StarCraft: Ponto Crítico

Christie Golden · Capítulo 21 de 29

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StarCraft: Ponto Crítico

Capítulo vinte e um

 

 

A refeição já estava na sobremesa, mas a conversa não progredira. Narud ainda forçava seu ponto de vista, Jim mantinha sua posição e Valerian tentava mediar a situação. A sobremesa estava ótima, um bolo de frutas com cheiro divino e sabor delicioso.

— Ah, e Valerian — disse Narud. — Eu providenciei um vinho do Porto especialmente para você. Você prefere fulvo ao tinto, não é?

Os serventes trouxeram uma antiga garrafa empoeirada e três pequenas taças.

— Sim, é o meu preferido. Muito gentil de sua parte lembrar. — Enquanto a bebida era servida, Valerian se dirigiu a Jim. — Meu pai e eu temos semelhanças e diferenças. Nós dois apreciamos vinho do Porto, mas ele prefere o tinto e eu o fulvo.

Jim aceitou a bebida prontamente. Imaginou que se o jantar fosse algum esquema elaborado para envenená-lo, teria sido executado mais cedo. Sem falar que ele não era homem de recusar uma boa bebida. Na verdade, não recusava nem as ruins.

Jim deu um pequeno gole. Era quase tão bom quanto a sobremesa.

— Hum. Cerejas e caramelo... ou algo parecido.

Valerian levantou os olhos.

— Seu paladar é bem apurado, Sr. Raynor.

— O que é estranho, considerando que estou acostumado a tomar bebidas baratas — confessou Jim, sem sentir vergonha nenhuma da verdade. Ele raramente se envergonhava em dizer a verdade. Bebeu mais um gole. É, ele poderia se acostumar com aquilo.

— Fico feliz que esteja gostando, Príncipe Valerian — disse Narud. Ele fez um gesto para o servente. — Por favor, limpe a mesa e traga o vinho do Porto tinto.

— Mas ele acabou de dizer que quem gosta de tinto é o...

E naquele momento a ficha caiu para Jim, uma fração de segundos antes das portas se abrirem e três homens armados, mas sem armadura, entrarem. Valerian olhou-os, completamente confuso. Enquanto seus sentidos se aguçavam e ele imaginava uma maneira de se safar, Jim não pôde deixar de sentir uma estranha simpatia pelo garoto.

— Seu filho da puta — gritou Raynor para Narud.

— Emil, o que...? — Valerian parecia incapaz de formar uma frase completa e olhou para o “amigo” com a boca aberta e os olhos assustados.

— Parece que o Sr. Raynor já entendeu — respondeu Narud, com um sorriso discreto. — Sinto informá-lo, Excelência, que seu pai estará aqui em alguns momentos. E trará consigo o que restou da frota inteira.

Valerian ainda estava aturdido. Ele encarou Jim, espantado, que o olhou de volta.

Você não é um telepata como Sarah, pensou ele, mas também não é nenhum idiota. Você já esteve comigo e com Matt tempo suficiente. Leia meus olhos e caia na real, Valerian. É melhor se preparar, ou nós dois vamos morrer.

Jim deu de ombros e pegou a garrafa de vinho do Porto.

— Bom, se essa é provavelmente a última coisa que eu vou beber, é melhor aproveitar...

Ele se levantou rapidamente e arremessou a garrafa no primeiro guarda, que se abaixou, mas não rápido o bastante. A garrafa atingiu sua têmpora.

Valerian se levantou no mesmo segundo, investindo contra o guarda mais próximo com duas facas de carne bem afiadas. O guarda, iludido pela falsa impressão de fragilidade de Valerian, foi pego totalmente desprevenido. Ele caiu ao chão, sufocando no próprio sangue. Valerian pegou as armas caídas e se virou para atirar no terceiro guarda. Ele cravejou o corpo do guarda com projéteis com ponta de metal.

Boa, garoto, pensou Jim, arremessando uma cadeira na mesma direção da garrafa. Aquele guarda, no entanto, já esperava o ataque. Ele se desviou com um rolamento e abriu fogo.

— Seus idiotas! — gritou Narud. — Vocês pensam que vão escapar? Prometeu é a minha estação, e está cheia do meu pessoal e do pessoal de Mengsk.

Jim se agachou sob a mesa. Ele rilhou os dentes, cravou os pés no chão e pensou em Tychus Findlay levantando a jukebox num passado distante. Ele esticou as pernas e levantou a mesa. Ela era enorme, mas não tanto que não pudesse ser virada. Narud, que ainda estava sentado, levantou e tropeçou para trás.

Jim saltou na direção dele...

E caiu no nada.

Narud sumira.

— Mas o que...

Uma risada satisfeita e arrogante veio da porta do corredor.

Por um instante, Jim não entendeu o que estava acontecendo. Então, ele se lembrou do “broche” de aparência xel’naga usado por Narud.

— Isso é um artefato xel’naga, doutor? Parece.

— Claro que não. É só um pequeno tributo que eu projetei, uma homenagem à Srta. Kerrigan.

Sarah Kerrigan, fantasma. O maldito broche era um reator Moebius.

— Valerian! Ele está com uma roupa de camuflagem, ao lado da porta!

— Estou um pouco ocupado no momento — reclamou Valerian. Jim levantou a cabeça e viu mais guardas entrando na sala. Ele pegou a arma de um dos guardas mortos e sinalizou para que Valerian se juntasse a ele atrás da mesa. Não era a melhor das proteções, mas ainda era melhor do que simplesmente ficar parado no meio da sala.

— Quantos? — perguntou Jim.

— Eu contei seis — respondeu Valerian. Ele estava atento, e cada movimento seu era precisamente calculado. Jim gastou um nanossegundo para ficar impressionado.

— Nós podemos acertá-los quando passarem pela porta — sugeriu Jim. — Temos que dar o fora daqui.

— Ótima sugestão. Se importa de explicar como?

Mais dois guardas colocaram a cabeça pela porta. Jim e Valerian acertaram cada um, e os dois corpos tombaram.

— Não sei ainda. Precisamos libertar Sarah e Egon também.

— Ela já está morta — sussurrou uma voz sedosa perto do seu ouvido. Jim se virou e começou a atirar a esmo, mas Narud já escapara novamente. Raynor se controlou, retomando o domínio de suas ações. Ele vira Sarah em ação e sabia o que procurar. Um leve brilho no canto da visão. Facilmente descartado como um truque de luz ou imaginação, para quem não soubesse o que esperar.

Mas Jim sabia.

— Continue atirando e segure a porta. Eu vou atrás de Narud.

Ele deixou seu olhar desfocar, esperando que o brilho na lateral dos olhos aparecesse novamente. Seu corpo estava furiosamente impaciente, mas ele se forçou a manter a cabeça no lugar e a respiração calma. Permitiu que o som dos tiros, tão urgente e perturbador, se tornasse apenas som de fundo. Somente a calma traria os resultados de que ele precisava. E ele realmente queria destruir Narud, o canalha que queria ferir Sarah Kerrigan.

E lá estava. Uma pequena distorção no espaço, uma pequena mancha embaçada na parede azulada. Ele se virou e começou a atirar, mas nada aconteceu.

Ainda assim, ele sorriu.

— Eu não o acertei, mas consegui algo quase tão bom. Achei um jeito de fugir — disse ele a Valerian.

Matt sabia exatamente o que, quando e como eles deveriam agir se a Hipérion quisesse escapar daquela enrascada.

— Annabelle, escute com atenção. Eu estou enviando reforços. Não diga nada a ninguém. Eu aposto que esses caras estão armados até os dentes. Deixe Rory continuar discutindo. Você consegue arrumar alguma ajuda em silêncio e tentar desfazer o que eles fizeram com as baterias?

— Eu... claro. Vou fazer isso agora mesmo.

Ele a ouviu fraquejar por um momento e se recuperar. Como um verdadeiro Saqueador.

— Você estava certa sobre a Bucéfalo. Nós fomos bloqueados dela e da estação. Se seu amigo navegador é tão esperto quanto você diz, ele vai notar as naves também.

— Ah, sim. Eu tenho certeza de que ele vai notar.

Ela não tinha certeza. Nem Matt.

Ele contatou a segurança, e vários tripulantes furiosos se equiparam e seguiram para a engenharia. Então, enviou outro chamado para a Bucéfalo, que foi ignorado.

— Marcus, fique monitorando a Bucéfalo. Avise-me se ela começar a se preparar para batalha.

— O senhor acha que a Bucéfalo pode estar metida nisso? — perguntou Marcus.

— É possível, se Valerian for um traidor — respondeu Matt.

— Mas... você não acha que ele seja?

— Vou colocar da seguinte forma: a única pessoa na qual eu confio no momento é o Jim. Mas isso não significa que eu vou atacar a Bucéfalo se eles estiverem na mesma situação que nós. Você deve matar seus inimigos, não seus aliados. — Só precisa descobrir quem é quem, pensou ele. Estava assumindo um risco tremendo ao não atacar a Bucéfalo enquanto os escudos estavam abaixados. Este teria sido o jeito mais seguro. Mas ele sabia que não era o jeito certo.

Pelo menos não ainda.

— Senhor, eles estão levantando os escudos e se preparando para batalha, mas nós não somos o alvo — declarou Marcus.

Matt assentiu.

— Tempo estimado de chegada da... frota?

— Aproximadamente dezessete segundos.

— Como eles conseguiram se mover tão depressa? — perguntou ele, pensando alto. — É claro que eles sabiam o caminho, mas nós levamos horas.

— Eles estão atirando contra os asteroides menores e repelindo os pedaços. Até pulverizaram alguns.

— Ah, isso... explica muita coisa.

Eles não estavam preocupados em seguir a rota. Estavam simplesmente criando seus próprios atalhos.

Oito segundos.

Três.

Dois.

Um.

Sarah chamou a enfermeira. Ninguém respondeu. Ela estava completamente sozinha na enfermaria da Prometeu, envolta demais em seus próprios pensamentos de culpa e preocupação para notar que as enfermeiras todas tinham partido silenciosamente.

Sozinha.

E eles estavam vindo buscá-la.

Ela arrancou as sondas dos braços e vestiu a roupa que havia pedido pouco tempo antes, decidida a não morrer usando um avental de hospital. Estava arrependida por ter comido. A refeição deliciosa agora pesava em seu estômago. Isso a atrasaria quando...

Quando o quê?

Ela estava tão distante da sua forma ideal que era risível. De repente, Sarah se lembrou de quando ficara sozinha, sem munição, sabendo que tinha sido abandonada. Sabendo que eles estavam vindo. Não só dúzias, mas centenas, talvez milhares de zergs vindo atacá-la. Uma vez, Mengsk a salvara. Mas naquele dia, ele a deixou para morrer.

Algo havia paralisado dentro dela. A angústia se transformou em mera aceitação. Lutar era inútil. Ela não poderia vencer, não contra todos aqueles zergs.

Ela também não poderia vencer agora. Eles estavam vindo, a levariam e não havia nada que pudesse fazer. Talvez eles não a torturassem. Talvez...

Então ela notou. Aguçado, nítido e brutal como o reflexo do sol em uma lâmina polida. Ela reconheceu exatamente o que era e a familiaridade galvanizou seus nervos.

Ondas Alfa. Estavam enviando um fantasma camuflado. Um ladrão para pegar um ladrão.

Não!

A porta se abriu e, sem sequer pensar, o corpo e a mente dela entraram em ação. Ela levantou a mão, concentrou seu poder psiônico e arremessou o inimigo invisível contra a parede. Houve um barulho e um brilho quando o corpo, tornando-se visível, escorregou pela superfície branca. Ele não viera sozinho, é claro. Quatro guardas correram para entrar na sala, mas antes que pudessem atirar, ela paralisou seus movimentos e fritou seus cérebros. Eles caíram, mortos instantaneamente, líquido escorrendo dos olhos, ouvidos, narizes e bocas.

Em um breve instante Sarah percebeu que não só havia recuperado suas habilidades como elas estavam mais fortes do que nunca. Ela sempre fora muito boa no que fazia. Na verdade, sempre fora a melhor em matar. Mas agora de repente ela parecia ter se tornado uma semideusa. Por um segundo a revelação a perturbou, e seus pensamentos voaram em outra direção.

Jim!

Ele estava correndo risco de vida.

Todos eles estavam.

A base estremeceu, como se fosse o brinquedo de uma criança que tivesse ficado irritada. O que diabos poderia fazer aquilo com uma estação espacial dentro de um asteroide? Teria alguém plantado explosivos no lugar?

Então de repente ela soube, e seu corpo se enrijeceu de ódio. A base estava sendo atacada.

— Ah, não, você não vai fazer isso, seu filho da puta — rosnou, sentindo a fúria crescer dentro de si, enchendo-a de adrenalina. — Desta vez, não. Nem nunca mais.

Egon estava orgulhoso de si mesmo. Ele conseguira se manter calmo, localizar uma caixa de pipetas e quebrar uma; e agora usava o fragmento para cortar as cordas que atavam seus pulsos.

Então o chão começou a tremer. Caixas caíram das prateleiras sobre ele. Egon levantou os braços, ainda parcialmente atados, para afastar as caixas e gemeu quando um pedaço de vidro cortou sua palma. Então o tremor passou.

— Eita — exclamou ele repetidas vezes.

Justo quando ele conseguiu se acalmar, o grito furioso de um alarme cortou o ar. Então, uma voz calma começou a anunciar:

— Atenção. A estação espacial Prometeu está sendo atacada. Aguardem novas instruções. Atenção...

Ele tateou com a mão ensanguentada em busca do pedaço de vidro e continuou a trabalhar. Por fim, as amarras se soltaram e ele começou a cortar as que prendiam seus pés. O fragmento estava escorregadio por causa do sangue, mas por fim ele se soltou. Bem, pelo menos das amarras. Ainda não sabia se a porta se abriria.

Ele se levantou, atordoado, ainda sentindo a dormência causada pelas amarras, e caminhou até a porta. Forçou a maçaneta.

Ela não virou.

O desespero, temporariamente deixado de lado, retornou. Ainda estava preso. Preso em uma estação científica, trancado em um pequeno armário de suprimentos sobre o qual ninguém sabia. Se Jim e Valerian ainda estivessem ali, provavelmente estavam presos. Ele e os demais seriam entregues a Mengsk, que provavelmente estava por trás do ataque, e então eles seriam transformados em cobaias de experimentos ou torturados até a morte.

Isto é, se alguém o encontrasse. Era mais provável que ele morresse ali, sozinho, lentamente, desidratado, ou fosse explodido em pedacinhos.

A maçaneta se virou.

Ele congelou por um instante, então se levantou rapidamente e procurou um lugar para se esconder. Melancolicamente, Egon decidiu que não morreria sem lutar. Segurou uma das caixas menores, sentindo doer a mão ferida, e a ergueu sobre a cabeça.

Uma mão o alcançou, segurou seu colarinho e o puxou para a luz.

Ele viu um rosto que era lindo em sua fúria, adornado por um cabelo que mais parecia um ninho de serpentes.

— Fique perto de mim — ordenou Kerrigan com a voz baixa e intensa, tão assustadora quanto sua expressão. — Eu só vou resgatar você uma vez.