StarCraft: Ponto Crítico
Capítulo cinco
Eles vieram; tantos, incontáveis, e todos se lançavam em sua direção. Ela sentiu o bafo quente e a baba em seu rosto, viu fileiras de dentes e o tremular de membros afiados. Ela lutara até sua arma descarregar; foi quando percebeu que nenhuma equipe de resgate estava a caminho, que não receberia qualquer tipo de ajuda. Ela esperava a morte e, em vez disso...
Escuridão... prisão, incapacidade de seguir em direção à liberdade. Mas algo se movia. Dentro de seu corpo, ossos e músculos e tendões se enrolavam, contorciam, se reconstituíam... era pura agonia. Outras mentes tangeram seus pensamentos enquanto ela era reconstruída.
Poder. Tanta força, tantas vidas atreladas à dela, tanto amor...
Amor...
Ela conhecera o amor antes que eles se unissem a ela. Experimentara-o como a simples humana que fora, deitada tranquilamente nos braços de um homem forte, porém gentil, desgastado pelo tempo e com o rosto malcuidado.
James Raynor. Delegado, fora da lei, pai, viúvo. Amante.
Jim...
O breve cessar da dor se esvaiu. Imagens de carnificinas tomaram seu lugar. De incontáveis zergs enxameando por incontáveis planetas, infestando qualquer ser vivo em seu caminho, inclusive ela, inclusive...
Ela podia sentir as asas ósseas se flexionando e esticando, cada extremidade afiada como uma adaga. Sua cabeça pendia, adornada não com fios de cabelo, mas com algo mais pesado, e que se movia por vontade própria. Seus olhos podiam enxergar mais longe que jamais antes enxergaram; sua mente se abrira...
... fora esticada...
... para acomodar muito mais do que ela fora capaz de processar, mesmo com seu treinamento de fantasma. Para saber, sentir e usar um poder inimaginável.
Para matar vidas inumeráveis.
Quantas?
Mares de rostos. Mas um deles se gravara em seu cérebro. Kerrigan nunca a conhecera, mas a vira morrer através dos olhos de seus zergs.
Ela assistira a uma mãe em prantos lutar para salvar a filha de uma tragédia inevitável...
Sim, Sarah matara antes. Mas, a cada vez que tirava a vida de uma pessoa, perdia também uma parte de si. Ela se lembrou de ter feito uma dança da morte, que o jornalista Mike Liberty fora obrigado a presenciar. Aparecendo e desaparecendo, empalando aqui, quebrando um pescoço mais adiante, disparando com sua arma, parecendo estar em todos os lugares ao mesmo tempo. Rostos destruídos, troncos dilacerados. Ela deixara um rastro de morte como se fossem migalhas de pão para Liberty seguir. E, finalmente, ele a encontrara ajoelhada de exaustão.
— Waffles — murmurou.
— O que foi, querida? Está ficando com fome?
Uma voz do passado. Uma voz que, outrora, dissera palavras doces e que ameaçara matá-la em outra ocasião. Tinha que ser do passado, pois ele não poderia estar ali naquele momento...
Waffles. Um dos técnicos que foram mortos durante aquela danse macabre morrera desejando ter comido os waffles oferecidos no desjejum daquela manhã.
Eu sou uma destruidora das coisas ao meu redor.
De repente, os corpos se elevaram e suas faces estavam apodrecendo ou ensanguentadas ou desfiguradas. Não eram apenas os corpos daquele dia, mas de todos os dias em que ela matara, enquanto humana e enquanto Rainha das Lâminas. Todos os homens, mulheres e crianças que pereceram desde o momento em que ela se tornou uma agente fantasma e depois a rainha dos zergs — a mãe dos zergs — levantavam mãos cobertas de sangue para ela; alguns imploravam para que ela devolvesse aquilo que lhes arrancara, outros queriam se vingar por vidas que terminaram cedo demais.
Eles compunham um mar de carne retalhada e sangrenta. Ela observava aturdida enquanto eles inundavam seu campo visual e o espaço além. Dezenas... centenas... milhares... milhões... bilhões...
... e duas — mãe e filha...
Seus gritos de agonia e fúria e medo encheram sua garganta e Sarah Kerrigan deu voz a todos eles.
Os gritos fizeram o cabelo de Jim se eriçar. O belo rosto de Sarah estava contorcido em um ricto de puro terror e tormento, sua boca escancarada e todos os sons de tristeza e fúria transbordando dela.
— Sarah! — gritou Jim, e então a segurou pelos ombros e a sacudiu, primeiro gentilmente, depois com mais firmeza. — Você está salva! Está tudo bem!
Os gritos se transformaram em lamúrias, depois em um soluçar leve tão perdido e desesperador que Jim sentiu que começava a chorar.
— Fale com ela — vociferou Frederick. — Suas ondas cerebrais indicam que ela pode nos ouvir; ela simplesmente não está deixando que nada disso chegue até ela.
Jim contemplou a mulher deitada na cama e fez uma prece em silêncio a qualquer divindade, real ou imaginária, que pudesse estar ouvindo.
— Sarah, meu bem, você se lembra do quanto me odiava quando nos conhecemos?
Mais soluços. Não havia sinais de que ela o compreendera. Jim voltou os olhos para o médico, que acenou para que ele continuasse.
— Você era uma coisa de louco, meu bem. Estava linda. E meus pensamentos me traíram naquela ocasião, não foi?
2500
Antiga Prime. Não era o primeiro mundo a que Sarah Kerrigan, antiga agente fantasma e atual segunda em comando do grupo rebelde liderado por Arcturus Mengsk, fora designada; tampouco era provável que fosse o último. O planeta em si era pior que alguns, melhor que outros. Árido, seco, amarronzado. Sabia-se que seus habitantes não simpatizavam muito com a Confederação dos Humanos. Mengsk acreditava que, com um pouco de incentivo, eles se insurgiriam novamente e tomariam seu mundo das garras da tirana Confederação, reivindicando-o para si. E para seu libertador, Arcturus Mengsk, é claro.
Então, Sarah fora enviada para assegurar que tudo estava se encaminhando para a derrubada do poder. Sua missão de reconhecimento gerou bons frutos. As informações iniciais revelaram que o problema principal era causado por um destacamento da Confederação. Era um Esquadrão Alfa, mas ainda assim era um único destacamento. Não tardou até Kerrigan descobrir que o General Edmund Duke, comandante do Esquadrão Alfa e do cruzador de batalha Norad II, não se encontrava em parte alguma.
Mengsk parecera satisfeito com o relatório e lhe dissera para aguardar em breve a chegada de um módulo de transporte comandado pelo “garoto novo”, antigo delegado e atual capitão James Raynor.
Ela chegara ao ponto de encontro e observou os passageiros saindo do módulo de transporte. Mike Liberty ainda se movia desajeitadamente na armadura e eles começaram a estabelecer o perímetro. Ela decidiu permanecer camuflada, pois queria formar sua própria opinião sobre o tal Raynor. Parte de seu treinamento incluía avaliar o inimigo e, naqueles tempos, todos poderiam ser um inimigo em potencial — até mesmo os que alegavam estar trabalhando para Mengsk.
Raynor era alto, robusto, porém sem músculos em demasia, e seus olhos negros eram rodeados por rugas profundas. Ele conversava amistosamente com os outros e dava tapinhas nas costas de um deles. Sim, ela pensou. Ele aparenta ser exatamente o que era até então — um delegado em um planeta no meio do nada. Mas havia algo a seu respeito... a linha do queixo, a agudeza em seus olhos. James Raynor podia ser de um mundo no meio do nada, mas não era um bronco.
Satisfeita com sua avaliação e ciente de que cada segundo contava, Sarah avançou, removeu seu capacete para refrescar a cabeça e desativou a camuflagem.
Liberty soltou um sorriso irônico ao reconhecê-la, mas ela estava sem tempo para amenidades. Ela se encaminhou até Raynor e o saudou.
— Capitão Raynor — começou. Ele se virou e levantou uma sobrancelha. — Terminei de patrulhar a área e...
Ela estava acostumada ao fato de homens a considerarem atraente. Sarah geralmente respondia com o equivalente telepático de um revirar de olhos e prosseguia com a conversa. Mas aquele homem... as coisas que ele queria fazer com ela... Imagens das mãos dele sobre ela, de seus lábios apertando os dela, as pernas dela entrelaçando-o...
— Seu porco!
As imagens na cabeça dele eram fortes, vívidas e... atraentes. Ela se surpreendeu com sua própria reação e transformou-a em raiva.
Os olhos de Jim se arregalaram.
— Hein?! Eu ainda nem tinha falado nada!
Sarah lhe deu crédito por não negar, mas estava furiosa demais para admitir. Além do mais, por que deveria? Ele era um porco!
— Sim, mas você estava pensando — retrucou. Ela se perguntou por que se sentia tão ofendida. Jim não era o primeiro homem a imaginar aquelas coisas. Em sua primeira impressão, Sarah pensou que ele possuía uma essência de bondade e decência. Claramente, ela se enganara. Ele era como todos os outros.
Um porco.
— Ah, sim, você é telepata — disse ele, dando à palavra... um certo tom indefinido. Havia muitas emoções povoando sua mente e ela não quis tentar decifrá-las. Pelo menos, ele teve a elegância de parecer envergonhado. — Olha, vamos direto ao que nos traz aqui, ok?
— Certo. — Ela respondeu friamente, ainda se perguntando por que estava tão irritada. Como tinha prática, ela se recuperou rapidamente, embora ainda incomodada, e informou Liberty e Raynor sobre a situação. Quando Jim fez um comentário sarcástico sobre as habilidades de Sarah, ela quase mordeu a isca, mas controlou sua raiva. Mais importante que aquilo era o fato de que ela observara outra coisa na missão de reconhecimento: os terranos não estavam sozinhos em Antiga Prime.
— Droga! — exclamou Jim. — Confederados e zergs. Eles parecem estar sempre juntos. Ok, vamos nessa.
2504
A boca de Jim estava seca de tanto falar, de tanto descrever à atormentada Sarah o momento de suas vidas que agora parecia muito simples, quase doce. Ele sabia que a Bucéfalo estivera em combate; mesmo na enfermaria, resguardada no interior da nave, eles puderam sentir. Ele sentira a nave ser atingida. Tudo acontecera enquanto ele falava.
Mas Raynor estava onde ele era mais útil. Conforme falava, o corpo tenso de Kerrigan relaxou ligeiramente. Depois de algum tempo, o coração de Jim palpitou quando algo vagamente semelhante ao velho sorriso de Sarah adejou em seus lábios carnudos. A respiração de Kerrigan abrandou e o médico veio averiguar seu estado.
— Ela está dormindo — disse Frederick. — Ela não está inconsciente... apenas dormindo. — Jim soltou um suspiro de alívio e recostou-se na cadeira, sem largar da mão de Sarah. — Eu não pude deixar de ouvir — continuou. — O que diabos você estava imaginando quando a viu?
— Onde eu fui criado, rapaz, um cavalheiro não conta esse tipo de coisa — retrucou Jim, enquanto procurava forças para mostrar um sorriso cansado ao médico. — Mas aposto que você poderia adivinhar.
Naquele instante, ouviu-se um assobio agudo.
— Sr. Raynor, aqui é Valerian. Por favor, responda.
Jim se levantou, dirigiu-se até o console e apertou um botão.
— Aqui é Raynor. Pelo visto, você e Matt se saíram bem; ou não estaríamos tendo esta conversa.
— Correto. Mas fugir da frota do meu pai custou caro. — A voz transmitia um remorso genuíno. — Eu gostaria de me encontrar com o senhor e com o Sr. Horner a bordo da Hipérion. Temos muito a discutir.
Clique. Claramente, aquilo não fora um pedido, e Jim estava ciente disso. Mas não era um problema para ele — provava que ele não era um prisioneiro confinado à enfermaria com Sarah. Ele não queria deixá-la, mas ela parecia estável e em boas mãos. Jim a contemplou por mais um momento, depois desviou os olhos para o médico.
— Cuide dela — disse. — Cuide bem dela.
Jim dera tanto para encontrá-la. Para salvá-la. Ele se voltara contra Tychus por ela. Não podia perdê-la.
Quando Raynor e Valerian adentraram a ponte de comando, Matt, que conversava com Rory Swann, o engenheiro chefe da Hipérion, pareceu aliviado.
— É bom revê-lo, senhor — disse Horner. Ele meneou friamente a cabeça para Valerian, por educação, e dirigiu a maior parte de sua atenção a Raynor.
— Pode falar — pediu Raynor.
Matt acatou a ordem e descreveu a batalha de forma rápida e concisa. Jim observava Valerian com atenção enquanto escutava. Valerian ainda possuía a mesma expressão familiar e tranquila, mas parecia diminuído por tudo o que sucedera. Podia-se perceber uma centelha de dor em seu belo rosto quando Matt revelou a Raynor que apenas dois outros cruzadores de batalha além da Bucéfalo se salvaram. Raynor não disse nada; apenas acenou com a cabeça para demonstrar que compreendia. Mengsk era impiedoso, mas não idiota. Se precisasse das naves incapacitadas e da tripulação a bordo, então ele os pouparia. Caso contrário...
— Bem, “Júnior” — disse Jim a Valerian, aparentando mais casualidade que empatia —, você encontrou os artefatos, os reuniu e eles funcionaram. Parece que Sarah voltou a ser humana. O próximo passo era levá-la a alguma instalação da Fundação Moebius para que seus cientistas a examinem.
Valerian precisou de meio segundo a mais do que deveria para responder, e Raynor viu o quão perturbado ele realmente estava.
— Hum? Ah, sim. O Dr. Emil Narud será uma ajuda valiosíssima na atual conjuntura.
— Você sabe que temos um cientista aqui, certo? — acrescentou Horner. — Um cientista bom. Egon Stetmann. Pode ser que não precisemos de Narud.
As sobrancelhas douradas de Valerian se juntaram.
— Eu não conheço esse Dr. Stetmann, mas garanto que não há na galáxia alguém que entenda tão bem de fisiologia zerg como o Dr. Narud. Seria tolice não contatá-lo o mais rápido possível.
— Vejamos o que Stetmann tem a dizer antes de tomarmos uma decisão — disse Jim. Ele mexeu no controlador e o rosto ávido e anguloso de Egon apareceu. — Egon, como está o laboratório?
— Um pouco bagunçado, mas nada que não possamos arrumar — respondeu. — Qual é o plano?
— Bem, ainda estamos decidindo — confessou Jim. — Você deve ter ouvido que os artefatos dos xel’nagas funcionaram.
O semblante de Stetmann se iluminou.
— Ah, sim, ouvi! Isso é fantástico! E tão empolgante! Quando tivermos a chance de estudá-los melhor e, é claro, de conversar com a Rai... quero dizer, com Kerrigan, é claro... isso vai beneficiar tanto a ciência que...
— É sobre isso que quero falar com você — interrompeu Jim. Se deixasse, Egon tagarelaria por horas. — Nosso plano original era levá-la à Fundação Moebius de Valerian. Mas o pai dele dificultou essa tarefa consideravelmente.
Egon franziu o cenho.
— Ah, certo... Entendo como isso pode ser um problema. É ruim.
— Você não acha que dá conta? Kerrigan é humana, mas — ele fez uma careta, pois odiava admitir — não totalmente. Ela vai precisar de cuidados, de monitoramento e de exames para que saibamos a melhor maneira de tratá-la.
O rosto de Egon desbotou visivelmente.
— Eu? — Sua voz jovial subiu um tom, como um guincho. — Senhor... eu não acho que seja uma boa ideia. Digo, eu entendo um pouco sobre os zergs, mas...
— Você entende pra caramba, Egon.
— Bem, embora isso seja verdade... bem, isso está bem fora da minha alçada. Obviamente, se não tivermos outra opção, farei o melhor que puder, mas... senhor, eu odiaria perdê-la. E não só porque o senhor viria atrás de mim mais furibundo que um zerg. Eu não sei se seria capaz de lidar com, hum, emergências que podem surgir.
Considerando que Egon tendia a exagerar um tanto as suas capacidades, Jim acreditou nele ao perceber a incerteza — e o desconforto — aparentes no jovem cientista.
Além do mais, ele estava certo. Jim iria atrás dele como um enxame de zergs se alguma coisa acontecesse com Sarah.
— Então acho que faremos outra visita a Narud — concluiu. Não fazia muito tempo desde que os Saqueadores tinham salvado Emil Narud e muitos de sua equipe da Rainha das Lâminas. Jim não gostava dele antes, e agora, gostava ainda menos.
— Eu sei que é difícil para o senhor, Sr. Raynor, mas eu garanto que Sarah não poderia estar em melhores mãos. Nós...
— Capitão Horner! — gritou Cade. — Naves se aproximando! A Supremacia nos encontrou!