StarCraft: Ponto Crítico

Christie Golden · Capítulo 2 de 29

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StarCraft: Ponto Crítico

Capítulo dois

 

Na suntuosa ponte da Bucéfalo, Valerian Mengsk, Herdeiro Legítimo da Supremacia Terrana, tirou a rolha de um raro vinho do porto de safra antiga, encheu uma pequena taça e olhou pela enorme escotilha que ocupava a parede inteira.

O feio planeta Char, avermelhado e tristonho, tomava a maior parte da vista. Lá, uma batalha estava sendo travada. Uma batalha cujo resultado era de vital importância para Valerian. Naquele mundo vulcânico e inóspito, ou Sarah Kerrigan estava renascendo, ou a Rainha das Lâminas estava massacrando os que tinham ido resgatar sua humanidade perdida.

Acima, nas estrelas, também havia uma batalha em andamento. Os zergs estavam descontrolados, o que era bom e ruim ao mesmo tempo. Era bom porque seus ataques não tinham estratégia nenhuma, e ruim porque eram aleatórios, mas brutais. As naves de Valerian estavam envolvidas. Ele vira a destruição de ao menos onze dos vinte e cinco cruzadores de batalha que levara para a luta. Até a gloriosa Bucéfalo estava sendo atacada.

Tinham havido, e ainda haviam, tantos “ses”. Se Raynor conseguisse achar Kerrigan. Se a equipe dele pudesse posicionar o artefato perto o suficiente para ele funcionar. Se o artefato funcionasse mesmo. Valerian estava confiante de que funcionaria, mas é claro que, como diria um antigo e sábio adágio: “O homem faz planos e Deus ri”. Felizmente, parecia que até ali a aposta tinha dado certo, se é que se podia deduzir alguma coisa a partir do comportamento errático dos zergs.

Ainda assim, ele conteve seu ânimo, lembrando-se sempre dos “ses” que restavam. Se, se, se… se Raynor sobrevivesse por tempo suficiente para levar Kerrigan a um lugar seguro… se ele concordasse em entregá-la a Valerian...

Só então o Herdeiro Legítimo poderia comemorar de verdade.

Já se preparando para o momento, Valerian reunira um grupo de médicos e cientistas. É verdade que era somente uma equipe provisória até que Kerrigan fosse levada a instalações mais adequadas, mas não deixava de ser uma bela seleção de especialistas. Eles estavam à espera, quase tão empolgados quanto ele, prontos para começar a examinar a moça assim que chegasse. Raynor não era bobo. O ex-criminoso já devia saber que esses homens e mulheres estavam muito acima de quaisquer médicos ou cientistas que tinha a bordo da Hipérion. Valerian esperava que, no fim das contas, a preocupação do homem por sua amada vencesse e Raynor optasse pelo melhor tratamento possível para Sarah.

Com um olhar pensativo, Valerian agitou o líquido cor de âmbar no copo e tomou um gole da bebida quente, esticando a língua para secar uma gota dos lábios.

O poder que logo seria seu… Poder para finalmente provar ao seu pai, Arcturus Mengsk, que era tão forte quanto ele — e um homem melhor. Ainda mais importante para Valerian, porém, era o conhecimento que Kerrigan tinha armazenado dentro da mente. Pelo menos, era o que ele esperava: que ela ainda tivesse o conhecimento. Podia ser que não se lembrasse de ter sido transformada em um monstro — a gloriosa e aterrorizante Rainha das Lâminas, senhora dos zergs. Podia até ser que sua mente tivesse sido completamente destruída pela transformação.

Ele lamentaria muito se isso tivesse acontecido. Mais do que poder e riqueza, Valerian era um entusiasta do conhecimento, e valorizava-o muito. Especialmente conhecimento ancestral. E certamente Kerrigan chegara a possuí-lo.

A música estridente que vinha da vitrola antiga evoluiu num crescendo e depois parou. O ruído abafado de algo arranhando invadiu o cômodo. Valerian estendeu a mão de unhas bem-feitas, levantou a agulha e começou a tocar o disco de novo. Instrumentos velhos começaram a soar novamente, e uma voz humana feminina, cuja dona tinha morrido fazia séculos, começou a cantar.

Claro que o conhecimento poderia ser usado em proveito próprio. Mas, assim como a ópera que Valerian escutava sem prestar muita atenção, era algo belo e precioso, que tinha valor simplesmente pelo que era. Simplesmente por existir.

Tomou outro gole do porto e ponderou sobre o poder de uma coisa chamada “amor”. Valerian amara sua falecida mãe, mas, fora isso, tinha pouca familiaridade com esse sentimento. Já sabia como era sentir respeito e afeição pelos outros, mas nunca esteve numa situação que pudesse chamar de “estar amando”. Esperava amar, um dia. Sendo um homem que ansiava por conhecer todas as coisas, queria experimentar aquela força tão grande. Várias vezes, testemunhou o que ela podia fazer. O amor tinha transformado uma certa R. M. Dahl, uma assassina extremamente eficiente e egoísta, em uma mulher que estava disposta a matar — e morrer — não apenas pelo homem por quem se apaixonara, mas também pelos ideais por ele abraçados.

E aquele homem, professor Jacob Jefferson Ramsey, não só correspondera a esse amor, como também aprendera a compreender, admirar e, sim, amar toda uma espécie alienígena. Valerian admitiu, de livre e espontânea vontade, que não tinha ficado indiferente à experiência de conhecer essas duas pessoas. Ela o fez lamentar ainda mais o que acabaria fazendo com Jake depois.

Outro homem que tinha um amor profundo no coração fizera por Valerian o que talvez fosse o maior serviço já prestado. O príncipe de cabelos claros sabia muito bem que Jim Raynor era a única razão pela qual Sarah Kerrigan estava viva agora. Raynor a amava, independentemente do que ela havia se tornado, independentemente das atrocidades que cometera. Amava-a o suficiente para arriscar a própria vida e a de outras pessoas, o suficiente para ir direto às entranhas do covil do monstro sem saber se encontraria sua morte ou sua amada.

Tudo isso era incrível, realmente incrível. Valerian agitou o resto de vinho e sorriu ligeiramente. Ergueu a taça e declarou, com sua voz rica e agradável: “Pois bem, ao amor”, e sorveu as últimas gotas.

Lisle dissera a Jim que os dois estavam a caminho levando o artefato. Parecia a Raynor que quatro séculos tinham se passado desde então.

Nesses quatro séculos — na verdade, uns quatro minutos, Jim e sua equipe empilharam uma quantidade impressionante de corpos de zergs, mas a pilha diminuiu um pouco quando duas hidraliscas atacaram os terranos. Os Saqueadores de Jim transformaram uma delas em uma sopa magenta cheia de pedaços. A outra empalou um cadáver de zergnídeo com seus braços de foice e recuou.

Os Saqueadores soltaram gritos de alegria quando a enorme criatura se afastou com seu prêmio, sem se darem ao trabalho de desperdiçar munição.

— A solução para acabar com os zergs, afinal. — disse Fraser. — Cortar a cabeça e deixar que se alimentem dos restos um do outro.

Jim lançou-lhe um olhar rápido, mas não havia malícia no comentário. E era verdade. A Rainha das Lâminas se fora, embora a humana que havia dado origem a ela estivesse — ao menos ele esperava — dentro do módulo de transporte.

Houve um clique dentro do ouvido de Jim.

— Estamos a um quilômetro daí — disse Lisle. — Lamento, chefe. Esse brinquedo xel’naga está nos atrasando um pouco. E tivemos que dar cabo de uns cães sarnentos também.

Jim não conteve um sorriso ao ouvir Lisle fazer pouco do que ele sabia muito bem ser uma situação de vida ou morte.

— Entendido — respondeu, dando um tom animado à sua própria voz. O negócio era manter o moral elevado. Então apontou para dois homens. — Fraser e Rolfsen, vocês dois vão na frente e se encontram com eles. Abram caminho. Temos muitos lanchinhos aqui para a próxima leva. Já eles não têm nada.

— Sim, senhor — falou Fraser, e partiu com Rolfsen.

— Senhor. — Era a voz do piloto no ouvido de Jim. — Estou recebendo informes de que há várias mutaliscas se aglomerando entre nós e a frota, lá em cima.

O tom da voz do homem — cuidadosamente impostada, neutra demais — revelou a Jim tudo de que precisava saber.

— Kerrigan ainda está inconsciente — disse Jim. — Não tem como ela estar controlando as mutaliscas.

— Se o senhor diz… Mas o fato é que elas estão se juntando. Pode ser que estejam nos seguindo. Não dá para saber ao certo.

— Elas podem ter decidido que gostam de andar juntas — retrucou Jim. — A não ser que você me diga que sabe exatamente como os zergs se comportam quando não estão recebendo ordens, vamos partir do pressuposto de que isso não passa de uma coincidência. — Ele se deu conta de que pareceu irritado e na defensiva, mas não pôde evitar. Sabia que Sarah não estava controlando os zergs. Sabia de uma forma que jamais conseguiria explicar.

— Sim, senhor.

A poeira anunciava que algo estava se aproximando por terra. Jim não conseguia calcular a distância. Levantou a arma, mas sentiu uma pontada na nuca — o instinto de um homem tão acostumado a lutar que às vezes o corpo era mais sábio do que a cabeça.

Não atirou. Dali a poucos segundos, viu claramente que a poeira não tinha sido levantada por uma horda de monstros vorazes, mas por Lisle, Haynes, Fraser e Rolfsen, que se aproximavam o mais rápido que podiam. Carregavam a cápsula protetora que guardava o artefato alienígena luminoso.

Houve um clamor de alegria e a rampa do módulo de transporte foi baixada. Sorrindo e cobertos de poeira cinza, os quatro Saqueadores colocaram o artefato de valor inestimável na nave. Jim percorreu com os olhos o interior do módulo e achou Sarah, ainda inconsciente, ainda respirando, parecendo ainda menos humana com toda aquela aparelhagem conectada do que quando a encontrara na caverna.

Olhou para trás e soltou um palavrão. Outra nuvem de poeira, e desta vez ele conseguiu ver as silhuetas grotescas.

— Mais convidados para a festa. Parece que seguiram o rastro do módulo. — Ele ergueu o rifle e mirou.

— Senhor, temos que ir! — gritou Rolfsen.

Jim nem gastou fôlego respondendo. Eles tinham que decolar, mas teriam mais chances de sucesso sem um monte de zergs pulando para cima da nave. Jim começou a massacrar os que se aproximavam, sem sentir nem remorso nem contentamento, depois entrou na nave e sentou-se desajeitadamente ao lado de Kerrigan. Assim que as portas se fecharam, os passageiros afivelaram os cintos de segurança e o módulo alçou voo.

Todos levantaram as viseiras. O ar reciclado nunca cheirara tão bem. Respirando aliviado, Jim se surpreendeu por estar pensando não na fuga — ainda em andamento — e não em Sarah, mas em Tychus.

Vou ficar preso nessa armadura até pagar todas as minhas dívidas.

Tychus Findlay carregara sua própria prisão consigo, vivera e morrera nela. Se ao menos tivesse havido outra saída...

Jim afastou esses pensamentos e voltou sua atenção para Kerrigan. Seu corpo estava preso pelos mesmos cintos de segurança que prendiam a todos, e seus olhos estavam fechados. A cabeça pendia, e o estranho cabelo — se é que podia ser chamado assim — mexia-se não por vontade própria, mas por causa do movimento da nave. Preston tinha tido o cuidado de envolvê-la bem no cobertor, guardando sua nudez. Não que Sarah fosse uma flor delicada e tímida quando se tratava disso.

— Como ela está? — perguntou Jim.

Preston, sentada do outro lado de Kerrigan, levantou os olhos do registro que lia.

— Não dá para saber agora. Consegui estabilizá-la, e ela parece bem humana até onde eu pude ver. Mas precisa de cuidados mais intensos do que podemos oferecer aqui.

— Que mais?

Lily hesitou.

— Acho que ela precisa de cuidados mais especializados do que nós podemos conseguir na Hipérion também.

— A Hipérion era a nau capitânia de Mengsk. As instalações são excelentes. O que você está querendo dizer, exatamente?

Ela olhou diretamente para ele.

— Eu quero dizer que não tenho certeza do que estamos enfrentando aqui, Jim. Temos suprimentos de primeira, mas, droga, eu não sou uma médica de primeira! E muito menos uma especialista em zergs.

— Ela não é uma zerg!

Lily deu de ombros.

— Já eu não tenho tanta certeza — respondeu ela, baixinho. — Ainda não. — E curvou a cabeça de novo sobre os registros.

Jim ficou parado por alguns instantes, pensando, depois ativou o sistema de liberação da luva e a retirou. Estendeu o braço e pôs a mão de Kerrigan na sua, com cuidado para não mexer nos inúmeros tubos que estavam presos a várias partes do seu corpo.

Calor humano. Súbito, os olhos dele começaram a arder e piscaram. Não esperava que essa sensação o comovesse tanto. Fitou a mão dela como se nunca a tivesse visto antes, sentindo a força que continha, examinando as unhas estranhamente longas que haviam sido garras, e relembrou a primeira vez que aqueles dedos hábeis tinham se fechado em torno dos seus.

Certa vez, ela lhe contara que mantinha as unhas curtas porque era mais prático, e que prendia o cabelo num rabo de cavalo para não atrapalhar. E contara também a razão pela qual se mantinha sempre em forma e tinha construído ao redor de si uma muralha de um quilômetro de espessura.

Praticidade. Algo típico de uma guerreira e assassina.

Jim queria levar a mão inerte ao peito ou aos lábios dele, mas não fez nenhuma das duas coisas. Simplesmente ficou relembrando.

Houve um súbito impacto e a nave deu um solavanco. Se Kerrigan não estivesse bem amarrada, teria saído voando. Jim sabia, claro, o que tinha acontecido. Rapidamente baixou a viseira e conectou-se à entrada do módulo de transporte. Os arredores da nave começaram a aparecer no visor que tinha acoplado ao capacete.

Mutaliscas.

Elas sempre foram sanguinárias nos ataques. E, agora que a rainha não estava mais no controle, Jim imaginava que elas deviam estar ainda mais insanas do que os zergnídeos. Duas delas se concentraram somente no módulo, esquecendo tudo o mais, inclusive as próprias vidas. As feras horripilantes batiam suas asas de aparência delicada (que eram inúteis no espaço, de modo que Jim concluiu que se tratava de algum reflexo animal) e cuspiam a peste morfética — que devorava e destroçava tudo o que se pudesse imaginar — na direção do módulo. Era óbvio que uma delas tinha atingido o casco.

A nave mergulhou tão rápido que o estômago de Jim revirou. A cabeça de Kerrigan pendeu para frente. O resto deles estava protegido do tranco pelas armaduras, mas não se podia fazer nada por ela no momento. Jim sabia que era uma luta pela sobrevivência, e as únicas coisas que poderiam salvá-los eram a habilidade do piloto e um resgate rápido que chegasse antes de a peste morfética destruir a nave.

O módulo manobrou tão rápido quanto mergulhara, depois girou e desceu novamente. Pelo visor do capacete, Jim percebeu o quanto a tática era brilhante: as mutaliscas acabaram ficando de frente uma para a outra e, inadvertidamente, se atacaram. Agitavam as cabeças cheias de olhos, sem dúvida gritando de agonia, enquanto seu próprio sangue ácido corroía suas carapaças. Jim quase desejou poder ouvi-las, mas no espaço era impossível.

Duas a menos, mas era impossível saber quantas havia. Jim pensou mais uma vez nos pedaços do cruzador de batalha que choveram sobre Char como meteoros.

— Socorro, socorro! Aqui é o módulo de transporte Esplendor, da Hipérion, buscando abrigo imediato. Estamos sob o ataque cerrado das mutaliscas e trazemos o comandante e Kerrigan. Repetindo, precisamos de ajuda imediatamente!

— Bucéfalo na escuta. Qual é a sua posição, Esplendor?

— Não — disse Jim secamente, colocando as mãos em concha para falar somente ao piloto. — Para lá, não. Não vou permitir que ele fique com ela.

A nave deu mais um solavanco.

— Senhor — gritou Merrick —, acho que não temos escolha! Aquela última mutalisca nos acertou em cheio. Temos mais ou menos sete minutos antes de a peste penetrar o casco!

Jim ficou devastado. Valerian não iria enxergar Sarah como uma pessoa. Ele a via apenas como um meio para alcançar seu objetivo — uma forma de ofuscar o papai, de obter autoafirmação. Ela era só um instrumento, nada mais. Raynor preferia viver no inferno a deixar aquele garoto mimado pôr as mãos em Kerrigan.

As palavras da médica lhe vieram de novo à mente. E se a Hipérion não tivesse equipamento para tratar Sarah da forma realmente necessária? E se ele estivesse negando a Sarah a chance de se recuperar completamente?

— Senhor, não vamos sobreviver a outro ataque e detectamos mais um monte daquelas filhas de uma égua nos sensores — advertiu o piloto.

— Merda — praguejou Jim. — Raynor para Bucéfalo. Mande seus rapazes tirarem esses zergs da nossa cola. Estamos chegando.

— Entendido, Sr. Raynor. Vamos interceptar assim que pudermos.

Escolhas. Jim torcia para não se arrepender desta.

Ele desligou o intercomunicador e se recostou no assento, planejando ficar com Sarah até chegarem ao hangar da Bucéfalo. Então, talvez ele sacasse o rifle para garantir que o comitê de boas-vindas teria realmente essa intenção. Para sua surpresa, ela estava acordada… ao menos em parte.

— Sarah — disse ele gentilmente, pegando sua mão de novo.

Preston respondeu num tom baixo:

— Ela está desmaiando e despertando o tempo todo. Não sei o quanto ela lembra agora.

Jim fez sinal de compreensão e voltou sua atenção para a amada.

— Oi, amor — disse com a voz mais suave possível, incapaz de esconder um tremor de emoção.

Os olhos verdes se arregalaram, mas Jim não sabia se estavam voltados para ele ou para alguma coisa que só existia na mente dela. Sarah fez movimentos como os de quem nada num pântano, depois se encolheu repentinamente e soltou um urro animalesco.

Jim sentiu um aperto monstruoso no coração. Era óbvio que ela estava com medo. Nunca antes, na vida adulta, Sarah tinha estado tão vulnerável: nua, fraca e indefesa diante de um homem que um dia a amara, mas que também havia jurado matá-la. Ele se perguntou se ela estava lembrada da promessa e se estava feliz ou assustada por ter sido encontrada justamente por ele.

— Tente acalmá-la, Jim — disse Preston. Os Saqueadores observavam atentamente. Dava apenas para supor o que estava passando pela cabeça deles. — Os sinais vitais dela estão dando picos!

— Sarah, meu bem — prosseguiu Jim, ainda com a voz suave e calma —, prometo que ninguém vai machucar você. Nem eu nem ninguém, entendeu? Palavra. Eu prometo. Prometo!

Seus esforços já eram débeis, e então Sarah se aquietou e olhou para Jim. Seu rosto era tão familiar, tão dela, mesmo emoldurado por aquela massa de estranhos tentáculos que formava seu cabelo.

Sarah.

Ela assentiu e fechou os olhos, com uma confiança quase infantil, tomando a palavra dele como verdade.

Sarah. Sarah. Droga… você vai ficar bem. Vou fazer com que você fique boa. Vou transformar você em Sarah de novo. Nem que custe até a última gota de sangue das minhas veias. Vou cuidar de você.

— Ela perdeu a consciência — disse a médica.

— Se não for fazer mal a ela, tente mantê-la dormindo — tornou Jim. — É melhor que ela não veja o que está para acontecer.