StarCraft: Ponto Crítico

Christie Golden · Capítulo 26 de 29

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StarCraft: Ponto Crítico

Capítulo vinte e seis

 

Antes mesmo de saber contra o que lutavam, Jim já investia aos berros, dedo pregado no gatilho. Quando descobriu, contudo, não desacelerou. Não faria sentido.

Um veículo aguardava ao fim da rampa, para onde rumavam quatro soldados que manobravam a caixa contendo o artefato. Narud já estava a bordo, acenando para que os outros se apressassem. Entre eles e o artefato havia pelo menos um milhão de soldados.

E um híbrido.

A coisa investiu contra Sarah, que respondeu avançando em sua direção, ambas reconhecendo uma a outra como a maior ameaça no campo de batalha. Sem pernas, a criatura coleava com uma velocidade surpreendente, usando apenas a cauda que substituía os membros inferiores. Asas perturbadoramente semelhantes às da Rainha das Lâminas estenderam-se da estranha silhueta e dois pares de pinças se espicharam, grandes o suficiente para partir Sarah ao meio se a agarrassem.

Mas não agarraram. Ela saltou agilmente para longe, como uma ginasta em uma competição onde o prêmio era a vida, e pousou com suavidade felina. Estendendo um dos braços, Sarah fez com que o híbrido cambaleasse para trás, cobrindo a cabeça com duas pinças antes de investir novamente.

Jim, Egon e Valerian se concentravam nos humanos. A larga passagem era totalmente desprovida de cobertura. O caos e a surpresa eram tudo o que tinham a seu favor — além da batalha entre Kerrigan e o híbrido, feroz o suficiente para distrair até mesmo os soldados aparentemente ressocializados. Era impossível permanecer indiferente: os gritos da criatura, psiônicos e audíveis, preenchiam o ar. Os fugitivos tinham alguma vantagem, por conhecerem os híbridos e a maneira como combatiam, mas os soldados jamais haviam visto um.

Na verdade, essa era a única vantagem que tinham. Sarah sabia disso. Enquanto Jim e Valerian atiravam, corriam e atiravam outra vez, ela saltava e mergulhava para manipular o híbrido, brincando com ele e lançando-o contra Narud e seus aliados.

Jim não conseguia ouvir o cientista em meio à cacofonia da batalha, mas viu que o artefato estava prestes a ser carregado para dentro do veículo. Sarah também viu. Angustiada, ela encarou Narud e parou por um instante.

— Sarah! — gritou Jim.

O híbrido, aproveitando-se da distração momentânea, baixou a pinça na direção dela. Sarah conseguiu evitar o golpe no último segundo com um salto, mas não sem um custo — um pedaço de sua coxa se rasgou e abriu.

No mesmo instante, Jim sentiu um espinho de metal entranhar-se em seu braço, e berrou de dor. Mesmo com o braço semidormente ainda era possível apontar a arma, e ele continuou a atacar.

Era inútil. Jim sabia. Todos sabiam. Os inimigos eram muitos — pelo menos quatro para cada um deles —, suas armas eram visivelmente superiores e Sarah não podia ajudar com os soldados.

Diabo, todo mundo vai morrer um dia. Esse jeito não parece pior nem melhor do que qualquer outro, pensou Raynor.

O veículo fechou as portas e decolou. Eles haviam falhado em impedir Narud. Tudo o que restava agora era livrar a galáxia de mais um híbrido e levar com eles o máximo dos soldados de Mengsk que pudessem.

Então, inesperadamente, chamas iluminaram o céu acima da Estação Espacial Prometeu. Quando olhou para cima, Jim abriu um sorriso satisfeito. O transporte de Narud estava sendo atacado.

A Esplendor, um módulo de transporte da Hipérion, estava no comando. Como Swann tinha conseguido modificar um módulo para carregar armas em tão pouco tempo era uma pergunta que Jim não sabia responder. Naquele instante, ele nem se importava.

— Valeu, Swann. Você também, Matt, seu desgraçado teimoso — murmurou Jim.

Ver a nave reanimou seu corpo abatido. Pelo canto do olho ele notou que Valerian e Egon também sorriam como idiotas. Provavelmente o destino deles já estava selado, mas algo havia mudado. Em um minuto, as esperanças se renovaram.

A Esplendor atirava furiosamente contra a nave de Narud, mas o transporte já estava fora do alcance. Jim viu um clarão, e o transporte sumiu. Então houve outro clarão e Jim sentiu o coração afundando tão rápido quanto suas esperanças tinham se reacendido segundos antes.

A Estrela Branca.

Mas os Saqueadores a bordo do módulo de transporte pareciam mais otimistas que seu líder. Em vez de se defender do cruzador de batalha, a pequena nave se concentrou na ameaça mais imediata. Sarah, prevendo o que planejavam, saltou o mais longe que pôde no exato instante em que o módulo transformou o híbrido em uma pasta. Em seguida, o módulo começou a dizimar os soldados.

— Vamos, agora! — bradou Jim.

Valerian e Stetmann pareciam ávidos por obedecer, mas Sarah não se moveu. Imóvel, coberta de vísceras e sangue híbrido, ela apenas cerrou os punhos. Subitamente, uma emanação se propagou em todas as direções, derrubando os inimigos como dominós. Uma passagem surgiu entre a plataforma e o módulo de transporte, pavimentada com destruição e partes humanas. Vacilante, Sarah permaneceu parada um instante e então desabou pesadamente.

Jim largou a arma e correu para ela. Enquanto Valerian e Egon rumavam para o transporte, Raynor carregava Sarah como podia pela trilha macabra aberta por ela, mordendo os lábios para suportar a dor no braço. Com a rampa baixada, as mãos dos companheiros estenderam-se para trazê-la para dentro e ajudar Jim, que caiu precariamente no assoalho e foi puxado por Valerian.

A rampa ergueu-se, e o piloto decolou imediatamente, antes de todos se acomodarem. Jim desabou num dos assentos, enquanto Valerian e Egon lutavam para alcançar os dois ao seu lado.

— E Sarah? — perguntou Jim à médica, Lily Preston.

Nos bancos ao lado dela, duas figuras permaneciam na mesma posição. Uma era Sarah, absolutamente imóvel. A outra, que Jim só conseguiu ver quando Lily saiu para ocupar seu lugar, era Annabelle Thatcher.

— Por favor, diga que não… — suspirou Jim.

— Sarah está inconsciente — respondeu Preston. — Mas parece estar bem, apesar de exausta.

Jim assentiu, grato pelas boas notícias e, ao mesmo tempo, com o estômago revirado pelo que acontecera a Annabelle. Os olhos cor de mel da engenheira permaneciam vazios, arregalados. Sangue escorria de seus ouvidos, nariz e boca, desenhando fios carmesins em seu rosto. Nada mais sugeria que ela estivesse ferida.

Preston não precisou falar, mas Jim falou para si mesmo de qualquer jeito: O ataque aos soldados que Sarah não conseguiu controlar. O ataque fritou o cérebro da Annabelle… Droga, Annabelle, eu sinto muito. Eu sinto tanto...

Annabelle estava no fundo da cabine, mais próxima da área de efeito do ataque psiônico de Sarah. Um painel aberto nos fundos deixava entrever luzes e cabos. Provavelmente ela trabalhava em algo quando…

— Por que diabos ela estava logo aqui, maldição? — vociferou Jim, com a voz encharcada de dor. — Deviam ser só você e o piloto, Lily. Engenheiros não fazem parte da equipe padrão. Por que ela?

— Sabe as armas que não pertencem aos módulos de transporte? Foi tudo ideia dela. Foi ela quem projetou e instalou todas.

Com uma calma que parecia indiferença, mas na verdade era a proteção que os profissionais da área médica desenvolvem contra impactos emocionais, Preston foi se sentar ao lado de Sarah, de onde falou com Jim:

— Ela teve que vir, para operar o arsenal manualmente. Não havia tempo hábil para integrá-lo totalmente ao sistema.

Jim assentiu mecanicamente. Ele não conseguia tirar os olhos do corpo da jovem, a última morte causada por Sarah, ainda que por acidente. A mesma garota que possibilitara o ataque à nave de Narud e a destruição do híbrido pagara pelas vidas de todos com a sua própria.

Valerian disse:

— Isso vai deixar Travis arrasado.

Arrasado. Era como Jim se sentia.

— Esplendor para Hipérion. Câmbio, Hipérion!

— Estamos ouvindo alto e claro, Esplendor. A carga está com vocês?

— Sim, senhor, mas sofremos uma baixa. Perdemos Annabelle.

Matt fechou os olhos.

— Sinto muito por isso. Eu mesmo contarei ao Rory.

— Sim, senhor. Chegada em seis minutos. Aproximação em velocidade máxima.

— Senhor — disse Cade —, temos companhia.

Nau a bombordo, nau a estibordo — versos de um antigo poema pipocaram na mente de Matt: “Canhões à direita, canhões à esquerda, canhões avante, salvas, trovões atroantes.” Estranho o que pode surgir em uma mente em momentos de crise. Pelo que ele lembrava, o poema não terminava bem para os alvos dos canhões.

Mais à frente, a Estrela Branca estava na cola da Esplendor. Logo atrás da Hipérion, outro cruzador e várias naves menores finalizavam uma transdobra.

— Protejam a popa — ordenou a Marcus. — Horner para o atracadouro. A Esplendor se aproxima e chega em seis minutos. Preparem-se para recebê-la e evadir em seguida.

Se sobrevivermos até lá. Mais salvas retumbaram. Outro clarão.

— O que foi agora? — perguntou Matt, já fatigado. — Outra nave da Supremacia?

— Não, senhor, é…

Mas então Matt foi agraciado com a inesperada visão de fogo irrompendo no casco da Estrela Branca. Uma voz familiar disse:

— Aqui é o Capitão Vaughn para a Bucéfalo. Aparentemente meu navegador não consegue ficar longe daquela bela engenheira de vocês. Ele achou que talvez vocês precisassem de ajuda.

Uma onda de angústia atravessou o capitão da Hipérion.

— E como precisamos, Bucéfalo. Nosso comandante e o seu estão se aproximando no módulo de transporte a toda velocidade. E diga ao Travis… — Matt hesitou. — Diga ao Travis que tudo indica que foi Annabelle quem salvou o dia.

Havia grande chance de ser verdade. Se não fosse, dane-se também, era como deveria ter sido.

— Você cuida do módulo de transporte. Nós cuidamos da Estrela Branca — disse Vaughn. — Nossas armas estão online de novo, e eu estou me coçando para apertar o gatilho.

Não era preciso dizer de novo. A Hipérion começou a dar meia-volta, manobrando para que o ancoradouro ficasse de frente para a Esplendor. Depois de alguns segundos de tensão, Horner ouviu as palavras que queria:

— Pegamos eles, capitão!

— Então vamos dar o fora daqui.

— Ahm… Como, senhor? — perguntou Marcus.

Só então Matt percebeu que não fazia a menor ideia.

O cheiro de sangue recém-derramado. O gosto metálico, penetrante. Semblantes contorcidos pelo terror que saturava as mentes dos mortos. Ela sabia de tudo por meio de seus amados zergs, parte de sua alma, seu corpo e sua mente. A sensação do novo material genético assimilado, o nascimento de algo novo. A beleza da união, tão profunda que humanos sequer compreendiam. Não havia dor. Da mente compartilhada, emergia somente poder, para um e para todos. E o propósito de avançar, destruir, conquistar.

E ela, tão bela com seus longos dreads, asas potentes e admiráveis, armas verdadeiramente letais. Poder sem fim.

Propósito. Pertencimento.

Que ela sentira ao ser libertada por…

Arcturus!

Seus olhos abriram-se de súbito e a respiração travou em sua garganta. A consciência voltava aos poucos. Sarah percebeu que estava na enfermaria da Hipérion, mas não se importava.

Arcturus não lhe dera nenhum senso de união, pertencimento ou paz; ele lhe dera o inferno. O que ele dissera sobre ela ser uma arma era a mais pura verdade, mas até então ela fora apenas uma única lâmina solitária. Mortal, sim, mas limitada.

Arcturus a transformara em uma arma nuclear.

— Tudo o que vocês precisam fazer é se entregar e aceitar a justiça da Supremacia, que julgará seus crimes. E entregar a cadela da Sarah Kerrigan.

O tempo de parar de fugir enfim chegara. Era hora de encará-lo e lutar. Arcturus Mengsk pagaria por tudo o que fizera.

E não sairia vivo.