário ver exatamente o que está errado com ele.

— O Príncipe Valerian está certíssimo — disse Narud. — Acho que seria melhor se...

— Plataforma. Gravidade — disse Sarah.

— Não dou a mínima para o que você pensa, doutor — explodiu Jim. — Você escutou a moça. O que ela precisa agora é de um tratamento humano básico e decente, simples auxílio médico. Nada mais. Entendeu?

Ouviu-se um ruído alto no momento em que os guardas levantaram as armas reluzentes e as apontaram para Raynor. Os Saqueadores fizeram o mesmo. Jim não pôde evitar um sorriso; sentia-se estranhamente em paz com qualquer coisa que acontecesse. A tensão se estendeu por um longo momento.

— Acho que sou um péssimo anfitrião — disse Narud. — Orientei os guardas a usarem o protocolo 221-C. É o padrão para quando admitimos novos pacientes e visitantes.

— Que jeito estúpido de se recepcionar alguém — disse Raynor.

— Nossos visitantes em geral não são foras da lei. Vocês compreendem que precauções são sempre necessárias. De qualquer forma — disse, fazendo sinal ao capitão dos guardas para que abaixassem as armas —, peço desculpas. Tenho certeza de que vocês compreendem a... situação incerta na qual nos encontramos e a minha preocupação com a segurança dos meus pacientes. Acho que você entende bem isso, senhor Raynor.

— Tudo bem. Você vai ficar aí tagarelando o dia todo ou vai levá-la à enfermaria?

Narud fez um gesto e uma mulher e um homem vestidos de branco apareceram empurrando uma maca.

— Assim é melhor — concluiu Jim. Ele olhou para Valerian por um momento, e então para os Saqueadores. — Vou à enfermaria com Sarah. O que vai acontecer com eles?

— Eles vão ter acesso supervisionado à estação — revelou Narud.

— Supervisionado?

— Jim, este é um laboratório altamente confidencial. Doutor Stetmann — disse, virando-se para um agora pálido Egon —, você gostaria de ter estranhos perambulando pelo seu laboratório sem você por perto?

— Bem... não — gaguejou Stetmann, e soltou uma risada tímida —, mas confesso que estou segurando a minha curiosidade de dar uma olhada no seu laboratório, doutor Narud.

— Podemos resolver isso — disse o cientista, sorrindo. — Mais uma vez, peço desculpas. Como disse, a recepção padrão foi inapropriada neste caso. Espero que me desculpem. Fico tão na defensiva diante de pessoas de fora que isso se tornou um hábito. Nós temos refeitório, biblioteca, uma área de recreação... Sua equipe está livre para explorar esses e outros lugares. Com ou sem acompanhamento, vocês escolhem. Mas para algumas áreas, gostaria que alguém da minha equipe os acompanhasse. Pode ser?

Ainda apoiando Sarah, Raynor a sentiu esmorecer. Os sentimentos de raiva e a adrenalina que tinham lhe dado forças agora esvaneciam, e, assim como Sarah, ele não queria que ela parecesse frágil diante daquelas pessoas.

— Ok, você sabe onde nos encontrar — disse, e se voltou para Cam Fraser. — Avise se forem tratados de alguma forma que eu não gostaria.

— Pode deixar.

Os médicos se aproximaram de Sarah para ajudá-la a subir na maca. Raynor se colocou entre eles, balançou a cabeça e fez ele mesmo o trabalho. Apertando as mãos dela, foi caminhando ao lado da maca pelos longos corredores que levavam à enfermaria. As paredes eram decoradas com obras de arte, não tão ostensivas quanto as que Valerian exibia, mas adoráveis e de bom gosto. A iluminação era fraca, mas eficiente; o carpete, grosso e fofo. Caixas de som transmitiam uma música suave.

— Diga, doutor Narud — dizia Egon animado —, sei que você é especialista em zergs. Sou um iniciante nessa área fascinante e estava me perguntando... Qual a sua opinião sobre a teoria prevalente de que...

Jim se desligou da conversa entre os cientistas. Estava pensando em outro tipo de conversa, em outro corredor, anos atrás.

 

2500

Sarah andava tão rápido que Raynor tinha dificuldade de acompanhar o passo num dos corredores da Hipérion.

— Mais devagar, ruiva. Minhas pernas são mais velhas do que as suas. E é bem feio sair correndo só pra não ouvir a verdade — disse Raynor.

— Não quero ouvir porque é besteira.

— Não é — insistiu Jim. — Sarah, estou avisando. Nós estamos entre a cruz e a caldeirinha aqui... Não estou dizendo que ele vá fazer alguma coisa, mas você precisa abrir os olhos agora. Arcturus Mengsk pode acabar sendo tão terrível quanto a Confederação. Ele está vendo o lado dele. Está tentando derrubar o governo não porque acha que é moralmente a coisa certa a fazer, mas para tomar o poder quando o caos se instaurar. Você não percebe isso?

Ela parou e, mordendo os lábios, o encarou.

— Eu sei que ele não é quem eu pensei que fosse. Mas também acredito que ele é a melhor chance que nós, e qualquer um, temos de derrubar a Confederação. Ele fez coisas cruéis. Sei disso. Mas não consigo crer que ele seja tão cruel quanto a Confederação, depois de tudo o que eles fizeram. Pense na Academia de Fantasmas, Jim. O lugar que matou o seu filho. Pense nas latas repletas de material tóxico que aos poucos mataram a sua mãe. A Confederação fez isso, não Mengsk!

Ele colocou a mão no ombro de Sarah para detê-la. Ela se desvencilhou, os olhos verdes brilhando, mas continuou parada.

— Amor, escute. Você sabe que Mengsk fará o que for preciso para atingir o objetivo. Você sabe.

Ela aquiesceu.

— Eu sei. E o objetivo dele é derrubar a Confederação e as práticas corruptas do sistema.

— O objetivo dele é criar um vácuo de poder. Assim ele pode surgir como salvador.

— É um mal menor, Jim. Bem menor.

Jim passou a mão pelos cabelos, exasperado.

— Ok. Reconheço que ele libertou você de uma vida horrível. Reconheço que ele me tirou da prisão. Mas por que você acha que ele fez isso? Porque nós seríamos úteis para ele. Ele contava com o fato de que seríamos tão gratos a ponto de fazer vista grossa para tudo o mais que ele fizesse. Ele usou você, amor. E me usou também. Os Filhos de Korhal e a Confederação Humana são dois lados da mesma horrível moeda. Eu já vi, Sarah. Já vi a reação dele ao poder, e não foi nada bonito.

Ela se acalmou.

— Se Mengsk é um homem obstinado é porque vê um universo melhor para todos. E, sim, “todos” inclui Arcturus Mengsk. Ao contrário de outras pessoas, ele de fato pode fazer isso acontecer.

Ela ergueu a mão para tocar o rosto de Jim, e ele acariciou a mão dela.

— É só que... Eu me importo muito com você. Sei que as coisas aconteceram muito rápido, mas é verdade. Se algo de ruim acontecesse com você, eu não suportaria.

Devagar, ela retirou a mão.

— Eu sei — disse baixinho. — Mas agora não posso só ficar assistindo. Eu tenho que me arriscar, assim como você.

Sarah abaixou o rosto e uma mecha ruiva caiu sobre seus olhos.

— Às vezes acho que nunca deveríamos ter nos envolvido.

— Não diga isso — ralhou Jim. — Nunca diga isso.

 

2504

Mas as palavras foram ditas, e não era possível apagá-las. Nos últimos anos, Jim pensara várias vezes que não deveria ter se envolvido com Sarah. Mas isso não estava em consideração agora. Ele não tinha conseguido impedir Arcturus de cometer aquela traição vil contra a mulher que escolhera ficar ao lado do tirano, mesmo questionando suas intenções. Mas ao menos tinha conseguido alguma coisa, e se Kerrigan estava viva, segurando sua mão, aparentemente humana outra vez, era graças a ele. Jim estava humildemente grato ao Destino — e sim, a Valerian Mengsk — por permitir-lhe ajudá-la. Eles viraram num canto e pararam diante de uma enorme porta reforçada. Os médicos se adiantaram, tiveram as digitais e as retinas escaneadas, recitaram as senhas corretas e a porta, como na entrada da estação, se abriu.

Jim assobiou baixinho. O espaço era uma ode à tecnologia. Tudo parecia muito novo e reluzente, e ele não conseguia imaginar o propósito de nem a metade dos equipamentos. Mesmo assim, toda aquela tecnologia não tinha um aspecto frio e impessoal. Não era nada como os desgastados e conhecidos botões e alavancas da Hipérion, mas pelo menos não pareciam tão assépticos.

Do lado da cama onde ele suavemente deitou Sarah havia um painel iluminado, e do outro, uma cadeira. Acima da cama ficava um monitor, apagado naquele momento. Duas enfermeiras surgiram, movimentando-se com agilidade, e começaram a inserir informações no painel e a conectar Sarah ao monitor superior.

— Me digam o que estão fazendo — disse Jim, e uma das enfermeiras sorriu de forma tão sincera e amável que ele suavizou o tom ainda no meio da frase.

— Claro — respondeu ela. — Vamos monitorar as atividades cerebrais e do corpo como um todo. Também vamos tirar uma amostra de sangue e de tecido, sem machucar. Daremos uma infusão de nutrientes para hidratá-la. E, se você estiver bem, senhorita Kerrigan, fui informada de que o doutor Narud a convidou para jantar.

— Me deixe ver o quadro — pediu ele.

Ela lhe passou o pequeno dispositivo. Raynor tocou na tela e, analisando, não encontrou nada contrário ao que a enfermeira dissera.

— Tudo bem — afirmou, sentando-se ao lado da amada. Um silêncio incômodo se prolongou enquanto a enfermeira preparava Kerrigan. Então a funcionária se abaixou e, com o mesmo sorriso sincero, disse:

— Senhorita Kerrigan, você não deve precisar de mim pelas próximas horas. Mas, caso contrário, é só apertar este botão. Por ora, recomendo que descanse.

Ela abriu o sorriso ainda mais.

— Não conte ao doutor Narud, mas algumas de nós já experimentamos essas camas para tirar uma soneca. Elas são especialmente confortáveis.

O sorriso esmoreceu ao não ser correspondido por Sarah, que só fez um sinal com a cabeça. A enfermeira então se retirou.

Jim cobriu a mão de Sarah com a sua e pigarreou.

— Ouça Sarah. Eu... eu...

Ela levou os dedos aos lábios dele.

— Jim. Shh. Eu sei.

Ele beijou os dedos de Sarah e deu um sorriso torto, mudando de assunto.

— Então... você disse algo quando estávamos na Bucéfalo sobre Narud.

Ele falava baixo. Os olhos verdes de Sarah perderam o foco por um momento, então ela voltou a si.

— Eles não estão ouvindo. Podemos conversar enquanto isso. E sim, eu falei. Estou me sentindo melhor, Jim. Mas esta estação... me faz lembrar o laboratório onde fizeram testes comigo. No tempo da Confederação.

— Bem — ponderou Jim com cuidado —, é um laboratório. Talvez você se sinta assim em qualquer outro laboratório.

— Eu pensei isso, acredite — admitiu Sarah —, mas não é imaginação ou problema de memória. Narud me passa uma sensação psiônica familiar. Não confio nele. Simplesmente não confio.

— Eu também não. A questão é... o que faremos a respeito disso? Você ainda não está recuperada, meu bem. É muito inteligente para não perceber isso. — Ele tocou os tentáculos em sua cabeça. — Ele representa a única chance que temos de descobrir o que aconteceu de fato com você e recuperá-la completamente. Valerian provou ser muito leal, não podemos esquecer isso. Não deu um tropeço até agora. E olha que não faltaram chances para isso.

— Você também confiou no pai dele.

— A princípio, sim — disse Raynor —, mas por enquanto o “Júnior” realmente parece ser diferente, meu bem. Até quando isso vai durar e o que significa, aí eu já não sei.

E era isso. Eles não tinham como saber ou ter certeza de muita coisa. Então ficaram em silêncio, as mãos entrelaçadas, confiantes um no outro.

Porque isso podiam fazer.