StarCraft: Ponto Crítico
Capítulo dezesseis
Depois de deixar Matt na enfermaria da Hipérion para que o capitão recebesse os devidos cuidados — duas cirurgias seriam necessárias, lhe dissera o médico: uma de transfusão de sangue, outra de correção da artéria —, Jim foi direto até a Bucéfalo para ver Sarah. Frederick lançou um olhar sério quando Jim entrou no quarto, e aquilo o incomodou. O médico parecia... preocupado.
E mais do que assustado.
— Sarah teve que ser sedada pelos médicos de Mira — disse sem rodeios, enquanto Jim dava passos largos até a cadeira já cativa ao lado de Kerrigan.
Jim lançou-lhe um olhar sério.
— Por quê?
— Ela soube — anunciou Frederick, de braços cruzados. Ele certamente estava tenso. — Sobre o ataque.
— Bem, é claro, ela...
— Antes de acontecer, Raynor. Segundo os médicos, ela começou... Bem, começou a fazer as coisas quebrarem, gritando que você estava em perigo. Levantou da cama, caiu... Não gosto de mantê-la dopada, mas foi a única forma de controlar a situação.
Jim se esforçou para manter um tom neutro.
— Entendo.
Então os poderes dela estão voltando, pensou. Isso é bom ou ruim?
Sarah resmungou, agitando a cabeça. Jim colocou as mãos dela entre as suas.
— Pronto, pronto, querida. Deu tudo certo, eu estou bem. Todos estão bem.
— J-Jim? — balbuciou Sarah. Parecia lhe custar muito abrir os olhos e, quando conseguiu, as pupilas estavam dilatadas. — Você... você está bem.
— Não é uma emboscada qualquer que vai me afastar de você — provocou. O mais engraçado é que era verdade.
— Por que você foi? Eu... esqueci... — Ela o fitou ansiosamente, e Jim achou melhor se explicar.
— Bem, fomos nos encontrar com uma pessoa que pode ajudar você — começou Jim, mas outra voz, suave, jovem e refinada, interrompeu.
— Vamos levá-la para um lugar que ofereça o tratamento de que precisa, Srta. Kerrigan — afirmou Valerian.
Sarah o encarou por um momento, então franziu o rosto.
— Você é Valerian.
Ele sorriu. Ainda estava com as roupas sujas do “disfarce” que fora obrigado a trajar em Porto do Enforcado, mas já deixara de fingir que era um dos nativos miseráveis. O tom de voz e a linguagem corporal de Valerian denunciavam a ascendência aristocrática.
— Sou. Acredito que nosso amigo Jim contou como foi que você voltou a si e acabou aqui na enfermaria da nave. Mas não temos como cuidar direito de você aqui. Entrei em contato com um velho amigo cientista e agora estamos a caminho de uma base secreta onde a Fundação Moebius possui um laboratório de ponta. Lá, podemos...
— Fazer testes em mim como se eu fosse um rato? Não, obrigada.
— Não vou deixar que eles façam isso — argumentou Jim, lançando um olhar a Valerian que ele torcia para ser corretamente interpretado como saia, deixe que eu a acalmo. Valerian ergueu as sobrancelhas louras, mas não deu um passo.
— Acha que pode enfrentá-lo, Jim? E esses pseudocientistas? — Ela estava cada vez mais agitada, o que Jim compreendia perfeitamente. — Eu não confio em você, Herdeiro Legítimo. Você é um Mengsk. E eu sei como agem os Mengsk. Jim, assim que pisar nesse lugar, você não estará mais no comando. Eles vão me levar e fazer coisas comigo. Você vai ser preso, isso se não o matarem imediatamente.
— Valerian é tudo o que temos, amor — disse Jim — E, por enquanto, ele tem sido muito honesto... Apesar da pose.
Valerian deu um sorriso sem graça. Jim não precisava ler mentes para saber que Sarah tinha magoado o príncipe. Ao mesmo tempo, Valerian não era mais criança e deveria saber desde o início o tipo de recepção que um filho de Arcturus Mengsk teria.
Sarah fechou os olhos.
— Estou cansada — concluiu, e Jim podia ver isso. Resistir à medicação, mesmo por um período curto de tempo, tinha esgotado Sarah. Ele cobriu a mão dela com o lençol, levantou-se, deu um beijo em sua testa e deixou a sala com Valerian.
— Os poderes psiônicos dela estão voltando — disse Jim em voz baixa. Ele teria preferido não comentar o assunto, mas já que tinha sido apontado pelo próprio médico de Valerian, o príncipe saberia mais cedo ou mais tarde de qualquer forma.
— Ainda não sei o que ela pode fazer, mas o médico disse que ela sabia que estávamos sendo atacados e começou a destruir os equipamentos.
— Que bom que Narud está aqui então para...
— Ainda não — interrompeu Jim. — Sei que ele está se coçando para examiná-la, mas você viu como ela reagiu à sua presença. E ainda confio muito mais em você do que em Narud.
Valerian sorriu.
— Sua confiança significa muito para mim, Jim. Obrigado.
— Não vá ficar todo sentimental ainda — alertou Jim. — Só disse que confio mais em você do que nele. Vou ver como está Matt, depois volto para ver se consigo acalmar Sarah um pouco mais. Vai ser difícil fazer isso, considerando que penso da mesma forma que ela. Mas farei o possível.
Ele estacou. Valerian virou-se, intrigado.
— Escute, Valerian. Quero que me dê a sua palavra. Narud não vai passar por cima de mim no que concerne ao tratamento de Sarah.
— Eu... Ele é o profissional, Jim, não eu. Nem você.
— Não importa. Conheço Sarah e sei o que ela quer, e estou vendo as coisas um pouco mais claramente do que ela. Você tem sido confiável até agora, mas eu preciso ter sua palavra.
Jim estendeu a mão. Valerian a fitou por um instante.
— Mas e se a vida dela...
— Sou eu quem vai decidir e encarar essa responsabilidade. Me dê sua palavra. Ou eu juro que pego Sarah e saio daqui tão rápido que você nem vai entender o que aconteceu.
Valerian torceu o nariz.
— Ora, como posso dizer não a uma demonstração tão genuína de confiança?
Ele estendeu a mão ainda suja, porém bem-cuidada, e apertou a de Jim.
— Tem a minha palavra, James Raynor. Não vou lançar Sarah às feras.
Jim ficou surpreso de ver Horner já na ponte. O jovem capitão olhava fixamente pelo painel de visualização com o braço pendurado numa tipoia. Quando Jim entrou, Matt virou. Estava pálido e cansado, mas furioso.
— Que diabos é isso? — exigiu saber.
Jim encarou o painel. Ambas as naves tinham saltado pelas coordenadas da Bucéfalo, porém tudo ocorrera tão rápido que Jim não teve a chance de ver aonde as coordenadas tinham-no levado. Agora ele via, e entendeu a raiva de Matt.
Um gigante gasoso verde e azul assomava na tela, cercado por rochas cujos tamanhos variavam da dimensão de um planeta ao de uma partícula de pó. Milhões de asteroides do tamanho certo para destruir cruzadores de batalha. Eram tantos e tão apinhados que o lugar se tornara conhecido no setor não pelo nome formal, Cinturão de Kirkegaard, mas pelo apelido Cinturão da Pedrada.
— É o Cinturão da Pedrada, Matt — disse Jim, lacônico, os olhos apertados analisando a tela.
— Eu sei disso — afirmou Matt. — Essas são as coordenadas que Swann recebeu do Capitão Vaughn. Por que estamos aqui?
— Bem, essa é outra pergunta. E é sobre isso que vou questionar Valerian imediatamente. — Ele apertou um botão. — Valerian, por que diabos estamos aqui?
O rosto do herdeiro surgiu na tela.
— Porque a base que abriga o laboratório secreto Moebius, a Estação Espacial Prometeu, fica no interior do cinturão de asteroides.
Matt estava de boca aberta.
— Você está de brincadeira — disse Jim. — Não é à toa que esse lugar é chamado de Cinturão da Pedrada. Quem vai além de onde estamos agora ou é louco ou é burro, e acaba pulverizado. Nunca alguém entrou ali.
— Ah! E esse mito, que aliás eu me esforcei para difundir, é o motivo pelo qual a base continua em segredo. Há uma forma de navegar no cinturão. Exige coordenadas precisas, uma navegação atenta e paciente. Mas, acredite em mim, seguindo esse caminho, nossas naves vão alcançar a base do doutor Narud. Fica no coração de um asteroide que foi escavado justamente com essa intenção.
Jim o considerou um bocado presunçoso.
— De forma alguma — retrucou Horner. — Isso pode ser factível com uma nave menor, Valerian, mas estamos falando de um cruzador de batalha. Dois deles. Isso significa que nossas chances de acabar nos tornando parte do Cinturão de Kirkegaard são dobradas. Esse lugar é um exterminador de naves. Se você não acredita em mim, faça uma análise rápida. Você verá os destroços de muitas naves cujos comandantes foram tolos a ponto de arriscar a sua sugestão.
Valerian recobrou a calma.
— Cavalheiros — recomeçou com tranquilidade —, sei que parece impossível. Mas muitos diriam que resgatar Sarah Kerrigan também era impossível.
Jim trocou olhares com Matt, que virou o rosto, balançando a cabeça.
— Matt, eu esperava que depois da nossa pequena aventura, você tivesse aprendido a confiar um pouco mais em mim e na minha capacidade de lidar com situações desse tipo. Jim, você sabe como eu penso em tudo. Minuciosamente. Usem um pouco a lógica: como a estação seria construída ali se fosse impossível alcançá-la?
Nisso Valerian tinha razão, se não estivesse mentindo descaradamente. Mas os instintos de Jim lhe diziam que o jovem príncipe falava a verdade. Era uma mentira muito elaborada, e também não parecia haver razão para tal.
— Você já entrou com a Bucéfalo?
— Hum... Na verdade, não. Sempre viajei em embarcações menores.
Matt começou a gesticular como quem diz “viu, eu disse”, mas sentiu a dor súbita no braço e estacou.
— Mas o trajeto é o mesmo. É largo o suficiente para um cruzador de batalha passar, desde que a nave seja guiada com extremo cuidado. Jim, esta é a única forma de dar a Sarah o tipo de tratamento de que ela precisa. A Bucéfalo pode ir na frente, se preferir. Para provar a minha boa-fé. É uma nave maior que a Hipérion. Se nós conseguimos, vocês também conseguem.
De repente, Jim sorriu. Matt olhou para ele sem saber o que pensar.
— Bom, talvez eu tenha ficado um pouco rabugento demais ao envelhecer. Quem sabe estejamos precisando mesmo sacudir um pouco as coisas.
Matt olhou sem qualquer expressão para Jim, então, sem dizer nada, levantou a mão que não estava machucada e apontou para a tipoia.
— Matt, você só se feriu porque precisávamos chegar aonde estamos agora. Para encontrarmos Narud e chegar à Estação Prometeu, para que Sarah receba os devidos cuidados. Foi por isso que pedimos um favor a Mira e acabamos colocando ela e toda sua operação em risco. Você quer jogar tudo isso no lixo só porque não está gostando da ideia de navegar por um cinturão de asteroides?
Matt suspirou.
— Odeio quando você faz isso — disse.
Mas Jim sabia que Matt já percebera que seu comandante estava certo. O jovem capitão também conhecia Raynor o suficiente para saber que ele não diria aquilo se não fosse verdade. Jim era grato pela firme lealdade.
— Mande as coordenadas desse... trajeto, Valerian — pediu Matt, cansado. — Quanto mais cedo sairmos, mais cedo chegaremos.
Valerian enviou as coordenadas e encerrou a transmissão. Ele se virou para Narud, que ficara fora de vista durante a conversa.
— Você não é muito popular na Hipérion — ponderou. — Nem na minha enfermaria, ao que parece.
Narud, ao contrário de Matt, Valerian ou Jim, aproveitara o tempo livre para se limpar. Ele usava camisa, calças compridas e botas emprestadas de Valerian. Não vestiam muito bem, mas não havia outro jeito agora. Diante do comentário, ele suspirou.
— Gênios dificilmente são reconhecidos em vida.
Não era uma piada, e Valerian não achou que fosse. O homem era, sem sombra de dúvida, um gênio.
— Você precisa compreendê-los — prosseguiu Valerian. — Pense em tudo o que Kerrigan passou. E Raynor.
— É exatamente nisso que estou pensando — bradou Narud. — Gostaria muito que me permitisse vê-la. Assim poderei enviar uma transmissão para adiantar a minha equipe sobre o que esperar.
— Você pode fazer isso mesmo sem vê-la pessoalmente — respondeu Valerian. — Vou mandar o doutor Frederick lhe passar todas as informações sobre o estado de Sarah, e fique à vontade para questioná-lo. São apenas mais algumas horas de espera, Emil. Você consegue esperar. Deixe Jim... acalmá-la em relação a isso tudo. Se alguém pode fazer isso, esse alguém é ele.
— Sim. — Narud refletiu. — Se alguém pode... É Raynor.
Anabelle estava no corredor próximo à cantina, de mãos dadas com Travis Rawlins. Os dois estavam tomando um drinque, entretidos na conversa, quando ele foi convocado a se reportar imediatamente na Bucéfalo. Annabelle entreouviu as ordens e ficou pálida à menção do Cinturão de Kirkegaard.
— Preciso ir — sussurrou Travis, sem dar um passo.
Annabelle sentia o calor e a força do piloto, e sabia que se o encarasse veria compaixão naqueles olhos castanho-escuros.
— Eu sei.
Mas nenhum dos dois se mexeu.
— Você tem que falar com o engenheiro-chefe Swann sobre a ideia de armar a Esplendor — aconselhou Travis.
— Que nada! É uma ideia boba.
— Não, eu acho uma ótima ideia. Pode ser pouco prático armar todos os módulos, mas ainda que seja só um... Quem sabe quantas vidas podem ser salvas com isso?
— O que um piloto entende de módulos de transporte? — provocou Annabelle.
— Pouco — admitiu Travis. — Mas sei reconhecer uma coisa boa quando ouço. Ou... quando vejo.
Annabelle o encarou por um momento, então desviou o olhar para as botas.
— Bem — disse por fim, com a voz embargada —, você precisa ir.
— Quando você soltar as minhas mãos — respondeu com carinho, ainda que também não tivesse feito qualquer esforço para desentrelaçar os dedos.
— Eu sei... — retrucou Annabelle. — Mas por alguma razão, não sei se consigo. — Ela arriscou olhar nos olhos dele, e seu coração acelerou.
— Engraçado, né?
Ele assentiu e afagou o rosto dela com a outra mão.
— Nem tanto. Eu... também estou na mesma situação.
Annabelle estava acostumada à companhia de homens, e sentia-se bem entre eles. Ela fazia parte da equipe, tinha um papel definido. Sentia-se parte da turma. Rory era como um tio ríspido; Jim e Matt, irmãos mais velhos, e o restante do pessoal de engenharia eram seus amigos. Agora, porém, ela estava ciente de que era uma mulher e Travis um homem, e que ele cheirava... muito bem. E estava prestes a guiar a nave através do mais temido cinturão de asteroides do setor. Pilotando o maior cruzador de batalhas já construído.
— Sou muito bom no que faço, Annabelle — disse Travis, ensaiando um sorriso.
— Claro que é! Não quis dizer... É só que...
Ele a calou com um beijo tão doce e emocionante quanto completamente inesperado. O que Annabelle estava fazendo? Apaixonando-se por um homem que mal conhecia? Entretanto, desde o momento em que Travis agarrara sua mão quando ela acreditou que milhares de pessoas estavam morrendo, ela sentira-se abrir como uma flor na primavera.
Sentia que estivera esperando...
— Acho que esperei você por toda a minha vida — disse suavemente Travis, beijando a testa de Annabelle.
— Oh — sussurrou Annabelle.
Ela se recriminou mentalmente. Que coisa idiota dizer só “Oh”. Mas ela não conseguia pensar em mais nada. Segurava a mão dele como se fosse a corda de um salva-vidas. Ele riu e ela sentiu seu hálito caloroso e doce.
— Não se preocupe. Vamos conseguir passar pelo cinturão de asteroides. Mas quero algo em troca. Fale com Swann.
— Ah, não acho que...
— Por favor... promete? Você nunca vai saber se não perguntar, não é?
Ela concordou com a cabeça.
— É verdade.
— E... como nunca se sabe até que se pergunte... Você quer jantar comigo quando chegarmos?
Ela deu um sorriso largo e feliz, sentindo o coração na boca. Tudo parecia possível, de repente.
— Combinado.
As mãos doeram com a ausência quando Travis partiu.