A fronteira
LIVRO 3: Los Retornados
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
— Onde ele está morando?
— Com alguns amigos, no Brooklyn — diz Althea. — Está tudo na
página dele, no Facebook.
— Eu não vou me comunicar com meus filhos através de redes sociais
— diz Keller.
— É melhor do que não se comunicar de nenhuma maneira — diz
Althea. — Então, ligue pra ele.
— Não tenho o contato dele.
— Me dê seu celular.
Keller entrega o aparelho e ela aperta uma porção de teclas. — Agora tem. Ligue pra ele, ele vai adorar ter notícias suas. — Não vai, não, Althie.
— Ele estava magoado — diz ela. — Você simplesmente sumiu naquele
lugar onde você vai. Ele foi deixado com um pai herói distante, que estava fora fazendo coisas nobres, então, ele nem sequer teve o conforto de se ressentir pelo abandono, sem culpa.
— Achei que seria melhor se eu não entrasse e saísse da vida de vocês. — Talvez tenha sido — diz Althea. — Ligue para as crianças, puxe
conversa à toa, essas coisas.
— Tá.
— Você se deu bem com Marisol — diz Althea. — Ela é maravilhosa. — Casei com alguém melhor que eu.
— Duas vezes.
— É verdade — diz Keller.
— Não, eu estou feliz por você, Art.
— Obrigado.
— E tente ser feliz, está bem? — diz Althea. — Nem todos os
problemas do mundo são culpa sua.
— E você? Está feliz?
— Neste momento, um pouco de bolo tres leches me deixaria feliz — diz ela, e se espreme para passar por ele. — Ligue para as crianças.
São quase três horas da madrugada, quando Marisol entrega as varetinhas faiscantes e conduz os últimos convidados até a rua, em um pequeno cortejo meio embriagado.
— Os vizinhos vão chamar a polícia — diz Keller.
— A maioria dos vizinhos está aqui — responde Marisol —, e também a polícia. Eu convidei pelo menos três deles.
— Esperta.
— Esse não é meu primeiro Nochebuena. E olhe. — Ela projeta o queixo para onde Hugo está com o braço ao redor da jovem da livraria. — Será que eu sei ou que estou fazendo ou não?
— Eles ainda não estão exatamente caminhando para o altar.
— Você espere.
Althea se aproxima e dá um abraço em Marisol.
— Eu vou indo. Obrigada pela melhor noite que eu tenho em muito tempo.
— Não teria sido tão boa sem você.
— Ela é pra ficar, Art — diz Althea. — Tente ficar com ela, tá?
Keller fica olhando, enquanto ela se afasta caminhando pela rua, girando sua varetinha cintilante.
O sol está quase nascendo, quando os últimos convidados vão embora. Marisol está na sala e diz:
— Talvez a gente possa simplesmente tacar fogo na casa?
— Vamos tacar fogo de manhã — diz Keller.
— Já é de manhã — observa Ana.
— Apesar disso, eu vou pra cama — diz Marisol. — Boa noite, meu amados.
Keller tenta dormir, mas não consegue. Mari está completamente apagada quando ele levanta, vai até seu escritório e pega o telefone.
Ele liga primeiro para Cassie.
Ela sempre foi mais branda, mais pronta a perdoar.
— Cassie Keller.
— Cassie, é o pai.
— A mamãe está bem?
— Está todo mundo bem — diz Keller. — Só liguei para dar um oi.
Feliz Natal.
Um breve silêncio, depois:
— Bem, olá, e Feliz Natal também.
— Sei que faz bastante tempo.
Ela tenta esperar que ele fale mais, depois diz: — Então, como vai você?
— Bem, eu estou bem — responde Keller. — Então, a mãe me falou que
você está séria, com um cara.
— Não me venha todo “pai”, agora.
— Mas é verdade?
— É, acho que é verdade, sim — diz Cassie.
— Bem, que bacana — fala Keller. — Ele tem nome? — David.
— O que o David faz?
— Ele leciona.
— Na sua escola? — pergunta Keller.
— Ãrrã.
— Bem, que bacana.
— Você vai ficar falando isso? — pergunta Cassie. — “Que bacana”? — Acho que não sei mais o que dizer. Desculpe. — Não, é legal — diz Cassie. — Você deveria conhecê-lo, qualquer
hora.
— Eu gostaria.
— Eu também.
Eles conversam por mais alguns minutos — conversa à toa — depois
combinam que ele vai ligar para ela, na semana seguinte. Keller toma vários goles de café antes de ligar para o número de Michael.
Cai na caixa postal.
— Aqui é Michael. Você sabe o que fazer.
— Michael, aqui é seu pai. Não se preocupe, está tudo bem. Só liguei
para dar Feliz Natal. Liga de volta, se você quiser.
Dez minutos depois, o telefone toca.
É Michael.
Keller pode imaginá-lo lá sentado, tentando resolver o que fazer. Ele
fica contente que o filho tenha decidido ligar de volta e lhe diz isso.
— É, bom, eu fiquei em dúvida — diz Michael.
— Eu entendo.
— Quer dizer, primeiro, eu achei que fosse meu aniversário, ou algo assim — diz Michael. — Depois, percebi que não era, é o de Jesus.
Eu mereço isso, pensa Keller.
Ele fica de boca fechada.
— Então, o que aconteceu? — pergunta Michael.
— Só o que eu falei. Eu queria dar um oi, saber como você está.
— Eu estou bem — diz Michael. — Como vai você?
— É, bem.
Silêncio.
Keller sabe que Michael está esperando que ele dê o próximo passo, e que ele é perfeitamente capaz de esperar para sempre, tendo a teimosia também em seu DNA. Então, Keller diz:
— Ouça, daqui a um ou dois dias, eu posso pegar o Acela e chegar aí, em três horas.
Silêncio, então…
— Olhe, não leva a mal — diz Michael —, mas eu estou bem ocupado, neste momento. Estou em filmagem. É só industrial, mas trabalho é trabalho, e não posso estragar esse contato.
— Não, claro.
Mas o lado manso de Michael fala mais alto.
— Mas você está bem, não é?
— Sim, estou, sim.
— Certo. Bem…
— Na próxima — diz Keller — eu ligo com antecedência.
— Seria ótimo.
É um começo, pensa Keller, desligando. Ele entende que o filho é orgulhoso demais para fazer as pazes de primeira. Mas é um começo.
Algumas horas depois, Marisol desce, com uma aparência bem amarrotada.
— Se você realmente me amasse, me daria um tiro. Ops, acho que isso foi de mau gosto, eu retiro. Feliz Natal, Arturo.
— Feliz Natal — diz Keller. — Eu liguei pra Cassie e pro Michael.
— Como foi?
— Com a Cassie, bem; com Michael, nem tanto — responde Keller. Ele conta sobre sua oferta desdenhada de ir até Nova York. — Tive o que mereci. Ele é um garoto orgulhoso, acabou comigo. Sabe de uma coisa? Bom pra ele.
— Vai levar um tempinho — diz ela. — Mas ele vai voltar pra você,
você vai ver.
De qualquer maneira, feriado errado, pensa Keller, aquele é a Páscoa. Nem tudo volta.
Ele viu as estatísticas de fim de ano: 28647 morreram de overdose de heroína e derivados de ópio, em 2014.
Quarenta e nove garotos no México, em ônibus. Nos EUA, 28647 por drogas.
Nenhum deles vai voltar.
E você está fracassando em seu trabalho.
— Eu te amo, mas vou voltar pra cama.
— É, na verdade, eu vou para o escritório.
— É Natal.
— Então, estará bom e tranquilo — diz Keller. — Estarei de volta antes
de você levantar.
Ele vai de carro até Arlington, entra no escritório e se debruça sobre os
dados de inteligência compilados sobre Tristeza.
Porque ele sabe que eles estão deixando de notar alguma coisa. Ele volta na história — a última vez em que gente inocente foi tirada de
um ônibus e assassinada foi em 2010, quando os zetas pararam um ônibus vindo pela estrada 1 e mataram todo mundo, equivocadamente achando que eram recrutas do cartel Golfo.
Poderia ter acontecido isso em Tristeza?
Se fossem os Guerreros Unidos, será que teriam achado que os alunos
eram Los Rojos? Talvez, mas como poderiam cometer esse erro? Traficantes veteranos como os GU não poderiam ter achado que um bando de garotos de esquerda, em uma farra, eram narcos nascentes.
Será que havia alguma verdade nisso? Poderiam alguns estudantes ter
envolvimento com Los Rojos, e os GU mataram todos, só pela certeza de terem matado os “culpados”?
Volte um pouco, pensa Keller.
GU e Los Rojos estão brigando pelo fornecimento de heroína para
Sinaloa. Damien Tapia pode estar envolvido com os GU. Tapia foi visto com os irmãos Rentería, nas proximidades da rodoviária de Tristeza, então…
Meu Deus, nós estamos focando a questão errada.
Nós estamos focando nos estudantes, quando…
Ele liga pro Hugo.
— Meu Deus, chefe, é Natal.
— Não tem a ver com os estudantes — diz Keller. — Tem a ver com os ônibus.
Tinha heroína nos ônibus.
Três dias depois do Natal, no Día de los Santos Inocentes, Rafael Caro faz seu próprio café da manhã, na cozinha de sua casa, em Badiraguato.
O fogão a gás tem quatro bocas. Tem uma panela de pozole em uma delas, uma panela para os seus ovos na outra, e um bule velho na terceira. Caro senta junto à mesa dobrável na cozinha, com sua camisa de brim e sua velha calça de sarja, um boné azul na cabeça, embora ele esteja dentro de casa. Ele come seus ovos e pensa em Arturo Keller.
Keller, o mesmo homem que o colocou no inferno por vinte anos, está lhe causando mais um inferno, fazendo imensa pressão em todos por conta do negócio em Tristeza. Em um momento em que o negócio está à beira do caos, pensa Caro, quando nós mais precisamos ficar tranquilos para resolver as coisas, Keller está de novo caindo em cima da gente.
Será que esse homem nunca vai simplesmente morrer?
Ele provocou uma grande investigação e quem sabe aonde isso vai dar? Já levou Caro a uma decisão difícil: ele precisa encerrar o fluxo de heroína dos GU para Ruiz. Ao menos os quinze quilos chegaram lá no contato de Nova York. Ainda bem, mas continuar é perigoso demais.
Eles terão que tomar outras providências. Ariela Palomas precisa ficar com aquela porra daquela boca fechada e os irmãos Rentería… Como puderam ser tão imbecis de deixar que um bando de estudantes… garotos… sequestrassem um ônibus cheio de chiva?
— Mande entrar Tilde — Caro diz ao jovem sentado à mesa da cozinha. O rapaz, único empregado de Caro, que o leva para todo lado em uma antiga motocicleta Indian e vai à tienda para comprar feijão, tortilhas, carne, ovos e cerveja, vai até lá fora e volta um instante depois, com Tilde Rentería.
Caro aponta o queixo para uma cadeira de madeira vazia.
Tilde senta.
— Você foi negligente — diz Caro.
— Eu lamento.
— Você lamenta? — repete Caro. — Eu tive que ordenar a morte de 49
jovens, crianças, e você lamenta?
— Você deu a ordem — diz Tilde. — Mas fui eu que fiz a matança. — O que aconteceria — pergunta Caro — se Ricardo Núñez descobrisse
que você transportou heroína roubada dele? Que você se aliou a Damien? Que você está fazendo negócio el norte, com Eddie Ruiz? O que aconteceria?
— Uma guerra.
— Você não está preparado para uma guerra com Sinaloa — diz Caro.
— Não há como ganhar uma guerra com Sinaloa, mas a questão principal não é essa. A questão principal é que as guerras são ruins para os negócios.
E não fazem parte de seu plano, que é destruir o cartel Sinaloa sem
sequer lutar contra ele. Fazê-lo destruir a si mesmo.
— Agora, vai acontecer o seguinte — afirma Caro. — A polícia federal
vai receber uma denúncia anônima quanto ao seu paradeiro e armar uma invasão. Você e seus irmãos irão se render. Então, quando interrogados, vão confessar o assassinato daqueles estudantes.
— Isso é uma piada? — pergunta Tilde.
Hoje é Dia dos Inocentes, em memória da matança dos bebês recém-
nascidos em Belém, mortos por Herodes, e se tornou a versão mexicana do 1º de abril, repleta de piadas.
— Eu estou rindo? — pergunta Caro.
— Isso dá pena perpétua!
— É melhor que uma pena de morte, não é? — pergunta Caro. Ele havia pensado em simplesmente matar os Rentería — seria bem
simples fazer com que os Federales atirassem neles, durante o ataque — mas isso destruiria relacionamentos com a antiga organização Tapia.
— Você confessa e conta sua história de Los Rojos e encerra a
investigação. Pega prisão perpétua, cumpre vinte anos e, quando sair, ainda será um homem relativamente jovem.
— Não posso cumprir vinte anos.
— Eu cumpri.
E quando saí, eu era bem mais velho do que você será, pensa Caro.
— Com todo respeito — diz Tilde — você não é o chefe. Você é, como podemos dizer… um tio reverenciado que nos ajuda com conselhos.
— E como seu tio reverenciado — diz Caro —, eu fortemente sugiro que você aceite o meu conselho. Eu estou lhe emprestando a sua vida, Rentería. Pegue hoje e nunca mais terá que devolvê-la.
Outra tradição do Día de los Santos Inocentes: não é preciso devolver nada que seja emprestado nesse dia.
— Podemos esperar até depois das festas, se você quiser — diz Caro.
Ele encara Tilde.
Tilde entende o recado e vai embora.
Foda-se ele, pensa Caro.
Ele é nada.
E foda-se Art Keller.
Ele me deu vinte anos naquele inferno sem fim.
Eu tenho que encontrar um presente pra ele.
Um que ele não possa devolver.
Os sinos tocam e Marisol joga a última uva na boca.
É uma tradição da noite do Ano Novo — você coloca doze uvas na boca, las doce uvas de la suerte, uma para cada badalada dos sinos — e isso lhe trará boa sorte para o ano que começa.
Então, agora Ana toca o sino e Marisol come as uvas. Depois, ela segura uma colher de lentilhas para Keller.
— Vamos.
— Não gosto de lentilha.
— É pra dar sorte. Você tem que comer!
Keller engole as lentilhas.
Marisol quase ficou doida com a noite de Ano Novo, como foi no Natal. Conforme a tradição mexicana, todas as luzes da casa estão acesas e ela fez uma faxina minuciosa, fazendo questão de varrer de dentro para fora, e o lugar ainda cheira a canela, depois de ela ter aquecido água temperada e passado a mistura no chão. Eles subiram, abriram a janela do banheiro e jogaram um balde de água na rua.
Em tudo isso, Ana foi sua aliada entusiasmada, insistindo com ela que todos eles escrevessem seus “pensamentos negativos” — tudo de ruim que havia acontecido ao longo do último ano — em um pedaço de papel que depois irão queimar, para garantir que as coisas ruins não os acompanhem ao novo ano.
Bem que eu queria que fosse assim tão fácil, pensa Keller, mas ele
escreveu os números “49” e “28647”, “Denton Howard”, “John Dennison”, “Guatemala” e “Tristeza”, e agora encosta o fósforo no papel para queimá-lo.
— O que você escreveu? — ele pergunta a Mari. — Não posso contar! — ela diz, ao queimar seu papel.
Noite de Ano Novo, pensa Ric, é sempre uma ocasião para um excesso orgíaco dentre Los Hijos.
Mas Iván realmente se superou esse ano.
Ele fechou a cobertura toda do Skybar no Splash, a mais nova e
exclusiva boate de strip em Cabo. Sua equipe de segurança — e a de Ric — estão ali, com o efetivo completo, caso Elena queira fazer o balanço contábil, antes do fim do ano fiscal.
“Mordomos” do Splash, mulheres deslumbrantes, de pernas compridas,
trajadas somente de fio dental, proveem o serviço privativo, garrafas de Dom e Cristal, e os coquetéis artesanais da boate, divididos em “elementos sensoriais” — Obsceno, Enevoado, Doce, Suave, Salgado e Apimentado.
Ric pede o Enevoado, algo feito com uísque, e traga um dos charutos
Arturo Fuente Opux X, que Iván distribui, da caixa de trinta mil dólares. Tigelas de pó — não carreiras, tigelas — estão distribuídas pelas mesas, assim como fileiras de baseados — erva Loud Dream híbrida, que sai por cerca de 800 dólares cada 30 gramas.
No palco, seis mulheres desbundantes se contorcem ao som da batida
tecno, cada uma delas com lingerie que Iván mandou usar, especificamente, para a noite de Ano Novo, e agora ele narra seu pequeno concurso.
— Certo, cada garota tem uma cor: vermelho para paixão, amarelo para
prosperidade, verde para saúde, rosa para amizade, laranja para sorte e branco para paz.
Nenhuma delas está vestida de preto.
Preto é má sorte para o Ano Novo.
Motivo pelo qual, claro, Belinda está com um vestido preto colante, um
desafiador “foda-se” à tradição e ao medo. Ela é a única mulher convidada para a festa; esposas e amantes — exceto La Fósfora — foram banidas, e a esposa de Ric, Karin, não está contente que ele tenha escolhido passar a noite de Ano Novo com Los Hijos, em vez de ficar com ela.
Que porra ela quer? pensa Ric. Mais cedo, naquela noite, Iván tinha contratado um artista ganhador de vários prêmios Grammy, e sua banda deu um show particular para todas as famílias, durante o jantar, no Casiano. Karin até tirou foto com o artista e tudo. Depois, durante a sobremesa, Ric soltou um colar de ouro na taça de champanhe dela. E agora ela está em uma suíte com varanda de frente para o mar, então, que porra mais essa cachorra quer?
— É trabalho — ele disse a ela.
— Trabalho? — perguntou Karin. — Agora você está brincando comigo, não é?
Não, ele não estava.
A festa de Ano Novo foi um gesto de aproximação de Iván. As coisas andaram tensas, desde que o pai de Ric assumiu e deu Baja para Elena. Portanto, essa era a forma de Iván dizer que queria deixar isso de lado e retomar a amizade. Então, sim, era pessoal, mas era trabalho também, fazendo as pazes, servindo como o embaixador de seu pai, para uma ala importante do cartel.
— Então, você agora é o jefe de La Paz, hein? — Iván falou a Ric, quando ligou para convidá-lo.
— Ora, vamos, cara.
— Não, eu acho bom — disse Iván. — Você demarcou seu território e fez valer. Quem diria, o tranquilo pequeno Ric, agora todo intenso. Só que você não é mais chamado de Mini-Ric, não é? Agora é “El Ahijado”.
— É, sou eu — respondeu Ric, tentando não levar a sério.
— Seu pai está preparando você para coisas maiores — disse Iván.
— Meu pai — afirmou Ric — me acha um desperdício de espaço.
— Agora não acha mais, não. Não depois do que você fez em La Paz.
— Aquilo foi mais a Belinda.
— Você continua comendo aquela cadela maluca? — perguntou Iván. — Cuidado, mano, eu já ouvi falar que maluquice é contagiosa pelo pau. Não, agora você é importante, Ric. Um astro do rock.
— Só estou tentando ajudar meu pai — disse Ric. — Só isso.
— O afilhado não quer ser padrinho? — perguntou Iván. — Que porra de filme de merda é esse?
— Na verdade, isso foi o filme.
— E veja como terminou.
— Foi um filme, Iván.
Primeiro, a Belinda, agora, Iván, pensou Ric. Por que estão todos
tentando me empurrar para uma cadeira que eu não quero?
Então, quando Karin ficou toda ouriçada por ele a estar “dispensando”
na noite de Ano Novo, Ric disse:
— Eu tenho que reatar as coisas com Iván. Se eu desprezar o convite,
ele vai ficar ofendido.
— Mas se eu me ofender, não importa.
— É trabalho, benzinho — disse Ric.
— É uma desculpa para ficar chapado e transar com piranhas. É bem isso, pensa Ric, enquanto assiste as meninas dançando. Ele está
muito doido de pó, baseado, birita e até do charuto, e tem quase certeza de que vai acabar transando com algumas piranhas. O que você quer para o a noite de Ano Novo, ele pergunta a si mesmo: paixão, prosperidade, saúde, amizade, sorte ou paz?
Iván vai deixar por conta do destino. Segurando um chapéu Panamá, ele
diz:
— Aqui tem seis pedaços de papel. Cada um com uma cor equivalente a
uma garota. Você tira um papel do chapéu e é aquela que você terá.
As garotas dão uma incrementada. Tiram os tops e começam a se
esfregar umas nas outras, se beijando e apalpando.
— Isso é o céu — diz Belinda.
Ric ri. Ela está sentada com um charuto na boca, de olhos arregalados
para as dançarinas, parecendo um cara cheio de tesão. Estão ela, Ric, Iván, Oviedo, Alfredo e Rubén, só os seis, um para cada garota.
Um lugar vazio, com uma garrafa de Dom e um charuto, foi reservado
para Sal.
Ric vira para Belinda.
— Você vai ficar com ciúme, se eu ficar com outra garota? — Você vai, se eu ficar?
Ric sacode a cabeça.
— A Gaby vai ficar injuriada.
— Você a vê aqui?
— Não.
— Nem eu — diz Belinda, unindo as mãos em prece. — O que está fazendo? — pergunta Ric.
— Rezando por paz.
Ric não pode culpá-la — a garota de branco é gata. Cabelos compridos pretos e brilhosos, que batem na bunda redonda. Ele está meio que torcendo pra tirar a verde — saúde é sempre uma boa coisa, e a loura tem lábios grossos de boquete e peitões de matar.
— Primeiro as damas — diz Iván, parado na frente da Belinda. Ela estende a mão ao chapéu e tira o papelzinho branco.
— Aí sim!
Oviedo tira rosa.
Alfredo tira amarelo.
Rubén, porra, tira o papel verde.
— Awww — Belinda diz a Ric. — Pobrecito.
Ric enfia a mão e tira vermelho.
— Paixão — diz Belinda.
Sua garota com certeza é bem gostosa, pensa Ric. O mesmo cabelo preto cheio da garota da Belinda, pernas compridas e peitos lindos.
— Tirei a sorte! — Iván anuncia, ao pegar o papel laranja.
As garotas descem do palco em fila, depois ajoelham diante de seus respectivos clientes.
“Paixão” ajoelha na frente de Ric e abre seu zíper. É incrível a sensação de sua boca sobre ele. Ele dá uma olhada para o lado e vê a cabeça de Belinda jogada pra trás, as mãos dela atrás da cabeça de sua garota, pressionando o rosto dela em sua virilha. Depois suas mãos voam às laterais da cadeira e agarram os apoios de braço, os nós dos dedos brancos.
Iván… bem, Iván tirou a sorte.
Ele goza dando um grito “Madre de Dios! Isso foi tão gostoso que eu vou lhe dar o meu carro, mamacita!”.
A festa prossegue.
O pó, a erva, a birita, as mulheres.
Em certa altura, Ric apaga.
Acorda com o som de tiros.
A seu lado, Belinda está lambendo uma das dançarinas, como um gatinho em uma tigela de leite quente. Rubén está inconsciente, o braço esquerdo pendurado na lateral da poltrona, pousado em uma garrafa de cerveja. Os irmãos Esparza estão em pé, na beirada do telhado, disparando AKs no ar.
Rudolfo não está ali para pedir que eles parem. Ric não está nem aí e tenta voltar a dormir, mas os disparos não deixam.
Então, ele abre os olhos e vê Sorte, agora vestida de camiseta preta e jeans, com saltos altos, indo até Iván.
— Pode me dar o carro? — pergunta ela.
Iván abaixa a arma.
— O quê?
— Você falou que me daria seu carro.
Iván ri.
— Você acha mesmo que eu vou dar um Porsche de 75 mil dólares por
um boquete?
— Foi o que você disse.
Merda, pensa Ric. Ele cambaleia para fora do sofá e se aproxima. — Dá o fora daqui, conchuda estúpida — diz Iván. Ele ergue o AK de volta ao ombro e esvazia um pente no ar. Mas Sorte é teimosa. Ela fica ali em pé, olhando para ele. — Você ainda está aí? — pergunta Iván, baixando a arma. — Sai fora,
porra, isso você entende?
— Você disse um carro.
— Dá pra acreditar nessa vaca? — Iván pergunta a Ric. Então, ele olha
para a garota. — Deixe-me lhe perguntar uma coisa. Sabemos que você sabe chupar, mas consegue chupar as balas de uma arma, antes que eu aperte o gatilho? Venha, vamos ver.
Ele bota a ponta do cano nos lábios dela e empurra. — Abra, piranha.
Ric diz:
— Vamos, cara.
Iván está totalmente cheirado.
— Fique fora disso.
— Você está chapado, Iván — diz Ric. — Não quer fazer isso. — Não me diga o que eu quero fazer.
A mulher está apavorada. Ela está tremendo, enquanto abre a boca em
volta do cano e Iván empurra abaixo, forçando-a a ficar de joelhos.
— Chupa as balas, puta, antes que eu aperte o gatilho. Ric vê um filete de urina escorrer pelas pernas dela. Oviedo ri.
— Ela está se mijando!
Agora estão todos olhando, perplexos. Mas ninguém se mexe.
— Você ainda quer meu carro? — pergunta Iván.
Ela balança a cabeça que não.
— Não consigo entender você de boca cheia — diz Iván.
— Chega, Iván — diz Ric.
— Vá se foder. — Iván olha para baixo novamente, para a mulher. — Não tenho certeza do que você falou, mas acho que foi “sou uma piranha imbecil e imprestável, portanto, por favor, acabe com minha infelicidade”, certo?
Ele move a arma acima e abaixo, forçando a mulher a assentir.
— Está vendo? — diz Iván. — Ela quer morrer.
Ric não sabe como acontece, mas, de repente, ele saca a pistola e aponta para a cabeça de Iván.
— Chega.
Oviedo e Alfredo apontam suas armas para Ric.
Os pistoleiros de Iván começam a se aproximar.
Os de Ric também.
Iván olha para Ric e sorri.
— Então, é assim, El Ahijado? Por uma porra de uma piranha?
— Larga ela, cara.
— Você agora é um cara durão?
Ric sente todas as armas apontadas para si. Em uma fração de segundo, qualquer um desses caras pode resolver apertar o gatilho para salvar o chefe. A qualquer momento, pode haver um banho de sangue.
— Vou levá-lo comigo para casa, Iván.
Iván o encara, olhando-o profundamente.
Então, ele tira devagar a arma da boca da mulher estende os braços e puxa Ric para um abraço.
— Juntos para sempre, então? ¡Los Hijos siempre! ¡Feliz Año Nuevo a todos!
Iván puxa Ric para mais perto e cochicha em seu ouvido:
— Quem poderia imaginar que você teria culhões? Mas se algum dia apontar uma arma pra mim de novo, mano, eu vou matar você.
Ele solta Ric.
Ric vê Sorte se esforçando para ficar de pé e caminhar até o elevador, com as pernas bambas. Ninguém se aproxima, nenhuma das outras mulheres vai até ela.
Ela é uma lepra.
Ele vai atrás dela.
— Ei.
Ela vira. Seus olhos estão assustados e zangados, seus cabelos
desgrenhados, o batom borrado em volta da boca, fazendo-a parecer uma palhaça.
Ric enfia a mão no bolso da calça, tira um chaveiro e joga para ela. — É um Audi, não é um Porsche, mas é um carro bom. Só tem
cinquenta mil quilômetros rodados.
Ela fica olhando para ele, sem saber o que fazer. — Pode ficar — diz Ric. — Pode ficar com o carro. A porta do elevador abre e ela entra.
Ric volta para a festa.
Iván viu o que ele fez.
Ele sacode a cabeça e diz:
— Você é um babaca, Ric.
Pode ser, pensa Ric.
De qualquer maneira, Feliz Ano Novo.
Damien Tapia está no carro que lidera um comboio serpenteando pelas montanhas do interior de Sinaloa.
Dez veículos com cinquenta homens fortemente armados, custeados
pelos quinze quilos de heroína que ele mandou para Eddie Ruiz. Assim como Damien, todos os homens estão vestidos de preto — camisa ou moletom preto, jeans preto, sapatos pretos, botas ou tênis. Alguns já estão de capuz preto, outros estão com o capuz no colo.
Damien ajusta o cachecol em volta do pescoço, por conta do frio que
antecede o amanhecer. O céu está começando a mudar de cor, passando do breu absoluto para um cinza chumbo, mas ele não permite que os motoristas acendam os faróis, apesar da estrada na encosta montanhosa, onde uma leve derrapada pode lançar o veículo direto ao precipício de trinta metros.
É essencial que o comboio não seja avistado, que o ataque seja
totalmente de surpresa.
O que deve ser, pois é noite de Ano Novo.
Damien está prestes a anunciar sua presença de forma majestosa. O
Jovem Lobo está à caça e vai uivar para que todos ouçam.
É preciso endurecer o coração, Damien descobriu. Logo que soube que Palomas ordenou a morte daqueles garotos para encobrir seu carregamento de heroína, Damien ficou arrasado. Ele não conseguia comer, nem dormir, sua barriga doía. Sua imaginação o torturava com imagens vívidas dos estudantes mortos, dos corpos ardendo em chamas, em um monte de lixo. Ele pensou em se entregar e confessar. Pensou até em se matar, botar a arma na cabeça e apertar o gatilho.
— Era isso que seu pai iria querer? — perguntou Tío Rafael.
Damien fora até a casa do idoso para pedir seus conselhos. Ele não sabia onde mais poderia ir. Seu pai estava morto, seus amigos não eram mais seus amigos — ele não podia mais falar com Iván, Ric ou mesmo com Rubén.
— Você está seguro — disse Caro. — Ninguém pode ligar você ao que aconteceu em Tristeza.
— Mas estou atormentado com isso.
— Você se sente culpado.
— Sim, Tío.
— Deixe-me perguntar — disse Caro. — Você matou aqueles estudantes?
— Não.
— Não — repetiu Caro. — Tudo o que você fez, sobrino, foi colocar um produto naqueles ônibus. Você depositou sua confiança nos Rentería e eles o decepcionaram. Mas você não é responsável pela morte daqueles jovens.
Para sua vergonha, Damien desabou em prantos.
Chorou copiosamente na frente de Rafael Caro.
Mas Caro só ficou ali sentado, esperando que Damien se acalmasse.
— Este nosso negócio — disse Caro — dá muito e exige muito. Ele oferece grandes recompensas e perdas terríveis. Permite fazer coisas maravilhosas, porém, às vezes, nos obriga a fazer coisas terríveis. Se aceitarmos um, temos que aceitar o outro. Deixe-me lhe perguntar, você tem dinheiro suficiente para viver?
— Sim.
— Sua mãe, suas irmãs, elas têm dinheiro para viver?
— Sim.
— Então, talvez você deva deixar isso de lado — disse Caro. — Deixe que os mortos enterrem seus mortos e viva sua vida.
— Não posso.
— Então, saiba que você deve aceitar os dois lados desse negócio.
Desfrute das recompensas, aceite as perdas, faças as coisas terríveis que às vezes terá que fazer. Nunca derrame sangue em vão, mas, se precisar fazê-lo, endureça seu coração e faça.
Agora Damien vê o vale estreito abaixo, e a hacienda quase escondida
abaixo do cume do lado oposto. A casa é mais modesta do que ele esperava, menor do que se lembrava, dos tempos que vinha aqui, quando garoto. As paredes da casa térrea estão recém-pintadas de rosa, o telhado foi refeito há pouco tempo com telhas de barro. Há várias edificações no vale abaixo — uma casinha de criados, Damien acha, uma garagem, cabanas com telhas de zinco para os guardas.
Um pouquinho adiante, no vale, Damien sabe que há uma pequena pista
e um hangar para uma aeronave de pequeno porte.
Olhando através da mira noturna, ele vê que há somente um guarda em
serviço, em pé, junto a uma fogueirinha de carvão, batendo os pés para espantar o frio. Seu fuzil está pendurado no ombro da jaqueta camuflada, e ele está com um gorro de lã na cabeça.
Damien se força a não pensar se o homem tem esposa, uma família.
Filhos. Força-se a não pensar que esse homem tem uma vida que ele está prestes a tirar.
O Jovem Lobo nunca matou.
Elena puxa a colcha cobrindo os ombros e tenta voltar a dormir.
O galo não deixa.
Há muito uma cidadã urbana, Elena se desacostumou aos sons do campo
— os burricos zurrando, os corvos gorgolejando, o cacarejo incessante desse galo maldito. Como pode alguém conseguir dormir com essa cacofonia é um mistério pra ela, que ouve a mãe arrastando os pés pelo corredor, ruidosamente tentando não fazer barulho.
Quantas vezes Elena tentou convencê-la a se mudar para uma situação
mais confortável, na cidade, para um dos inúmeros condomínios que a família possui em Culiacán, Badiraguato, Tijuana, até Cabo? Mas a velhinha teimosa se recusa terminantemente a deixar o único lar que conheceu pela vida inteira. A mãe vai visitar (embora, agora, com menos frequência; ela mudou de ideia em cima da hora e decidiu não ir a Tijuana para as festas, obrigando Elena a fazer a viagem cansativa até aqui) e faz peregrinações anuais até os sepulcros dos filhos, mas insiste em morar ali, dizendo apenas:
— Yo soy una campesina.
Elena nunca acreditou muito nesse papo da mãe, de sou-só-uma-camponesa. Ela com certeza sabe que a família tem bilhões de dólares, que seus falecidos filhos foram chefões de um vasto império das drogas. Ela deve ter alguma noção do motivo para ser uma “campesina” com um pelotão de guardas armados, uma “camponesa” com sua própria pista de pouso.
Mas ela nunca fala disso, usa vestido preto, xale preto, véu preto e recusa todas as súplicas para ter a casa ampliada, reformada, mais confortável. Foi uma dificuldade para fazê-la aceitar a pintura tão necessária (depois ela insistiu nesse tom horrendo de rosa) e o novo telhado, mesmo quando a água escorria pela sala, na temporada chuvosa, e Elena teve que lhe dar um sério sermão sobre os perigos do mofo, principalmente em pulmões velhos.
E agora ela já levantou, como sempre antes do amanhecer, como se tivesse que dar café da manhã para um marido lavrador, e há momentos em que Elena tem vontade de gritar com ela Sim, sua família era de agricultores, eles cultivavam papoulas.
E agora, ela e a mãe têm algo terrível em comum.
Ambas carregam o pesar pelos filhos.
E enquanto levanta da cama (qual o sentido de ficar deitada acordada?), Elena pensa naquele fracote, no filho da puta bajulador, o advogado Núñez, que vem me repreender por retaliar. Ele não viu retaliação; ela põe o robe. Ela vai destruir todos eles e suas famílias. Incendiar suas casas, suas fazendas, seus ranchos, seus ossos, e espalhar as cinzas pelo vento frio do norte.
Pensar nisso a deixa aquecida.
Então, ela ouve tiros.
Damien aperta o gatilho.
O guarda cai dentro do fogo, levantando uma pequena nuvem de fumaça e poeira.
Puxando o capuz por cima da cabeça, Damien sinaliza com a mão para que os veículos desçam o vale com tudo e acelerem em direção da hacienda, enquanto os guardas cambaleiam para fora das barracas e abrem fogo. Mas seus homens, veteranos bem pagos e altamente treinados, reagem atirando dos veículos e os guardas correm de volta para o abrigo das barracas.
Pilhado, Damien pula para fora do carro e caminha até a porta da frente
da hacienda. Ele fica surpreso que esteja destrancada, mas, por outro lado, se você é mãe de Adán Barrera, provavelmente não precisa pensar em trancar a porta.
Uma empregada, talvez cozinheira, está parada olhando, em choque.
Então, ela remexe no avental e pega um celular. Damien arranca o aparelho da mão dela e a empurra contra a parede. Ela grita:
— ¡Señora! ¡Señora! Fuja!
Señora?, pensa Damien, tampando a boca da empregada com a mão e
arrastando-a de volta para a cozinha. A mãe de Barrera não deveria estar ali, ela deveria estar visitando a família, em Tijuana. O plano era incendiar a casa de infância de Adán Barrera, não machucar sua mãe. Homens já entraram atrás dele, ateando fogo nas cortinas.
— Esperem! — Damien grita, soltando a cozinheira. — Parem! A velha
está aqui!
Tarde demais.
As chamas sobem pelas cortinas até o teto. Do lado de fora da janela,
Damien vê os aposentos dos criados ardendo em chamas, assim como as barracas. Seus homens estão dirigindo carros e motocicletas para fora da garagem, enquanto o teto arde em labaredas.
Ele vira e vê uma senhora de preto olhando pra ele. — Saia! — grita ela. — Saia da minha casa!
Uma mulher mais jovem chega por trás dela e segura seus ombros,
tirando-a do caminho.
— Se você ferir a minha mãe, se houver sequer um hematoma no corpo
dela… Você sabe quem eu sou? Sabe de quem é esta casa?
Damien se lembra dela, de quando era pequeno. Tía Elena.
— Vocês não deveriam estar aqui — diz Damien, sentindo-se um
imbecil.
— Elena, faça-os sair! — grita a velha.
A fumaça começa a tomar o ambiente.
— Vocês têm que sair — diz Damien. — Agora.
— Homens corajosos. — Elena cospe no rosto dele. — Botando fogo na casa de uma velha para expulsá-la.
Damien ouve um dos homens gritando:
— Mate as piranhas!
— Vão! — berra Damien. Ele atraca Elena pelo ombro de seu robe e empurra em direção à porta. Ela não solta a mãe e eles formam um bolo desajeitado, enquanto Damien gira atrás delas e empurra as duas porta afora.
Elena passa os braços em volta da mãe para protegê-la do vento e do ar frio matinal.
Mas a mãe reluta para voltar.
— Minha casa! Minha casa!
— Nós temos quer ir, Mami!
Elena não sabe se a mãe consegue sequer ouvi-la, acima do barulho — o vento, os homens berrando, os empregados gritando, enquanto correm pelo terreno aberto, o pop-pop-pop dos disparos e estalidos das chamas. É loucura, pensa ela, mas ela escuta as galinhas. Não o galo — ele enfim parou de cantar —, mas o cacarejo frenético das galinhas, correndo de um lado para o outro como… bem, galinhas. — Mami, a senhora consegue andar?
— Sim!
Elena continua com um braço em volta dos ombros estreitos da mãe, a outra mão cuidadosamente empurrando sua cabeça para baixo, como uma proteção fraca contra as balas que passam zunindo, então ela ouve um dos homens deles berrar — Parem de atirar! Cessar fogo! ¡Las señoras!
Um sicário sai correndo das barracas em direção a ela, mas uma rajada de tiros irrompe sobre ele, que cai na terra a alguns metros de seus pés, arqueia o pescoço e grita:
— Señora, vá!
O cenário a sua volta, iluminado em vermelho pelo fogo, é uma insanidade. Homens em chamas, tochas humanas que cambaleiam, gritam e caem.
A pista está longe demais, pensa Elena. Sua mãe não vai conseguir. E quem sabe se esses cretinos já a tomaram, e também o avião, se o piloto está lá, se sequer está vivo. Mas ela sabe que não pode ficar ali — ela não sabe quem são esses homens. Eles podem ser apenas ladrões incrivelmente imbecis, ou podem ser enviados por Iván.
Mas ela não pode ficar para descobrir.
Para ser raptada e mantida por resgate.
Ou estuprada.
Ou assassinada.
Ou apenas alvejada, em meio a esse caos.
A pista é sua melhor chance.
Ela abaixa a cabeça e segue em frente.
Fausto a vê.
O homem que é braço direito de Damien avista Elena Sánchez vestida
só de robe, levando para longe da propriedade em chamas uma mulher que só pode ser a mãe de Adán Barrera. Ele acelera o jipe em meio ao circo de motoqueiros e encosta ao lado das duas mulheres.
— Entrem!
— Deixe-nos em paz! — diz Elena.
Fausto mira a pistola para o peito dela.
— Eu falei para entrar na porra do jipe!
Elena ajuda a mãe a subir, depois entra. E, claro, Fausto pensa, joga a
carta do sabe-quem-sou-eu.
— Sim, eu sei quem vocês são! — diz Fausto. Ele pisa fundo e acelera
em direção à pista de pouso.
A hélice já está girando, o avião está taxiando para dar o fora dali.
Fausto para na frente para bloquear o caminho, ergue seu AK, mira o para-brisa e grita:
— Calma aí, cabrón! Você tem passageiros! O avião para.
Fausto desce, contorna o carro e ajuda Elena e a mãe a descerem. Então,
ele as conduz até o avião, abre a porta e diz ao piloto:
— Ia simplesmente deixá-las? Que tipo de covarde é você? Ele ajuda as duas a embarcar.
— Por que está fazendo isso? — pergunta Elena. Porque eu não sou uma porra de um retardado, pensa Fausto. Damien
pode sobreviver — até ter sucesso — após o incêndio da casa de Barrera. Mas ferir a irmã e a mãe de Adán Barrera? Isso viraria o país inteiro contra ele e daria início a uma briga entre famílias, que só resultaria na morte do garoto.
E na minha.
— Decola! — ele grita para o piloto.
Pelos dois dias seguintes, os homens de Damien barbarizam o vale, incendeiam casas e construções, roubam veículos e aterrorizam a população da área, que antes era tida como talvez a mais segura do mundo.
Isso só para quando o governo federal envia tropas; porém, a essa altura, os soldados de Damien — agora batizados pela mídia de “Los Lobos” — já sumiram pelas montanhas.
O ataque choca o país.
Um arrogante pouco conhecido atacou a casa da mãe de Adán Barrera, e a fez sair correndo pela escuridão.
Talvez o cartel Sinaloa não seja tão poderoso quanto todos pensavam.
A maioria das pessoas vê aquilo pelo que é…
A declaração de guerra de Damien Tapia.
O Ano Novo trará a guerra.
— Ainda bem que você está a salvo — Núñez diz, ao celular. — E sua mãe, ela está bem?
Ele olha para Ric e revira os olhos. Ele está com o celular no viva voz, para que Ric e Belinda também possam ouvir Elena dizer:
— Ela está sedada, portanto, agora está dormindo. Sim, nós estamos aqui na Ensenada.
— Isso é ultrajante, Elena — Núñez diz ao telefone. — Um ultraje total.
— Você está ultrajado, Ricardo? Porque eu culpo você.
— Eu?! — pergunta Núñez, com a voz em paródia perfeita da inocência magoada. — Eu lhe garanto, não tive nada a ver com isso! Foi tudo coisa daquele jovem animal Tapia. Meu Deus, Elena, ele está se gabando por isso nas redes sociais.
— Você teve tudo a ver com isso — insiste Elena. — Você deixou alguém assassinar meu filho e não fez nada, por que as pessoas deveriam pensar que há algum problema em nos atacar? Sua fraqueza sinalizou que agora é possível cometer qualquer afronta contra Sinaloa.
— Nós não sabemos quem está por trás do assassinato de Rudolfo.
— Seu filho estava farreando com os assassinos dele, ainda ontem à
noite — diz Elena. — Você acha que eu não fico sabendo das coisas? Não, você deixou minha família ilhada, e agora tem o descaramento de ligar para expressar sua indignação? Por favor, perdoe-me se não estou comovida. Ou apaziguada.
— Nós faremos tudo o que estiver em nosso poder para punir Damien
Tapia.
— Nosso poder é exatamente a questão — diz Elena. — As pessoas vão
perguntar, com razão, “Se Sinaloa não consegue proteger a mãe de Adán Barrera, a quem pode proteger? Eles podem nos proteger?”. Se Adán estivesse vivo, a cabeça desse arruaceiro já estaria fincada em uma lança. Mas, também, se Adán estivesse vivo, esse arruaceiro jamais teria tido a ousadia de fazer isso.
— Nós o estamos caçando.
— Com o exército? — pergunta Elena. — O exército não poderia pegar
um peixe num aquário. Não, obrigada, Ricardo… eu com certeza estou envelhecendo, mas ainda não estou banguela. Nossa família irá lidar com o jovem Tapia por conta própria.
— Não caia nas mãos dessa gente — diz Núñez. — É exatamente isso
que eles querem: nos dividir.
— Isso você já fez — responde Elena. — Ligue quando você estiver
pronto para agir como um verdadeiro patrón. Até lá…
Ela desliga.
— Você estava numa festa com Iván, ontem à noite? — Núñez pergunta
a Ric.
— Com todos os Esparza — diz Ric, sem se intimidar. — E Rubén
Ascensión.
— Acha que isso foi inteligente?
— Estou tentando manter o nosso relacionamento. — Dando seu carro a uma piranha? — pergunta Núñez. — Estava
tentando manter um relacionamento com ela também?
Ele fica sabendo de tudo, pensa Ric. Todos os meus guarda-costas agem
como delatores.
— É isso que você gostaria de ver na mídia, hoje, “Figurão do cartel
Sinaloa mata garota de programa”?
Núñez o encara por um segundo, depois diz:
— Não. Você agiu certo.
Meu Deus, pensa Ric, isso é novidade.
— Você conhece esse Damien — afirma Núñez.
Você também, pensa Ric. Você conhece “esse Damien” desde pequeno.
— O que o deixa zangado? — pergunta Núñez. — Por que ele faria algo tão terrível? Juventude alienada? Um rebelde sem causa?
Não, pensa Ric, estou bem certo de que ele tem uma causa.
— Sei que ele é seu amigo — diz Núñez. — Mas você sabe que eu preciso fazer alguma coisa.
Ric sabe que o pai está em uma posição difícil. Toda a organização Sinaloa está furiosa com a afronta à memória de Adán, o insulto às mulheres da família real. Se o cabeça do cartel não fizer algo, vão achar que ele é fraco, talvez não seja forte o bastante para ser o chefe.
Mas…
— Eu entendo — diz Ric. — Agora estão todos de cabeça quente. Mas vamos lembrar que Damien não matou as duas. Porra, ele fez com que elas fossem levadas de lá de avião.
— Depois de incendiar a casa, matar cinco de seus homens e vandalizar uma comunidade inteira, que recorre a nós para segurança — lembra Núñez. — Eu aprecio sua lealdade ao seu amigo, mas…
— Agora, ele provavelmente parou — diz Ric. — Eu conheço Damien, ele deve estar entocado em algum lugar, tão impressionado com o que fez, quanto qualquer um. Deixe-me falar com ele, ver se podemos arranjar um jeito de reverter as coisas.
— O que você está insinuando? — pergunta Núñez. — Um intervalo?
Não sei o que estou sugerindo, pensa Ric.
— Talvez uma multa, uma restituição? Ele se retrata, reconstrói o que queimou…
— Com quê? — pergunta Núñez. — Onde ele vai arranjar um dinheiro desses?
Bem, pensa Ric, ele teve dinheiro suficiente para recrutar um pequeno exército.
— Só estou dizendo que pessoas já fizeram coisa pior e foi relevado.
— Eu não sou insensível — diz Núñez — ao passado desse rapaz. Mas o pai dele era um louco de pavio curto, além do vício em drogas, e teve que partir. Agora o filho demonstrou o mesmo tipo de comportamento instável e perigoso. Demonstrar pena seria uma autoindulgência, uma abdicação de nossas responsabilidades.
— Que é sua maneira de dizer que você o quer morto. Núñez vira para Belinda, e agora Ric entende por que ela está ali. Morto não é o bastante.
Ric liga o motor.
— Não vou fazer isso.
— Fazer o quê?
— Torturar um amigo, eu não vou fazer isso. — Ele desce a entrada da
garagem. — E você também não vai.
— Você não me diz o que fazer — retruca Belinda. — Eu recebo ordens
do seu pai.
Essas ordens são para encontrar Damien e matá-lo lenta e
dolorosamente, registrando em vídeo. Uma lição tem que ser dada, é preciso mostrar ao mundo que El Abogado é tudo, menos fraco.
— E você vai gostar, não é? — pergunta Ric.
— Esse é o meu trabalho — responde ela. — O que, você acha que pode
salvá-lo? Se nós não fizermos isso, outra pessoa fará. O que você acha que o pessoal de Elena fará, se o encontrar primeiro?
— Se eu o encontrar primeiro — afirma Ric —, vou dar dois tiros
rápidos, na nuca.
— Olhe só você, o matador experiente, de uma hora pra outra — diz
Belinda. — Quer dizer, você está brincando? Nós vamos fazer o que o chefe mandou.
Ric encosta o carro e vira para olhar para ela. — Nós vamos fazer o seguinte: vamos procurar Damien em todos os
lugares onde ele não está. Vamos vasculhar cada canto, levantar cada pedra de onde ele não está. E, sabe da maior, Belinda? Não vamos encontrá-lo.
— Faça do seu jeito — diz Belinda. — Eu faço do meu. Ric faz do jeito dele, sim.
Bem, a nova versão dele — o filho do chefe engajado, focado, que
assume a dianteira, que começa a tocar o negócio do pai como se fosse seu. Ele manda aviões com duzentos sicários para Sinaloa, para caçar Damien, e diz a eles: procurem Damien Tapia e, quando encontrarem, tragam até mim.
Intacto.
Eu mesmo quero lidar com ele.
A maioria interpreta mal, exatamente da maneira como ele quer: acham que ele próprio quer picar Damien para vingar o insulto a seu padrinho, e o respeitam por isso.
Cresce a estatura de El Ahijado.