StarCraft: Ponto Crítico

Christie Golden · Capítulo 3 de 29

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StarCraft: Ponto Crítico

Capítulo três

 

Valerian dera ordens para que toda a comunicação entre as várias aeronaves envolvidas no combate — inclusive entre os cruzadores de batalha e Miragens que não os seus — fosse monitorada, se possível. Ele estava terminando de comer um pedacinho de um perfeito chocolate amargo, com os olhos vidrados na luta das naves em sua suíte particular, quando chegou uma mensagem da ponte.

— Senhor — disse Everett Vaughn, o capitão da Bucéfalo —, acho que o senhor devia ouvir isso…

Valerian voltou-se e assentiu, deixando a guloseima dissolver-se na língua com um sabor divino. Mas nem mesmo o chocolate podia rivalizar com a doçura da sensação de triunfo que o acometeu logo depois de ouvir as seguintes palavras:

— Socorro, socorro! Aqui é o módulo de transporte Esplendor, da Hipérion, buscando abrigo imediato. Estamos sob o ataque cerrado das mutaliscas e trazemos o comandante e Kerrigan. Repetindo, precisamos de ajuda imediatamente!

— Traga-os para cá! — gritou Valerian. Ele não conseguia parar de sorrir. Como Jake Ramsey previra, o artefato dos xel’naga tinha, nas palavras do arqueólogo, “funcionado tal como desejado”. Ou, pelo menos, da forma que Valerian desejava. E agora tanto Raynor quanto Kerrigan estavam indo direto para suas mãos.

— Bucéfalo na escuta. Qual é a sua posição, Esplendor? — perguntou Vaughn.

Houve uma longa pausa, e o sorriso de Valerian apagou-se ligeiramente. Ele não queria ter que tomar a nave de Raynor à força, mas…

— Raynor para Bucéfalo. Mande seus rapazes tirarem esses zergs da nossa cola. Estamos chegando.

— Entendido, Sr. Raynor. — A voz de Vaughn estava calma e impassível. — Vamos interceptar assim que pudermos.

O sorriso de Valerian voltou, ainda maior. Era um dia histórico para o império Mengsk, pois a história o registraria como o dia em que o poder começou a passar do pai para o filho.

— Capitão Vaughn, vou recebê-los no hangar — disse, saindo tão rápido que sua capa vermelha se enfunou às suas costas.

Jim manteve-se a postos de armadura e rifle nas mãos junto a quatro homens enquanto o módulo de transporte lentamente pousava no hangar. Ele relembrou a última vez que esteve a bordo da Bucéfalo. As coisas eram muito diferentes. Na ocasião, Tychus estava junto, e ele embarcara na nau capitânia de Mengsk com a intenção de fazer justiça. Entraram pelos tubos do hangar, abrindo caminho nave adentro até encontrarem não Arcturus Mengsk, como esperavam, mas o filho do homem, Valerian. Pensando bem, desta vez não ia ser muito diferente.

Ele não se importava com o que lhe iria acontecer: estava determinado a meter um projétil na cabeça aristocrática de Valerian se o homem dissesse ou fizesse qualquer coisa de que Raynor não gostasse.

— Ele chegou, senhor — disse o piloto. Jim olhou pelo visor acoplado ao capacete e apertou os olhos.

Na tela, Valerian parecia arrogante, aristocrático, cheio de si. Mas não parecia estar planejando nada estúpido. Havia alguns guardas, mas não mais que o esperado, e nenhum deles parecia estar interessado em entrar num combate.

Os segundos passavam. Valerian olhou para o módulo, parecendo encarar Jim diretamente; ele cruzou os braços e ergueu uma sobrancelha.

— Sr. Raynor, não lhe dei motivo algum para desconfiar de mim. Fui sincero quando falei das minhas intenções, e pode acreditar em mim quando digo que o tratamento de Sarah Kerrigan é algo de importância vital para mim.

Ah, claro que Jim acreditava nisso. Mas também acreditava que Valerian seria perfeitamente capaz de matá-lo no ato e raptar Kerrigan para satisfazer seus propósitos.

Foi Sarah quem resolveu a questão. Jim ouviu um discreto gemido e estremeceu. Era aquele velho clichê: onde havia vida, havia esperança, e Sarah estava viva. Mas poderia não continuar se ele ficasse ali parado por mais tempo.

— Abra as portas — disse, e levantou o visor.

A rampa foi baixada. Valerian arregalou os olhos ligeiramente ao ver Jim e quatro Saqueadores vestindo armadura dos pés à cabeça com as armas apontadas para ele. Os soldados de Valerian, por sua vez, assumiram uma postura de alerta. Ele ergueu a mão com elegância para acalmar a situação.

— Baixem suas armas, cavalheiros. Essas não são as boas-vindas adequadas ao Sr. Raynor.

Os fuzileiros de Valerian obedeceram. Jim fez sinal para os seus homens e deu um passo à frente. Com o traje, ele ficava bem mais alto do que Valerian, mas, para fazer justiça ao rapaz, o Herdeiro Legítimo não parecia estar nem um pouco intimidado.

— Meus parabéns, Sr. Raynor. Onde está a estrela do dia?

Ela estava descendo a rampa do módulo de transporte em uma maca naquele exato instante. Rolfsen estava empurrando, enquanto Preston segurava o soro intravenoso numa posição mais alta. Sarah estava inconsciente. Sua cabeça balançava de um lado para o outro, deixando Jim extremamente apreensivo.

— Aí está ela — sussurrou Valerian, andando na direção de Kerrigan. Seus olhos estavam fixos na figura abatida que mal respirava.

— Espantoso, simplesmente espantoso — prosseguiu, meneando a cabeça. — Ela parece de fato humana… a não ser pelo cabelo. — Valerian esticou a mão para tocar uma das estranhas protuberâncias.

A luva metálica de Jim agiu depressa e segurou firme — mas não o suficiente para machucar — o braço do Herdeiro Legítimo. No mesmo instante, ouviu-se o clangor dos rifles sendo apontados pelos soldados dos dois lados.

— Ela não é um troféu — disse Jim secamente.

— Não falei isso. — Valerian estava incrivelmente calmo, mas seu olhar cinzento alternou de forma expressiva entre seu próprio braço preso e o rosto de Jim. Uma tempestade estava se formando nas profundezas daquela tranquilidade. — Me solte, Sr. Raynor.

Jim fez o que ele pediu.

— Ela está doente — disse ele. — Minha médica disse que precisa de cuidados. Agora.

— E ela terá — respondeu Valerian. Havia um tom contundente em sua voz. Ao seu sinal, vários homens de jaleco branco se apresentaram e pegaram a maca com uma convincente demonstração de gentileza. — Vamos cuidar dela aqui da melhor forma que pudermos, depois vamos transferi-la para uma das instalações da Fundação Moebius. Temos um laboratório completo lá. Como você sabe, nosso Dr. Emil Narud é especialista em fisiologia zerg, talvez o especialista. Vamos poder fazer todo tipo de testes…

— Ela também não é cobaia de laboratório, cacete! — gritou Jim.

— Nós não sabemos o que ela é, você ainda não entendeu isso? — redarguiu Valerian, mostrando que sua paciência claramente estava se evaporando. — E, enquanto não soubermos, também não saberemos como ajudá-la! Você arriscou tudo para trazê-la de volta e agora não quer fazer o que é melhor para ela simplesmente porque não quer admitir que talvez ela não seja tão humana quanto você deseja.

Uma fúria totalmente desproporcional ao comentário invadiu Jim.

— Escute aqui, seu arrogantezinho de…

A frase foi abruptamente interrompida pela sirene ensurdecedora de um alerta vermelho.

— Ponte para o Príncipe Valerian!

— Valerian na escuta. — Ele também abandonara a discussão. — Qual é o…

Ele voltou-se para as enormes escotilhas, e a pergunta se perdeu no ar.

Dezenas de naves tinham aparecido sem aviso. Raynor estava de queixo caído diante do restante da frota da Supremacia. Valerian também olhava com a boca entreaberta.

Jim voltou a si mais rápido, virando-se para Valerian.

— Seu filho da mãe traiçoeiro! — E preparou o punho para acertar um soco bem dado no queixo do Herdeiro Legítimo da Supremacia Terrana, sem se importar com as consequências.

Para a surpresa de Jim, Valerian correu para suas costas e gritou:

— Não atire!

Raynor se virou e viu o príncipe com uma arma que tirara sabia-se lá de onde. Estava apontada para Jim, mas Valerian não atirou.

— Você acha que eu armei isso? — sibilou Valerian. Sua elegância tinha sumido, e Jim se deu conta de que, apesar de ser diferente do pai, o rapaz podia ser tão perigoso e mortal quanto ele. Toda a sua elegância se transformara em ferocidade: a elegância da selva, não das salas de reunião. — Acha que eu quero entregar você e Kerrigan para ele?

Não. Claro que não queria. Valerian queria ganhar reconhecimento usando os dois, e não entregando-os ao pai.

— Olá, filho. Olá, Jim — disse uma voz familiar até demais. Jim nem precisava voltar-se para a tela da parede do hangar para saber que Arcturus Mengsk estava sorrindo maliciosamente, já prevendo seu triunfo. Jim lembrou-se daquele terrível momento em que, logo antes de Tychus apontar a arma para Sarah, eles ouviram a voz de Mengsk vinda de dentro do capacete de Tychus: “Sabe quais são as ordens, Sr. Findlay. Execute-as”.

“Tychus… o que foi que você fez?”

“Eu fiz um pacto com o demônio, Jimmy. Ela morre… e eu fico livre.”

Nesse instante, Jim repentinamente entendeu como foi que Mengsk conseguira falar com Tychus pelo intercomunicador.

O desgraçado estivera esperando ali o tempo todo.

À espreita nos limites da órbita, calculadamente evitando que fosse detectado. Mengsk deixara que o filho fizesse todo o trabalho e assumisse todos os riscos, usando Tychus para se livrar de Kerrigan e aparecendo agora para reivindicar o crédito e o prêmio.

Uma ova, pensou Jim e, para sua surpresa, viu que seus pensamentos encontravam reflexo no rosto de Valerian Mengsk.

— Você está com uma coisa que eu quero, filho — disse Arcturus, quase com tédio.

Valerian se recompôs, baixou a arma e virou-se para a tela.

— Ao vencedor, os espólios, pai — retrucou, com uma calma que espantou Raynor. — Foi você quem me ensinou isso.

— Você ainda não é o vencedor — retorquiu Arcturus. — Eu preferiria não atirar em você. Dê-me o que restou de Kerrigan ou mate você mesmo essa vagabunda. Entregue o criminoso, e vamos dar juntos as boas-novas de que a ameaça zerg foi debelada e a Supremacia está a salvo graças a nós. Todo mundo fica feliz.

Valerian meneou a cabeça loira.

— Não posso fazer isso, pai.

O sorriso malicioso adquiriu feições de sarcasmo.

— Você é mole demais, Valerian.

— Não é ser mole, pai, é ser sábio. Temos uma chance única de estudá-la. Podemos aprender coisas sobre os zergs que nos permitirão derrotá-los de uma vez por todas. Você não acredita que eles vão ficar sem comando para sempre, acredita? Quando a Supermente foi destruída, eles acabaram fazendo de Kerrigan a substituta. E vão substituí-la por outro.

Aquele pensamento aterrorizante não passara pela cabeça de Raynor. Ele olhou para a maca de Kerrigan. Quando o alerta vermelho soara, os cientistas tinham ficado estáticos, esperando ordens. Segundos preciosos corriam enquanto pai e filho discutiam. Seu olhar encontrou-se com o de Valerian e Jim fez um sinal na direção de Kerrigan. Valerian assentiu de modo quase imperceptível, e os cientistas saíram imediatamente.

Jim queria ir com eles, porém era mais importante saber se Valerian continuaria mantendo sua posição.

— Eu já sabia tudo desse seu planinho, filho, e é perda de tempo. Kerrigan é uma cadela com raiva; precisa ser sacrificada.

Jim não conseguiu se conter.

— Assim como todo mundo que discorda de você, não é, Arcturus? É bem a sua cara mandar um condenado experiente meter bala na cabeça de uma mulher nua e indefesa.

Arcturus deu uma risada.

— Ah, Raynor, você não passa de um tolo apaixonado. Desde o dia em que saiu da barriga da mãe, Sarah Kerrigan já não era indefesa, e você sabe disso.

Então Valerian disse algo que pegou tanto Jim quanto Arcturus desprevenidos.

— Ela é mais do que um fantasma ou um zerg… Ela é a concretização de uma profecia!

Jim ficou pasmo. Como Valerian sabia disso?

Ele mesmo não teria sabido se o seu velho amigo Zeratul, prelado dos Templários das Trevas, não tivesse corrido grandes riscos para dar-lhe um cristal que revelava o encontro de Zeratul com Kerrigan.

Eles estavam voltando. Os xel’naga estavam voltando. O que Zeratul dissera, mesmo? “Você terá a vida dela em suas mãos. E, embora a justiça exija que ela morra pelos crimes que cometeu, Sarah é a única que pode nos salvar.”

Se Zeratul acreditava nisso, Jim também iria acreditar. E parecia que Valerian também.

Arcturus Mengsk franziu o cenho.

— Que bobagem é essa que você está dizendo?

— Não estive ocioso, pai. Nos últimos anos, aprendi muitas coisas. Os protoss são uma raça ancestral e acreditam que seus criadores, os xel’naga, os mesmos seres que confeccionaram esses artefatos que eu estive coletando e transformaram Kerrigan novamente em humana, estão voltando. E parece que Sarah Kerrigan pode ser a nossa única esperança quando isso acontecer.

— E você acredita nisso? — A voz de Arcturus Mengsk era um misto de incredulidade e desprezo.

— Não importa se eu acredito ou não. A profecia existe e é importante. É importante demais para nós agirmos impulsivamente antes de sabermos mais. Podemos estar selando nosso destino se matarmos Kerrigan agora.

— O único destino que me interessa é o que eu crio, garoto. E também devia ser o único pelo qual você se interessa. Caso não tenha percebido, somos humanos (não protoss, nem zergs) e tudo o que aqueles místicos de pele encaroçada disseram provavelmente não passa de poeira cósmica e fantasia, e não são fatos concretos. Agora, seja um bom filho. Mate essa aberração, essa mulher que é a pior inimiga do seu pai, sem falar da humanidade inteira. Ou entregue-a a mim, e deixe o papai fazer o trabalho sujo.

— Valerian, você não pode…

Valerian ergueu a mão, silenciando Raynor. Ele desviou o olhar por um instante, depois voltou a fitar Arcturus.

— Não, pai. Não posso e não vou obedecer a uma ordem que eu considero insensata e potencialmente devastadora.

— Insensato e potencialmente devastador é salvar alguém que cometeu assassinato em massa! Estamos falando de bilhões de mortos, Valerian! Você está escolhendo ficar do lado da cadela zerg e do traidor Raynor em vez de apoiar o seu próprio pai?

— O que eu escolho — respondeu Valerian, erguendo a voz cada vez mais — é não sacrificar esse setor em função da imprudência e da vingança pessoal do meu pai. E nós dois sabemos que é disso que se trata. Não estou perdoando o que ela fez… estou querendo que você reconheça o que você fez. — Ele deu um passo à frente, cerrando os punhos. — Você ainda pode escolher ficar do meu lado, pai. Esqueça sua vingança. Veja com os olhos de um verdadeiro líder tudo o que está em jogo aqui… tudo o que você está colocando em risco com suas motivações egoístas! — Ele forçou-se a abrir as mãos e estendeu uma delas, em súplica. — Vamos estudar a profecia juntos e nos preparar para a chegada dos xel’naga, caso ela se concretize!

Mesmo na tela, via-se que os olhos do imperador pareciam estar mais frios e implacáveis do que nunca.

— Se você não vai entregá-la a mim — respondeu Arcturus num tom baixo —, pode ter certeza de que eu vou tomá-la à força. Não vou deixar que ninguém, nem mesmo você, fique no meu caminho.

A imagem desapareceu. Valerian ficou imóvel mais um instante, então lentamente baixou a mão.

— Valerian… — disse Jim.

A cabeça dourada do príncipe se virou.

— Vá para a enfermaria. É onde você deveria estar. O que quer que Kerrigan tenha feito… pelo amor de tudo o que há de mais sagrado, belo e verdadeiro, cuide dela, Jim.

E naquele momento, a Bucéfalo, nau capitânia da Supremacia, que levava o Herdeiro Legítimo, foi atacada pelo seu próprio imperador.