StarCraft: Ponto Crítico
Capítulo vinte e três
— Caramba, tem um mapa mesmo!
Jim não podia acreditar, mas quando ele e Valerian diminuíram o passo e seguiram cautelosamente pela entrada do corredor, viram um pequeno átrio no centro de uma área com uma redoma. O lugar era como o eixo de uma roda, com pelo menos cinco corredores, contando o deles, seguindo em várias direções. Havia três bancos, algumas plantas em vasos e uma pequena fonte borbulhando ao lado de um holograma da Estação Prometeu. Infelizmente, eles estavam muito longe e na pior posição.
— Bem, vamos tentar chegar lá sem sermos fuzilados — disse Valerian.
— A estação parece deserta — comentou Jim, colocando ênfase em “parece”. — Eu acho que o pessoal da estação deve estar indo para as cápsulas de fuga nesse momento.
— É provável — respondeu Valerian. — Você vai na frente.
Jim fez uma careta, e Valerian sorriu. Então Jim suspirou e se adiantou. Ele realmente era mais experiente do que Valerian naquele tipo de coisa. Com a arma em posição, ele seguiu lentamente e deu uma olhada rápida pela quina do corredor. Preparou-se para os tiros e para recuar imediatamente, mas nada aconteceu.
— Parece que está tudo limpo — avisou. Juntos, eles correram até o mapa holográfico.
Valerian tocou um pequeno botão na base e o holograma se reconfigurou, mostrando onde estavam.
— Esse é o corredor de onde saímos. O segundo à direita leva à enfermaria e a uma área não identificada. Provavelmente um laboratório secreto.
— Quantos laboratórios existem nesse lugar? — perguntou Jim, imaginando se conseguiriam localizar o pobre Egon. Esperando que pudessem encontrá-lo; e vivo.
— Vinte e sete — respondeu Valerian. — Eu sei o que você está pensando. Mas mesmo que tivéssemos certeza de que Egon foi levado a um laboratório, nós não temos tempo de...
— Primeiro Sarah — cortou Jim. — Vamos levá-la a um local seguro. Depois, Egon. Eu não deixo ninguém pra trás.
Valerian sorriu de modo estranhamente gentil.
— Então eu também não deixarei.
Jim assentiu, e eles dispararam pelo corredor em direção à enfermaria.
Narud estava na central de segurança principal da estação Prometeu, que era, no momento, o único lugar seguro para se estar. A sala era repleta de telas e luzes piscando, com sete guardas armados aguardando seu comando. Narud sabia que não poderia ficar lá. Precisava partir rapidamente, mas também precisava garantir que seus inimigos estivessem mortos. Eles não tinham tido a consideração de morrer quando deveriam, e agora estavam correndo pela estação.
Seus olhos estavam fixos no monitor que os mostrava no átrio 4. Era bem perto da central de segurança. Valerian e Raynor obviamente o seguiram. Ele se entristeceu um pouco. Planejara uma saída dramática, pensando que eles seriam mortos logo em seguida. Em vez disso, os dois viram a camuflagem.
— Enviem um destacamento atrás deles. Eu quero os corpos deles cravejados de metal. Eles não podem sobreviver, e esses malditos têm mais vidas do que muitos gatos por aí.
— Imediatamente, senhor — respondeu o chefe de segurança. — Vrain, Osgood, Warren, Mitchell, Tseng, vocês ouviram o Dr. Narud. — Os quatro homens e uma mulher assentiram e seguiram pela porta.
Quando saíram, Narud se inclinou para diante e pressionou um botão. Deu um pequeno sorriso. Seus guardas eram bons, mas ele decidira usar outra arma ainda melhor.
Vários metros depois da enfermaria, uma porta pesada e trancada com sistemas de segurança excessivos se abriu. Armas enormes, projetadas para estourar qualquer coisa que se movesse, foram desligadas.
E duas sombras, deformadas e grotescas, escaparam para o corredor.
— Nós ativamos... alguma coisa — alertou Valerian, arfando com a corrida. — Aquelas luzes... não estavam piscando... antes.
Considerando que havia um monte de luzes piscando e sirenes histéricas antes, Jim se perguntou como Valerian conseguira identificar luzes novas enquanto corriam a toda, mas decidiu acreditar no príncipe. Em vez de responder, ele apertou ainda mais o passo. Não iriam embora sem Sarah.
Então, de súbito, Valerian agarrou seu braço e o puxou para trás, e ele parou desajeitadamente. Jim se soltou e virou rapidamente, reclamando.
— Mas o que diabo...
— Você ouviu isso?
Jim olhou inexpressivamente para o príncipe.
— O quê? Os cinquenta e dois alarmes diferentes?
— Shh! — Aquilo era ridículo, mas Jim ficou quieto e se esforçou para ouvir o que quer que Valerian tivesse ouvido.
E ouviu.
Era um som mais agudo e alto, que era mais sentido que ouvido, e Jim imaginou qual seria sua origem. Seu sangue gelou e ele se arrepiou.
Valerian piscou, chocado e aterrorizado.
— Eu sabia que Narud estava trabalhando neles — murmurou. — Mas ele disse que a pesquisa ainda era preliminar... Eu não imaginava que... — Como se tivesse acordado abruptamente, Valerian agarrou o braço de Jim.
— Híbridos — rosnou Jim.
— Corra — gritou Valerian.
— Espere um pouco, Sarah está lá e eu...
— Sarah vai sobreviver ou morrer sozinha, Jim — gritou Valerian. — E nós vamos morrer se não corrermos agora!
O som terrível se aproximava, penetrando o cérebro de Jim. De repente, o medo pareceu perfurá-lo como se o som atravessasse seu coração. O som/sensação vinha acompanhado de um ruído forte e sibilante que aumentava conforme a coisa se aproximava.
Jim se lembrou do híbrido e soube que Valerian estava certo. Então correu.
— Já acabou, Swann? — perguntou Matt.
— Você perguntou isso há dez segundos — rosnou a voz de Swann. — E a resposta continua sendo não.
Matt não respondeu. Swann estava fazendo o melhor que podia, o que já era muito, e ele sabia que seu pedido não era nada fácil. Mas a tela à frente se enchia de explosões enquanto, uma a uma, as naves lançadas pela Bucéfalo sem cobertura eram despedaçadas. Cada nave destruída doía mais do que seu braço ferido.
— Tudo bem, garoto, vamos botar pra quebrar — disse Swann. — Última chance de mudar de ideia.
— Vai! — ordenou Matt.
O enorme cruzador de batalha tinha estado em movimento, posicionando-se para atacar e defender conforme necessário. Agora, a Hipérion desacelerava e parava, como se à deriva no espaço. Matt sabia que quando Mengsk notasse aquilo, eles se tornariam o alvo principal em vez da estação.
E ele contava com aquilo.
Dois segundos depois, o comunicador estalou. Por um momento terrível Horner pensou que Rory tinha calculado errado, atarantado com tanta coisa pra fazer em tão pouco tempo, e que agora estivessem mesmo à deriva no espaço.
Então Marcus gritou, empolgado.
— Senhor, está funcionando!
— Mude para a Bucéfalo — ordenou Matt.
Marcus obedeceu. Matt sentiu uma onda de alívio ao ver a aura azul envolvendo a Bucéfalo e os Miragens restantes. Swann, seguindo as ordens aparentemente insanas de Matt, transferira toda a força dos motores para os escudos. A força extra permitira que a Hipérion estendesse os escudos até a nave de Valerian e os caças. Mas a manobra não era sem custo. Não só a Hipérion estava encalhada até que a força voltasse aos motores como os escudos estavam muito mais fracos do que o normal. A energia era muito limitada, e quanto maior a área coberta, menos eficiente era a proteção.
Mas a manobra dera algum tempo para a Bucéfalo sitiada e os Miragens. Matt observou os caças, que até então não passavam de alvos fáceis, começarem a causar danos sérios nos adversários.
— Swann, funcionou! Você é um gênio! — gritou Matt.
— Pois é, vamos no lembrar disso da próxima vez que distribuirmos créditos — respondeu Swann. — Ah, e eu tenho mais um presentinho pra você. Em vinte segundos você vai poder falar com a Bucéfalo e, com sorte, com nosso caubói lá na estação.
A Hipérion estremeceu com um disparo que, agora, causava muito mais dano do que antes.
— Matt?
A voz de Jim Raynor poucas vezes foi tão bem-vinda quanto então, apesar da dificuldade de distingui-la dos assustadores barulhos no fundo.
— Senhor, o que está acontecendo?
— É uma longa história. — A voz de Jim estava cansada e entrecortada. Matt imaginou que deviam estar correndo ou lutando. — Como está a Hipérion?
— Ainda inteira, senhor, assim como a Bucéfalo. Nossa comunicação com eles acabou de voltar, e a Bucéfalo não consegue abrir fogo. Estamos defendendo as duas naves.
— Você não vai conseguir aguentar por muito mais tempo. — Fora uma afirmação, não uma pergunta. — Valerian está falando com a Bucéfalo. Vocês não vão sobreviver se ficarem esperando retardatários.
— Senhor, você, Valerian, Egon e Kerrigan não são retardatários comuns. Saia da estação e nós...
O console explodiu numa nuvem de faíscas. Cade recuou, levantando os braços para proteger o rosto. Houve um zumbido quando os sistemas de reserva se ativaram.
— Matt, isto é uma ordem. Se nós escaparmos da estação, encontraremos um jeito de chegar até vocês. Mas você e a Bucéfalo estão levando uma surra.
Houve um novo som acima do retinir de metal. Tiros. E um gemido agudo que Matt reconheceu imediatamente com medo e abjeção. Por um momento tenso, Jim não falou mais nada.
— Comandante?
— Nós estamos bem — respondeu Jim, arquejando, mas sua voz o desmentia. Ele estava vivo, mas definitivamente não estava bem. — Você precisa dar o fora daí com meus Saqueadores, Matt. Milhares de vidas são mais importantes do que qualquer indivíduo. Você é o líder dos Saqueadores agora. Precisa ficar vivo para que eles continuem.
— Senhor, eu...
— Não deixe que eu morra por nada, Matt. Se não, eu volto para te assombrar; juro que volto!
Matt não conseguiu rir da piada. Jim estava certo. Se continuassem lá, Mengsk e sua frota destruiriam os dois cruzadores e a estação. Ele eliminaria seu maior inimigo e tudo o que Jim fizera para resistir a ele. Haveria algumas células sobreviventes, mas Matt sabia que a rebelião morreria se ele continuasse a lutar.
Parecia não haver outra opção senão bater em retirada. E deixar Jim, Valerian, Sarah e Egon sozinhos.
— Jim?
— Vá, Matt, agora!
Matt fechou os olhos por um momento.
— Faça contato com a Bucéfalo — ordenou, com a voz angustiada. — Diga a eles que estamos dando o fo...
Antes que pudesse terminar a frase, a Hipérion recebeu um impacto. A nave balançou violentamente, e tudo ficou escuro.
As coisas estavam chegando mais perto. É claro que estavam. Eram monstruosidades híbridas de protoss e zerg, coisas que nunca deveriam ter existido fora de pesadelos. Jim estava certo de que as criaturas estavam brincando com eles, o que o fez odiá-las ainda mais.
Um movimento à frente chamou sua atenção.
— Merda — exclamou ele. — Guardas! Atire!
— Mas os híbridos...
— Agora!
Os guardas eram profissionais treinados, e Jim e Valerian eram seus alvos. Mas eles também eram humanos, e Jim sabia o que faria se tivesse que escolher entre dois humanos correndo na direção dele e... quantas fossem as criaturas.
Isso daria a ele e Valerian uma chance.
E, como previsto, os guardas nem olharam para eles. Estavam encarando espantados os híbridos correndo atrás dos dois homens. Estavam com as armas apontadas e as descarregavam mais ou menos um metro acima da cabeça de Jim. Jim e Valerian atiraram, e os guardas caíram. Sem diminuir o passo, Jim saltou sobre os corpos ainda agonizantes e continuou a correr. Ele ouviu os híbridos pararem e os sons indescritíveis de armaduras sendo despedaçadas e pele rasgada. Os guardas lhes deram algum tempo.
Jim sabia que não devia olhar para trás, mas não se conteve.
Foi um erro.
Havia dois deles. Eram enormes, ocupando o corredor inteiro, e tão diferentes quanto horríveis. Um parecia um inseto gigante, com seis pernas finas de protoss suportando um corpo angular. Dois apêndices, mesclas entre os braços de lâmina das mutaliscas e os membros protoss, trabalhavam freneticamente em um dos guardas, que não tinha tido a sorte de morrer rápido o suficiente. O híbrido o levantou, abriu a boca horizontalmente e deu uma grande mordida.
O outro era troncudo, com uma cabeça longa de protoss e mandíbula de zergnídeo. Havia uma grande protuberância óssea atrás de sua cabeça em forma de leque. Várias partes de seu corpo e do corpo do companheiro brilhavam com uma radiação azul.
Eles não se pareciam em nada com os híbridos de antes, nem um com o outro. Jim concluiu que eram os bichos de estimação de Narud.
— Ótimo — resmungou. — Cada um é um floquinho de neve único e especial.
Então, Jim ouviu algo ainda mais odioso do que os híbridos.
— Senhor Raynor. Meu filho rebelde. Meu colega, Dr. Narud garantiu que há uma certa frequência que acalma os híbridos e os deixa dóceis. E, é claro, eu posso chamar os guardas de volta. Tudo o que vocês precisam fazer é se entregar e aceitar a justiça da Supremacia, que julgará seus crimes. E — continuou Arcturus Mengsk — entregar a cadela da Sarah Kerrigan.
Valerian puxou o braço de Jim com força, tirando-o de seu estado horrorizado.
— Vamos! — gritou Valerian. — Não vamos deixar que ele vença!
Híbridos à solta, Narud fugido, Sarah encurralada, a Hipérion danificada e sofrendo um ataque devastador...
Jim pensou que talvez Arcturus Mengsk já tivesse vencido.