Um Longo Caminho a Dois: Volume 1
Páginas iniciais
— Olha mamãe o que a Maria fez com o livro novo que a senhora
comprou!
— Mentira! Eu não fiz nada disso. Ela está mentindo mamãe!
— Por que você fez isso Maria Eduarda?
— Eu não fiz nada mamãe! Por que você está mentindo Camila?
— Suba para o seu quarto, você não vai almoçar hoje! Nem almoçar e
nem jantar, vamos ver se você não dará valor ao meu dinheiro!
— Eu estou com fome mamãe.
Ela se levanta da cadeira e vem em minha direção, sua mão agarra
meu cabelo e ela sai me puxando escada acima.
— Você vai aprender a me obedecer, ou te matarei na cinta.
Ela me joga no chão e vai embora trancando a porta.
Eu choro, choro muito.
Minha barriga dói de tanta fome que eu sinto. Vou ao banheiro e
encho o copo várias vezes para enganar a minha barriga.
Me deito na minha cama e acabo adormecendo com a minha barriga
protestando de fome.
Acordo sentindo uma dor muito forte nas costas, e quando abro meus
olhos vejo minha mãe com uma cinta de couro levantada no ar preste a cair em minhas costas novamente.
— Dói mamãe! Por favor, mamãe não me bata. Eu não fiz nada, por
que a senhora está me batendo?
— Eu não tenho que ter motivos para te bater garota!
E com essas Palavras, ela me enche de cintadas, a cada vez que o
cinto bate em meu coro, sinto minha Pele rasgando. Eu canso de gritar, de
implorar para ela parar e fico calada recebendo a surra que ele me dá.
Acordo assustada, com o grito travado na garganta. Meu corpo treme
de medo, minha pele arde como se ainda existissem marcas das cintadas que
ela me deu. A luz do banheiro acesa, levantam sombras no quarto causando
ainda mais medo em mim.
Levanto-me rapidamente e vou ao único lugar que eu sei que estarei
segura, vou em busca da única Pessoa que sei que me salvará dos meus
monstros. Atravesso o corredor e abro a porta do quarto da minha salvadora,
sento na beirada da cama e a chamo baixinho.
— Jessie...
Ela se mexe na cama, mas não acorda.
— Jessie...
— Hum... Oi.
— Posso dormir com você? Por favor?
— Lógico! Vem Bonequinha, deite-se aqui.
Eu me acomodo ao seu lado, e ela me abraça apertado.
Eu fecho meus olhos respirando fundo.
Só ela me entende. mesmo sem eu contar, ela me entende e me
protege de todos os monstros que me perseguem.
— Não se preocupe Bonequinha, eu sempre irei te proteger.
Eu adormeço, pois acredito piamente em suas palavras.
Meu nome é Maria Eduarda García, tenho 24 anos, curso o segundo
ano de designer de interiores.
Sou morena, 1,68m de altura, cabelos cumpridos na altura da bunda.
Meu corpo? Bem eu amo o meu corpo sou aquele tipo de falsa magra sabe?
Tenho o corpo violão amo minhas curvas.
Amo tatuagens tenho várias. — Para desgosto da minha mãe Lia.
Sai da casa dos pais da Jessie assim que fiz 18 anos, eu e ela
alugamos um apartamento e fomos morar juntas. Tudo o que eu mais queria
quando vivia naquele inferno quando criança, era fazer 18 anos e ser
independente, conhecer lugares e gente nova. Então quando completei a
maior idade, mesmo sendo amada pelos meus novos pais, eu decidi parar de
me esconder e ser independente.
Minha história de vida foi difícil, sofrida pra cacete. Passei por
muitas coisas ruins até me ver livre do calvário em que nasci.
Passei fome, era um inferno morar naquela casa com aquela família.
Uma mãe, que nunca me dirigiu uma palavra ou um gesto de amor ao
contrário eram só gritos e xingamentos. Era constantemente humilhada, maltratada, sem nem saber o por quê!
Para a minha querida mãe, a única pessoa digna de elogios e amor era
a minha irmã Camila. Essa sempre fez de tudo para me infernizar a vida, eu
até tentava me aproximar dela, fazer amizade, mas era muito difícil. Camila
tinha ciúmes de tudo e me acusava de coisas horrorosas, ela era
manipuladora, ardilosa, dissimulada.
Meu pai sempre foi omisso, para ele tanto faz, como tanto fez. Porque
sempre quem dava a última palavra era a minha mãe. Era difícil para uma
criança como eu entender, como que pessoas que deveriam cuidar e me amar,
me maltratavam tanto.
Sempre ficou uma incógnita em minha mente, queria saber o que eu
fiz para me tratarem daquele jeito. Mas graças a Deus, um mini anjo lindo
que além de me amar, me salvou do pesadelo em que vivia.
Olá meu nome é Mason Black, tenho 30 anos, sou formado em
arquitetura. Tenho uma casa noturna que é a menina dos meus olhos e chama
Extreme.
Minha infância não foi um mar de rosas, minha mãe era governanta
da família Black desde novinha. Encantou-se pelo meu pai, mesmo ele sendo
casado. Como todo homem pilantra ele tinha a famosa lábia e soltou o
famoso papinho de que vivia um casamento infeliz, que se sentia sozinho e
que iria separar da mulher para ficar com a minha mãe.
Minha mãe inocente e sem família nenhuma para aconselhar, caiu no
conto da carochinha e acabou engravidando de mim. Foi um escândalo só,
minha mãe foi mandada embora e o meu querido pai? Ele nem quis saber! Só
me registrou porque a minha avó, mãe dele obrigou.
Dona Laura, minha avó é a única que presta naquela família.
Pois bem, minha mãe depois disso tudo, ficou amarga, ela nunca me
maltratou. Me deu casa, comida quando tinha e educação, mas o principal
amor, isso ela nunca demonstrou por mim. Ainda era apaixonada pelo traste
do meu pai. Vivia chorando e amaldiçoando pelos cantos da casa, muitas e
muitas vezes ficava sozinho em casa e ela alegava que era preciso pois tinha
que me alimentar.
Foram anos de sufoco, anos de desprezo, ela me culpava pelo meu pai
não ter ficado com ela. Que se eu não tivesse vindo ao mundo, ela estaria
bem e feliz. Com o passar dos anos, passei a não dar atenção ao que ela
falava, mas isso não significa que não magoava.
Tudo o que conquistei foi por mérito meu. Se hoje sou rico foi porque
batalhei e estudei para isso. E todo o dinheiro que ganhei trabalhando duro,
investi e dei sorte.
Conheci pessoas incríveis, que se tornaram minha família, deles tive
todo o apoio do mundo, lutaram comigo para que eu obtivesse sucesso e
pudesse alcançar os meus objetivos.
Hoje sou o sonho de toda mulher, sou o que chamam de pedaço de
mau caminho. Sei como tratar uma mulher dentro e fora do quarto, a mulher
que sair comigo será tratada como uma princesa, com direito a abrir a porta
do carro e até arrastar a cadeira para ela se sentar. Agora dentro de quatro
paredes, será tratada sem pudor nenhum, entre quatro paredes não quero uma
dama e sim uma devassa. Mas no dia seguinte? É cada um no seu canto.
Pareço convencido? Sim, mas uma coisa que eu não sou é hipócrita.
Não me apego a nada e a ninguém até porque não posso oferecer o
que nunca tive: amor.
— Jessie, vamos logo ou chegaremos atrasada e o Zack nos mata
dessa vez — grito, apressando-a.
— Mata nada, ele não mata nem uma mosca, é só você fazer aquela
carinha do gato de botas que ele se derrete todo — Jessie diz rindo.
Zack é o gerente da Extreme, a casa noturna onde nós duas
trabalhamos. Quem a escuta falar, pensa que ele é caidinho por mim né? Só
que não, como dizem por aí da fruta que eu gosto ele chupa até o caroço.
E você deve estar se perguntando quem é essa tal de Jessie?
Jessie é minha amiga/irmã, meu anjo da guarda, meu porto seguro.
Nos conhecemos quando tínhamos nove anos, no meu primeiro dia na
escola nova. Todo mundo olhando para a garota novata e torcia o nariz, ai
chega uma mini fadinha me puxando pelo braço e falando que seria minha
melhor amiga. E naquele momento, mal sabia eu que ela seria minha
salvadora.
Ela sempre foi louquinha desde pequena, não tem medo de nada e
nem de ninguém. E olha que nem tamanho ela tem, minha salva vidas de
aquário.
Me apeguei muito a ela, para poder esquecer dos abusos que eu sofria
em casa. Ela era meu raio de sol no meio daquela escuridão toda que era a minha família. Quando estava com ela, me esquecia dos problemas e do
pesadelo que era voltar para casa todos os dias.
Família? Acho que no meu caso deveria ter outro nome, como
carrascos por exemplo.
Minha mãe me tratava mal, desde que eu me entendo por gente. Se ela
era chamada na escola por alguma coisa que eu fiz, era castigo na certa. Ela
me batia e mandava eu dormi com fome e não era uns tapinhas não, era surra
mesmo. Socos, tapa na cara ou qualquer objeto que ela tivesse em seu
alcance.
Meu pai nunca falou nada, parecia que tinha medo dela. Quando ela
fazia essas coisas eu olhava para ele pedindo socorro, e ele abaixava a cabeça
e me dava às costas. Eu ficava sem entender... Por que ele não me ajudava?
Por que me deixar passar por tudo aquilo sem intervir?
Minha irmã era a princesa da casa e muitas vezes aprontava e
colocava a culpa em mim.
Quando eu tinha 12 anos queria muito ir à festinha de aniversário da
Jessie, me comportei o mês inteiro, não tive uma reclamação na escola, meu
quarto um brinco, fiz de tudo para poder ir à festa.
Então minha querida irmã mais nova, que não foi convidada aprontou
uma das dela. Ela se arranhou toda, rasgou sua roupa e bagunçou os cabelos e
disse para minha mãe que tinha sido eu.
Minha mãe me deu uma surra de cinto e fiquei toda marcada, ela não
quis ouvir minha explicação, porque como sempre a princesinha era a
certinha e eu a errada. Minha mãe me deixou cinco dias trancada no quarto
sem comer nada, só não morri de sede porque bebia água da pia do banheiro.
E nem de fome porque minha salva vida de aquário (minha Jessie)
contrabandeou os docinhos e o salgadinhos da festa dela. A maluquinha
escalou a parede do meu quarto com uma sacolinha cheia de guloseimas e o primeiro pedaço de bolo que ela fez questão de ser meu.
Desde esse dia, prometi para mim mesma que quando fizesse 18 anos
sairia de casa nem que fosse para morar na rua. Mas mal sabia eu que a
minha liberdade estava mais perto do que imaginava. E que nesse mesmo dia,
eu iria ser resgatada, para nunca mais voltar.