Um Longo Caminho a Dois: Volume 1

Andressa Félix · Capítulo 29 de 34

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Um Longo Caminho a Dois: Volume 1

A conversa que tive com Patrick, beira…

A conversa que tive com Patrick, beira ao absurdo de tão

inacreditável.

Tem vinte minutos que ele foi embora, e estava estampado em seu

semblante que ele está se sentindo derrotado, ele conversou o tempo todo me

olhando nos olhos, e em sua íris verde eu pude ver a agonia, a tristeza que ele

estava sentindo.

Desde que ele se foi, estou sentada aqui inerte, como se tudo não

tivesse passado de um sonho ridículo.

Como isso pode estar acontecendo comigo? Será que Deus não sabe

por tudo o que passei? Será que não foi castigo suficiente? Logo agora, que

estou me sentindo feliz, apaixonada e sendo amada pela primeira vez na

merda da minha vida, tem que aparecer algo para atrapalhar?

Sinceramente, a vontade que eu tenho é de sumir, eu devo ter feito

algo muito grave em outra vida, e estou pagando nessa agora.

Aí eu me pergunto, o que vale ficar viva, se sofro constantemente?

Não consigo ter um minuto se quer de paz, depois de tudo o que passei nas

mãos daqueles monstros, achava que merecia um pouquinho de felicidade e sossego.

Mas estou vendo que não!!

Aos poucos, sinto meu lado negro me engolfando, tento lutar contra,

mas está mais forte que eu, minha respiração está a cada minuto mais difícil,

meu corpo tremendo e suando frio, em minha cabeça as pontadas

demonstram que mais um ataque está se aproximando.

Eu juro que estou tentando lutar contra, tento fazer a respiração, tento

pensar em coisas boas, em meu amor por Mason, mas só consigo imaginar o

oposto, até minha imaginação está contra mim. E sinto que mais uma vez,

estou perdendo a luta.

Ouço ao longe, batidas repetitivas na porta, porém estou paralisada, só

o que consigo fazer é sentir.

Sentir medo, pavor, esses são os sentimentos que me regem no

momento. Um estrondo anuncia a entrada bruta de alguém, e nem mesmo

isso me faz sair de dentro do tornado escuro que habita dentro de mim.

Sinto meu corpo ser chacoalhando, mas a inércia me impossibilita de

ter qualquer reação. Tudo o que eu quero é me recolher no local seguro, que

sempre foi meu refúgio a vida toda.

Nele não sinto nada, só uma paz profunda, rodeada do mais profundo

breu. Aonde não existe amor, carinho, mas também não existe dor e

desespero.

Ouço de longe gritos desesperados, meu corpo sendo erguido, e

depois não sinto mais nada além de paz.

 

Mason me liga, de certo modo agoniado, se tratando de Duda, ele sempre sentirá isso.

Mason é por demais preocupado com ela, se ele pudesse a colocaria

em uma redoma de vidro, mas tenho a sensação que dessa vez, a agonia tem

fundamento.

Para quem ainda não conheceu Maria Eduarda Garcia, a princesa do

Mason, a Bonequinha rabiscada do meu pai, a neném da minha mãe e a irmã

que meu coração escolheu, diria que é frescura essa preocupação toda.

Acredite em mim, quando digo que Duda não mente, para ela ter

mentindo para Mason, alguma coisa tem, e é isso que irei descobrir.

Entro no carro da minha mãe, sem ao menos pedir, ela vai ficar puta,

mas depois que eu explicar ela entenderá.

Eu sou muito boa no volante, tipo velozes e furiosos, quem é Dominic

Toreto na fila do pão, perto de Jessie Fagundes meu bem?

Chego à casa do Mason em menos de meia hora, quando chegar as

multas para dona Lia, estarei fodida.

Deixo o carro na rua mesmo, só pego minha bolsa e saio correndo, o

segurança já me conhece, e quando me vê chegando abre o portão.

— Bom dia MIB, só fica de olho no poizé da minha mãe? É rapidinho,

já, já coloco na garagem do Mason.

Nem espero ele responder, já saio correndo, a porta está trancada, e eu

meto o dedo na campainha.

— Maldita hora que devolvi a desgraça da chave!!! — falo em voz

alta.

Estou há cinco minutos com o Dedo na campainha, e nada da Duda

atender a porta, minha preocupação já está transbordando pelos olhos.

Eu sinto que alguma coisa está errada, volto até a entrada da casa,

atrás do MIB.

— Ei MIB, pode fazer um favorzinho para mim?

— Claro dona Jessie o que a senhorita deseja? — pergunta ele, se eu

estivesse no meu melhor momento não deixaria passar essa, mas no momento

estou preocupada.

— Você poderia arrombar a porta? A Duda está lá dentro, e não

atende. Estou achando que aconteceu alguma coisa.

— Não posso fazer isso senhorita, o Senhor Mason me manda embora

e eu preciso do emprego.

— Deixa que com o Mason, eu me entendo. Tem alguma coisa errada,

me ajuda, por favor!!!

— Ok dona Jessie, mas promete que falará com seu Mason?

— Eu falo, e faço melhor ainda, irei mandar ele te dá um aumento.

Ele me dá um sorriso, e vamos até a porta. Ele testa a maçaneta

primeiro, e depois ele dá dois passos para trás, e mete o pé na porta, mas nada

acontece, eu bato na porta gritando o nome dela e nada.

O segurança mete o pé na porta novamente, e consegue abrir, eu nem

espero sua reação, já entro correndo atrás da minha irmã.

A encontro sentada no sofá, joelhos de encontro ao peito e seus braços

os rodeando, seu corpo treme tanto, que pode ser percebido de longe.

Mais uma crise está acontecendo.

Seus olhos estão estáticos em um ponto específico, mas sem nada

enxergar, já conheço esse olhar, e eu sei que se não fizer alguma coisa, ela irá

se recolher para a sua concha anti sofrimento.

— Ei Bonequinha, olha para mim!! Eu estou aqui — falo sem obter

resposta nenhuma.

Seu rosto está banhado de suor, seu corpo está tremendo e sua

respiração ofegante.

— Dudinha meu amor, fala comigo! Sou eu a Jessie, vamos meu

amor reage, respira devagar — peço já entrando em desespero.

— Dona Jessie, quer que eu chame uma ambulância? — pergunta o

segurança.

— Não dará tempo MIB, você pode carregá-la até meu carro? Vou

levá-la ao hospital.

Continuo tentando chamar a atenção dela, mas em vão. Sua pele está

cada vez mais pálida e fria, preciso levá-la ao hospital com urgência.

MIB pega Duda no colo, e sai correndo para o carro, e eu vou

correndo atrás, no portão mais dois seguranças estão de guarda e quando nos

vê, abre o portão correndo.

— MIB, senta ai atrás com ela que eu vou ir dirigindo. Só segure ela,

para não cair.

Ele faz o que eu peço, e assim que ele coloca o sinto de segurança eu

saio em disparada com o carro.

Coloco meu celular no viva voz, e ligo para minha mãe.

— Jess sua filha da p...

— Mamãe agora não é o momento, ligue para o médico da Duda e diz

que estou a caminho do hospital com ela — corto seu xingamento.

— Ok! Vou ligar, e já estou a caminho. Vou ligar para o seu pai

também, ele está mais perto do que eu, e poderá chegar primeiro.

— Tchau mamãe.

Desligo e volto a prestar atenção no trânsito, chego em menos de dez

minutos ao hospital, e assim que estaciono, o médico aparece com dois

enfermeiros e uma maca.

O segurança a deposita na maca, e os enfermeiros começam empurrá-

la para dentro do hospital, eu sigo eles até metade do caminho, mas o médico

me detém.

— Jessie, você já sabe quais são os protocolos, vá fazer a ficha dela e

aguarde na sala de espera.

— Só dessa vez doutor, por favor!! — imploro para ele. —Ela não

reagiu a minha voz, nem ao menos me olhou, eu fico quietinha, mas me deixa

entrar!

— Sinto muito criança, mas não posso, assim que eu tiver notícias,

venho pessoalmente falar com você ok?

Ele nem espera eu responder, sai correndo pela mesma porta que os

enfermeiros entraram. Eu tento me acalmar, mas sei que é em vão.

Ligo para o Mason, e assim que escuto sua voz desmorono.

 

Chego ao hospital em tempo recorde, encontro a Baixinha

completamente destruída, e isso me causa calafrio, ela está sentada em um

dos sofás da sala de espera, toda encolhida.

Assim que vou me aproximando, ela levanta os olhos e o que vejo me

gela a alma.

Seu olhar vazio, igual ao da minha princesa, ela se joga em meus

braços, chorando copiosamente.

— O que aconteceu Baixinha?

— Na... não sei Mason, quando cheguei à sua casa ela já estava assim,

tive que pedir para o segurança arrombar a porta, porque ela não atendia de

jeito nenhum.

— Eu não deveria ter saído de casa, eu sabia que ela estava estranha,

ela não tem dormido direito, desde que o cara do F.B.I esteve lá em casa.

— Mason, dessa vez a crise está diferente. Não obtive nenhuma

reação, seu olhar estava morto, como se estivesse entregando os pontos,

alguma coisa desencadeou isso, mas o quê?

— Isso nós iremos descobrir, alguma coisa está acontecendo, e eu irei descobrir essa merda.

— Mason, ela nunca foi de mentir, a Duda abomina mentiras, e hoje

pela primeira vez ela mentiu, alguma coisa tem, hoje foi a primeira vez que

você a deixou sozinha não foi?

— Sim, eu a chamei para ir comigo, mas ela disse que não iria,

porque você e a dona Lia estavam chegando, não insisti, porque ela estava

meio tensa, chegou até gritar que não iria, mas depois mudou o tom de voz.

Lia e Andrey chegam correndo, a cara de Lia é de completo

desespero.

— Cadê a minha filha? Como ela está? O que aconteceu nesse

caralho?

— Calma Lia, não tivemos notícias ainda, pelo o que eu entendi, a

Duda teve outra crise.

— Você não estava com ela Mason?

— Não Andrey, eu fui ao escritório e ela ficou em casa porque vocês

iriam lá.

— Ela mentiu? Como assim? Ela não mente nunca Mason, mesmo

quando era mais nova e a Jess aprontava, ela sempre falava a verdade.

— Não sei o que está acontecendo Lia, desde que o amigo do Patrick

foi em casa para falar sobre Margô, ela está tendo pesadelos e insônia. Hoje

alguma coisa me dizia para não sair, mas ela falou que a Jessie e você Lia

iriam lá em casa, fui para o escritório preocupado, mas sossegado porque

vocês estariam com ela.

Antes que alguém possa falar mais alguma coisa, o médico surge com

uma cara nada boa.

— Fala doutor, como minha Bonequinha está? — Andrey é o

primeiro a perguntar.

— Não está nada bem, seus batimentos cardíacos estavam muito acelerados, falta de ar, pressão altíssima, dei um calmante um pouco mais

forte do que ela está acostumada. Eu segui minha experiência com ela,

porque ela não pronunciou nada, nem mesmo protestou quando a mediquei,

ela sempre reclamou das injeções — o médico fala, com o semblante

preocupado.

— Posso vê-la doutor? — pergunto inquieto.

— E você quem seria, senhor...

— Sou o marido dela doutor, me chamo Mason Black — Estendo

minha mão para apertar a do doutor.

— Marido? Que bom que essa menina conseguiu se achar, mas me

diga uma coisa Mason, vocês tiveram algum tipo de discussão? Ou aconteceu

algo, que possa ter desencadeado essa crise?

— Briga não doutor, mas estamos passando por uma certa

turbulência. Não só ela, mas todos nós. Ela não tem dormido direito, tem

pesadelos constantemente.

— Vocês têm que descobrir o que aconteceu realmente, em todos os

anos que cuido dessa menina, essa é a primeira vez que a vejo nesse estado

catatônico. E olha que eu a acompanhei de perto, desde que ela foi para casa

de Andrey, ela se recolheu dentro dela, na sua concha como costumamos

dizer.

— Posso vê-la? Nem que seja por alguns minutos! Só preciso vê-la —

suplico.

— Lógico menino, eu te levarei até o quarto, assim que ele sair, vocês

podem ir até lá, já deixarei avisado.

— Obrigado doutor, muito obrigado por cuidar da minha menina.

— Acho que passei a considerá-la um pouco filha, depois de saber da

sua história de vida.

Ele se despede com um até logo, e eu o sigo para o quarto onde minha princesa está, paro em frente à porta e antes de entrar respiro fundo, repetidas

vezes.

Abro a porta, e dou de cara com a minha princesa dormindo. Uma

bolsa de soro está ligada ao seu braço, ela está com a pele pálida, mesmo

dormindo, seu semblante está preocupado.

— Ei minha princesa, o que está acontecendo? — Me aproximo e

pergunto em seu ouvido.

Mas não obtenho nenhuma resposta.

— Eu amo você meu amor, por que não se abriu comigo? Por que

guardar tudo para você? — pergunto mesmo sabendo que não terei respostas.

— Eu vou dar uma saída, vou em casa pegar algumas coisas para

você, mas seus pais e a Baixinha, ficaram aqui.

Deposito um beijo em sua testa e lábios, e me encaminho para aonde

os outros estão.

— Baixinha, onde está o Patrick?

— Ele me deixou na casa dos meus pais, e disse que iria resolver uns

problemas do trabalho, que mais tarde ele voltaria para me buscar.

— Vou ligar para ele — respondo pagando o celular.

— Nem adianta ligar, já tentei e só da caixa postal.

— Sério? O Pet nunca deixa o celular desligado.

— Ele anda muito estranho esses dias Mason, anda estressado, grosso,

irritado ao extremo — Jessie diz chateada.

— Não liga Baixinha, às vezes ele fica assim mesmo, ele absorve

muito dos casos em que ele trabalha.

— Mason, como está a Duda? — pergunta Lia preocupada.

— Ela está dopada sogrinha, vai lá ficar com ela um pouco. Vou dar

um pulo até em casa, ela ainda está de pijama, vou buscar umas roupas e os

produtos de higiene dela.

— Vou com você Mason, tenho que agradecer ao MIB pela ajuda, ele

estava se cagando de medo de você, porque o obriguei a arrombar a porta.

— Ok, Baixinha. Andrey não irei demorar, mas se o médico voltar ou

se a Duda acordar, por favor, me ligue imediatamente.

— Vai lá rapaz, eu ligarei assim que tiver qualquer novidade.

Me despeço deles, e vou em direção ao carro. Jess pela primeira vez

desde que a conheci esta calada.

— Ei Baixinha, tudo vai ficar bem, a Duda só ficou muito

impressionada, com tudo o que o policial falou.

— Não sei não Mason, alguma coisa está muito errada, ela não

recebeu nenhuma ligação? Não viu ninguém de diferente?

— Não Baixinha, já não saímos de casa tem uma semana, estou

trabalhando em casa, só hoje que precisei sair porque a Bea teve um

contratempo.

— Eu também estou preocupada com o Olaf, ele anda arredio, tudo é

motivo de briga, às vezes aparece lá em casa bêbado, e isso começou tem um

pouco mais de uma semana. Para falar a verdade, desde que os caras do F.B.I.

chegaram.

— Bêbado?

— Sim bêbado fedendo a Uísque, também não anda dormindo direito.

— Vou conversar com ele Baixinha. Mas não deve ser nada com você

não, Pet se envolve muito nos casos dele, se eu não me engano, eles estavam

investigando uns políticos.

— Pode ser Mason, mas alguma coisa me diz que é coisa grande.

Vinte minutos depois, chego em minha casa, e o segurança vem me

pedir desculpas pela porta. Eu o acalmo dizendo que não foi nada, e o

agradeço por ter ajudado a socorrer a minha princesa, Jessie me ajuda a fazer

uma bolsa com as coisas da Duda, e eu pego a seu nécessaire com seus produtos de higiene.

Assim que pegamos tudo, vamos em direção aos seguranças e peço

para que liguem para Bea, e pedir para que ela mande alguém para consertar

a porta. Mas antes de entrarmos no carro, a Jessie chama o segurança que a

ajudou mais cedo.

— Ei MIB?

— Pois não dona Jessie?

— Veio alguém de diferente aqui hoje?

— Não dona Jessie.

— Ok então MIB, obrigado— responde Jessie.

— Diferente não teve ninguém, só o senhor Patrick que esteve aqui,

um pouco antes da senhorita chegar.

— Patrick? — pergunto surpreso.

— Sim patrão, ele chegou uns dez minutos depois que o senhor saiu,

ficou por volta de uma hora, mais ou menos.

— Obrigado! — agradeço e vamos para carro, ambos confusos com a

notícia.

— Seja o que for que aconteceu, Patrick tem participação na crise que

a Duda teve Mason — Jess diz irritada.

— Não vamos tirar conclusões precipitadas Baixinha. Vou conversar

com ele hoje ainda.

O que será que Pet foi fazer na minha casa? Será que ele falou alguma

coisa? Tenho que falar com ele.

— Ei Baixinha, ligue para o seus pais, e diga que vamos demorar um

pouco mais.

— Aonde vamos Mason?

— Atrás de respostas...

Eu sou um bosta!!!

Eu jamais imaginária que um dia estaria nessa posição, escolhi ser

policial, porque odeio injustiça, odeio ver gente safada sair impune de seus

delitos.

Eu me matei de estudar, não curti nada da minha juventude, enquanto

Mason e Zack aproveitavam a vida de universitário, eu me matava de

trabalhar e estudar.

Estudei direito, porque o cargo que eu queria, e o que tenho hoje,

tinham que ter estudo superior.

Se vocês tivessem me perguntado há um mês, se eu me arrependia de

tudo o que abrir mão para estudar, eu responderia que nunca.

Mas hoje, na situação em que me encontro eu te respondo que me

arrependo amargamente, me arrependo tanto, que não tenho coragem de me

olhar no espelho.

Desde que eu recebi a notícia do meu superior, me sinto um lixo, juro

por tudo o que tenho de mais sagrado na vida, que são meus amigos e minha

tia.

Lixo porque sei o que vai acontecer, e mesmo sabendo de tudo, não

tive a coragem de falar com o meu melhor amigo, não só não tive coragem,

como fui proibido de falar qualquer coisa sobre o assunto.

E depois de saber da notícia, não me reconheço mais, sou a sombra do

homem que eu já fui, só consigo acalmar a minha mente em uma garrafa de

uísque.

Ando descontando até na minha Chaveirinho, que mesmo eu sendo

um grosso ainda tem paciência comigo.

Hoje tive uma das piores conversas da minha vida, pedi para o meu

superior, que me deixasse dar a notícia para Duda, e que ele desse o poder

para ela decidir se queria ou não.

Tive que olhar nos olhos, de uma das pessoas mais maravilhosa do

mundo, e contar o que aconteceria. Vi o pavor em seus olhos, eu vi medo nu

e cru bem diante de mim, um sentimento tão palpável, que eu poderia tocar

com as minhas mãos.

Eu contei tudo o que estava entalado, abri o jogo sem esconder mais

nada, implorei para que ela dissesse não.

Sai da casa do Mason, completamente destruído, estou aqui, sentado

em minha casa, na segunda garrafa de uísque tentando amortecer a dor de

decepcionar meu melhor amigo.

Estou bebendo a perca de um amigo, porque é isso que vai acontecer.

Perder o irmão que a vida me deu, e consecutivamente, perderei Zack

e a minha Chaveirinho.

Perder a amizade dos meninos, vai me foder, mas perder a minha

Baixinha vai me matar. Não consigo olhar em seus olhos, não consigo chegar

perto dela sabendo tudo o que venho escondendo, ela vai me odiar e isso vai

me matar.

Nunca em toda a minha vida, me envolvi tão intensamente com uma mulher como a Jessie. Ela me encantou, por ser completamente o oposto de

mim. Jessie é luz, alegria, tem vezes que ela me enlouquece, totalmente

maluquinha.

Mas é a minha maluquinha, e perdê-la será a pior coisa que vai

acontecer, só rezo para que eles me entendam, e possam me perdoar.

 

O que o Patrick, foi fazer na minha casa?

Essa é a pergunta que estou me fazendo há horas, Jessie e eu já

rodamos tudo atrás do Patrick, mas não conseguimos achá-lo em nenhum

lugar.

Jessie está puro veneno, dá para ver em seus olhos a raiva, ela tem

certeza que Patrick e o causador do ataque que a Duda teve, para falar a

verdade eu também acho, mas prefiro dar o voto da dúvida.

Porque ele sabe dos problemas da Duda, ele não iria falar alguma

coisa grave e virar as costas, sabendo que ela poderia passar mal.

— Ei Baixinha, não fique assim emburrada sem saber o que realmente

aconteceu, várias coisas podem ter acontecido, ela já vem mostrando

sintomas a alguns dias.

— Nem mesmo você, consegue acreditar no que está dizendo Mason,

o que eu estou puta da vida, é que ele sabe como tudo isso mexe com ela.

Posso estar julgando errado, nunca fui de fazer isso, mas alguma coisa rolou

nessa conversa que deixou a Bbonequinha assim, porque ele não me levou

junto? Como ele sabia que ela estaria sozinha? Porque ele está estranho,

bebendo? Não é beber socialmente Mason, é tipo ele feder a alambique

mesmo. Porque o celular dele está desligado? Você mesmo disse que ele

nunca fica sem o celular, o infame me liga de madrugada, enche o meu saco quando não atendo, ele é todo paranoico com isso, paranoico com a porra da

segurança, à essa hora ele já teria me ligado umas quinhentas vezes para

saber se estava tudo bem! — Jessie começa a falar calmamente, mas no final

já está berrando e cai em um choro compulsivo.

Eu sei que ela está certa, mas porra ele é meu melhor amigo, meu

irmão, então, não consigo imaginar que ele possa ter alguma coisa a ver com

isso, mas uma coisa que a Baixinha disse, me chama a atenção. Só quem

sabia que eu teria que sair era a Bea, eu vou descobrir que porra está

acontecendo e vai ser agora.

Encosto no estacionamento do hospital, e ligo para Bea.

— Oi Mason. — Bea atende ao telefone.

— Bea, porque você não pode ir a minha casa hoje?

— É... é... que aconteceram umas coisas aqui em casa, e eu não pude

sair. Por que a pergunta menino? — Assim que ela gaguejou eu percebi que

tinha alguma coisa por trás disto.

— Bea, vou perguntar novamente e dessa vez quero a verdade! Por

que você não pode ir até minha casa hoje? — pergunto seriamente.

— O que aconteceu menino? Por que você está nervoso?

— Eu quero saber o que Patrick, contou que te convenceu a mentir

para mim! Eu quero saber o porquê da minha mulher, estar em um hospital

dopada depois de um ataque de pânico!!! — Perco a paciência e acabo

gritando.

— Meu filho, por tudo o que é mais sagrado, eu não fiz por mal, ele

me ligou, quando já estava saindo de casa e pediu para eu inventar uma

desculpa, para poder te tirar de casa, ele disse que estavam querendo fazer

uma surpresa para você, e precisava combinar com a Dudinha, mas você não

poderia estar perto — Bea conta chorando.

Eu fico em silêncio, tentando controlar a minha raiva. Sei que ela não tem culpa de nada, foi só um fantoche nas mãos de Patrick.

— Depois nos falamos Bea.

— Por favor Mason, mande notícias da Maria... — Pede Bea

chorando arrependida.

— Mando sim.

Desligo o telefone, e deito minha cabeça no volante, tentando

raciocinar, QUE PORRA ESTÁ ACONTECENDO? QUE MERDA ESTÁ

ACONTECENDO COM O MEU AMIGO?

— Agora você acha que eu estou louca? Mason, independente do que

esteja acontecendo ele teria que falar comigo ou com você, se fosse alguma

coisa ligado ao caso, ele teria que saber que contando para ela teria

consequências. E se eu não tivesse chegado a tempo? Porque guardar

segredos? São tantos porquês e "se", rondando minha mente que estou

ficando maluca.

— Eu não quero nem imaginar se você, não tivesse chegado Baixinha

eu conheço Pet minha vida inteira Jess, passamos por muita coisa juntos. Ele

sabe o quanto sou louco pela sua irmã, sabe que me preocupo ao extremo, até

cogitei a hipótese de ir embora do Brasil com ela, tudo para ver minha mulher

segura, livre desse pesadelo.

— Não sei mais o que pensar Mason, estou enlouquecendo criando

várias hipóteses na minha cabeça. Eu sou hiperativa, agora imagine como

minha mente está!

— Eu não quero acreditar que o cara que eu cresci, que aprendi

admirar, todo correto, integro possa ter se virado para o outro lado, pois é isso

que está se passando na minha cabeça — respondo saindo do carro e batendo

a porta.

Pego a bolsa de Duda, das mãos da Baixinha e vou entrando no

hospital, preciso ver a minha princesa, saber se ela está bem.

Encontro meus sogros no quarto, Lia de um lado da cama, Andrey do

outro, ambos segurando a mão da minha mulher.

— Como ela está mamãe? — pergunta a Baixinha, se aproximando

para fazer um carinho nos cabelos da Bonequinha dela.

— Eles diminuíram o sedativo, o médico disse que não quer ela muito

tempo neles, que quer vê-la reagir, já que ela chegou catatônica, sem

apresentar qualquer reação ou movimento — Andrey responde.

— E como ela está reagindo? Já apresentou alguma resposta?

— Tem mais ou menos uma hora que ele reduziu a medicação, agora

que vocês chegaram, vamos dar um pulo até a cantina, vocês querem alguma

coisa? — Lia pergunta.

— Não tenho fome, mas aceitarei um café sogrinha.

— Para mim só um café também mamãe — diz Jessie sem desviar os

olhos da Duda.

— Está bem, vou trazer um sanduíche de frango para vocês — Lia

diz, como se tivéssemos pedido o lanche.

— Mamãeee!

— Sem discussão mocinha, vou trazer e vocês irão comer e acabou o

assunto — Lia responde brava.

— Nem sei para que perguntar, só faz o que te convém — Andrey

retruca baixinho.

— Eu ouvi isso Andrey! Vamos logo, quero voltar logo, para ficar

perto do meu bebê — minha sogra diz e sai andando para a cantina.

Me sento na cadeira que Andrey estava, e seguro a mão da minha

princesa.

— Ei bonequinha, abre esses olhos de jabuticaba para mim — Jess

pede.

Mas não obtém nenhum resultado, ela não desiste, e continua conversando, contando histórias de quando eram mais novas, dá para ver

nitidamente o amor que a Baixinha sente pela minha princesa.

A ligação que elas têm é inexplicável, já vi vários tipos de amizade,

mas igual à delas nunca, me corta o coração ver a Baixinha desse jeito.

— Mason, vou ali fora rapidinho e já volto tudo bem? — Jess avisa,

tentando segurar o choro.

— Vai lá Baixinha, eu ficarei aqui com ela.

— Estarei aqui na porta, daqui apouco eu volto.

E ela sai apressada, já percebi que ela não gosta de ser vista chorando,

quer ser durona, mas é uma manteiga derretida quando se trata da Duda.

— Ei minha princesa, você não vai acordar não? Já dormiu bastante

não acha? Estou com saudades de você, do seu sorriso, do seu jeitinho

marrento, parece séculos que não vejo o seu sorriso — fico conversando com

ela, para ver se ela reage a minha voz.

Fico fazendo carinho em seus cabelos, porque sei que ela adora, toda

vez que faço isso, ela se transforma em uma gatinha manhosa.

— Gostaria tanto de saber o que aconteceu, o que Patrick foi fazer na

nossa casa, mas só saberei de duas maneiras, você me contando, ou o Pet.

Com você não posso brigar, mas com ele..., a raiva que eu estou sentindo é

inexplicável.

Olho espantado para o seu rosto, quando vejo lágrimas deslizando por

eles, não somente uma, mas várias, sua respiração acelera, e a máquina ao

lado começa a apitar. Eu fico desesperado quando a enfermeira e o médico

entram no quarto.

— Preciso que o senhor saia por alguns minutos, os batimentos

cardíacos estão muito acelerados. Em se tratando do caso dela, que chegou

aqui em um estado um pouco crítico, é muito preocupante — o médico fala,

mas não absorvo nada do que ele disse.

A enfermeira me puxa pelas mãos, e me empurra literalmente para

fora do quarto.

Fico parado em frente à porta, feito um dois de paus não sei por

quanto tempo, tentando entender o que aconteceu.

— Mason? — Lia me chama.

— Ei garoto, o que está acontecendo? — Andrey pergunta.

— Mason Black, não me faça dar dez tapa na sua cara, uma hora

dessas. — Jessie me sacode me tirando do transe.

— Não sei... Eu estava conversando com ela, e de repente lágrimas

começaram a cair pelo seu rosto, seu batimento cardíaco acelerou, o médico

pediu que eu me retirasse.

— Isso pode ser bom!! É sinal que ela está reagindo — Jessie diz

alegre.

— Como assim bom Jess? — pergunta Andrey.

— Eu li sobre o assunto, a respeito das crises quero dizer, quando a

Duda começou a ter as crises assim que chegou em casa, eu fui pesquisar,

conforme os anos foram passando, e o médico diagnosticou a síndrome do

pânico, eu me aprofundei um pouco mais. A Duda tem TAG, que significa:

Transtorno de Ansiedade Generalizada, isso se intensifica por causa da

síndrome do pânico. No caso da Duda, o pânico e a ansiedade, vieram

acompanhados por conta da depressão, então tudo é sentindo duas vezes

mais, ao dobro entendem? —Jessie fala seriamente, nos deixando de queixo

caído.

— Era por isso que você sabia como agir, quando ela tinha as crises!

Porque você nunca me contou filha? — Lia pergunta admirada.

— Porque não é nada demais mamãe, eu pesquisei para poder cuidar

dela. A angústia mental que ocorre imediatamente ou logo após vivenciar ou

testemunhar um evento traumático significativo não é mais chamado de transtorno de ansiedade, esses transtornos são agora chamados de transtornos

relacionados a trauma e ao estresse e incluem o transtorno de estresse agudo e

o transtorno de estresse pós-traumático. — A cada vez que a Baixinha abre a

boca, é uma surra de informação.

— Olha, olha, olha estou vendo que tem alguém interessada em

psicologia. Está de parabéns Jessie, você está explicando certinho, vamos nos

sentar ali e explicarei a vocês, e Andrey, dá uns tapas nesse galã rabiscado

para ver se volta a cor dele. Não precisa se assustar rapaz é normal o que

aconteceu. —O médico aparece falando.

Nem respondo a provocação, todos se sentam nas poltronas, mas eu

prefiro ficar de pé, me encosto na parede, cruzo os braços para ouvir a

explicação do médico.

— O que a Jessie disse é verdade, o transtorno de ansiedade, ataques

de pânico da Duda e de muitas outras mulheres, vem com a depressão. É

triste, mas é cada vez maior o número de casos parecidos, tem certas

situações que a pessoa se recolhe dentro de si, como nós médicos dizemos

internamente, elas se recolhem em sua bolha segura, quando isso acontece,

fica muito difícil reverter o quadro. Tem pessoas que até mesmo cometem

suicídio por conta disso, porque ela ficam cansadas de viver assim, desculpa

o palavreado, mas é foda demais você viver constantemente com medo, isso

pode ser causado por vários fatores, no caso da Maria, foi um trauma forte e

querendo ou não ela acaba se culpando e viver com culpa fode qualquer ser

humano, porque tentamos arrumar desculpas para as ações dos outros.

— Você quer dizer que a Duda, se culpa pelo que a Margô fez com

ela? Isso é impossível doutor, a Duda sabe e repudia tudo o que aquele

monstro fez com ela — Lia fala revoltada.

— Ela sabe Lia, mas inconscientemente ela ainda tenta arrumar

desculpas para a tal da Margô, isso faz com que ela se culpe pelos erros dos outros, e faz com que aos poucos ela vá definhando. Não estou dizendo que o

que aconteceu hoje, possa ter sido isso. A mente humana é traiçoeira, e uma

pessoa que tem depressão, e outros transtornos é pior porque eles fantasiam

várias situações, diversos cenários. Hoje o trauma foi tão grande que ela

preferiu se recolher na bolha segura dela, o que você viu agora Mason, foi

nada mais, nada menos, do que ela reagindo a sua voz, o que você

presenciou, foi a Maria saindo da sua bolha segura por você, o batimento

cardíaco acelerando, foi nada mais que o desespero de lutar contra o efeito do

remédio, ela está se vendo incapacitada de falar com você e de te tranquilizar.

Ela é uma força a ser reconhecida meus caros, essa menina vem lutando

contra os monstros em sua mente a anos, é compreensivo que as vezes ela

não consiga ser forte. Eu não aumentei a medicação, quero que ela acorde,

quero de ela saia da sua bolha segura, minha preocupação no momento é tirá-

la do porto seguro que ela idealizou dentro de si, ela vai ter que voltar com a

medicação, e principalmente voltar com a terapia. Se o que vocês falaram é

verdade, que vocês estão passando por turbulências, então é imprescindível

que ela retorne as sessões.

— O senhor tem certeza que ela está bem? Que é normal isso que

aconteceu? Porque eu jamais quero causar nenhum dano a ela, eu pensei que

estava causando algum mal, que ela me queria longe — falo agoniado.

— O amor é lindo, não é mesmo? Meu caro galã, se eu te dissesse que

você teria que ficar longe para o bem dela o que você faria? — pergunta o

médico.

— Eu me afastaria, mesmo que me matasse fazer isso — respondo

sucinto

— Está aí sua resposta meu caro, você jamais seria capaz de causar

mal a ela, pois você a ama, e é capaz de se sacrificar a vê-la sofrer — o

médico diz sorrindo.

— Obrigado mais uma vez doutor, o senhor como sempre nos

socorrendo — Lia agradece ao médico.

— Jamais me agradeça Lia, faço de coração. Podem entrar para ficar

com ela, conversem bastante para que ela veja que vocês estão aqui, nessas

horas de crise, nada melhor do que sentir que estamos rodeados de amor.

Qualquer coisa sabe onde me achar — diz o médico se despedindo. — E

Jessie, aceita um conselho de um velho? Segue pelo caminho da psicológica,

você se dará bem.

— Eu sou muito fora da casinha, para cuidar da mente dos outros

doutor — Jess diz fazendo careta.

O médico solta uma gargalhada e vai embora rindo.

Eu o olho se afastando, e sinto um alívio tão grande, que vou

escorregando pela parede e me sento no chão segurando meus joelhos.

— Você está bem menino? — Andrey pergunta.

— Só preciso respirar um pouco — respondo sentindo meus olhos

arderem.

Ouço passos se afastando, e percebo que eles entraram no quarto da

minha princesa. Estou tão perdido em meus pensamentos, que me assusto

quando sinto se sentarem ao meu lado.

— Essa sensação de impotência nunca irá passar, mas posso te

garantir que com o tempo abranda, é foda quando vemos quem amamos

sofrendo sem que possamos fazer nada, isso acaba com a gente. A única coisa

que podemos fazer é estar forte para quando elas precisarem, você é novo

Mason, mas está demonstrando ser um homem espetacular, a forma como

você ama e protege a minha filha, só me faz te admirar cada vez mais —

Andrey fala.

E eu deixo minhas lágrimas, que até agora estava prendendo,

correrem soltas.

De uma coisa eu tenho a mais plena certeza, EU SEMPRE SEREI

FORTE QUANDO ELA PRECISAR DE MIM.

MAS MAL SABIA EU, QUE ESSA FORÇA IRIA SER

ARRANCADA DE MIM.