StarCraft: Ponto Crítico
Capítulo dezenove
Quando Jim e Sarah saíram, Narud voltou-se para Valerian.
— Enquanto ela está sendo devidamente atendida, eu gostaria muito de ver aquele belo artefato.
— Ah, sim! — entusiasmou-se Egon. Valerian sorriu com indulgência para o jovem cientista, ignorando o fato de que ele é quem tinha sido interpelado, e não Egon. — Nós levamos os pedaços que coletamos para a Hipérion — continuou Stetmann —, mas o príncipe Valerian está com eles na Bucéfalo por enquanto.
— Na verdade, Dr. Stetmann — disse Narud —, o príncipe Valerian autorizou uma visita particular, mas supervisada, a um dos nossos laboratórios, se interessar.
Os olhos de Egon se arregalaram.
— Eu, ahm... Ora, claro, claro que sim, isso seria ótimo!
Mais quatro pessoas saíam da estação para a plataforma, dois homens e duas mulheres. Uma delas, alta, com cabelos negros, pele pálida e olhos cinzentos, aproximou-se de Egon e estendeu a mão.
— Dr. Stetmann? Eu sou a Dra. Chantal de Vries. Será um prazer mostrar nossos laboratórios.
Valerian pensou que era difícil avaliar na expressão de Egon se o jovem estava mais feliz com a perspectiva de ver o laboratório ou com a companhia de uma mulher tão bela. Foi sem dúvida uma feliz combinação.
— É um prazer conhecê-la — disse Stetmann, conseguindo não gaguejar, embora seu tom de voz tivesse subido um pouco enquanto ele apertava a mão da doutora. — Fiquei até excitado. Com o laboratório. Quer dizer, eu tentei estudar os zergs o melhor que pude com as instalações disponíveis aqui, mas...
Ela sorriu.
— Venha comigo. Eu vou lhe mostrar coisas que vão deixá-lo de queixo caído.
Ela não deu o braço a ele, mas não foi preciso. Egon a seguiu com passadas rápidas e saltitantes que fizeram Valerian lembrar de um filhote feliz de cachorro.
Bem, pensou Valerian, pelo menos alguém da tripulação de Jim iria apreciar a visita. Ele se voltou para os outros. Narud já estava fazendo as apresentações; as três pessoas remanescentes, os Dres. Nancy Wyndham, Joseph Reynolds e Adrian Scott, apertavam as mãos dos Saqueadores.
— Os doutores têm instruções para levá-los aonde vocês desejarem — disse Narud — com exceção de alguns locais reservados. Por favor, aproveitem a visita. Eu... gostaria de compensar nossa recepção pouco amigável.
Valerian podia sentir as tensões diminuindo, e ficou satisfeito. Tendo crescido em um ambiente de desconfiança e tensão, ele tanto entendia como lamentava aquela situação. Ao caminharem para a entrada, Narud olhou para Valerian e sorriu.
— Outra coisa: você pode autorizar algumas unidades de reparo a bordo das suas naves?
Não era tão estranho quanto podia parecer que uma estação de ciência fizesse tal oferta. Chegar em Prometeu era uma empreitada arriscada até para os pilotos mais experientes, e Valerian se certificara de que o melhor equipamento e pessoal de manutenção e reparos estariam disponíveis caso fossem necessários.
— É claro. — Ele ligou o comunicador. — Matt, aqui é Valerian. Gostaria de enviar algumas equipes de reparo até a Hipérion. Alguma objeção?
— Você está brincando? — respondeu a voz de Matt. — A essa altura Swann já deve estar usando esparadrapo e chiclete... Por favor, envie quantas equipes quiser.
— Elas logo estarão aí, então. Valerian, câmbio e desligo.
Ele se voltou para Narud.
— Agora — disse o doutor, em uma voz que mal escondia a animação —, o artefato.
Valerian sorriu.
— Agora o artefato — concordou ele.
O artefato xel’naga, resultado de anos de estudo e pesquisa, flutuava complacentemente no interior da Bucéfalo. As paredes do laboratório tinham o tom que já fora chamado de “azul-revólver”, e a luz era suave e agradável aos olhos. O artefato era uma pequena coluna negra com três lados, irradiando uma luz azul quase mística das juntas onde as partes reunidas se tocavam. Ninguém poderia olhar para ele sem sentir-se tocado de alguma forma, nem mesmo o mais cínico Saqueador ou o soldado mais profundamente ressocializado. Certamente, nenhum cientista que tivesse devotado anos de carreira ao estudo dos zergs e xel’naga.
Valerian sentia orgulho do que ele e a Fundação tinham conseguido, e postava-se sorrindo gentilmente ao lado de Narud, que observava o objeto.
— Conforme prometido, é seu — disse Valerian. — Tenho certeza de que aprenderá ainda mais sobre ele quando puder estudá-lo por conta própria.
A porta se abriu e Raynor entrou. Ele se aproximou sem falar nada, então cruzou os braços fortes sobre o peito amplo, ainda em silêncio.
Narud o ignorou.
— Muito bonito, para uma arma — disse ele.
— Arma? — perguntou Jim. — Então você sabe que é pra isso que serve?
— O fato de que ele reverteu a infestação que transformou Kerrigan na Rainha das Lâminas é uma prova óbvia — respondeu Narud, com a voz repleta de condescendência. Quatro lacres subiram zumbindo do topo do invólucro que transportara o artefato, ou a arma, até Char com resultados surpreendentes. O topo do invólucro deslizou, depois se abriu. O artefato girou lenta e gentilmente até ficar paralelo à caixa aberta, e assim foi empurrado até os braços de metal que o esperavam.
— Para os xel’naga, que modificaram extensivamente os protoss e os zergs, a capacidade de destruir o DNA deles seria naturalmente uma arma — continuou Narud, com o olhar fixo no artefato enquanto o invólucro se fechava. A suave luz azul desapareceu, e o laboratório subitamente pareceu mais cinza, mais militar. — O fato de os terranos terem encontrado uma maneira de usá-lo para fins positivos não tem nada a ver com a intenção original dos seus criadores.
Jim grunhiu, sem parecer impressionado.
— Bom, agora é todo seu — disse ele. — Não vá fazer nada que eu não faria.
Narud sorriu.
— Eu entendo que você tem uma grande conexão emocional com esse dispositivo — disse ele. — Saiba que o artefato está sob cuidados bastante respeitosos. Obrigado, príncipe Valerian. Eu ordenarei que o item seja transportado até o laboratório em Prometeu. Enquanto eu estiver lá, darei uma olhada em seu jovem e empolgado cientista.
— Obrigado novamente por dar acesso a ele — disse Valerian.
— Ele é um bom garoto — disse Jim. — Inteligente e aprendiz rápido.
—Talvez haja uma vaga para ele em Prometeu, se vocês e ele concordarem — disse Narud. — E, por favor: eu darei um jantar de boas-vindas para vocês na estação às 20h. Príncipe Valerian, espero que você, o Sr. Raynor e Sarah Kerrigan compareçam.
— A enfermeira já nos convidou. Depende de como Sarah estiver se sentindo.
— Obrigado. Ainda me sinto mal por causa da impressão inicial que causei. Foi inteiramente culpa minha, e espero que vocês me deem a chance de tentar uma segunda vez.
A porta se abriu novamente e dois soldados em trajes completos de combate entraram. Antes que Jim pudesse dizer alguma coisa, Valerian disse, rápida mas casualmente:
— Obrigado, cavalheiros. Eis o artefato. Cuidem dele com atenção.
Jim relaxou e Valerian deu um suspiro de alívio. Ele não podia culpar Jim por suas suspeitas, mas a desconfiança constante estava começando a cansar. Os soldados se aproximaram, segurando a alça da caixa, e partiram, carregando o volume imenso como se não pesasse nada.
— Vejo você no jantar, príncipe Valerian. Sr. Raynor, espero ver o senhor e Sarah também. — Narud pareceu ponderar se estenderia a mão, mas então, talvez prevendo que ela seria ignorada, simplesmente acenou com a cabeça e seguiu os soldados.
Quando as portas se fecharam às suas costas, Jim disse:
— Por que eu não gosto de pensar nesse homem em posse do artefato?
— Jim — disse Valerian —, a Fundação Moebius foi responsável por recupe...
— Eu fui responsável — replicou Jim. — Minha equipe e eu nos arriscamos para obter esse negócio.
— Vocês foram bem pagos — respondeu Valerian, ignorando o tom agressivo de Jim — E no final o artefato lhe deu algo muito mais precioso que dinheiro, não foi?
Raynor franziu o rosto e não disse nada.
— A Fundação Moebius é minha. Não do meu pai. E eu mando em mim, não o meu pai. Emil Narud é um cientista genial, e eu acredito piamente que ele poderá ajudar Sarah a se tornar completamente humana.
Jim o encarou firme. Valerian não desviou o olhar. Depois de um instante, Jim aquiesceu e disse.
— Pelo menos vamos filar uma comida boa hoje.
— Tem certeza de que não quer vir? — perguntou Jim pela segunda vez. — Swann pode supervisionar os reparos sozinho.
— Claro que pode — disse Matt. — Mas eu realmente não tenho interesse na estação, senhor. Prefiro ficar.
Honestamente, Raynor também. Ele tinha certeza de que Narud e Valerian estariam vestidos formalmente, mas Jim preferia o estilo simples e limpo. Mesmo nas melhores fases da vida, Jim jamais passara de um fazendeiro ou delegado, e a estrela que indicava seu cargo fora o mais perto que chegara de usar joias. Ele tinha tomado banho, se barbeado e cortado o cabelo, e aquilo fora sua única concessão à formalidade da ocasião.
Ele deu de ombros.
— Como quiser. Eu trago uma quentinha pra você.
— Faça isso. Não conseguiu convencer Kerrigan a ir?
Jim balançou a cabeça.
— Ela nem quis me ouvir. Eu ainda não sei se ela vai se submeter a qualquer coisa que não seja os cuidados médicos mais básicos. Nem sei se quero que ela se submeta. Espero me situar melhor com o jantar de hoje à noite, pra saber de que lado ficar. Você tem alguma notícia de Egon?
— Não — respondeu Horner. — Achei que você tivesse falado com ele.
— Provavelmente está babando feito criança em loja de doce em algum laboratório — cogitou Jim. — Narud cogitou contratá-lo. Tenho certeza de que ele aparecerá pro jantar. Talvez se eu oferecer um aumento ele fique conosco.
Matt sorriu um pouco.
— Duas vezes nada ainda é nad...
— Melhor mudar de assunto ou vou bater no seu braço machucado. Te vejo em duas horas.
Jim foi até a enfermaria da Prometeu antes, para tentar uma última vez convencer Sarah a ir ao jantar. Pelo menos a qualidade da comida faria bem a ela. Quando chegou, a enfermeira parecia um tanto aborrecida, e o preveniu:
— Eu disse que nós somos do mesmo tamanho e que eu tenho um vestido lindo que ela pode pegar, mas...
— Eu não uso vestido — respondeu Kerrigan, ríspida. Jim se lembrou do vestido verde, mas não disse nada. Ela podia usar antes, mas aquilo já não significava nada. Sarah lançou um olhar rápido e teimoso na direção dele. — Veio tentar me obrigar?
— Eu nem sonharia com isso — respondeu. — Vim ver se mudou de ideia.
— Sem chance.
— Eu disse ao Matt que traria uma quentinha. Você quer uma também?
Aquilo de fato conseguiu fazê-la rir.
— Estou bem, Jim.
Ele hesitou, então se inclinou e a beijou suavemente nos lábios. Ela ficou tensa por um instante, depois relaxou e devolveu o beijo.
— Vou voltar assim que puder — disse enquanto se afastava — e aí lhe conto o que tiver descoberto sobre Narud.
Ela estava sorrindo quando ele saiu.
A porta que dava para o que era modestamente chamado de sala de recreação se abriu, e Jim imediatamente se sentiu ainda mais deslocado do que se sentira a bordo da Bucéfalo.
A luz era suave, mas não fraca, e a música era calmante. Parecia o mesmo tipo de música inofensiva e pouco inspirada que ele ouvia por toda a estação. Uma jovem se aproximou dele sorrindo e ofereceu uma bandeja onde repousavam taças finas de vinho. Jim aceitou uma e tomou um gole. Sem dúvida era coisa refinada e bastante cara, mas só o deixou com mais vontade de estar em seu bar, bebendo cerveja e ouvindo a jukebox.
Como Jim esperava, Valerian estava todo emperiquitado. Ele deixara de lado a farda e optara por algo mais simples, uma jaqueta preta com calças combinando, botas polidas e uma camisa azul-escura com babados. Um broche dourado no formato de uma cabeça de lobo adornava a gravata de seda negra. Seu cabelo loiro estava arrumado salvo pelo teimoso cacho que sempre caía sobre a testa. Jim esperava que ele jamais conseguisse ajeitar aquele cacho. Ficaria perfeito demais, se conseguisse.
— Pena que a Srta. Kerrigan preferiu não vir — disse ele. — Mas fico feliz que tenha vindo, Jim.
— Obrigado. — Ele não estava tentando ser rude, na verdade. Só se sentia deslocado e queria acabar logo com aquilo.
Narud se aproximou, vestido de forma similar a Valerian, mas não tão elegante. A única coisa que sobressaía era uma joia peculiar, de design xel’naga, assim como a estação.
Valerian, é claro, a notou imediatamente.
— Isso é um pedaço de artefato xel’naga, doutor? Parece.
— Oh, céus, não — respondeu Narud. — Apenas um pequeno tributo que projetei em homenagem à Srta. Kerrigan.
— Eu quero um também. Vai ficar divino em mim!
Narud riu.
— Tenho certeza de que sim. É só uma peça de joalheria, Alteza, mas se você quiser, posso tentar conseguir outra. — Ele se voltou para Jim. — Seja bem-vindo, Sr. Raynor. É bom ver você, mas pena que veio sozinho. Gostaria muito que a Srta. Kerrigan tivesse vindo...
— E as pessoas no inferno gostariam de água gelada. — Jim sabia que seu sorriso não era amigável, mas não se importou.
Narud não perdeu a compostura.
— Também não vejo o capitão Horner — disse, olhando ao redor.
— E eu não vejo Egon — disse Jim. — Onde ele está?
— Parece que ficou tão fascinado com os laboratórios... e, ao que parece, com a Dra. De Vries... que preferiu passar mais tempo conhecendo nossas instalações.
Em vez de comparecer a um jantar íntimo onde ele poderia encher Narud de perguntas?
— Vou ver se consigo convencê-lo a vir — disse Jim, pegando o comunicador do bolso. Ele quis ver se Narud reagiria negativamente ao gesto, mas o cientista simplesmente sorriu.
— Por favor — disse ele. — Talvez você tenha sucesso onde eu falhei.
— Egon Stetmann — crepitou uma voz.
— Você está perdendo a boca-livre, Egon, e uma chance de alugar Narud até os ouvidos dele sangrarem.
— Ah, eu sei, senhor. Mas estou me divertindo muito aqui! O senhor não... quer dizer, eu não tenho que... tenho?
A voz tinha um tom súplice. Convencido de que Egon, seja lá o que ele estivesse fazendo, estava bem e obviamente feliz, Jim desistiu.
— Pode ficar aí. Mas você está perdendo.
— Ah, duvido muito, senhor. Algo mais?
— Não no momento. Mas eu não vou perder você pra esses C.D.F’s, vou?
— Não mesmo. Mas vou ter muito pra contar quando voltar!
Jim desligou o comunicador e o guardou.
— Você estava certo — disse ele a Narud. — Contanto que no final do dia eu tenha meu cientista chefe de volta...
— Ah, não esteja tão certo disso — disse Narud, dando leveza à voz. — Um rapaz brilhante desses? Talvez tenhamos que sequestrá-lo. Mas até que chegue esse momento... — Ele fez um gesto na direção de um jovem bem vestido que se aproximava com uma bandeja de pequenos salgados delicados que tinham um aroma ótimo. — Por favor, aproveitem o jantar.
No final, Egon de fato não teria perdido muita coisa, pelo menos não no começo. Narud estava mais interessado em ouvir que em falar durante boa parte do jantar. Ele pediu detalhes sobre onde eles haviam localizado os pedaços do que se tornaria a “arma”, e sobre o momento em que Jim começou a ficar curioso quanto ao propósito do artefato. Como a arma tinha funcionado, e em que condições eles tinham encontrado Kerrigan.
Jim conseguiu comer uma porção considerável do aperitivo, da sopa de frutos do mar, e do vinho, enquanto era cravejado de perguntas. Mas quando o prato principal foi servido — um corte generoso, de dar água na boca, de bife de skalet — ele finalmente disse:
— Sabe, eu estou aqui sentado nessa cadeira confortável, comendo boa comida... mas com tantas perguntas assim acho que seria mais apropriado se eu estivesse amarrado debaixo de uma lâmpada forte com agulhas enfiadas debaixo das unhas. Que tal aliviar o interrogatório um pouquinho, doutor?
Narud teve a consideração de parecer envergonhado.
— Por favor, perdoe-me — disse. — É a ansiedade.
— Eu entendo perfeitamente — disse Valerian. — Jim é um homem inteligente, mas temo que ele não compartilhe de nossa paixão pela ciência.
— Compartilho, sim, quando a ciência serve para o que quero — disse Jim, cortando um naco do bife e metendo-o na boca. Santa mãezinha do céu, isso tá muito bom! Quem dizia isso era Tychus; o grandalhão já estaria no terceiro prato a essa altura. Se ao menos as coisas estivessem correndo diferente...
— Mas o Sr. Raynor está certo — disse Valerian. — Por favor, com certeza você já teve tempo de analisar os dados que lhe passamos sobre Sarah Kerrigan; e também de fazer alguns testes nela. — Antes que Jim pudesse reagir, ele acrescentou: — Você estava lá quando eles tiraram amostras de sangue e tecido, Jim. Eles não fizeram nada mais com ela.
Ainda, pensou Jim, mas sua boca ainda estava cheia de skalet, e ele ficou quieto. Narud voltou-se para ele aparentando preocupação profissional.
— Permita-me compartilhar com você o que eu sei, Sr. Raynor — começou Narud. — Os testes que Valerian mencionou são bastante preliminares, e quando tivermos convencido você e a Srta. Kerrigan a nos deixar fazer outros, saberemos mais. Ainda há muito do agente mutagênico zerg em suas células. Tenho certeza de que notou isso ao ver o... cabelo dela. Por falta de melhor termo.
Jim engolira o pedaço de carne e agora rilhava os dentes.
— O cabelo é a parte visível, mas deve haver outras áreas infectadas. Seu cérebro, suas habilidades, rins, fígado... tudo pode estar contaminado de alguma maneira.
— Eu pensei que o artefato cuidaria disso — disse Jim.
— Sr. Raynor, certamente você pode entender o quão... bom, o quão alienígena esse artefato é — disse Narud de forma honesta. — Faz apenas alguns anos que soubemos da existência dos zergs, protoss e xel’nagas.
— Valerian disse que você era o perito.
— Ele é — disse Valerian —, mas até um perito não sabe de tudo. Ainda.
Narud esfregou as têmporas e suspirou.
— Sarah Kerrigan precisa ser completamente examinada, pelo bem da humanidade e dela própria — disse ele. — Você me deixa de mãos atadas e me impede de realizar meu trabalho. Nós não sabemos o que o agente mutagênico está fazendo com ela. Deixe-me ser curto e grosso: cada minuto que ficamos discutindo a respeito nos deixa mais perto de perdê-la... ou de permitir que ela volte a ameaçar a humanidade.
De súbito, a comida ficou com gosto de ração. Jim tinha a sensação insidiosa de que Narud estava certo. Ele não podia negar a presença dos tentáculos de Medusa que agora adornavam a cabeça de Sarah em lugar dos macios cabelos ruivos. E se aquela era uma mutação que eles podiam ver...
Mas e quanto ao que Sarah dissera sobre Narud parecer familiar? Seria aquilo apenas sua memória falha, ou havia algo mais acontecendo? Jim se importava com a humanidade, mas em seu coração ele sabia que se importava com Sarah um pouquinho mais. Ele queria o melhor para ela.
Mas, naquele instante, ele compreendeu melancolicamente que não fazia ideia do que era o melhor.