StarCraft: Ponto Crítico

Christie Golden · Capítulo 14 de 29

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StarCraft: Ponto Crítico

Capítulo quatorze

 

Jim, Matt e Valerian estavam sentados em silêncio no levitraz enquanto a nave se afastava da pilha de lixo caótica que era o Porto do Enforcado em direção ao espaço morto, rochoso e desolado de Paraíso.

— De um buraco infernal para outro — murmurou Matt enquanto Jim procurava um local seguro para pousar fora da cidade.

— Ah, mas você tem que admitir, os buracos infernais são bem variados — comentou Valerian, atrás dos dois Saqueadores.

— É verdade — disse Jim. — Esse aqui é um pouco aberto demais para o meu gosto. Por que Mira escolheu este lugar, Matt?

Matt olhou para ele, incomodado.

— Você acha que eu sei? Eu não entendo nada do que aquela mulher faz ou pensa.

— Bem, parece que o que ela faz e o que ela pensa nos trouxeram bem longe — comentou Valerian.

Jim escolheu um local sob uma rocha, não muito longe dos prédios velhos que formavam a cidade.

— Eu não sei — disse ele. — Parece um lugar bem estranho. Mas se Mira quisesse nos entregar, já teria feito isso há muito tempo.

Jim guiou a nave e pousou-a suavemente. Todos saltaram, e seus pés afundaram um centímetro na areia vermelha e macia. A sensação e o brilho avermelhado remetiam a Char, e Jim sentiu-se desconfortável. Aquilo era passado. Sarah fora resgatada e Narud, como Valerian afirmava, iria ajudá-la a melhorar. Ele precisava se concentrar nisso, não no passado, e não ficar relembrando que tinha assassinado o amigo que uma vez se sacrificara por ele.

Ele sentiu o olhar de Matt, mas balançou a cabeça: Estou bem. Matt assentiu.

— Tem um bar na cidade — explicou Matt.

— É melhor ser mais específico, Matt — pediu Jim. — Tenho certeza de que há mais bares nesse lugar do que pulgas num vira-latas.

— Esse é o primeiro pelo qual nós vamos passar. Costumava ser um ponto de venda de drogas, mas Mira limpou o lugar. Ainda assim, aposto que não servem vinho do porto.

— Eu não vim aqui para beber — respondeu Valerian, sem morder a isca. Jim não tivera tempo de perguntar como tinha sido a “expedição” deles ao Porto do Enforcado, mas sentia que parte do ressentimento de Matt com relação ao filho do imperador havia sumido. Isso era bom. Ele também não gostava muito do garotinho engomado, mas no momento eles tinham um objetivo em comum. Contanto que ninguém soubesse que o nome dele começava com Valerian e terminava com Mengsk, o disfarce deles serviria bem.

O ar estava quente, só com uma leve brisa, e Jim estava feliz por isso. Ele realmente não queria aquela areia fina esfregando nele enquanto estava vestido só com calças, camisa, botas e uma jaqueta. Ele levava nada menos de três pistolas consigo, duas bem à vista. Matt e Valerian estavam equipados do mesmo jeito. Caminharam sem conversar até a borda da cidade.

Barracos improvisados circundavam a cidade de Paraíso, assim como cabanas claramente mais antigas. O vento mudou de direção, e Jim quase engasgou com o cheiro de urina, fezes e corpos sujos. Ele viu famílias inteiras abraçadas, olhando-os com dúvida, medo ou asco ao se aproximarem.

— Parece que um monte de gente chegou aqui de repente — comentou Jim em voz baixa.

Matt abriu a boca para falar, mas Valerian foi mais rápido.

— Refugiados. Aparentemente, Mira está fazendo o que pode para ajudar.

— Não é muito — respondeu Jim. Não era uma crítica, apenas um comentário. Eram simplesmente pessoas demais.

— Tudo bem, Mira disse que alguns dos homens dela estariam na multidão, nos procurando, mas nós não saberíamos quem são. Ela avisou que algumas pessoas aqui estão simplesmente furiosas, frustradas e procurando um alvo pra descontar a raiva. Devemos deixar as armas visíveis.

Jim deu uma pequena risada. Ele já tinha feito isso antes de qualquer aviso. Valerian, no entanto, apressou-se para obedecer.

Jim sentiu-se observado. Alguns observadores ocultos, outros declarados. Ele encarou friamente os olhares mais furiosos e simplesmente ignorou os outros. Valerian, por sorte, parecia estar caminhando de forma a acompanhar os passos confiantes de Jim e Matt.

As construções eram parecidas com as que Jim conhecera quando criança: casas pré-fabricadas, mas de qualidade muito inferior às de Shiloh. Muitas já haviam caído aos pedaços e estavam escoradas com pedras. Havia um ar de expectativa e desespero em toda parte.

— Aquela construção, segunda da esquerda — sussurrou Matt, e eles foram na direção da estrutura dilapidada. Não havia indicação de que tipo de negócio ocorria lá, e Jim ficou tenso ao entrar, empurrando a velha porta.

Um perfume doce e inebriante permanecia no ar, anunciando àqueles que o conheciam a antiga natureza do lugar. Porém, parecia claro que o único vício oferecido recentemente no lugar era o do álcool. Havia apenas algumas mesas e cadeiras espalhadas. Clientes estavam curvados sobre a mesa, cuidando de suas bebidas. Matt foi até o bar. O barista, um careca tatuado com um espesso bigode, olhou-os por um momento.

— O que vai ser? — perguntou ele com um tom ríspido, quase desafiador.

— Scotty Bolger’s Old No. 8 — respondeu Jim.

— O mesmo pra mim — respondeu Valerian.

— Cerveja. Duas. Estou com sede — respondeu Horner.

Exatamente como deveriam.

O barista olhou Horner desconfiado, mas o código das bebidas, pedidas na ordem exata, não era realmente um pedido, ou sequer dirigido a ele. Outra pessoa estava escutando. Eles não se viraram para ver quem tinha se levantado de uma das cadeiras às suas costas.

Os dois copos e as duas garrafas foram colocados sem cerimônias na bancada. O uísque derramou um pouco, mas o barista não se esforçou para limpar. Ele certamente não é o Cooper, pensou Jim enquanto pegava o copo. Mesmo na luz escura era possível ver marcas de dedo nele. Jim deu de ombros e virou a bebida, engolindo-a de uma vez. O álcool mataria qualquer coisa insalubre, e a ardência na garganta era muito bem-vinda. Ele pediu uma segunda dose, depois uma terceira.

Depois de alguns momentos eles se viraram e foram para uma das muitas cabines vazias.

— Por enquanto, tudo bem — concluiu Jim.

— Concordo — comentou Matt. — Aliás, Valerian, algum daqueles cavalheiros ali no canto parece familiar?

Valerian fez uma careta como se sentisse dor e massageou o pescoço, virando o rosto discretamente durante o gesto. Depois, virou de volta para a mesa.

— Crane, se não me engano. Estou vendo que Mira realmente colocou alguns protetores no lugar.

Jim pegou uma das cervejas de Matt. Horner só estava fingindo beber mesmo. De repente, uma figura entrou na cabine ao lado de Valerian. Um capuz escondia seu rosto, mas quando ele levantou a cabeça, Jim reconheceu o bigode branco e as costeletas.

— Olá novamente, doutor — disse Jim para Emil Narud.

— Se não se importarem, quanto antes sairmos daqui, melhor — confidenciou o doutor.

— Concordo, mas não podemos sair todos juntos. Dá na vista — disse Horner.

— Então deixem-me usar esse tempo para explicar o máximo que puder antes de partirmos — disse Narud. Todos mantiveram as vozes baixas para evitar curiosos. Ele se dirigiu a Jim. — Eu sei que você não vai gostar disso, mas eu preciso realizar alguns testes na cobaia. Ela ainda possui o agente mutagênico zerg no corpo, como pode ser evidenciado pela transformação incompleta que Valerian me descreveu. Nós precisamos determinar se ela é humana o suficiente para confiarmos nela, ou se seremos forçados a contê-la para sua própria segurança e dos...

— Não.

Narud olhou para Jim, confuso.

— Você precisa entender que...

— Você é quem precisa me entender. O que eu estou dizendo é que você não vai realizar testes para decidir se a tratará como uma pessoa ou como um animal. E não tente fingir uma atitude superior comigo. Tenho certeza de que você não esqueceu como salvamos o seu couro em Tyrador VIII.

Narud pareceu desconfortável.

— Ah, não, claro que não.

Se não fosse pelos Saqueadores, a Rainha das Lâminas teria obtido a informação essencial sobre o artefato que a transformara em humana novamente. E poderia ter destruído os cientistas do planeta como um pequeno efeito colateral.

Valerian falou calmamente.

— Com os danos à nossa nave e as baixas que sofremos, já estamos perigosamente abaixo de nossa cota de suprimentos médicos. Mira nos ajudou com alguns reparos, mas qualquer coisa além do mínimo acabaria entregando o nosso disfarce. Precisamos ir a uma base secreta Moebius para obter proteção e os cuidados de que ela precisa.

— Eles estão certos — comentou Matt. Jim olhou para ele com raiva, mas Matt simplesmente deu de ombros. — Eu posso mostrar a lista de suprimentos e buracos na nossa nave se você quiser, senhor. Eu não gosto disso mais do que você, mas não podemos permanecer aqui. Mira já fez muito por nós, e eu não quero que nada de mal aconteça a ela só por ter nos ajudado.

Jim olhou para a garrafa e acendeu um dos cigarros do maço que ele sempre levava na manga enrolada. Enquanto fumava, pensou em Sarah deitada na cama da enfermaria, em sua falta de vitalidade, sem vontade de se alimentar, assustadoramente frágil comparada com a mulher que um dia fora tão ágil e atlética.

Ele também não queria arriscar a vida de Mira. Jim soltou fumaça pelo nariz e encarou Narud.

— Você não vai fazer nada com ela, sequer olhar para ela, sem eu estar por perto — ordenou. Ele falou baixo, mas com uma vontade que mostrava o quão mortalmente sério estava sendo. — E se ela não for capaz de recusar o tratamento, a palavra final é minha. Se não concordar com isso, nós encontraremos outra maneira de ajudá-la. Entendido?

Narud abriu a boca para responder.

Sarah Kerrigan abriu os olhos. Havia algo de errado. Jim... Jim estava em perigo. Ou seria só um sonho? Com tantos remédios e pesadelos, fora os buracos em suas lembranças, Sarah não tinha mais certeza do que era verdade. Ela lutou para ficar alerta apesar da sonolência induzida pelas drogas. Finalmente conseguiu falar com alguma dificuldade.

— Doutor...

Yeats foi para o lado dela imediatamente.

— O que foi, Sarah?

— Jim... Ele não está aqui... Ele não está na Hipérion, não é?

— Não, não está. Ele está com o Capitão Horner e com o Senhor V.

Um copo d’água voou pela sala parecendo ter vontade própria. Sarah lutou para se levantar, livrando-se das cobertas e colocando os pés descalços no chão de madeira.

— Ele está em perigo... Chame-o de volta, chame-o de volta agora! Eles querem capturá-lo!

Swann não gostava de ficar no comando. Ele gostava de trabalhar com ferramentas, sujando as mãos — a mecânica e a biológica. Gostava de consertar coisas e trabalhar com pessoas que pensavam exatamente como ele. Ficar parado na ponte da Hipérion enquanto ficavam escondidos em segurança atrás de uma pilha de lixo o deixava infeliz. Por que Raynor e Horner precisavam ir juntos ver esse tal Narud? Apenas um deles não poderia ter ido enquanto o outro comandava a Hipérion para que ele não precisasse ficar lá e...

— Senhor — chamou Marcus —, acho que estamos sendo atacados!

Nenhuma sirene tinha disparado, nenhum alerta tinha soado. Swann apertou os olhos.

— Você “acha”? — rosnou ele. — E por que acha isso? Não estou ouvindo nenhum alarme!

— Porque alguém está atirando nos destroços!

Ainda assim, era tão absurdo que Swann só franziu a testa.

— Senhor... os destroços que estão nos...

— ... escondendo — concluiu Swann. — Maldição! Fomos descobertos. Chamem o capitão da Bucéfalo agora!

A imagem do capitão Everett Vaughn apareceu na tela do console.

— Pois não, Sr. Swann?

— “Pois não”? Estamos sendo atacados, seu idiota!

— Sim, eu detectei atividades na superfície — respondeu Vaughn calmamente.

Swann piscou, nervoso.

— Alguém está atirando contra os destroços que estão nos escondendo, Vaughn — repetiu ele, falando devagar e com precisão. — O que mais isso pode significar?

— Nós identificamos as naves como pertencendo aos mercenários — continuou Vaughn. Ele permanecia inabalável. — É possível que seja uma briga envolvendo os indivíduos na superfície e que nós ainda estejamos ocultos.

— O quê? — A voz de Swann elevou-se a um grito furioso. — Você ficou maluco? Nós precisamos sair daqui agora! Contra-atacando, se for necessário.

Vaughn levantou uma sobrancelha.

— A Hipérion e a Bucéfalo são cruzadores de batalha, Sr. Swann. Antigas naus capitânias da Supremacia. As naves que teoricamente estão nos atacando são Miragens, e estão em número bem reduzido. Ao que me parece, elas não representam ameaça, mesmo que nós sejamos seus alvos. Você caça, Sr. Swann?

— Ahn? — hesitou Swann, estranhando a pergunta.

— O que eles estão fazendo é chamado de “espantar a presa”. Talvez eles nem saibam que estamos aqui. Se fugirmos agora, perderemos qualquer chance de nos escondermos neste mundo. Eu acho que você está dando crédito demais a eles.

Uma veia pulsou na testa de Swann. As palavras se amontoavam em sua garganta com tanta violência que ele engasgou e teve que ficar quieto.

— Tenho certeza de que, depois de tanto tempo como rebelde — continuou Vaughn —, você se tornou hipersensível ao risco de ser descoberto. Além do mais, eu tenho minhas ordens e, até que sejam alteadas pelo Príncipe Valerian, usarei meu bom-senso, que no momento está me mandando permanecer aqui.

Aquela foi a gota d’água. Uma explosão de fúria expeliu as palavras que estavam presas na garganta de Swann.

— Seu idiota! Você não percebeu ainda? A maior parte da sua frota foi despedaçada, você perdeu tripulação a torto e a direito e ainda fica aí sentado falando merda sobre esperar seu Príncipe Encantado e histórias de caça! Vaughn, todos nós somos rebeldes agora! E, como rebelde, quando sou atacado, eu reajo! Você pode fazer o que quiser.

Swann deu um murro no console com tanta força que quase o quebrou. A imagem irritante de Vaughn desapareceu.

— Cade! Saia da cobertura e comece a contra-atacar! E avise ao capitão e ao comandante que eles também devem estar correndo perigo e que nós vamos dar o fora daqui para o ponto de encontro de emergência! Aliás, contate-me diretamente com ele. — Ele sentia que só poderia transmitir a urgência da situação pessoalmente.

— Sim, senhor! — Marcus e os outros tripulantes responderam, parecendo bastante aliviados.

— Com todo respeito — começou Narud, sem soar nem um pouco respeitoso —, eu não creio que vocês estejam em posição de...

Uma voz áspera soou no ouvido de Jim.

— Jim! Estamos sendo atacados por um bando de mercenários! O capitão do seu amigo Valerian resolveu ficar parado, mas nós vamos dar o fora daqui. E se eles nos encontraram, devem ter encontrado vocês também!

Narud ainda estava falando, mas Jim parou de ouvir no instante em que Swann começou a falar.

— Merda — exclamou Jim, interrompendo os protestos de Narud. — Vamos sair daqui. — Então respondeu aos olhares curiosos com apenas uma palavra: — Swann.

— Opa... — disse Matt, usando sua versão menos expressiva de “merda”. Valerian e Narud simplesmente se levantaram casualmente e foram até a porta. O homem que Horner e Valerian identificaram como sendo um soldado de Mira, Crane, levantou-se e caminhou com eles. Outro homem fez o mesmo.

— Nós fomos avisados de que mercenários estão atacando a Hipérion — falou Matt em voz baixa. — Avise Mira e...

— Eu acho que isso não vai acontecer — respondeu Crane.

Jim sentiu o cano de uma arma nas costas.