StarCraft: Ponto Crítico

Christie Golden · Capítulo 24 de 29

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StarCraft: Ponto Crítico

Capítulo vinte quatro

CAPíTULO VINTE E QUATRO

 

— Tudo o que vocês precisam fazer é se entregar e aceitar a justiça da Supremacia, que julgará seus crimes. E entregar a cadela da Sarah Kerrigan.

Sarah parou tão abruptamente ao ouvir aquela voz desprezível que Egon quase trombou com ela. Ficou com os músculos tensos de ódio, a respiração rápida e intensa. No instante em que a estação começou a ser atacada ela soube quem estava por trás de tudo, mas ouvir aquela voz novamente depois do que pareceram anos, tanto tempo depois de tudo o que acontecera...

— Pessoal...? E a evacuação?

Os zergs cercando-a enquanto ela se virava para enfrentá-los.

Seu corpo sendo retorcido e moldado dentro da crisálida.

E o pior de tudo, a felicidade que sentira ao matar, depois de se tornar a Rainha das Lâminas.

A felicidade de matar uma mãe na frente da própria filha... e depois a menina, segundos depois, assim como todos os que tentaram ajudá-la.

Tudo isso era culpa dele. Tudo.

E agora ele estava vindo atrás dela.

Sarah curvou a cabeça para trás, soltando um grito sem palavras, contorcendo o corpo em ódio e agonia, com os punhos fechados com tanta força que suas unhas deixaram crescentes rubros nas palmas das mãos.

Não. Mengsk não estava vindo atrás dela. Ela estava indo atrás dele.

— Ahm, Sarah? — A voz de Egon atrás dela parecia preocupada e bastante amedrontada. Ela o ignorou.

— Mengsk! — gritou com toda a força. Ela quase podia ver a própria garganta, rouca e sangrando. Sarah sabia que Mengsk estava simplesmente transmitindo sua voz pela estação, sem se preocupar com as consequências. Maldito arrogante. Falando só para ouvir a própria voz. — Você não terminou o trabalho! Você me deixou viva!

Ela sentia o ódio dentro de si, fervendo feito lava ansiosa por explodir. Era quente, violento e doce, e ela fechou os olhos, deixando-se dominar. Que venha. Que a energize. Que sirva para destruir seu inimigo.

De repente, tudo ficou claro. Ela abriu os olhos e se sentiu como um cego que enxerga pela primeira vez. Sarah conseguia sentir as ondulações no ar, o coração de Egon — acelerado e assustado como o de um coelho — como se estivesse com o ouvido colado ao seu peito. Lambendo os lábios, ela podia sentir até o gosto da estação.

E de repente, ela sabia exatamente a posição dos soldados inimigos à frente.

Sarah começou a correr. Ela sentia os pulmões absorvendo o ar, oxigenando o sangue, sentia o sangue renovado correndo pelo corpo. Uma máquina perfeita, funcionando melhor do que nunca.

Havia oito soldados logo na esquina. Trajando armaduras completas, andando rapidamente e carregando em seus braços metálicos armas quase do tamanho dos homens que deviam eliminar.

— Mengsk! — gritou Sarah. — Mengsk, veja isso!

Ao primeiro som, eles se viraram e levantaram as armas.

Não chegaram a disparar um único tiro. Os visores dos capacetes se inundaram de sangue e eles caíram onde estavam.

Sarah ignorou os gritos de terror de Egon e continuou em frente.

— Senhor? — Marcus Cade observava Matt atentamente. — Devo chamar um médico? O senhor está bem?

— Por quanto tempo fiquei desacordado? — perguntou Matt. Colocou a mão na cabeça dolorida e sentiu algo úmido. Havia batido com o braço machucado também, e estava doendo muito.

— Só alguns segundos.

— Então estou bem — respondeu Matt. — Temos coisas mais importantes para nos preocupar. Como está a nave?

Cade fez uma careta.

— Está bem mal. Rory não está nada feliz. Não estamos indo bem, senhor.

Matt assentiu e ligou o comunicador.

— Swann, você conseguiu transferir a força de volta para os motores?

— Consegui. Foi bem mais fácil do que fazer o contrário.

— Como está nossa mobilidade?

— Não vamos poder sair dançando loucamente em zigue-zague pela galáxia, mas pelo menos podemos nos mexer.

Pelo menos, pensou Matt, a Hipérion e a Bucéfalo poderiam distrair Mengsk e atraí-lo para longe da estação. Talvez Jim conseguisse encontrar uma nave e escapar.

Às vezes, é necessário contar pequenas mentiras para si mesmo.

— Cade, dispare mais uma salva direto contra a Estrela Branca e depois vamos voltar por onde viemos. Vaughn, está me ouvindo? Seu navegador está pronto?

— Rawlins já estabeleceu a rota, e nosso engenheiro acabou de informar que os motores voltaram a funcionar, apesar de danificados — respondeu Vaughn. — Nós podemos ir com vocês, Hipérion. Só não sabemos até onde.

— Entendido. Fiquem prontos. Marcus, abra fogo ao meu comando. — Ele pressionou um botão. — Aqui é o capitão Horner. Todas os caças devem retornar para a Hipérion e para a Bucéfalo imediatamente. Nós vamos sair daqui agora.

Ele observou as naves disparando ainda por um instante, e depois retornando rapidamente.

— Mas o que... Senhor, uma das naves saiu de formação e está indo direto para a Estrela Branca!

Matt se aproximou.

— Quem está naquela nave?

Cade verificou rapidamente.

— Hum... é o Cooper, senhor.

— Cooper, do bar?

— Ele mesmo. Parece que apareceu dizendo que queria ajudar e que sabia voar e lutar.

— Isso é... bem nobre, mas é melhor ele voltar — disse Matt. De fato parecia nobre, e Matt Horner nunca negaria a alguém uma chance de mostrar coragem.

— Coloque ele na linha.

Cade acenou positivamente, e Matt falou:

— Coop, aqui é Matt. Você não pode fazer muita coisa contra essa nave. Volte. Nós vamos dar o fora daqui.

Silêncio.

Matt franziu a testa. Alguma coisa estava errada. Por que Cooper não estava respondendo?

— Ele está me escutando?

— Sim, senhor.

Alguma coisa o incomodava naquilo. Ele se moveu um pouco, seu braço machucado latejou e então a ficha caiu. Ele, Jim e Valerian presumiram que alguém da equipe de Mira os havia traído. E é claro que isso era verdade. Mas Crane e os outros não estavam sozinhos. Eles sabiam demais. Mais do que poderiam saber simplesmente ouvindo Mira.

— Vou sentir falta dos mai tais — murmurou Matt. Mas não da traição.

— Senhor?

— Deixe-o ir. É uma morte melhor do que ele merece.

Marcus olhou para ele, sem entender nada.

— Eu explico depois — declarou Matt.

— Senhor, ele é um Saqueador! Nós não podemos simplesmente...

— Essas são as minhas ordens, Marcus. E não. Ele não é um Saqueador. Não mais. Todos os outros já chegaram?

— Sim, senhor. — Marcus ainda parecia infeliz, mas conhecia Matt e confiava nele. Não protestou mais.

— Então vamos dar nosso tiro de adeus na Estrela Branca.

O último ataque do canhão Yamato deixou sua marca. Matt observou as chamas fulgurantes antes de dar a ordem final.

— Vamos embora. — Matt não se envergonhou de sua voz ter falhado na última palavra.

Os propulsores dianteiros da Hipérion se ativaram, e a enorme nave começou a se mover para trás. Por um momento, a Estrela Branca e as outras naves da Supremacia continuaram atirando de onde estavam.

— Vamos lá — sussurrou Matt —, vocês não vão nos deixar ir embora assim, não é?

Então a Estrela Branca começou a se mover. As outras naves, duas restantes, seguiram.

— Elas estão nos seguindo e se afastando da estação — disse Marcus, tentando evitar sorrir.

— Ótimo — respondeu Matt. — Agora só precisamos navegar por um dos campos de asteroides mais traiçoeiros com apenas vinte e cinco por cento dos escudos, metade dos motores e Arcturus Mengsk na nossa cola.

Sarah parou uma segunda vez, atordoada com o que sua mente havia captado.

Zergs!

Sentimentos de proteção e horror se uniram dentro dela. No instante seguinte, ela ficou confusa.

Protoss?

Eles a sentiram também, e não houve reconhecimento ou afeição. Somente fome, ódio e instinto assassino. Então, duas outras presenças passaram por sua mente. Jim! Ela o encontrara! Ele estava vivo, mas as emoções corriam intensamente por ele: medo, preocupação, determinação, ódio.

Eu não vou deixá-la sozinha contra essas... coisas.

— Jim — suspirou Sarah.

— O comandante ainda está aqui? Ele está vivo? — A voz de Egon era bem-vinda. Os pensamentos rubros de ódio dos híbridos e as emoções intensas de Jim quase se uniram, ameaçando atordoá-la. Porém, Sarah voltou ao presente, no qual seus próprios pensamentos carregados de ódio eram a única coisa forte o suficiente para sustentá-la.

Havia uma porta à frente; um retângulo simples que não se abria feito uma íris de câmera como a maioria das portas que eles viram na estação. Jim, sem fôlego, simplesmente apontou. Se conseguissem chegar rápido, poderiam passar e destruir os controles do outro lado.

Se conseguissem chegar rápido.

A esperança, afiada como uma faca, impulsionou os dois homens. Jim nem olhou para trás a fim de ver onde estavam as criaturas. Ou eles chegariam, ou não. Os pulmões e as pernas queimavam devido ao exercício forçado. Me carreguem até lá, só isso. Nós podemos voltar depois para encontrar Sarah.

Eles passaram pela porta e pararam tão abruptamente que quase caíram. Jim se virou, suor escorrendo pelo corpo, e percebeu que tinham sido rápidos o suficiente. Correu até o painel e bateu nele com força.

Nada aconteceu. O painel fora desativado. Narud e Mengsk tinham tomado todas as precauções para garantir que não escapariam vivos.

Jim gritou enfurecido. Não com medo, nem com tristeza, mas com pura fúria. Movendo-se aos trancos, com os membros tremendo por causa do esforço excessivo, ele levantou o rifle e começou a atirar. Ao lado dele, sem dizer nada, Valerian fez o mesmo.

Era inútil. Mas ele tinha que tentar. Os híbridos nem piscavam enquanto seguiam em frente, salivando e farejando suas presas, ansiosos pelo abate.

A protuberância óssea atrás da cabeça do híbrido mais baixo de repente rachou ao meio. Assim como o crânio abaixo dela. O monstro tremeu e tombou. Para choque de Jim, o cérebro da criatura... estourou. Como se um botão tivesse sido desligado — e talvez tivesse sido, de certo modo. A luminosidade azulada no corpo da criatura se apagou instantaneamente.

Mas o segundo híbrido ainda estava vivo, e furioso pela morte do companheiro. Mais rápido que qualquer outra criatura daquele tamanho, ele se virou sobre as seis pernas esguias para encarar o oponente. A mandíbula da criatura se abriu e ela emitiu um grito de desafio. A arma de Jim caiu ao chão e seu rosto se contorceu de agonia. Ele tapou os ouvidos com as mãos, mas não adiantou. Seus olhos se fecharam por conta própria.

Uma mão balançou o ombro dele.

— Jim, veja!

Ele abriu os olhos e sentiu, em intensidades iguais, horror e felicidade.

Sarah!

Vestida apenas com um macacão comum, ela era quase mais assustadora do que o híbrido que enfrentava. Jim vira todo tipo de expressão no rosto dela: ironia, humor, irritação, fúria, amor. Mas nada parecido com aquela expressão. Nem mesmo no rosto da Rainha das Lâminas.

Naquele momento, Sarah Kerrigan não era mais amante, amiga, fantasma ou mutante zerg.

Ela era o que Arcturus Mengsk certa vez dissera: um anjo vingador.

Ela não usava armas, nem precisava. Jim observou enquanto ela se movia mais rápido do que se podia enxergar. O híbrido foi na direção dela, lançando um terrível grito psiônico, e os braços de foice golpearam, brilhando com a fraca luz azulada. Ela seria despedaçada. Mas Sarah já não estava mais lá. Ela saltou, deu uma cambalhota e caiu nas costas da criatura. Ficou lá por menos de um segundo, mas foi o suficiente. Segurando uma perna da criatura com cada mão, ela deu um grito de fúria e arrancou os membros facilmente. Uma horrenda gosma esguichou dos tocos que restaram. Sarah arremessou os membros para o alto enquanto saltava das costas da criatura. Como se fossem dardos, os apêndices se cravaram no pescoço da criatura. Ela gemeu e seus membros restantes bateram espasmodicamente contra o chão. Sangue azulado escorria das feridas, brilhando fracamente.

Sarah saltou novamente, caindo na frente do monstro. Satisfeita, achando que teria uma oportunidade, a criatura estendeu a cabeça. A boca se abriu o suficiente para engolir a cabeça de Sarah. Em vez de esquivar para trás, Sarah segurou cada mandíbula com uma mão e puxou, com um grito de ódio.

Ouviu-se um barulho terrível, e Sarah terminou o trabalho. Como um inseto moribundo, a coisa se debateu, contorceu-se e gritou, com as pernas sacudindo para todos os lados. Então, finalmente, a criatura parou.

Silêncio.

Sarah ficou parada, segurando um pedaço da mandíbula em cada mão. Ela olhou para a coisa, respirando forte. Seus olhos não piscavam.

— Sarah?

Nenhuma resposta.

— Amor... está tudo bem. Você acabou com eles. Estão mortos.

Ela piscou e virou a cabeça lentamente na direção dele. Havia sangue, gosma e pedaços de cérebro por toda sua roupa. Seu rosto relaxou quando viu o dele, mas ficou tenso novamente ao reconhecer Valerian.

— Mengsk — disse ela, com uma voz áspera e furiosa, e começou a caminhar lentamente na direção de Valerian com determinação aterrorizante.