StarCraft: Ponto Crítico
Capítulo nove
Uma hora mais tarde, como Mira prometera, um pequeno levitraz veio buscar Jim e Sarah. Jim usava roupas discretas e amarrotadas — como era seu costume — e carregava Sarah enrolada em um cobertor, tomando cuidado para cobrir as estranhas gavinhas que pendiam da cabeça apoiada em seu ombro. A carcaça do levitraz parecia já ter vivido dias melhores, mas o interior era muito bem conservado, mostrando apenas algumas marcas de uso. Jim gentilmente acomodou Sarah num dos bancos e certificou-se de prender bem a coberta, especialmente em volta da cabeça. Ela estava acordada, mas ainda dopada pelos medicamentos.
— Aonde estamos indo? — perguntou Raynor ao piloto.
— Para fora da cidade. O refúgio é bem protegido. Você e sua amiga podem ficar despreocupados.
Jim cerrou os dentes. Uma ideia cruzou sua mente, mas ele fez questão de rechaçá-la. Não podia ser o mesmo lugar.
Em poucos instantes, a nave decolou e partiu, deixando para trás a cidade ferro-velho. Do ar, podiam-se ver os tons metálicos logo dando lugar ao verde da grama e ao marrom da terra, acompanhados de uma extensa faixa azul que sinalizava a existência de um lago. Como da última vez que estivera ali, Raynor ficou maravilhado — a impressão de que o planeta inteiro era uma lata de lixo era falsa.
Jim Raynor arregalou os olhos assim que viu o edifício. A aparência já não era tão boa quanto ele se lembrava, mas com certeza…
— Esse não é a propriedade de Scutter O’Banon?
O pilotou soltou uma gargalhada.
— Claro. Como você sabe?
— Nós… Eu já estive aqui. Muito tempo atrás.
Os dois já tinham passado por problemas antes — afinal, quando é que não estavam em encrenca? —, mas Jim sabia que o homem que ele era então não sabia o quão sua vida era livre de problemas e fardos.
Incluindo o fardo de ter assassinado seu melhor amigo.
Ele começou a sentir que não deveria ter retornado. Um único fantasma o aguardava no Porto do Enforcado, mas já era mais que suficiente.
— Não parece tão diferente daqui de cima, mas lá embaixo você vai ver que muita coisa mudou... — disse o piloto, então completou — Mira não é o O’Banon.
— Agradeça a Deus por isso — concluiu Jim, rindo por entre os dentes e sacudindo a cabeça. Então Mira Han, dos cabelos de algodão doce, tinha tomado o poder depois que Ethan Stewart, sucessor de O’Banon, fora transformado em zerg. Raynor não fazia ideia de que ela tivesse tanta influência, e a julgar pelo modo como o piloto falou, era assim que Mira preferia. Subitamente ele se sentiu muito mais seguro e confiante nos cuidados que Sarah receberia.
A proteção do lugar ainda era a mesma, mas as piscinas estavam cheias de terra, e os jardins e pomares tinham sido abandonados, deixados para morrer. De cima, a mansão parecia a mesma, apesar de o gramado cuidadosamente aparado ter ficado no passado.
O campo de pouso ainda estava lá, e para a surpresa de Jim um carro já os aguardava; o mesmo modelo terrestre antiquado de sempre. Os cabelos rosa-shocking da motorista foram uma surpresa ainda maior.
Enquanto ele ajeitava Sarah e se sentava, Mira virou e sorriu.
— Você não esperava que fosse eu! — cantou.
— Não mesmo. — Jim ajeitou o cobertor em volta de Sarah novamente. Ela ainda estava sedada, mas o efeito das drogas logo passaria. — Não esperava nada disso. Você enganou todo mundo direitinho, Mira. Ou devo te chamar de Sra. Chefona?
— Não se você tem algum apreço por essa sua carcaça, James. — Sentado ao lado dela estava Matt, que quase parecia à vontade e satisfeito. Mira prosseguiu: — Você já esteve num veículo desses antes?
— Sim — respondeu Raynor. — Neste mesmo lugar.
— Ah, então você conheceu o finado Scutter. Talvez o falecido Ethan.
Mira, que não parava de surpreender Jim, dirigia o antiquado veículo com maestria, conduzindo-os suavemente por uma estrada comprida e bem pavimentada. As árvores pareciam as mesmas desde a última vez que Jim Raynor estivera ali; uns poucos anos, afinal, não fariam tanta diferença.
— Eu conheci O’Banon. Não que guarde boas lembranças… Na verdade, fico feliz por você ter tomado o lugar dele.
— Porque eu estou do seu lado?
— Sim — admitiu Raynor —, por isso e porque, francamente, você é uma pessoa muito melhor do que ele jamais poderia ser.
Os olhos dela buscaram os dele no retrovisor e os encontraram, sombrios.
— Obrigada, James.
Tentando dar à conversa um rumo mais ameno, Jim perguntou:
— Ei, e o Randall? Ainda está na área? — Phillip Randall era o mordomo de O’Banon. Elegante, altivo, cabelos grisalhos. Olhos azuis e profundos como o céu. Nada parecia surpreendê-lo; nem a aparência amarrotada de Jim e Tychus, nem a situação quando o amigo pediu que o mordomo lhe arranjasse umas mulheres. Daquela vez, Tychus estava brincando, mas Randall o levara bem a sério.
— Já ouvi muita coisa sobre Phillip Randall — disse Mira —, mas ele também já era. Você sabia que ele era um assassino?
Jim e Matt trocaram olhares. Subitamente a precisão com que Randall se movia e o olhar aguçado ganharam um novo significado na mente de Jim Raynor. Uma frase dita por Scutter O’Banon num acesso de fúria pipocou em sua mente: Cacete, seus putos, vocês têm sorte do Randall estar de folga hoje, ou estariam estripados feito porcos no chão a essa altura. Jim sentiu um sobressalto; na época ele achara que era uma piada.
— Hum, não, não fui informado disso. Achava que ele era apenas um mordomo muito competente.
— Bem, isso também. Aqui haverá médicos para ajudar a cuidar da sua… mulher… Mas vocês vão ter que cozinhar e cuidar da limpeza.
O carro encostou em frente à mansão. Jim surpreendeu-se com a acuidade das lembranças que tinha do lugar. Kerrigan, ainda zonza, ia em seus braços enquanto ele era guiado por Mira Han até a entrada. Ela digitou um código e as imensas portas se abriram.
Do lado de dentro, a realidade era bem diferente da memória de Jim. No tempo de Scutter, o piso de madeira antiga estava sempre brilhando e cuidadosamente encerado, e as paredes eram cobertas por troféus de caça. Agora havia um ar de, se não ruína, ao menos negligência. A maior parte dos bibelôs que adornavam o ambiente — antiguidades de valor inestimável, mas nada mais que futilidades dispensáveis para Jim — não estava mais lá. Nem as cabeças de animais, o que era uma melhoria significativa.
— Eu não vivo aqui — disse Mira. — É só um lugar para as pessoas se esconderem quando precisam.
Pensar na preciosa mansão de Scutter O’Banon transformada em esconderijo fez com que Jim sacudisse a cabeça. Era maravilhoso.
A madeira velha rangeu sob os pés deles enquanto cruzavam a sala e subiam por uma escadaria curva. No andar superior, Jim sentiu um sobressalto — ele e Kerrigan ficariam no mesmo quarto em que Tychus ficara.
Pela segunda vez ele desejou não ter vindo.
Mira enfiou a mão num dos bolsos do colete e tirou uma chave. O quarto era espaçoso, exatamente como ele se lembrava; mas como em todos os cômodos por onde passaram, a maior parte da decoração já fora vendida. A luz entrava pela janela, agradável como sempre, e a cama ainda era a mesma: enorme, ostentando um suntuoso dossel e muito confortável, ou assim Jim esperava.
Assim, de súbito já não importava a Jim que aquele quarto também servira de refúgio para Findlay. Era um lugar seguro para a mulher que amava; um lugar onde ela poderia descansar e, se tudo desse certo, se recuperar. Jim percebeu que os criados-mudos dos quais se lembrava tinham sido trocados por mesas médicas portáteis.
Dois homens vestidos de branco entraram com a expressão de superioridade típica de alguns profissionais da área médica. Ajeitando Sarah nos braços, Raynor disse:
— Imagino que possa confiar na confidencialidade entre médico e paciente, certo?
Os médicos se entreolharam. Um adiantou-se em responder:
— Trabalhamos para Mira Han, mas nosso principal compromisso é com o paciente.
— Isso é um sim? — Jim queria ouvir da boca deles. Sarah era importante demais.
— Sim — respondeu o outro. — Também quer por escrito? — completou sarcasticamente.
— Na verdade, seria ótimo — respondeu Jim enquanto caminhava até a cama e deitava Sarah com todo o cuidado.
Matt parecia um pouco preocupado. A brusquidão de Jim poderia ofender Mira. Mas, em vez disso, ela gargalhou.
— Ah, James, sua rudez é adorável. É uma razão pelas quais sou sua fã. Sei sempre exatamente o que esperar de você.
— É assim que pretendo manter as coisas — respondeu ele com um sorriso genuíno. — Fico realmente agradecido pelo que está fazendo.
— Eu sei. Espero que Matthew e o encantador Sr. V também fiquem. Bem, agora vou deixar você e sua amiguinha com os médicos. Espero que eles possam ajudá-la. Se precisar de algo, fale comigo por meio de Matthew. — E, virando-se para o marido, prosseguiu: — Quer vir numa viagem bem longa comigo? Ainda temos alguns lugares bonitos e mais discretos por aqui, sabe.
— Não temos que nos encontrar com o Sr. V? — respondeu Matt rapidamente. — Você prometeu disponibilizar um canal seguro para ele.
— Ah, sim, prometi. Hum, talvez ele esteja um pouco nervoso a essa altura. Sim, vamos cuidar dele antes. Depois damos nossa voltinha.
Após enlaçar o braço no dele com firmeza, Mira saiu do quarto arrastando Horner. Os médicos voltaram as atenções para Sarah. Um deles fez menção de desenrolar o cobertor, mas Jim agarrou-o pelo pulso:
— Lembre-se da sua promessa. Confidencialidade.
— Claro — retrucou o médico, um tanto irritado.
Jim soltou sua mão, afastou-se e viu o homem se surpreender quando os cachos de aparência artrópode se revelaram por baixo do cobertor. Os dois médicos o encararam.
— Sim, é ela — anunciou Jim.
— Você trouxe a Rainha das Lâminas pra cá? — disse um dos médicos, em choque.
— Não. Eu trouxe Sarah Kerrigan. E vocês vão dar a ela os melhores cuidados que já deram a alguém.
Não pela primeira vez, Jim estremeceu ao ver Sarah tão fraca. Ele sempre se lembrara dela como uma mulher forte, poderosa, fosse como ela mesma ou sob a alcunha de Rainha das Lâminas. Vê-la em ação era assistir a um balé de armas, músculos e mente; um poema de violência precisa, objetiva. Ela fora treinada para matar, mas ele sabia o quanto aquilo a atormentava. Quando ela podia cumprir seus objetivos sem se tornar um anjo da morte, era esse o caminho que escolhia. Jim compreendia perfeitamente. Ele fizera a mesma escolha. Aquilo era algo que Mengsk jamais compreendera.
Talvez por isso Jim e ela funcionassem tão bem juntos — dois matadores que odiavam matar.
2500
Enquanto se aproximavam da única lua de G-2275, um imenso gigante gasoso, Jim perguntou:
— Não tem nada que indique que alguém more aqui, tem?
Sarah lançou-lhe um olhar divertido.
— Era o que dizia o relatório, Jim.
— Eu sei disso, mas é diferente quando você vê com os próprios olhos.
Ela arqueou uma das sobrancelhas vermelhas e virou-se para a tela, que mostrava uma lua absolutamente banal, orbitando um planeta banal. Não havia qualquer indicação de que um dos maiores polos tecnológicos da Confederação estivesse sob sua superfície.
Sarah tinha repassado todas as informações sobre o lugar com Raynor, Mengsk e Mike Liberty mais cedo. Depois da vitória em Antiga Prime, Mengsk estava eufórico com seu novo brinquedo; o emissor psi permitira que os rebeldes e a maior parte da população civil fugissem com os Filhos de Korhal. Os confederados que sobreviveram ao ataque zerg pereceram em seguida, durante a limpeza promovida pelos protoss. Mas novos relatórios informavam que os golias, mechs andarilhos de quatro metros de altura que transformavam homens em gigantes aterradores, estavam sendo adaptados e aprimorados.
Depois de declarar abertamente que não tinha nenhum interesse em se incumbir novamente do emissor psi, por mais bem-sucedida que tivesse sido, Kerrigan conseguiu convencer Mengsk de que obter os planos dos golias aprimorados era um caminho muito mais viável, de resultados mais amplos e de igual eficiência tática, com o que ele por fim concordou. A vantagem que os golias davam à Confederação podia parecer irrisória a curto prazo, mas era letal.
Sarah sabia até os lugares mais prováveis onde os tais planos poderiam estar.
— Já estive lá, mais ou menos um ano atrás — disse ela.
— Fazendo o quê? — perguntou Jim sem pensar, e logo em seguida sentiu-se mal diante da resposta, um olhar fulminante que dizia: o que você acha?
Kerrigan prosseguiu.
— Eles mudam os códigos de segurança religiosamente, claro, mas usam um algoritmo específico para gerá-los. É complicado, mas eu sei de cabeça. Podemos passar por ele sem problemas.
— Isso soa idiota — disparou Mike enquanto coçava o queixo pensativamente. — Quem aprender essa fórmula pode entrar lá quando bem entender.
— Não subestime a arrogância dos que julgam estar acima de falhas, Mike — replicou Mengsk. — Estão todos provavelmente ocupados demais dando tapinhas uns nas costas dos outros para poderem pensar sobre perigos reais e iminentes.
— E não subestime a engenhosidade dos tolos — ironizou Jim. Sarah sorriu maliciosamente, como ele esperava. Jim continuou:
— Então, Sarah, você já realizou uma, ahm, missão lá. Acha que eles deram um trato na segurança?
— Sem dúvida — respondeu Kerrigan —, mas os perfis psicológicos deles indicam que não mudaram o algoritmo. Contudo, é muito provável que tenham solicitado mais soldados que os que estavam lá para me impedir da última vez.
Como sempre, ela estava certa em todos os itens. Os desgraçados arrogantes nem se incomodaram em trocar o algoritmo. Obter a permissão para chegar às docas foi como tirar doce de criança e, uma vez lá, o fora da lei e a fantasma passaram facilmente pela equipe de serviço no atracadouro e pelos dois soldados que, de extremamente entediados, em um segundo passaram a extremamente mortos.
A dança de verdade teve início logo em seguida.
Havia soldados que tinham de ser neutralizados. Se fossem ressocializados, e provavelmente eram, não parariam de lutar até estarem mortos. Sarah e Jim perceberam isso e, sem dizer uma palavra, deram início à matança em perfeita sincronia. Apesar de sombria, essa parte da dança era tão bela quanto as outras.
Por terem usado um código válido, sua chegada não disparou alarmes. Sarah se lembrava da planta da estação, e por isso foi na frente, o corpo curvilíneo e os belos cabelos ruivos desaparecendo no ar, esvanecendo e transformando-se em uma arma invisível. Jim esperou que ela sumisse e, depois de contar até cinco, disparou contra a primeira soldado mais à frente. Ela caiu, mas seus dois companheiros revidaram. Um ergueu uma das mãos e abriu a boca para falar.
Ele morreu antes de proferir uma sílaba. Sarah o atacou pelas costas e um buraco apareceu no peitoral do traje de combate. O soldado que restava começou a se virar, mas foi arremessado pelo corredor, chocando-se contra um anteparo. De costas, debatendo-se como uma tartaruga, o soldado esforçava-se para levantar. Sarah materializou-se em seguida e deu fim aos esforços do soldado, sua silhueta azul e branca numa postura tensa e firme, uma mecha de cabelo caindo-lhe sobre os olhos. Ela era mesmo uma arma letal, capaz de liquidar vários oponentes de uma só vez e silenciá-los piedosa e letalmente.
Seus olhos se entrecruzaram e algo se transmitiu entre eles. Um tipo de aquiescência, cumplicidade; o reconhecimento de terem habilidades aguçadas, nervos de aço e um profundo pesar por tudo aquilo ser necessário.
Não foi difícil encontrar quem tivesse informações sobre os planos de aprimoramento dos golias. Bastou Sarah ler alguns pensamentos e os dois concluíram a missão, deixando para trás a equipe de quatorze pessoas: espancadas, inconscientes — mas vivas. Mengsk estava mais que satisfeito, claro, e os golias da rebelião foram aprimorados. O rumo do jogo fora mudado novamente.
Mudado pelas mãos de Sarah Kerrigan, a fantasma. A arma que chorava.
2504
No bar da Hipérion, apoiado no balcão do bar, Valerian divertia-se com as interessantes circunstâncias que o levaram até aquele exato ponto do universo. Seu pai não reconheceria nada ali, e isso o fez sorrir para o mai tai à sua frente. O ar estava denso, tomado pela fumaça e pela música baixa que vinha de um dispositivo pendurado no teto, a que ele tinha ouvido se referirem como jukebox. O objeto parecia recondicionado, ainda exibindo marcas de vários danos sofridos, e o sorriso de Valerian coloriu-se de ironia quando o cantor melodiou sobre “mentes desconfiadas”.
— Tinha o dobro de músicas antes de Tychus Findlay quebrá-la — disse Cooper, o barman.
Valerian fez uma careta. Findlay. Ele concordava com o que Jim fizera, mas sabia que fora difícil para ele.
— O mai tai não está como o senhor gosta? — perguntou Cooper, claramente preocupado com a expressão de Valerian.
— Está excelente. Na verdade, se o resto dos seus drinques for tão bom quanto esse, é meu dever dizer que seus talentos estão sendo desperdiçados aqui.
O homem de cabelos negros, olhos azuis e comportamento amigável soltou uma risada enquanto sacudia com vigor a coqueteleira.
— Que nada — disse o barman. — Eu gosto daqui. Estou com os Saqueadores faz um tempo. Eles lutam com raça e arriscam tudo. O mínimo que merecem são uns bons drinques no fim do dia.
— Ou no começo.
— O senhor pode até não acreditar, mas não temos muitos beberrões por aqui. — Cooper serviu a bebida e a estendeu para uma jovem. Valerian a reconheceu de imediato, e também o cavalheiro que a acompanhava:
— Senhorita Annabelle — disse a ela. — E Tenente Rawlins. Você não está de serviço? — completou, dirigindo-se ao homem.
— Senhor, minha função é de navegador, e no momento estamos atracados. O Capitão Vaughn permitiu que eu pagasse um drinque à dama. É o mínimo que podemos fazer para nos desculpar pela peça que pregamos nela.
Valerian sorriu para a jovem.
— Concordo. E obrigado. Sua equipe fez um excelente trabalho mesmo sob extrema pressão. Acho que a Bucéfalo não estaria aqui se não fosse por vocês.
As maçãs do rosto de Annabelle coraram.
— Obrigada. Estou apenas fazendo meu trabalho.
— Começo a compreender por que os Saqueadores do Raynor causaram tantas dificuldades ao meu pai.
— Fazemos tudo ao nosso alcance para sermos uma pedra no sapato dele — respondeu Annabelle, voltando-se em seguida para o navegador que a acompanhava. — Obrigada pela bebida, Travis. Venha comigo. Sei qual é a melhor mesa.
— Quero saber mais sobre suas ideias para os módulos de transporte — disse Travis. O navegador não entendia quase nada de engenharia, mas havia soado genuinamente interessado. Valerian sorriu discretamente.
— É justamente por isso — apontou Cooper, observando o par se afastar —, que faço o que faço. Agora, uma pergunta ao senhor: por que está aqui e não na sua nave?
— Não sei precisar a razão — respondeu Valerian. — Suponho que como unimos forças para lutar contra meu pai, eu queira saber mais sobre as pessoas com quem estou trabalhando.
— Faz sentido. Talvez para conseguir alguma informação a mais também, não?
Valerian rapidamente o encarou, dirigindo-lhe um olhar cáustico, mas Cooper apenas sorriu e começou a ensaboar alguns copos.
— Ora, vamos lá. Todo mundo conversa com o barman. O senhor tem perguntas, eu tenho respostas. Mas eu também tenho perguntas. Quer fazer negócio?
— Parece justo. Mas você deve saber que há coisas sobre as quais não posso falar.
— Claro. — Cooper deu de ombros. — Também é assim com Matt e Jim. O senhor começa.
— Certo. Qual a sua opinião sobre o Sr. Raynor?
— Eu não estaria aqui se não fosse por respeito — respondeu Cooper. — Estão pagando muito dinheiro para quem entregá-lo.
— Então você não tem nada de ruim a dizer sobre ele?
— Não foi o que eu disse. — O barman agora secava os copos. — Claro que em alguns momentos tive dúvidas. Por exemplo, quando ele começou a se aproximar daquele protoss, Zeratul. E por algum tempo eu também achei que a bebida estava começando a afetar ele.
— O que o fez mudar de ideia?
— Eu não mudei de ideia sobre os protoss. Já viu algum pessoalmente?
— Sim.
— Medonhos, não? — Cooper fez uma careta. — Sem boca, aquele jeito de andar esquisito, essa coisa de ler mentes… Peço desculpas se o senhor gosta deles como Jim, mas eu prefiro nunca mais ver um, se puder. Sobre a bebida, bom, Jim logo provou que tinha tudo sob controle. Ele vem de vez em quando para tomar alguma coisa, se divertir, mas eu parei de me preocupar. Ele sabe quais são as prioridades.
— E quais são?
Cooper sorriu maliciosamente:
— Ah-ah. Já respondi uma pergunta. Minha vez.
Valerian brindou, erguendo o copo meio cheio:
— Quando quiser.
— Todo mundo sabe que o senhor cortou relações com seu pai por causa de toda a história com Kerrigan. E agora? Não podemos nos esconder aqui pra sempre.
Valerian observou Cooper por um instante.
— Você não é de fazer rodeios...
— Não mesmo. Já tenho que aturar muita conversa fiada. Vou ser franco: a decisão do comandante de ir a Char deixou a tripulação insegura no começo. Findlay tentou abalar a confiança das pessoas nele.
— Por isso a jukebox arremessada.
— Exatamente. A história acabou com Tychus no chão, sem conseguir se levantar. O comandante disse que era escolha nossa continuar com ele ou cair fora… como sempre foi. Nenhum dos Saqueadores escolheu ir embora, mas queremos saber pra que fizemos tudo aquilo, pois com certeza essa história não acabou quando Kerrigan voltou a ser humana. Se é que ela é humana. Há muitos boatos por aí.
Valerian tinha certeza de que havia, e se perguntou qual seria a ação mais segura. Rapidamente ele se decidiu: este grupo teria acesso às informações.
— Ela obviamente não se recuperou totalmente, ou você a teria visto andando por aí.
Os olhos azuis de Cooper transpareciam receio.
— Mas… ela está bem de forma geral? Quer dizer... ela não é uma criatura meio zerg que estão escondendo de nós, é?
O príncipe riu.
— Com certeza não. — Era a verdade. Kerrigan estava bem. Ou quase isso. — Mas o corpo dela sofreu muito. Ela precisa de ajuda, mais do que podemos dar na minha nave. É por isso que estamos aqui sob os cuidados de uma tal de Mira Han, para que Kerrigan possa ser tratada por pessoas realmente capazes de ajudá-la a terminar de se recuperar.
— A Fundação Moebius?
Valerian assentiu.
— Isso. A qualquer instante, ou pelo menos é o que espero, Mira vai entrar em contato para avisar que obteve um canal seguro para eu enviar uma mensagem. Cuidado nunca é demais.
Foi a vez de Cooper rir.
— Eu sei. Depois do Findlay, bom, eu não me surpreenderia se seu pai tivesse espiões aqui também. Tenha cuidado ao enviar essa mensagem. — Depois de enxugar o último copo, o barman sorriu para Valerian. — Odeio perder clientes.
— Você perdeu muitos — respondeu Valerian. O príncipe despejou um generoso amontoado de créditos no balcão. — Ainda verá muita gente minha aqui na Hipérion. Tivemos que dividir a tripulação da Héracles entre a Bucéfalo e a sua nave. Trate todos tão bem quanto tratou a mim.
Cooper juntou os créditos, satisfeito.
— Pode deixar, Sr. V. — disse, e apontou para a entrada. — Olha só quem acabou de chegar. Que surpresa ela ter tirado as garras… digo, as mãos dele.
O comentário não fora maldoso, e Valerian observou Matt Horner passar pela porta e se aproximar:
— Temos um problema.
— Vou preparar outro drinque — declarou Cooper.
Valerian ficou a postos.
— O que foi? Mira não conseguiu uma conexão segura?
— Bem, isso foi resolvido. O problema é que você precisa chegar até ela.
O Herdeiro Legítimo franziu a testa.
— Não compreendo…
— Vou explicar. — Matt se curvou e esfregou a palma da mão no chão. Óleo, poeira e outras manchas que Valerian nem quis saber o que eram a deixaram imunda. — Está vendo? — perguntou Matt, erguendo a mão.
Valerian fez uma careta.
— Sim, embora preferisse não ver.
Sem aviso, Matt esfregou a sujeira no rosto de Valerian.
— Isso é só pra começar — disse.