Um Longo Caminho a Dois: Volume 1
A conversa que tive com Patrick, beira…
A conversa que tive com Patrick, beira ao absurdo de tão
inacreditável.
Tem vinte minutos que ele foi embora, e estava estampado em seu
semblante que ele está se sentindo derrotado, ele conversou o tempo todo me
olhando nos olhos, e em sua íris verde eu pude ver a agonia, a tristeza que ele
estava sentindo.
Desde que ele se foi, estou sentada aqui inerte, como se tudo não
tivesse passado de um sonho ridículo.
Como isso pode estar acontecendo comigo? Será que Deus não sabe
por tudo o que passei? Será que não foi castigo suficiente? Logo agora, que
estou me sentindo feliz, apaixonada e sendo amada pela primeira vez na
merda da minha vida, tem que aparecer algo para atrapalhar?
Sinceramente, a vontade que eu tenho é de sumir, eu devo ter feito
algo muito grave em outra vida, e estou pagando nessa agora.
Aí eu me pergunto, o que vale ficar viva, se sofro constantemente?
Não consigo ter um minuto se quer de paz, depois de tudo o que passei nas
mãos daqueles monstros, achava que merecia um pouquinho de felicidade e sossego.
Mas estou vendo que não!!
Aos poucos, sinto meu lado negro me engolfando, tento lutar contra,
mas está mais forte que eu, minha respiração está a cada minuto mais difícil,
meu corpo tremendo e suando frio, em minha cabeça as pontadas
demonstram que mais um ataque está se aproximando.
Eu juro que estou tentando lutar contra, tento fazer a respiração, tento
pensar em coisas boas, em meu amor por Mason, mas só consigo imaginar o
oposto, até minha imaginação está contra mim. E sinto que mais uma vez,
estou perdendo a luta.
Ouço ao longe, batidas repetitivas na porta, porém estou paralisada, só
o que consigo fazer é sentir.
Sentir medo, pavor, esses são os sentimentos que me regem no
momento. Um estrondo anuncia a entrada bruta de alguém, e nem mesmo
isso me faz sair de dentro do tornado escuro que habita dentro de mim.
Sinto meu corpo ser chacoalhando, mas a inércia me impossibilita de
ter qualquer reação. Tudo o que eu quero é me recolher no local seguro, que
sempre foi meu refúgio a vida toda.
Nele não sinto nada, só uma paz profunda, rodeada do mais profundo
breu. Aonde não existe amor, carinho, mas também não existe dor e
desespero.
Ouço de longe gritos desesperados, meu corpo sendo erguido, e
depois não sinto mais nada além de paz.
Mason me liga, de certo modo agoniado, se tratando de Duda, ele sempre sentirá isso.
Mason é por demais preocupado com ela, se ele pudesse a colocaria
em uma redoma de vidro, mas tenho a sensação que dessa vez, a agonia tem
fundamento.
Para quem ainda não conheceu Maria Eduarda Garcia, a princesa do
Mason, a Bonequinha rabiscada do meu pai, a neném da minha mãe e a irmã
que meu coração escolheu, diria que é frescura essa preocupação toda.
Acredite em mim, quando digo que Duda não mente, para ela ter
mentindo para Mason, alguma coisa tem, e é isso que irei descobrir.
Entro no carro da minha mãe, sem ao menos pedir, ela vai ficar puta,
mas depois que eu explicar ela entenderá.
Eu sou muito boa no volante, tipo velozes e furiosos, quem é Dominic
Toreto na fila do pão, perto de Jessie Fagundes meu bem?
Chego à casa do Mason em menos de meia hora, quando chegar as
multas para dona Lia, estarei fodida.
Deixo o carro na rua mesmo, só pego minha bolsa e saio correndo, o
segurança já me conhece, e quando me vê chegando abre o portão.
— Bom dia MIB, só fica de olho no poizé da minha mãe? É rapidinho,
já, já coloco na garagem do Mason.
Nem espero ele responder, já saio correndo, a porta está trancada, e eu
meto o dedo na campainha.
— Maldita hora que devolvi a desgraça da chave!!! — falo em voz
alta.
Estou há cinco minutos com o Dedo na campainha, e nada da Duda
atender a porta, minha preocupação já está transbordando pelos olhos.
Eu sinto que alguma coisa está errada, volto até a entrada da casa,
atrás do MIB.
— Ei MIB, pode fazer um favorzinho para mim?
— Claro dona Jessie o que a senhorita deseja? — pergunta ele, se eu
estivesse no meu melhor momento não deixaria passar essa, mas no momento
estou preocupada.
— Você poderia arrombar a porta? A Duda está lá dentro, e não
atende. Estou achando que aconteceu alguma coisa.
— Não posso fazer isso senhorita, o Senhor Mason me manda embora
e eu preciso do emprego.
— Deixa que com o Mason, eu me entendo. Tem alguma coisa errada,
me ajuda, por favor!!!
— Ok dona Jessie, mas promete que falará com seu Mason?
— Eu falo, e faço melhor ainda, irei mandar ele te dá um aumento.
Ele me dá um sorriso, e vamos até a porta. Ele testa a maçaneta
primeiro, e depois ele dá dois passos para trás, e mete o pé na porta, mas nada
acontece, eu bato na porta gritando o nome dela e nada.
O segurança mete o pé na porta novamente, e consegue abrir, eu nem
espero sua reação, já entro correndo atrás da minha irmã.
A encontro sentada no sofá, joelhos de encontro ao peito e seus braços
os rodeando, seu corpo treme tanto, que pode ser percebido de longe.
Mais uma crise está acontecendo.
Seus olhos estão estáticos em um ponto específico, mas sem nada
enxergar, já conheço esse olhar, e eu sei que se não fizer alguma coisa, ela irá
se recolher para a sua concha anti sofrimento.
— Ei Bonequinha, olha para mim!! Eu estou aqui — falo sem obter
resposta nenhuma.
Seu rosto está banhado de suor, seu corpo está tremendo e sua
respiração ofegante.
— Dudinha meu amor, fala comigo! Sou eu a Jessie, vamos meu
amor reage, respira devagar — peço já entrando em desespero.
— Dona Jessie, quer que eu chame uma ambulância? — pergunta o
segurança.
— Não dará tempo MIB, você pode carregá-la até meu carro? Vou
levá-la ao hospital.
Continuo tentando chamar a atenção dela, mas em vão. Sua pele está
cada vez mais pálida e fria, preciso levá-la ao hospital com urgência.
MIB pega Duda no colo, e sai correndo para o carro, e eu vou
correndo atrás, no portão mais dois seguranças estão de guarda e quando nos
vê, abre o portão correndo.
— MIB, senta ai atrás com ela que eu vou ir dirigindo. Só segure ela,
para não cair.
Ele faz o que eu peço, e assim que ele coloca o sinto de segurança eu
saio em disparada com o carro.
Coloco meu celular no viva voz, e ligo para minha mãe.
— Jess sua filha da p...
— Mamãe agora não é o momento, ligue para o médico da Duda e diz
que estou a caminho do hospital com ela — corto seu xingamento.
— Ok! Vou ligar, e já estou a caminho. Vou ligar para o seu pai
também, ele está mais perto do que eu, e poderá chegar primeiro.
— Tchau mamãe.
Desligo e volto a prestar atenção no trânsito, chego em menos de dez
minutos ao hospital, e assim que estaciono, o médico aparece com dois
enfermeiros e uma maca.
O segurança a deposita na maca, e os enfermeiros começam empurrá-
la para dentro do hospital, eu sigo eles até metade do caminho, mas o médico
me detém.
— Jessie, você já sabe quais são os protocolos, vá fazer a ficha dela e
aguarde na sala de espera.
— Só dessa vez doutor, por favor!! — imploro para ele. —Ela não
reagiu a minha voz, nem ao menos me olhou, eu fico quietinha, mas me deixa
entrar!
— Sinto muito criança, mas não posso, assim que eu tiver notícias,
venho pessoalmente falar com você ok?
Ele nem espera eu responder, sai correndo pela mesma porta que os
enfermeiros entraram. Eu tento me acalmar, mas sei que é em vão.
Ligo para o Mason, e assim que escuto sua voz desmorono.
Chego ao hospital em tempo recorde, encontro a Baixinha
completamente destruída, e isso me causa calafrio, ela está sentada em um
dos sofás da sala de espera, toda encolhida.
Assim que vou me aproximando, ela levanta os olhos e o que vejo me
gela a alma.
Seu olhar vazio, igual ao da minha princesa, ela se joga em meus
braços, chorando copiosamente.
— O que aconteceu Baixinha?
— Na... não sei Mason, quando cheguei à sua casa ela já estava assim,
tive que pedir para o segurança arrombar a porta, porque ela não atendia de
jeito nenhum.
— Eu não deveria ter saído de casa, eu sabia que ela estava estranha,
ela não tem dormido direito, desde que o cara do F.B.I esteve lá em casa.
— Mason, dessa vez a crise está diferente. Não obtive nenhuma
reação, seu olhar estava morto, como se estivesse entregando os pontos,
alguma coisa desencadeou isso, mas o quê?
— Isso nós iremos descobrir, alguma coisa está acontecendo, e eu irei descobrir essa merda.
— Mason, ela nunca foi de mentir, a Duda abomina mentiras, e hoje
pela primeira vez ela mentiu, alguma coisa tem, hoje foi a primeira vez que
você a deixou sozinha não foi?
— Sim, eu a chamei para ir comigo, mas ela disse que não iria,
porque você e a dona Lia estavam chegando, não insisti, porque ela estava
meio tensa, chegou até gritar que não iria, mas depois mudou o tom de voz.
Lia e Andrey chegam correndo, a cara de Lia é de completo
desespero.
— Cadê a minha filha? Como ela está? O que aconteceu nesse
caralho?
— Calma Lia, não tivemos notícias ainda, pelo o que eu entendi, a
Duda teve outra crise.
— Você não estava com ela Mason?
— Não Andrey, eu fui ao escritório e ela ficou em casa porque vocês
iriam lá.
— Ela mentiu? Como assim? Ela não mente nunca Mason, mesmo
quando era mais nova e a Jess aprontava, ela sempre falava a verdade.
— Não sei o que está acontecendo Lia, desde que o amigo do Patrick
foi em casa para falar sobre Margô, ela está tendo pesadelos e insônia. Hoje
alguma coisa me dizia para não sair, mas ela falou que a Jessie e você Lia
iriam lá em casa, fui para o escritório preocupado, mas sossegado porque
vocês estariam com ela.
Antes que alguém possa falar mais alguma coisa, o médico surge com
uma cara nada boa.
— Fala doutor, como minha Bonequinha está? — Andrey é o
primeiro a perguntar.
— Não está nada bem, seus batimentos cardíacos estavam muito acelerados, falta de ar, pressão altíssima, dei um calmante um pouco mais
forte do que ela está acostumada. Eu segui minha experiência com ela,
porque ela não pronunciou nada, nem mesmo protestou quando a mediquei,
ela sempre reclamou das injeções — o médico fala, com o semblante
preocupado.
— Posso vê-la doutor? — pergunto inquieto.
— E você quem seria, senhor...
— Sou o marido dela doutor, me chamo Mason Black — Estendo
minha mão para apertar a do doutor.
— Marido? Que bom que essa menina conseguiu se achar, mas me
diga uma coisa Mason, vocês tiveram algum tipo de discussão? Ou aconteceu
algo, que possa ter desencadeado essa crise?
— Briga não doutor, mas estamos passando por uma certa
turbulência. Não só ela, mas todos nós. Ela não tem dormido direito, tem
pesadelos constantemente.
— Vocês têm que descobrir o que aconteceu realmente, em todos os
anos que cuido dessa menina, essa é a primeira vez que a vejo nesse estado
catatônico. E olha que eu a acompanhei de perto, desde que ela foi para casa
de Andrey, ela se recolheu dentro dela, na sua concha como costumamos
dizer.
— Posso vê-la? Nem que seja por alguns minutos! Só preciso vê-la —
suplico.
— Lógico menino, eu te levarei até o quarto, assim que ele sair, vocês
podem ir até lá, já deixarei avisado.
— Obrigado doutor, muito obrigado por cuidar da minha menina.
— Acho que passei a considerá-la um pouco filha, depois de saber da
sua história de vida.
Ele se despede com um até logo, e eu o sigo para o quarto onde minha princesa está, paro em frente à porta e antes de entrar respiro fundo, repetidas
vezes.
Abro a porta, e dou de cara com a minha princesa dormindo. Uma
bolsa de soro está ligada ao seu braço, ela está com a pele pálida, mesmo
dormindo, seu semblante está preocupado.
— Ei minha princesa, o que está acontecendo? — Me aproximo e
pergunto em seu ouvido.
Mas não obtenho nenhuma resposta.
— Eu amo você meu amor, por que não se abriu comigo? Por que
guardar tudo para você? — pergunto mesmo sabendo que não terei respostas.
— Eu vou dar uma saída, vou em casa pegar algumas coisas para
você, mas seus pais e a Baixinha, ficaram aqui.
Deposito um beijo em sua testa e lábios, e me encaminho para aonde
os outros estão.
— Baixinha, onde está o Patrick?
— Ele me deixou na casa dos meus pais, e disse que iria resolver uns
problemas do trabalho, que mais tarde ele voltaria para me buscar.
— Vou ligar para ele — respondo pagando o celular.
— Nem adianta ligar, já tentei e só da caixa postal.
— Sério? O Pet nunca deixa o celular desligado.
— Ele anda muito estranho esses dias Mason, anda estressado, grosso,
irritado ao extremo — Jessie diz chateada.
— Não liga Baixinha, às vezes ele fica assim mesmo, ele absorve
muito dos casos em que ele trabalha.
— Mason, como está a Duda? — pergunta Lia preocupada.
— Ela está dopada sogrinha, vai lá ficar com ela um pouco. Vou dar
um pulo até em casa, ela ainda está de pijama, vou buscar umas roupas e os
produtos de higiene dela.
— Vou com você Mason, tenho que agradecer ao MIB pela ajuda, ele
estava se cagando de medo de você, porque o obriguei a arrombar a porta.
— Ok, Baixinha. Andrey não irei demorar, mas se o médico voltar ou
se a Duda acordar, por favor, me ligue imediatamente.
— Vai lá rapaz, eu ligarei assim que tiver qualquer novidade.
Me despeço deles, e vou em direção ao carro. Jess pela primeira vez
desde que a conheci esta calada.
— Ei Baixinha, tudo vai ficar bem, a Duda só ficou muito
impressionada, com tudo o que o policial falou.
— Não sei não Mason, alguma coisa está muito errada, ela não
recebeu nenhuma ligação? Não viu ninguém de diferente?
— Não Baixinha, já não saímos de casa tem uma semana, estou
trabalhando em casa, só hoje que precisei sair porque a Bea teve um
contratempo.
— Eu também estou preocupada com o Olaf, ele anda arredio, tudo é
motivo de briga, às vezes aparece lá em casa bêbado, e isso começou tem um
pouco mais de uma semana. Para falar a verdade, desde que os caras do F.B.I.
chegaram.
— Bêbado?
— Sim bêbado fedendo a Uísque, também não anda dormindo direito.
— Vou conversar com ele Baixinha. Mas não deve ser nada com você
não, Pet se envolve muito nos casos dele, se eu não me engano, eles estavam
investigando uns políticos.
— Pode ser Mason, mas alguma coisa me diz que é coisa grande.
Vinte minutos depois, chego em minha casa, e o segurança vem me
pedir desculpas pela porta. Eu o acalmo dizendo que não foi nada, e o
agradeço por ter ajudado a socorrer a minha princesa, Jessie me ajuda a fazer
uma bolsa com as coisas da Duda, e eu pego a seu nécessaire com seus produtos de higiene.
Assim que pegamos tudo, vamos em direção aos seguranças e peço
para que liguem para Bea, e pedir para que ela mande alguém para consertar
a porta. Mas antes de entrarmos no carro, a Jessie chama o segurança que a
ajudou mais cedo.
— Ei MIB?
— Pois não dona Jessie?
— Veio alguém de diferente aqui hoje?
— Não dona Jessie.
— Ok então MIB, obrigado— responde Jessie.
— Diferente não teve ninguém, só o senhor Patrick que esteve aqui,
um pouco antes da senhorita chegar.
— Patrick? — pergunto surpreso.
— Sim patrão, ele chegou uns dez minutos depois que o senhor saiu,
ficou por volta de uma hora, mais ou menos.
— Obrigado! — agradeço e vamos para carro, ambos confusos com a
notícia.
— Seja o que for que aconteceu, Patrick tem participação na crise que
a Duda teve Mason — Jess diz irritada.
— Não vamos tirar conclusões precipitadas Baixinha. Vou conversar
com ele hoje ainda.
O que será que Pet foi fazer na minha casa? Será que ele falou alguma
coisa? Tenho que falar com ele.
— Ei Baixinha, ligue para o seus pais, e diga que vamos demorar um
pouco mais.
— Aonde vamos Mason?
— Atrás de respostas...
Eu sou um bosta!!!
Eu jamais imaginária que um dia estaria nessa posição, escolhi ser
policial, porque odeio injustiça, odeio ver gente safada sair impune de seus
delitos.
Eu me matei de estudar, não curti nada da minha juventude, enquanto
Mason e Zack aproveitavam a vida de universitário, eu me matava de
trabalhar e estudar.
Estudei direito, porque o cargo que eu queria, e o que tenho hoje,
tinham que ter estudo superior.
Se vocês tivessem me perguntado há um mês, se eu me arrependia de
tudo o que abrir mão para estudar, eu responderia que nunca.
Mas hoje, na situação em que me encontro eu te respondo que me
arrependo amargamente, me arrependo tanto, que não tenho coragem de me
olhar no espelho.
Desde que eu recebi a notícia do meu superior, me sinto um lixo, juro
por tudo o que tenho de mais sagrado na vida, que são meus amigos e minha
tia.
Lixo porque sei o que vai acontecer, e mesmo sabendo de tudo, não
tive a coragem de falar com o meu melhor amigo, não só não tive coragem,
como fui proibido de falar qualquer coisa sobre o assunto.
E depois de saber da notícia, não me reconheço mais, sou a sombra do
homem que eu já fui, só consigo acalmar a minha mente em uma garrafa de
uísque.
Ando descontando até na minha Chaveirinho, que mesmo eu sendo
um grosso ainda tem paciência comigo.
Hoje tive uma das piores conversas da minha vida, pedi para o meu
superior, que me deixasse dar a notícia para Duda, e que ele desse o poder
para ela decidir se queria ou não.
Tive que olhar nos olhos, de uma das pessoas mais maravilhosa do
mundo, e contar o que aconteceria. Vi o pavor em seus olhos, eu vi medo nu
e cru bem diante de mim, um sentimento tão palpável, que eu poderia tocar
com as minhas mãos.
Eu contei tudo o que estava entalado, abri o jogo sem esconder mais
nada, implorei para que ela dissesse não.
Sai da casa do Mason, completamente destruído, estou aqui, sentado
em minha casa, na segunda garrafa de uísque tentando amortecer a dor de
decepcionar meu melhor amigo.
Estou bebendo a perca de um amigo, porque é isso que vai acontecer.
Perder o irmão que a vida me deu, e consecutivamente, perderei Zack
e a minha Chaveirinho.
Perder a amizade dos meninos, vai me foder, mas perder a minha
Baixinha vai me matar. Não consigo olhar em seus olhos, não consigo chegar
perto dela sabendo tudo o que venho escondendo, ela vai me odiar e isso vai
me matar.
Nunca em toda a minha vida, me envolvi tão intensamente com uma mulher como a Jessie. Ela me encantou, por ser completamente o oposto de
mim. Jessie é luz, alegria, tem vezes que ela me enlouquece, totalmente
maluquinha.
Mas é a minha maluquinha, e perdê-la será a pior coisa que vai
acontecer, só rezo para que eles me entendam, e possam me perdoar.
O que o Patrick, foi fazer na minha casa?
Essa é a pergunta que estou me fazendo há horas, Jessie e eu já
rodamos tudo atrás do Patrick, mas não conseguimos achá-lo em nenhum
lugar.
Jessie está puro veneno, dá para ver em seus olhos a raiva, ela tem
certeza que Patrick e o causador do ataque que a Duda teve, para falar a
verdade eu também acho, mas prefiro dar o voto da dúvida.
Porque ele sabe dos problemas da Duda, ele não iria falar alguma
coisa grave e virar as costas, sabendo que ela poderia passar mal.
— Ei Baixinha, não fique assim emburrada sem saber o que realmente
aconteceu, várias coisas podem ter acontecido, ela já vem mostrando
sintomas a alguns dias.
— Nem mesmo você, consegue acreditar no que está dizendo Mason,
o que eu estou puta da vida, é que ele sabe como tudo isso mexe com ela.
Posso estar julgando errado, nunca fui de fazer isso, mas alguma coisa rolou
nessa conversa que deixou a Bbonequinha assim, porque ele não me levou
junto? Como ele sabia que ela estaria sozinha? Porque ele está estranho,
bebendo? Não é beber socialmente Mason, é tipo ele feder a alambique
mesmo. Porque o celular dele está desligado? Você mesmo disse que ele
nunca fica sem o celular, o infame me liga de madrugada, enche o meu saco quando não atendo, ele é todo paranoico com isso, paranoico com a porra da
segurança, à essa hora ele já teria me ligado umas quinhentas vezes para
saber se estava tudo bem! — Jessie começa a falar calmamente, mas no final
já está berrando e cai em um choro compulsivo.
Eu sei que ela está certa, mas porra ele é meu melhor amigo, meu
irmão, então, não consigo imaginar que ele possa ter alguma coisa a ver com
isso, mas uma coisa que a Baixinha disse, me chama a atenção. Só quem
sabia que eu teria que sair era a Bea, eu vou descobrir que porra está
acontecendo e vai ser agora.
Encosto no estacionamento do hospital, e ligo para Bea.
— Oi Mason. — Bea atende ao telefone.
— Bea, porque você não pode ir a minha casa hoje?
— É... é... que aconteceram umas coisas aqui em casa, e eu não pude
sair. Por que a pergunta menino? — Assim que ela gaguejou eu percebi que
tinha alguma coisa por trás disto.
— Bea, vou perguntar novamente e dessa vez quero a verdade! Por
que você não pode ir até minha casa hoje? — pergunto seriamente.
— O que aconteceu menino? Por que você está nervoso?
— Eu quero saber o que Patrick, contou que te convenceu a mentir
para mim! Eu quero saber o porquê da minha mulher, estar em um hospital
dopada depois de um ataque de pânico!!! — Perco a paciência e acabo
gritando.
— Meu filho, por tudo o que é mais sagrado, eu não fiz por mal, ele
me ligou, quando já estava saindo de casa e pediu para eu inventar uma
desculpa, para poder te tirar de casa, ele disse que estavam querendo fazer
uma surpresa para você, e precisava combinar com a Dudinha, mas você não
poderia estar perto — Bea conta chorando.
Eu fico em silêncio, tentando controlar a minha raiva. Sei que ela não tem culpa de nada, foi só um fantoche nas mãos de Patrick.
— Depois nos falamos Bea.
— Por favor Mason, mande notícias da Maria... — Pede Bea
chorando arrependida.
— Mando sim.
Desligo o telefone, e deito minha cabeça no volante, tentando
raciocinar, QUE PORRA ESTÁ ACONTECENDO? QUE MERDA ESTÁ
ACONTECENDO COM O MEU AMIGO?
— Agora você acha que eu estou louca? Mason, independente do que
esteja acontecendo ele teria que falar comigo ou com você, se fosse alguma
coisa ligado ao caso, ele teria que saber que contando para ela teria
consequências. E se eu não tivesse chegado a tempo? Porque guardar
segredos? São tantos porquês e "se", rondando minha mente que estou
ficando maluca.
— Eu não quero nem imaginar se você, não tivesse chegado Baixinha
eu conheço Pet minha vida inteira Jess, passamos por muita coisa juntos. Ele
sabe o quanto sou louco pela sua irmã, sabe que me preocupo ao extremo, até
cogitei a hipótese de ir embora do Brasil com ela, tudo para ver minha mulher
segura, livre desse pesadelo.
— Não sei mais o que pensar Mason, estou enlouquecendo criando
várias hipóteses na minha cabeça. Eu sou hiperativa, agora imagine como
minha mente está!
— Eu não quero acreditar que o cara que eu cresci, que aprendi
admirar, todo correto, integro possa ter se virado para o outro lado, pois é isso
que está se passando na minha cabeça — respondo saindo do carro e batendo
a porta.
Pego a bolsa de Duda, das mãos da Baixinha e vou entrando no
hospital, preciso ver a minha princesa, saber se ela está bem.
Encontro meus sogros no quarto, Lia de um lado da cama, Andrey do
outro, ambos segurando a mão da minha mulher.
— Como ela está mamãe? — pergunta a Baixinha, se aproximando
para fazer um carinho nos cabelos da Bonequinha dela.
— Eles diminuíram o sedativo, o médico disse que não quer ela muito
tempo neles, que quer vê-la reagir, já que ela chegou catatônica, sem
apresentar qualquer reação ou movimento — Andrey responde.
— E como ela está reagindo? Já apresentou alguma resposta?
— Tem mais ou menos uma hora que ele reduziu a medicação, agora
que vocês chegaram, vamos dar um pulo até a cantina, vocês querem alguma
coisa? — Lia pergunta.
— Não tenho fome, mas aceitarei um café sogrinha.
— Para mim só um café também mamãe — diz Jessie sem desviar os
olhos da Duda.
— Está bem, vou trazer um sanduíche de frango para vocês — Lia
diz, como se tivéssemos pedido o lanche.
— Mamãeee!
— Sem discussão mocinha, vou trazer e vocês irão comer e acabou o
assunto — Lia responde brava.
— Nem sei para que perguntar, só faz o que te convém — Andrey
retruca baixinho.
— Eu ouvi isso Andrey! Vamos logo, quero voltar logo, para ficar
perto do meu bebê — minha sogra diz e sai andando para a cantina.
Me sento na cadeira que Andrey estava, e seguro a mão da minha
princesa.
— Ei bonequinha, abre esses olhos de jabuticaba para mim — Jess
pede.
Mas não obtém nenhum resultado, ela não desiste, e continua conversando, contando histórias de quando eram mais novas, dá para ver
nitidamente o amor que a Baixinha sente pela minha princesa.
A ligação que elas têm é inexplicável, já vi vários tipos de amizade,
mas igual à delas nunca, me corta o coração ver a Baixinha desse jeito.
— Mason, vou ali fora rapidinho e já volto tudo bem? — Jess avisa,
tentando segurar o choro.
— Vai lá Baixinha, eu ficarei aqui com ela.
— Estarei aqui na porta, daqui apouco eu volto.
E ela sai apressada, já percebi que ela não gosta de ser vista chorando,
quer ser durona, mas é uma manteiga derretida quando se trata da Duda.
— Ei minha princesa, você não vai acordar não? Já dormiu bastante
não acha? Estou com saudades de você, do seu sorriso, do seu jeitinho
marrento, parece séculos que não vejo o seu sorriso — fico conversando com
ela, para ver se ela reage a minha voz.
Fico fazendo carinho em seus cabelos, porque sei que ela adora, toda
vez que faço isso, ela se transforma em uma gatinha manhosa.
— Gostaria tanto de saber o que aconteceu, o que Patrick foi fazer na
nossa casa, mas só saberei de duas maneiras, você me contando, ou o Pet.
Com você não posso brigar, mas com ele..., a raiva que eu estou sentindo é
inexplicável.
Olho espantado para o seu rosto, quando vejo lágrimas deslizando por
eles, não somente uma, mas várias, sua respiração acelera, e a máquina ao
lado começa a apitar. Eu fico desesperado quando a enfermeira e o médico
entram no quarto.
— Preciso que o senhor saia por alguns minutos, os batimentos
cardíacos estão muito acelerados. Em se tratando do caso dela, que chegou
aqui em um estado um pouco crítico, é muito preocupante — o médico fala,
mas não absorvo nada do que ele disse.
A enfermeira me puxa pelas mãos, e me empurra literalmente para
fora do quarto.
Fico parado em frente à porta, feito um dois de paus não sei por
quanto tempo, tentando entender o que aconteceu.
— Mason? — Lia me chama.
— Ei garoto, o que está acontecendo? — Andrey pergunta.
— Mason Black, não me faça dar dez tapa na sua cara, uma hora
dessas. — Jessie me sacode me tirando do transe.
— Não sei... Eu estava conversando com ela, e de repente lágrimas
começaram a cair pelo seu rosto, seu batimento cardíaco acelerou, o médico
pediu que eu me retirasse.
— Isso pode ser bom!! É sinal que ela está reagindo — Jessie diz
alegre.
— Como assim bom Jess? — pergunta Andrey.
— Eu li sobre o assunto, a respeito das crises quero dizer, quando a
Duda começou a ter as crises assim que chegou em casa, eu fui pesquisar,
conforme os anos foram passando, e o médico diagnosticou a síndrome do
pânico, eu me aprofundei um pouco mais. A Duda tem TAG, que significa:
Transtorno de Ansiedade Generalizada, isso se intensifica por causa da
síndrome do pânico. No caso da Duda, o pânico e a ansiedade, vieram
acompanhados por conta da depressão, então tudo é sentindo duas vezes
mais, ao dobro entendem? —Jessie fala seriamente, nos deixando de queixo
caído.
— Era por isso que você sabia como agir, quando ela tinha as crises!
Porque você nunca me contou filha? — Lia pergunta admirada.
— Porque não é nada demais mamãe, eu pesquisei para poder cuidar
dela. A angústia mental que ocorre imediatamente ou logo após vivenciar ou
testemunhar um evento traumático significativo não é mais chamado de transtorno de ansiedade, esses transtornos são agora chamados de transtornos
relacionados a trauma e ao estresse e incluem o transtorno de estresse agudo e
o transtorno de estresse pós-traumático. — A cada vez que a Baixinha abre a
boca, é uma surra de informação.
— Olha, olha, olha estou vendo que tem alguém interessada em
psicologia. Está de parabéns Jessie, você está explicando certinho, vamos nos
sentar ali e explicarei a vocês, e Andrey, dá uns tapas nesse galã rabiscado
para ver se volta a cor dele. Não precisa se assustar rapaz é normal o que
aconteceu. —O médico aparece falando.
Nem respondo a provocação, todos se sentam nas poltronas, mas eu
prefiro ficar de pé, me encosto na parede, cruzo os braços para ouvir a
explicação do médico.
— O que a Jessie disse é verdade, o transtorno de ansiedade, ataques
de pânico da Duda e de muitas outras mulheres, vem com a depressão. É
triste, mas é cada vez maior o número de casos parecidos, tem certas
situações que a pessoa se recolhe dentro de si, como nós médicos dizemos
internamente, elas se recolhem em sua bolha segura, quando isso acontece,
fica muito difícil reverter o quadro. Tem pessoas que até mesmo cometem
suicídio por conta disso, porque ela ficam cansadas de viver assim, desculpa
o palavreado, mas é foda demais você viver constantemente com medo, isso
pode ser causado por vários fatores, no caso da Maria, foi um trauma forte e
querendo ou não ela acaba se culpando e viver com culpa fode qualquer ser
humano, porque tentamos arrumar desculpas para as ações dos outros.
— Você quer dizer que a Duda, se culpa pelo que a Margô fez com
ela? Isso é impossível doutor, a Duda sabe e repudia tudo o que aquele
monstro fez com ela — Lia fala revoltada.
— Ela sabe Lia, mas inconscientemente ela ainda tenta arrumar
desculpas para a tal da Margô, isso faz com que ela se culpe pelos erros dos outros, e faz com que aos poucos ela vá definhando. Não estou dizendo que o
que aconteceu hoje, possa ter sido isso. A mente humana é traiçoeira, e uma
pessoa que tem depressão, e outros transtornos é pior porque eles fantasiam
várias situações, diversos cenários. Hoje o trauma foi tão grande que ela
preferiu se recolher na bolha segura dela, o que você viu agora Mason, foi
nada mais, nada menos, do que ela reagindo a sua voz, o que você
presenciou, foi a Maria saindo da sua bolha segura por você, o batimento
cardíaco acelerando, foi nada mais que o desespero de lutar contra o efeito do
remédio, ela está se vendo incapacitada de falar com você e de te tranquilizar.
Ela é uma força a ser reconhecida meus caros, essa menina vem lutando
contra os monstros em sua mente a anos, é compreensivo que as vezes ela
não consiga ser forte. Eu não aumentei a medicação, quero que ela acorde,
quero de ela saia da sua bolha segura, minha preocupação no momento é tirá-
la do porto seguro que ela idealizou dentro de si, ela vai ter que voltar com a
medicação, e principalmente voltar com a terapia. Se o que vocês falaram é
verdade, que vocês estão passando por turbulências, então é imprescindível
que ela retorne as sessões.
— O senhor tem certeza que ela está bem? Que é normal isso que
aconteceu? Porque eu jamais quero causar nenhum dano a ela, eu pensei que
estava causando algum mal, que ela me queria longe — falo agoniado.
— O amor é lindo, não é mesmo? Meu caro galã, se eu te dissesse que
você teria que ficar longe para o bem dela o que você faria? — pergunta o
médico.
— Eu me afastaria, mesmo que me matasse fazer isso — respondo
sucinto
— Está aí sua resposta meu caro, você jamais seria capaz de causar
mal a ela, pois você a ama, e é capaz de se sacrificar a vê-la sofrer — o
médico diz sorrindo.
— Obrigado mais uma vez doutor, o senhor como sempre nos
socorrendo — Lia agradece ao médico.
— Jamais me agradeça Lia, faço de coração. Podem entrar para ficar
com ela, conversem bastante para que ela veja que vocês estão aqui, nessas
horas de crise, nada melhor do que sentir que estamos rodeados de amor.
Qualquer coisa sabe onde me achar — diz o médico se despedindo. — E
Jessie, aceita um conselho de um velho? Segue pelo caminho da psicológica,
você se dará bem.
— Eu sou muito fora da casinha, para cuidar da mente dos outros
doutor — Jess diz fazendo careta.
O médico solta uma gargalhada e vai embora rindo.
Eu o olho se afastando, e sinto um alívio tão grande, que vou
escorregando pela parede e me sento no chão segurando meus joelhos.
— Você está bem menino? — Andrey pergunta.
— Só preciso respirar um pouco — respondo sentindo meus olhos
arderem.
Ouço passos se afastando, e percebo que eles entraram no quarto da
minha princesa. Estou tão perdido em meus pensamentos, que me assusto
quando sinto se sentarem ao meu lado.
— Essa sensação de impotência nunca irá passar, mas posso te
garantir que com o tempo abranda, é foda quando vemos quem amamos
sofrendo sem que possamos fazer nada, isso acaba com a gente. A única coisa
que podemos fazer é estar forte para quando elas precisarem, você é novo
Mason, mas está demonstrando ser um homem espetacular, a forma como
você ama e protege a minha filha, só me faz te admirar cada vez mais —
Andrey fala.
E eu deixo minhas lágrimas, que até agora estava prendendo,
correrem soltas.
De uma coisa eu tenho a mais plena certeza, EU SEMPRE SEREI
FORTE QUANDO ELA PRECISAR DE MIM.
MAS MAL SABIA EU, QUE ESSA FORÇA IRIA SER
ARRANCADA DE MIM.