StarCraft: Ponto Crítico
Capítulo onze
Jim ausentara-se por pouco tempo. Ele não queria deixar Sarah sozinha com estranhos, mas ele ainda era um ser vivo e seu corpo tinha necessidades que precisavam ser atendidas. Uma das mais importantes era sem dúvida comida. Seu estômago roncara tão alto que os dois médicos — Yeats e Becker — levantaram os olhos para ver de onde viera o estrondo.
Mira falara a verdade: ninguém iria cozinhar ou fazer faxina para ele. Enquanto vagava pela imensa cozinha atrás de comida fácil de preparar, Jim percebeu que sentia falta de Randall, o mordomo assassino; o homem era capaz de produzir uma obra-prima culinária com restos. Subitamente ele teve um flashback: ele e Tychus Findlay naquela mesma cozinha. Mesmo incomodados, os cozinheiros não reclamavam quando Tychus se servia direto de panelas ainda no fogo. Mais de uma vez os dois haviam cambaleado até a cozinha lá pelas tantas da madrugada procurando qualquer coisa para adiar a ressaca inevitável.
— Merda — praguejou Jim. — Quanto antes eu sair daqui, melhor.
Mesmo tendo ficado fora por pouco tempo, Jim percebeu que havia sido tempo demais. Assim que entrou no quarto com duas porções de macarrão instantâneo e molho, tirados do estoque de ração militar, deparou-se com duas expressões contrastantes de profunda consternação — uma velha, enrugada e pálida; a outra negra como café e lisa como porcelana.
Sarah continuava deitada de olhos fechados, a respiração lenta e compassada, aparentemente indiferente aos tubos presos aos seus braços e peito.
— Como ela está? — questionou Jim em tom de preocupação.
— Nada bem — respondeu o médico mais velho, Yeats. — Houve um incidente ainda há pouco.
Jim sentiu o estômago revirar.
— Ela tentou puxar um dos… bem, nós chamamos de ‘tentáculos’ — completou Becker. — Houve uma ligeira escoriação na base, mas é um ferimento pequeno. Já demos um jeito.
Jim engoliu em seco.
— Entendo.
— E desde então ela se recusa a responder perguntas e insiste em agir como se não estivéssemos aqui.
— Ela está acordada? — perguntou Jim em voz baixa enquanto observava Kerrigan imóvel na cama.
— Sim — respondeu Yeats —, mas como Becker disse, está nos ignorando.
— Ela não vai me ignorar.
Jim passou por entre os médicos e aproximou-se de Sarah. Enquanto se sentava, ele arrastou os pés da cadeira, avisando sobre sua presença. A cabeça de Kerrigan estava virada para o outro lado e nem se moveu. De onde estava, ele podia ver o ferimento no tentáculo, já cuidadosamente envolvido em gaze.
— Oi, amor — disse Jim.
— Pare de olhar pra minha cabeça — respondeu Sarah sem se virar.
— Lendo meus pensamentos de novo?
— Não. Eu só conheço você. E sei que os médicos já contaram o que aconteceu.
— É, contaram sim. Você ficou bem irritada.
— Você nem faz ideia.
A voz dela soava ao mesmo tempo fria como gelo e consumida por um fogo. Mesmo tomada pela fúria, Kerrigan empenhava-se em manter o controle. Ele queria tocá-la, mas sabia que o gesto não seria bem-vindo. Em vez disso, continuou falando baixo:
— Sabe, você tem razão. Ninguém sabe o que se passa na cabeça das outras pessoas.
— Sabe, sim. Basta ser telepata.
Jim não conseguiu conter uma risada.
— É, você ganhou. Melhor dizer que eu não sei o que se passa na cabeça dos outros.
— Concordo. A conversa acabou?
— É o que você quer?
Silêncio. Kerrigan moveu uma das mãos como se fosse alisar um dos tentáculos. Jim sabia que o gesto não era inocente e agarrou-a pelo pulso, esperando impedir que ela se ferisse.
— Não há razão nenhuma pra você se machucar — disse. — Não vai trazer ninguém de volta. Além disso, não foi você. Foi a infestação. Eles transformaram você em rainha, Sarah. A culpa não foi sua. Não se esqueça disso nunca.
Preparado para outra explosão de raiva e violência, Jim se surpreendeu quando Sarah simplesmente relaxou a mão, deixando-o acomodá-la gentilmente de volta na cama.
— Não tenho tanta certeza — respondeu ela em voz baixa. — De nada.
Qualquer desconhecido se enganaria com a calma que transparecia em sua voz, mas Jim não acreditou nem por um segundo. Sarah ainda estava furiosa, fervendo por dentro, escondendo o que realmente sentia e guardando para si toda a pressão. Pressão que, sem uma válvula de escape, podia causar um grande estouro e problemas maiores ainda.
Inclinando-se, ele sussurrou perto do ouvido dela:
— Eu amo você, Sarah. Entendeu? Não importa o que aconteça.
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— Vamos tirar aquelas pessoas de lá, custe o que custar — disse Jim com firmeza. — Nossos agentes dizem que vários dos cientistas em Orna III não estão exatamente felizes com o que estão sendo obrigados a fazer.
—“Obrigados”? — interrogou o jovem primeiro-oficial da Cormorão, a nave na qual Jim e Sarah rumavam para as instalações científicas sobre as quais discutiam.
O garoto — o nome era Jack Horner ou algo assim — era a candura e a ingenuidade encarnadas. Jim reconhecia o olhar do oficial. Era o que via no espelho até pouco tempo atrás; mais precisamente até a Guerra de Corporações e uma traição mudarem tudo.
— Obrigados — retrucou Jim. — Não todos, é claro. Alguns provavelmente adoram o que estão fazendo, em nome da ciência e o escambau. Mas há outros lá que sentem tanto nojo do que acontece quanto nós. Vamos resgatar eles e também os… ahm… — Ele virou-se para Sarah, esperando que ela completasse.
— Cobaias experimentais — completou Sarah friamente. Jim deu de ombros. Ele esperava que ela dissesse “pacientes” ou coisa parecida.
— Se me permite, moça — interpelou Horner —, nós ouvimos muitos boatos. Não podem ser todos verdadeiros. — Sua assertividade não durou muito quanto ele notou o olhar de Sarah.
— Boatos? Você diz coisas como enxertos genéticos? Modificações cerebrais? Testes de doenças? Experimentos com telepatia? Sessões de tortura caso não haja colaboração? Esses rumores?
Horner lançou um olhar inquieto para a capitã, uma mulher negra e elegante chamada Sharyn Moore. Com um aceno de cabeça, a capitã o autorizou a falar o que quisesse.
— Sim — respondeu Horner, soando bem menos convicto.
— Ah, são todos verdadeiros.
Sarah não disse mais nada. A tripulação na ponte trocou olhares ansiosos e tensos.
— Os cientistas nessas instalações estão usando os próprios concidadãos em experimentos secretos — observou Jim. — Fazendo o que Sarah disse. É por isso que precisamos parar essa loucura.
— Como você vai saber quem quer ir embora? — questionou Horner.
— Eu não. Sarah vai. Nosso trabalho é levar os cientistas que ainda têm alguma consciência moral e as, hum… cobaias experimentais com segurança a bordo da Cormorão. Seu trabalho é ficar a postos pra ajudar e depois tirar a gente daqui.
— Vamos encher o lugar de explosivos — disse Kerrigan. — O tempo é crucial.
Jim surpreendeu-se, mas continuou agindo naturalmente. Sarah não dissera uma só palavra sobre explodir as instalações durante as sessões de instrução que tiveram com Mike e Mengsk a bordo da Hipérion. Seria bom ter uma palavrinha com ela em particular. Agora mesmo.
— Chegamos lá em três horas — disse. — Pessoal, fiquem prontos. Fui informado de que você é nosso principal contato, Jack.
— Hum, é Matt, senhor. Matt Horner.
— Matt? Pensei que fosse Jack.
Horner corou ligeiramente:
— Todo mundo pensa, senhor — disse, em tom de resignação. — E não, eu não fico pelos cantos comendo torta. E também… odeio ameixas.
É claro. Jim estava pensando na velha cantiga de roda sobre o “Pequeno Jack Horner”. Ele desculpou-se, constrangido. Matt respondeu com uma expressão amigável e um sorriso discreto. De uma hora para outra, Raynor passou a gostar do primeiro-oficial.
— Você é nosso principal contato, Matt — repetiu, desta vez com mais seriedade. — Estamos contando com você. Não me deixe na mão.
Rapidamente, Matt empertigou-se e recompôs o olhar de seriedade.
— Não deixarei, senhor — respondeu. — Pode ter certeza. Com sua permissão, gostaria de revisar o plano mais uma vez.
— À vontade, rapaz.
Matt limpou a garganta.
— A senhorita Kerrigan falsificou documentos de admissão do procurado terrorista James Raynor nestas instalações para fins de observação e pesquisa. A admissão do terrorista é secreta. Já recebemos confirmação do chefe dos cientistas para prosseguir. O Sr. Raynor será escoltado por uma fantasma, então não há necessidade de segurança reforçada.
O jovem primeiro-oficial fitou Kerrigan com uma sobrancelha levantada.
— Tudo perfeito até agora — disse ela. Matt continuou.
— A Cormorão tem permissão para permanecer em órbita até que a fantasma escoltando o Sr. Raynor se certifique de que todos os requerimentos para admissão foram atendidos, quando então ela retornará em segurança. Quando vocês tiverem atracado com o Sr. Raynor aparentemente bem preso, começaremos a guiá-los, graças às plantas das instalações que a Srta. Kerrigan conseguiu. Então...
Momentos depois, enquanto o clangor de suas botas metálicas ecoava no piso de metal da velha nave mercante, Jim perguntou:
— Quando você ia me contar sobre os explosivos?
Sarah não se virou para encará-lo.
— Eu ia contar exatamente quando contei, Jim.
— Por que Mengsk ordenou que isso fosse feito?
Então ela o mirou com olhos faiscantes.
— Ele não ordenou. Fui eu.
— O quê? — surpreendeu-se Jim.
— Como oficial de posto mais alto em campo, a decisão é minha.
— Essa é uma decisão grande pra cacete pra ser tomada sem passar pelo chefe antes.
— Arcturus não é meu dono! — redarguiu ela. Sua aspereza calou Jim, mas Sarah logo se acalmou. — Não podemos deixar ninguém botar a mão naqueles dados. — Ela tentava se manter firme, mas sua voz estremecia. — Eles não foram nem obtidos com motivações decentes, como curar doenças ou qualquer coisa remotamente humanitária. Foi tudo por meio de tortura, para desenvolverem torturas ainda melhores, para transformar pessoas inocentes em monstros.
De súbito, Jim percebeu que aquilo não tinha nada a ver com a missão. Ou com as informações. Tudo dizia respeito a Sarah. Gentilmente, ele a deteu pelo braço. Ela se desvencilhou, mas parou, rilhando os dentes.
— Sarah, acrescentar o objetivo de armar explosivos torna a missão muito mais perigosa do que já é, tanto pra nós quanto para as pessoas que queremos salvar. — Jim falava em voz baixa. — Eu sei que você quer…
— Isso não tem nada a ver com vingança — interrompeu Kerrigan, lendo os pensamentos de Jim antes que ele pudesse expressá-los. — É justiça. Gente que faz o que eles fazem não pode continuar viva. O conhecimento que eles obtiveram fazendo… fazendo essas coisas… ninguém pode ter. Jim, eu sei sobre Johnny.
Jim empalideceu e deu um passo para trás.
— O que você sabe? Quem contou?
— Mike… não contou exatamente. Eu li os pensamentos dele.
— Entendo.
— Não, acho que você não entende. Eu… Ninguém nessa galáxia entende como você se sente melhor que eu. Seu filho passou por muito sofrimento, Jimmy. Eu sinto muito.
Raynor aquiesceu, engolindo em seco.
— Eu sempre me perguntei isso. Sarah… você não sabe o que fizeram com John, mas… por favor… me diga o que fizeram com você.
Ela arregalou os olhos numa expressão súplice.
— Não me peça isso.
— Não posso apoiar este plano a menos que consiga entender por que você quer tanto fazer isso.
Sarah desviou o olhar.
— Você vai me odiar se eu contar. É melhor que não saiba.
— Eu sempre fui um teimoso do cacete — disse ele, abrindo um sorriso desprovido de alegria. — E acho que não conseguiria odiar você nunca, Sarah.
Ela o encarou longamente, então começou a falar numa voz calma e distante.
— A Confederação deu início ao programa de fantasmas. Há tanto sangue nas mãos deles, Jim, eu não estou exagerando... Eu sei, tendo feito as coisas que fiz.
Jim Raynor pensou sobre seu filho e sua mãe — ele, levado e submetido a horrores parecidos com os que Jim logo compreenderia; ela, morta por um câncer causado pelo total e criminoso desinteresse do governo em providenciar comida segura para os famintos. A associação entre a Confederação e sangue derramado era natural para ele.
— Eu era só uma criança quando eles vieram, exatamente como Johnny. Eu não tinha controle nenhum sobre as minhas habilidades. Eles queriam saber o que eu conseguia fazer, queriam que eu exibisse minhas aptidões para que pudessem me analisar e me classificar, descobrir o melhor uso para mim. Ficava isolada o tempo todo, exceto quando me levavam para fazer mais testes. Até que um dia trouxeram companhia para mim: uma gatinha de pelo negro com a barriga e as patinhas brancas. Ela ficou comigo três semanas. Eu a chamei de “Botinha”.
Jim não queria mais ouvir, mas sabia que não tinha escolha.
— Eles implantaram um tumor nela, um que a mataria lenta e dolorosamente. Disseram que eu podia acabar com a dor e o sofrimento dela, bastava matá-la.
— E o que você fez?
— Nada.
A escolha que ela fizera — deixar uma criatura inocente sofrer para não se dobrar aos desejos daqueles que a atormentavam — claramente ainda a perturbava.
— Porque não queria que eles soubessem do que você era capaz — conjecturou ele.
— Porque eu já tinha matado com minhas habilidades — desabafou Sarah, dolorosamente. — Eu sabia do que era capaz, mas não queria fazer aquilo a mais ninguém, nunca mais.
— Mas você fez. Ainda faz.
Apesar de dura, a observação foi feita com compaixão, e não crueldade.
— Sim — respondeu ela. — Faço o que preciso para impedir que o mesmo aconteça com mais alguém. Dentro dessas instalações “científicas”, estão fazendo coisas horríveis com homens, mulheres e crianças… O mesmo que fizeram comigo, talvez até pior. Eu vou explodir esse lugar, Jim. Porque é assim que tem que ser. Você está comigo?
Jim Raynor nem precisou pensar duas vezes. Imagens de uma gatinha adoecendo lentamente e uma garotinha com o coração se partindo mais a cada dia inundaram sua mente. Ele acenou positivamente com a cabeça.
— Conta comigo, gata.