A fronteira

Don Winslow · Capítulo 11 de 25 · parte 3/3

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A fronteira

LIVRO 3: Los Retornados

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Núñez chega no Dia de Reis.

Era só uma questão de tempo, pensa Caro, até que um deles aparecesse. Ele sabe que todos eles acabarão vindo, é só uma questão de quem vem primeiro.

Caro o recebe na sala de estar. O sofá é velho e estofado demais, a poltrona é uma daquelas Barcaloungers, que inclina para trás, permitindo ao idoso tirar um cochilo enquanto assiste à televisão.

Núñez resiste ao impulso de espanar o sofá antes de sentar.

O noticiário está passando. Caro tem uma pequena televisão em cada cômodo — ele gosta de assistir beisebol.

Núñez chegou com uma rosca e colocou em cima da mesa, como se fosse um presente muito valioso — ouro, incenso, mirra. Caro fica imaginando se isso é um recado — dentro do bolo tem uma pequena estatueta do menino Jesus. Quem ganhar esse pedaço deve pagar pela comida e pela bebida na Candlemas.

— Você soube do que Damien Tapia fez? — pergunta Núñez.

— Quem não soube?

— É uma afronta — diz Núñez. — Não quero machucá-lo, mas…

— Talvez precise fazê-lo.

— Se eu fizer, tenho sua benção?

— Você não precisa da minha benção — responde Caro. — Eu estou aposentado.

— Mas ainda tem nosso respeito, Don Rafael — afirma Núñez. — Foi por respeito que eu vim. Como deve saber, Adán me indicou como seu sucessor. Mas agora estou diante de desafios com Iván Esparza e Elena Sánchez. Sem mencionar o jovem Damien.

— O que você quer de mim? — pergunta Caro. — Como vê, eu sou um pobre velho. Não tenho poder algum.

— Mas tem influência — diz Núñez. — Faz parte da grande geração. Um dos homens que fundaram nossa organização. Seu nome ainda representa algo, sua aprovação ainda significa alguma coisa, o seu aconselhamento… eu gostaria muito de ter seu apoio.

— Que apoio eu poderia lhe dar? — pergunta Caro. — Você viu sicários

lá fora? Veículos? Aviões? Campos de papoulas? Laboratórios? É você que tem essas coisas, Núñez, não eu.

— Se Rafael Caro endossasse a minha liderança — considera Núñez —

isso teria muito peso.

— Tudo que você quer é meu nome — responde Caro. — Isso é tudo o

que me resta.

— Claro que eu não vim de mãos vazias.

— Além da rosca? — pergunta Caro. — Trouxe mantimentos? Fijoles?

Arroz?

— Está debochando de mim — diz Núñez. — Sei que meu jeito me faz

suscetível de ridicularização, mas falo sério quanto a tudo o que Adán lhe tirou. Talvez eu possa devolver o que ele levou.

— Você pode me dar vinte anos? — pergunta Caro. — É claro que não — responde Núñez. — Não tive a intenção de me

atrever. O que eu deveria ter dito é que talvez eu possa lhe oferecer uma restituição parcial. Tornar seus anos restantes… confortáveis.

— Uma nova poltrona?

— De novo, o deboche.

— Então, deixe de rodeios — diz Caro. — Se acha que eu estou à venda,

faça uma oferta.

— Um milhão de dólares.

Você está mais desesperado do que eu achei, pensa Caro. Se tivesse

oferecido metade disso, eu talvez aceitasse. Mas um milhão me faz pensar que você está perdendo, e como posso endossar o poder de alguém que está perdendo?

— Você disse que valorizava meus conselhos — afirmou Caro. —

Deixe-me lhe dar um: você está em cima do muro, entre Iván e Elena. Isso faz com que nenhum dos dois seja leal a você, só faz parecer que você é fraco. Nenhum dos dois lados o respeita, nenhum lhe tem temor. E os Damiens e Ascencións veem isso e entram no seu território. E você não faz nada.

— Ascensión não está entrando em meu território. — Vai entrar — diz Caro. — Ele já declarou sua independência. Como

ele chama sua organização? Cartel Novo Jalisco?

— Algo assim.

Cartel Jalisco Nuevo, CJN.

— Ele se tornará seu concorrente — avisa Caro. — Se ele conseguir fazer isso, como você vai deter todo o restante? Eu não vou pegar seu dinheiro, Núñez, e não vou lhe emprestar meu nome. E eis o que farei por você: não vou endossar mais ninguém. Ao contrário de você, eu posso me permitir continuar neutro, sendo um árbitro, se preciso for. Mas você, Ricardo, você precisa se fortalecer, fazer com que eles o temam. Se conseguir isso, talvez nós tenhamos mais sobre o que conversar.

Caro levanta de sua cadeira.

— Agora eu tenho que mijar.

É Día de los Reyes, pensa Caro, enquanto está em pé, esperando que a urina venha, e agora há, de fato, três reis no cartel Sinaloa. Núñez acha que ele é o único rei, mas também há Iván Esparza e a rainha mãe, Elena, que tornaria rei o seu único filho sobrevivente.

Tito Ascensión, o antigo e fiel empregado, talvez pense que agora pode ser rei, independentemente de admitir ou não para si mesmo.

O jovem Damien também.

Que acaba de mostrar desprezo pela coroa.

Núñez está em uma posição terrível. Ele precisa atacar alguém, mas não pode atacar Elena Sánchez, ou Iván Esparza, e não conseguirá encontrar Damien.

Isso só deixa uma opção.

Uma opção ruim, pensa Caro, enquanto finalmente a urina vem e ele ri, pensando na rosca em cima da bancada da cozinha.

Tem um rei escondido no bolo.

O menino Jesus olha Tito Ascensión de olhos arregalados.

Recém-pintado, trajado em seda, ele está em cima do balcão da loja de bonecas, e olha para cima.

A maioria das pessoas não gosta de olhar diretamente nos olhos de El Mastín, mas Jesus não tem esse problema.

A esposa de Tito o despachou para buscar o Niño Dios da loja de restauração e entregá-lo na igreja, para o Día de la Candelabria, antes do banquete familiar de tamales e atole, que comemora o último dia de Natal.

É engraçado, pensa ele, enquanto espera o dono fazer a nota, você é o chefe de sua própria organização, dá ordens a centenas de homens, mas quando a esposa lhe dá uma lista de “faça, meu bem”, é você mesmo que faz. Não se delega algo tão importante quanto ir buscar Jesus.

Um garotinho, filho do dono da loja, também dá uma espiada em Tito.

Fingindo estar ocupado tirando pó da prateleira atrás do balcão, ele olha por baixo do braço para o renomado chefão das drogas que controla a cidade. Até um garoto de dez anos sabe quem é El Mastín.

Tito mostra a língua e abana as mãos ao lado das orelhas. O menino sorri.

O dono se aproxima e entrega a nota a Tito — nela, está escrito “0”, e

ele diz:

— Feliz Candlemas, Señor.

— Não, Ortiz, eu não poderia — diz Tito.

Ele entrega duzentos dólares ao homem.

Cada um deles sabe de suas obrigações.

— Obrigado, obrigado, Señor.

Tito pega o boneco e vai caminhando até onde seu novo Mercedes SUV

está estacionado, em frente à loja. Seu guarda-costas está no banco do passageiro, com uma MAC-10 espetada para o lado de fora da janela.

— Passa pra trás — diz Tito. — Jesus vai no banco da frente. O motorista sai e Tito prende o cinto de segurança em Jesus. A maioria dos caras da posição de Tito tem motorista, mas ele prefere

sentar ao volante. Tito adora dirigir e agora ele está seguindo por Guadalajara, passando por um grafite em que se lê ADÁN VIVE.

Tito duvida.

Morto é morto.

Ele sabe bem. Ele talvez já tenha matado centenas de pessoas — já

perdeu a conta — e nenhuma delas jamais voltou.

O carro é o segundo, em um comboio de três. A Explorer da frente e a picape Ford 150 atrás estão cheios dos

pistoleiros de Tito, embora essa região de Guadalajara, como a maior parte do estado de Jalisco, sejam território seguro. O cartel Jalisco não está em guerra com ninguém, é aliado de Sinaloa, e a maior parte da polícia estadual e dos federales locais estão na folha de pagamento de Tito.

Mas é sempre bom estar seguro.

Em um mundo onde as pessoas se sentem livres para incendiar a casa de

Adán Barrera…

Jesus, o que aquele garoto estava pensando?

Mas, também, Sinaloa não é mais Sinaloa.

Antes de ir até a loja de bonecas, Tito tinha conversado por telefone com Rafael Caro.

— Quem é Iván Esparza para lhe dizer o que você pode ou não fazer? — Caro lhe perguntou.

Eles estavam conversando sobre a recusa de Iván em deixar que Tito levasse sua organização para a heroína.

— Eu devo tudo a Esparza.

— Sem desrespeito — disse Caro. — Mas Nacho se foi. Se ele estivesse vivo, eu jamais sugeriria isso. Mas o filho não é o pai.

— Eu ainda devo lealdade a ele — afirmou Tito, lembrando-se do dia do enterro de Nacho, quando ele foi até a viúva para perguntar se havia algo que ele podia fazer. Ela segurou suas duas mãos e falou: “Cuide dos meus filhos”.

Ele jurou que cuidaria.

— A lealdade é uma via de duas mãos — disse Caro. — Eles são leais a você? Estão deixando que você ingresse no negócio de heroína, de bilhões de dólares por ano? Eles lhe ofereceram Michoacán, seu lar? Você fez tudo por Sinaloa: matou por eles, sangrou por eles. O que eles fazem por você? Afagam sua cabeça, como um bom cachorro? Jogam alguns ossos, para o leal e fiel “El Mastín”? Você merece mais que isso.

— Eu estou feliz com o que tenho.

— Bilhões de dólares, em dinheiro de heroína? — perguntou Caro. — Um mercado americano já pronto? Seria quase uma prática antiética não tirar vantagem disso. Você já tem os laboratórios de coca, os laboratórios de meta. Eles podem ser facilmente convertidos para heroína.

— Sinaloa jamais me deixaria usar suas plazas — disse Tito. — Ou me cobrariam um valor Premium.

— Ah, ouça — falou Caro. — Nós só estamos conversando, certo? Jogando conversa fora.

Mas é sério, Tito pensa agora, enquanto dirige. Tomar o cartel Sinaloa é um negócio sério do caralho. Entre Núñez, Sánchez e os Esparza, eles têm centenas, se não milhares de sicários. Eles têm a maior parte da polícia federal, o exército e os políticos.

E tomar Baja? Tijuana?

Você tem família, ele lembra a si mesmo.

Tem um filho.

O que você deve a Rubén?

Se você entrar em guerra com Sinaloa, você pode ser morto. Merda, ele

poderia ser morto. A herança de Tito pode ser uma cova prematura. Ou uma cela de prisão, destino de tantos outros que se voltaram contra Sinaloa e descobriram estar lutando também contra a polícia, os militares e o governo federal. Os cemitérios e prisões estão lotados de inimigos de Sinaloa.

Rubén não sobreviveria à prisão.

Ele é baixo e magro.

Corajoso, um tigrinho, mas isso não o ajudaria contra uma gangue de

presidiários musculosos. Em algumas prisões, seria possível estender seu poder para protegê-lo, mas em outras, não dá, principalmente se o sujeito estiver em guerra contra Sinaloa.

As cadeias que eles não controlam, são controladas pelos zetas, e Tito

treme só em pensar no que aconteceria se a Z Company descobrisse o filho de Tito Ascensión em um de seus presídios. Eles o estuprariam em gangue, toda noite, até que se cansassem da diversão, depois o matariam.

E levariam dias para fazê-lo.

Mas, e o lado positivo?

Riqueza além da conta.

Se você vencesse, Rubén herdaria um império que valeria não milhões,

mas bilhões. O tipo de riqueza que muda as famílias para sempre, que transforma os camponeses em cavalheiros. Que compra sítios, propriedades, ranchos, haciendas. O tipo de riqueza que significaria que os filhos de Rubén nunca precisariam sujar as mãos.

Eles seriam donos dos pomares de avocado.

E como você quer que Rubén o veja?

Como cachorro de Iván Esparza?

Ou quer que seu filho veja o pai como El Patrón, El Señor, o Chefão dos

Céus?

Rubén tinha três aninhos, quando Tito foi pra cadeia. Era um garotinho que chorava toda vez que via seu papi e chorava toda

vez que ia embora. Tito ficava lá, com seu macacão laranja, vendo seu hijo, sua vida, sendo levado uivando, estendendo os bracinhos para ele, e isso o deixava arrasado.

Mas ela não podia demonstrar.

Se um homem demonstrasse isso, se demonstrasse qualquer fraqueza,

em San Quentin, os lobos farejavam e o estraçalhavam em pedaços. Metiam na sua bunda, na sua boca, porra, se esses buracos ficassem gastos, eles faziam novos buracos para foder o cara.

Não, era preciso ter um coração de pedra e uma cara que combinasse.

Isso foi lá atrás, em 1993, quando Adán Barrera estava em uma briga feia com Güero Méndez pelo título de El Patrón. Tito já estava no xadrez fazia um ano, quando soube que Rafael Caro tinha sido preso e extraditado para os EUA, com uma pena de 25 a perpétua, mais provavelmente pelo pecado de estar no canto do ringue de Méndez.

Tito só pegou quatro anos.

Era o bastante.

Mil quatrocentos e sessenta dias atrás dos muros de “La Pinta” era tempo de sobra, porque a prisão era o pior lugar do mundo.

Quatro anos fingindo que sua mão direita era uma boceta. Quatro anos levantando peso no pátio, para que outros homens não o fizessem de boceta. Quatro anos comendo lixo, ouvindo merda dos oficiais correcionais. Quatro anos vendo sua esposa e filho uma vez por mês, em uma “sala de visitas”.

Ele viu um monte de caras perdendo a cabeça em La Pinta. Caras fortes, durões, que caíam e choravam que nem bebezinhos. Ou se viciavam em heroína, que era fácil de conseguir, e se transformavam em fantasmas. Ele viu homens se transformando em mulheres — começarem a usar perucas e maquiagem, pregarem o pau com fita isolante no meio das pernas, passarem a tomar na bunda. Ou os caras que passavam tempo no hoyo e perdiam o juízo — saíam tagarelando feito tolos.

La Pinta foi projetada para quebrar as pessoas, mas não quebrou Tito, mais por causa da La Eme.

Ele seguia as regras e todos os dias se reportava a la maquina, exercícios diários obrigatórios para se manter em forma para lutas.

Ele fazia calistenia, flexões, abdominais, barra e puxava ferro. Já forte das lavouras de avocado, ele cresceu feito um touro.

Agora sente a cicatriz que desce por sua bochecha direita e se lembra. É uma droga, pensa ele, que não tenha sido dos mayates, ou dos güeros, mas de seu próprio pessoal. E aconteceu de maneira bem apropriada, no “Beco do Sangue”.

O llavero, mandachuva da La Eme, o havia alertado para não andar naquela região do pátio, ou, ao menos, não sozinho — mas Tito sabia que precisava provar ser destemido, se não quisesse passar os quatro anos seguintes brigando com os norteños, que estavam em guerra com a Eme.

Ele queria acabar logo com aquilo, então, no dia seguinte, saiu para dar

uma volta pelo Beco do Sangue, e os norteños também não perderam tempo. Ele viu um deles vindo, ouviu o outro por trás de si.

Tito virou e mandou o braço. Botou seus 114 kg no soco que espatifou o

maxilar do lavrador. Então, ele virou de volta, mas foi um pouquinho lento — o pedazo talhou seu rosto. Tito não sentiu a dor. Ele agarrou a mão com a faca e apertou como um saco de batatas fritas.

O homem gritou e soltou a lâmina.

Tito continuou segurando a mão esmagada e usou sua mão esquerda

para bater com o cara na terra. Ele teria continuando socando, mas não queria uma acusação de assassinato que o manteria lá dentro pelo resto da vida, então parou, deixou que os guardas correcionais o derrubassem no chão com seus cassetetes e o levassem para a enfermaria, onde costuraram seu rosto como um saco de carteiro.

Então, eles o jogaram para dentro do hoyo. Tito passou noventa dias no buraco, mas ouviu dizer que o lavrador

perdeu a porra da mão. Melhor ainda, o estado da Califórnia decidiu que Tito tinha agido em legítima defesa e não acumulou mais nenhuma acusação contra ele.

Tito cumpriu sua pena.

Cumpriu com força, dignidade e respeito.

Como um condenado, não um recluso.

Ele sofria por dentro.

Sentia falta da esposa, do filho.

Quando ele saiu e foi deportado, jurou que nunca mais voltaria — para

os EUA, ou para a cadeia.

Ele nunca mais vai ficar separado de seu filho. Mas você pode trair Nacho, que fez você ser quem é? ele pensa agora.

Pode lançar os dados, arriscando sua vida e a vida de seu filho?

Não, pensa Tito.

Você não pode.

A vida lhe deu mais do que você jamais poderia imaginar que teria; não

atente a vida para tirar tudo de volta.

Então, ele ouve o helicóptero.

A Explorer da frente freia com tudo e seus sicários saem todos.

Tito gira o volante.

— O que está havendo?

— Uma blitz do exército, na próxima quadra — diz o motorista.

Olhando pelo espelho retrovisor, Tito vê veículos militares vindo a toda. A picape Ford fica em diagonal para bloquear a rua. Seus homens descem e se abrigam atrás da caminhonete. Tito ouve o estampido dos tiros, ao virar à direita, entrando por uma rua lateral. Olha pela janela, ao alto, e vê o helicóptero emborcando, pairando acima dele.

Fodam-se, ele pensa.

Eu não vou voltar.

Podem me matar, mas não vou voltar para a cadeia.

¡Jefe!

Ele vê o blindado bloqueando a rua adiante. Engata a ré e pisa forte.

O motorista grita pela janela.

— O jefe está aqui, eles estão tentando pegar o jefe!

Homens saem correndo de dentro de bares e bodegas. Alguns são seus sicários, outros são apenas caras do bairro que sabem o que é melhor para eles. Eles começam a atirar tudo o que podem na rua, entre Tito e o veículo do exército: cadeiras, mesas, placas de trânsito. Outros sobem correndo nos telhados e jogam tijolos, pedaços de canos, telhas.

Um grupo de cinco homens puxa um carro para o meio da rua e o vira. Depois outro, armando uma barricada.

Tito dá ré em direção à rua principal e dirige em frente, se distanciando da picape, onde seu pessoal começou a despejar artilharia pesada nos soldados que se aproximam. Ele encontre um beco à esquerda e entra.

Atrás dele, seus sicários sobem e descem a rua, abrem tanques de gasolina, mergulham trapos e os acendem.

Carros são lambidos por labaredas.

Fumaça preta e espessa sobe em espirais.

Tito segue veloz pelo beco e não para quando chega a um cruzamento. Ele desvia de um ônibus e entra no beco seguinte, raspando na parede a lateral do passageiro de seu carro novo.

O helicóptero ainda está em cima dele.

Ele ouve as sirenes dos veículos do exército à sua frente.

O helicóptero está direcionando a caçada.

Tito engata a ré.

Mas ele sabe que está cercado. Nem seus homens, ou as barricadas

improvisadas conseguem deter carros blindados por muito tempo.

Então, ele vê uma porta lateral de um prédio. Um homem sai e acena. — ¡Jefe!

Tito para, abre a porta e sai do carro. Então, ele estende o braço, solta o

cinto do menino Jesus e agarra o boneco. Sua esposa vai tornar sua vida insuportável, se ele não o entregar em segurança na igreja.

O homem o puxa para dentro.

— Jefe, venha comigo.

Eles estão nos fundos de um cinema.

Por trás da tela.

Tito ouve a ação do filme — explosões, tiros, uma versão mais viva que

os sons abafados da realidade lá de fora. Ele segue o homem pela extensão da tela, até o alto de uma escada metálica, depois desce os degraus até um porão.

Caixotes de doce, latas de refrigerante, caixas de papelão cheias de

guardanapos e copos de papel.

O homem abre uma porta de aço e gesticula para que Tito entre. Ele precisa confiar nesse homem, não tem escolha. Tito passa pela porta, o homem entra atrás dele e a fecha atrás deles.

Acende um interruptor e agora Tito sabe onde está.

— Qual é o seu nome? — pergunta ele.

— Fernando Montoya.

— Fernando Montoya, agora você é um homem rico. Eles caminham por um corredor até uma sala que lembra uma cantina.

Mesas redondas, cadeiras de junco, um bar feito de chapas de compensado sobre barris, uma televisão de tela plana presa à parede. Há meia dúzia de homens sentados bebendo cerveja, assistindo a uma partida de futebol. Todos eles levantam quando veem Tito.

Policiais de Guadalajara, todos sabem quem ele é. Ele foi um deles. Costumava vir a este mesmo cafofo dar um tempo,

fazer seu turno passar mais tranquilo.

Agora os policiais parecem nervosos.

— O que estão esperando? — pergunta Tito. — Vão me dar uma

cerveja, ou não?

Ele tem que ficar tranquilo, bancar o machão, dar-lhes uma história para

contar, mas, por dentro, ele está fervilhando. E, pode admitir só para si, amedrontado. Há mandados para prendê-lo, faz dez anos, do México e dos EUA, mas ninguém jamais tentou cumpri-los.

Em Jalisco, não.

Agora é o exército.

E se Fernando Montoya não tivesse aberto a porta lateral do cinema, eles o teriam levado.

Tito senta ali, bebendo goles de cerveja, enquanto dois policiais vão até lá em cima para ver o que está acontecendo e lhe informar — é melhor que ele fique quieto até as coisas esfriarem, depois eles o levarão aonde ele quiser.

Eles sabem que haverá envelopes extras para eles, e bem recheados.

Por que agora, Tito se pergunta. Por que agora e por que o exército?

Mas ele acha que sabe.

Sinaloa comanda o exército. De alguma forma, o boato de que ele está pensando em entrar no mercado de heroína chegou ao cartel e eles decidiram tomar uma atitude antecipada.

Isso é mentalidade de cadeia — pegue-os, antes que peguem você.

Tito tira o celular do bolso.

Ali embaixo não tem sinal. Então, ele dá um número ao Montoya.

— Ei, ligue pro meu filho e diga que estou bem. Mande ele sair da casa e ir pra algum lugar até ter notícias minhas.

Montoya sai.

Volta quinze minutos depois e diz a ele que a ligação caiu direto na caixa postal.

Agora Tito começa a ficar preocupado.

Passa uma hora e meia, até que os policiais voltem, digam que está tudo liberado. Houve uma revolta nas ruas — lixeiras incendiadas, carros, um ônibus. O exército finalmente foi embora. Espere mais alguns minutos e nós vamos levá-lo lá para fora.

Então, surge a notícia na televisão e Tito vê.

Rubén sendo levado de casa algemado.

As porras dos soldados com as mãos nele. Empurram sua cabeça para baixo e o enfiam na traseira de um carro blindado.

— Eu quero ir agora — diz Tito. — Preciso fazer algumas ligações.

Na traseira da viatura policial, a primeira pessoa para quem ele liga é Caro.

— Eles pegaram Rubén.

— Eu vi — diz Caro. — Estão falando que o encontraram com trinta

fuzis e quinhentos mil dólares em espécie. Não há juiz que possa liberá-lo disso. Vai levar um tempo.

— Quanto tempo?

— Eu não sei — responde Caro. — Tito, você precisa se acalmar. Tito está furioso.

E aterrorizado por seu filho. Os zetas não são donos de nenhum presídio

de Jalisco, mas Sinaloa, sim.

— Foi Sinaloa — afirma Tito.

— Mas qual sinaloa? Elena? Núñez? Iván?

Tito não tem resposta para isso.

— Não importa. Fodam-se todos eles.

— Isso quer dizer que você vai entrar com a heroína? — pergunta Caro.

— Mesmo que isso signifique entrar em guerra contra Sinaloa?

— Sinaloa começou uma guerra comigo — diz Tito. — Foda-se, sim, eu

estou dentro.

Tito desliga.

Se algo acontecer com meu filho, certas pessoas vão morrer. E vão ficar mortas.

Ele pega o menino Jesus e desce na igreja.

Ric está em meio à turba de gente abrindo caminho para os devotos que carregam a imagem da Virgen de la Candelaria, para dentro da Igreja de Nuestra Señora de Quila.

Esse ritual é feito em toda Candlemas, há trezentos anos, e as ruas da

cidadezinha na periferia de Culiacán estão abarrotadas com milhares de pessoas desfrutando do festival com suas barracas de comida, jogos e bandas. Agora, a multidão empurra à frente, tentando tocar, ou ao menos ver a Virgem, dentro de uma caixa acrílica, com seu manto azul claro bordado de ouro.

Embora ele esteja aqui por ordem do pai — é importante que o cartel

seja representado, que alguém da família seja visto ali, que comentem terem visto El Ahijado —, Ric, na verdade, gosta do festival de Quila, por motivos que não consegue explicar. A maioria das pessoas são índios e agricultores, e Ric acha tocante a fé simples e ingênua que eles têm na Virgem. Eles rogam pela benção, pedem favores — saúde para um ente amado, a cura de uma doença crônica, a redenção para uma criança geniosa. Alguns ficam no caminho agradecendo e rezando pelos milagres e graças já alcançados. Ric ouve um homem cujo quadril com artrite foi de repente curado, uma mulher que não conseguia conceber, mas acaba de ter seu primeiro filho, uma idosa cuja visão foi milagrosamente recuperada, após uma cirurgia bem sucedida de cataratas.

Vá entender, pensa Ric.

Os médicos não levam crédito algum, vai tudo para a boneca na caixa plástica. Isso o faz lembrar-se daqueles geeks colecionadores de brinquedos que compram um “super-herói” e não tiram da caixa, pois, se o fizerem, ele perde o valor.

Ainda assim, ele fica comovido por tudo.

Karin hoje está com ele e a filha deles, Valeria, agora com dois anos e totalmente agitada com todo o barulho e as cores, sem mencionar o açúcar que ela consumiu, nas inúmeras barraquinhas. Seu lindo vestido branco festivo está todo borrado de chocolate, açúcar e outra coisa que Ric não sabe identificar, e agora ela está pendurada na mão dele, tentando pegar algo no chão. Nós somos pais terríveis, pensa Ric, embora ele esteja na expectativa de que o açúcar possa fazê-la tirar um cochilo no carrinho.

— Quer entrar na igreja? — Karin pergunta, quando a Virgem passa.

— Eu passo — diz Ric. Valeria vai simplesmente pirar dentro da igreja e eles terão que levá-la lá pra fora e…

Ele avista problema.

Belinda abrindo caminho em meio à multidão, vindo em direção a ele. Algo não está certo, pensa Ric. Um feriado como esse é reservado para esposas, não namoradas, e Belinda sabe disso.

Karin também a vê.

— O que ela quer?

— Não sei — diz Ric, alarmado pela expressão séria no rosto de Belinda. Essa costuma ser uma ocasião para deboche, ou para um comentário maldoso, sobre a ideia de que ela também seria virgem se a mantivessem dentro do acrílico, mas ela está mesmo de cara fechada.

— É seu pai — Belinda diz, antes que Ric possa sequer perguntar. — Ele levou um tiro.

— Ele está…

— Ainda não sabemos.

Ric entrega a filha para Karin e segue atrás de Belinda, até um carro que aguarda.

Enquanto o carro segue veloz, Ric pensa que é estranha a intensidade das emoções que ele está sentindo. Lá está aquele pai que ele certamente não ama, de quem talvez nem goste e, no entanto, o medo está pulsando nele como uma descarga elétrica contínua, com a oração, Por favor, não o deixe morrer, por favor, não o deixe morrer… Por favor, não deixe que ele já esteja morto, ante que eu…

Antes que eu o quê? Ric pergunta a si mesmo. Diga adeus?

Peça seu perdão?

Que eu o perdoe?

Belinda está ao celular, tentando descobrir o que aconteceu. Até agora,

tudo o que eles sabem é que Núñez estava saindo de casa para ir à missa da Candelária, em sua igreja, em Eldorado. Ele estava no terceiro carro de um comboio e eles deixavam a mansão pelo caminho curvo de veículos quando uma caminhonete passou veloz pelos dois primeiros carros, vindo da direção contrária, e crivou de tiros a Mercedes de Núñez.

— Minha mãe — diz Ric.

— Ela está bem, não foi atingida.

Graças a Deus, pensa Ric.

— Nós sabemos quem foi? — pergunta Ric, pensando, não deixe que

tenha sido Iván.

E não deixe que tenha sido Damien.

— Não, eles fugiram — diz Belinda. Ela olha para uma mensagem de

texto. — Jesus…

— O quê?

Ela não responde.

— O quê?

— O assunto já se espalhou — diz ela —, estão falando que seu pai

morreu.

Não deixe que seja verdade, pensa Ric.

— Meu Deus, Ric, isso significa que você é… — Cale a porra da boca.

Parece levar uma eternidade, mas eles enfim chegam ao pequeno

hospital, em Eldorado. Ric pula do carro antes mesmo de parar e corre até a sala de espera. Sua mãe levanta de uma cadeira e cai em prantos ao vê-lo.

Ele espana vidro do vestido dela.

— Os médicos dizem que não sabem — conta ela. — Eles não sabem.

A porta pesada do carro provavelmente salvou a vida dele, o médico diz a Ric. Abrandou o impacto do tiro que pegou na barriga, que talvez tivesse atingido seu fígado. Eles removeram a bala e conseguiram conter a hemorragia interna, mas ainda há possibilidade real de infecção. “Situação estável” é o clichê que o médico usa.

Ric pega uma xícara de chá para a mãe, na lanchonete do hospital, depois encontra Belinda lá fora, no carro.

— Eu quero saber como essa porra aconteceu — diz Ric. — Quero saber quem está por trás disso e quero retaliação, antes que o sol se levante, amanhã.

— Eu já acionei o meu pessoal — afirma Belinda. — Todos os guardas estão sendo interrogados…

— Faça o que for preciso, Belinda.

— É claro — diz ela. — Quanto a quem está por trás disso, ninguém assumiu ainda. Devem estar esperando para saber se ele está vivo ou não. Mas você deve saber que o principal candidato é seu bom amigo Damien.

Ele ignora o deboche.

— Escreva no Twitter que meu pai está morrendo. Providencie que o padre de sua paróquia venha, faça um estardalhaço. Então, vamos ver quem se apresenta para assumir a responsabilidade. Mande gente até a casa da mãe de Damien. Se foi ele, ele provavelmente vai tentar tirar a família de lá. Explique a eles que nós não queremos machucar ninguém, mas eles têm que ficar onde estão.

— E se eles tentarem ir embora?

— Mate-os.

Mas Damien Tapia é só uma possibilidade, pensa Ric.

Elena Sánchez é outra.

Ela está descontente porque meu pai não tomou uma atitude contra Iván, pelo assassinato de Rudolfo. Ela questionou a liderança de meu pai, disse que ele estava enfraquecendo o cartel. Talvez ela tenha resolvido agir de acordo com suas opiniões.

Mas ela é mais inteligente que isso, pensa Ric. Ela sabe que não pode manter Baja diante de um ataque combinado, entre nossa ala e a de Iván, o que certamente aconteceria. Sua organização já está debilitada de efetivo, e ela não seria imbecil de se isolar.

Você tem que considerar a possibilidade de que tenha sido Iván.

Ele ainda está injuriado por ter precisado entregar Baja, ainda acha que

deveria ser o cabeça do cartel. Talvez ele ache que a ala Esparza seja forte o suficiente para lutar contra a ala Núñez e Elena; e, encare os fatos, ele talvez ache que pode ganhar se for você, não o seu pai, que estiver na liderança.

E ele provavelmente está certo, pensa Ric.

Ele é melhor como líder de guerra do que você; ele é um líder melhor,

ponto.

Belinda lhe entrega o celular e faz mímica com a boca: “Elena”. — Acabei de saber — diz Elena. — Eu lamento muito. Como está ele? — Ainda não sabemos.

Silêncio, então, ela diz:

— Sei o que você está pensando.

— É mesmo? O que eu estou pensando, Elena? — Eu tive meus desentendimentos com seu pai — diz ela —, mas eu

jamais faria uma coisa dessas.

— Bom saber.

— Mande meu amor a sua mãe, diga a ela que estou rezando por ele, por

todos vocês.

Ric agradece e desliga. Fica imaginando se Elena estava ligando por

preocupação verdadeira, ou para demonstrar que não foi ela quem deu a ordem, ou para encobrir o fato de que foi. Ele vira para Belinda.

— Quem estava dirigindo o carro do meu pai hoje? — López.

Gabriel López, um ex-policial do estado de Sinaloa, era motorista de

seu pai, desde sempre, pelo que Ric se lembra. Sempre vestido com capricho, de gravata, pontual, profissional, discreto. Não é casado. Cuida da mãe idosa, que sofre de Doença de Alzheimer.

— Ele está vivo? — pergunta Ric.

— Ele não se feriu.

— Onde está ele agora?

— Não fui atrás dele — diz Belinda. — Nunca pensei… — Vá buscá-lo.

López não atende ao celular.

Cai direto na caixa postal.

Ric não deixa recado.

— Foi ele — conclui Ric.

— Mas, quem o comprou? — pergunta Belinda.

— Só saberemos quando falarmos com ele.

— Ele sumiu — diz Belinda. — Não conseguimos falar com ele.

Precisamos falar, pensa Ric. Quem tentou matar meu pai vai tentar de novo. Nós temos que descobrir quem foi.

Ric faz um vídeo da mãe de López e envia ao antigo motorista de seu pai. Segundos depois, o celular de Ric toca.

É López.

— Você precisa vir falar comigo — diz Ric.

— Se eu for, você vai me matar.

Mas não posso mais ser o antigo Ric. Tenho minha própria família para proteger.

— Se você não vier — avisa Ric —, eu vou matá-la.

López está apostando no velho Ric, pensa Ric. No cara bacana e tranquilo, que jamais pensaria em ferir a família de alguém, que dirá uma idosa indefesa e demente que tem pouca ou nenhuma ideia do que está acontecendo.

Meu Deus, ela achou que eu fosse seu Gabriel, quando entrei.

Claro, López diz:

— Você não faria isso.

Ric saca a pistola e a segura junto à cabeça da idosa. Com a outra mão, ele ergue o celular.

— Olha só.

Ele engatilha a arma.

— Não! — grita López. — Eu vou!

— Trinta minutos — diz Ric. — Venha sozinho.

Ele chega em 28.

Belinda o revista e tira sua Glock.

López beija a mãe no rosto.

— Mami, a senhora está bem? Eles lhe machucaram?

— Gabriel?

— Sí, Mami.

— Você trouxe as minhas chilindrinas?

— Dessa vez, não, Mami — diz López.

Ela faz uma cara feia e fica olhando o chão.

— Onde podemos conversar? — pergunta Ric.

— No meu escritório — diz López.

Eles entram em uma salinha que é tão caprichada e arrumada quanto

López. Ric gesticula para que López sente. Belinda fica em pé bloqueando a porta, de arma em punho.

— Não fui eu — diz López.

— Não minta pra mim, Gabriel — pede Ric. — Isso me deixa com

raiva. Não tenho tempo para arrancar a verdade de você. Se você não me contar agora mesmo, vou matar aquela velha na sua frente. Diga a verdade e eu garanto que ela terá o melhor tratamento em Culiacán. Quem comprou você?

Por favor, pensa Ric, não deixe que ele diga Iván. — Tito — responde López. — Ascensión.

— Por quê?

— Seu pai foi atrás dele — diz López. — E não conseguiu pegá-lo. Você

tem silenciador? Não quero que ela fique com medo.

Ric olha para Belinda, que assente e diz:

— Eu faço.

— Não — diz Ric. — Tem que ser eu.

Se eu não fizer, as pessoas vão me achar fraco. E estarão certas.

Tem que ser feito e tem que ser eu.

— Tem certeza? — pergunta Belinda. — Quer dizer, eu sei que você

fingiu, lá em Baja.

— Eu tenho certeza.

Belinda prende o silenciador na pistola e a entrega a Ric. O coração dele

está disparado e ele sente vontade de vomitar. Ele diz a López:

— Vire de costas. Olhe pela janela.

López vira. E fala:

— Meus papéis estão na primeira gaveta da esquerda. Está tudo em

ordem. Eu trago chilindrinas para ela, toda quinta.

— Eu darei ordens para que façam isso.

Ric tenta evitar o tremor da voz.

Ele ergue a pistola.

Belinda disse que era fácil — apontar e atirar. Não é fácil.

Ele aponta a mira para a nuca de López.

Pronto, é isso, pensa ele; se você apertar o gatilho não há volta. Você será um assassino. Mas se não apertar, e as pessoas com quem você lida o acharem fraco, elas vão dilacerar sua família.

Vão matar seu pai em sua cama de hospital.

Isso, se ele já não estiver morto.

A mão de Ric treme.

Ele põe a outra mão na arma, para firmá-la.

Ele ouve López chorando.

Ric aperta o gatilho.

Seu pai está cinza.

Sua voz é rouca, quando ele diz:

— Eu preciso falar com você… Nós temos que descobrir…

— Foi Tito — diz Ric. — Ele comprou López para emboscá-lo. Não se preocupe, já cuidei disso.

Núñez assente.

— Por quê? — pergunta Ric. — Por que ir atrás de Tito?

Núñez sacode novamente a cabeça, como se para descartar a pergunta o que parece lhe custar um grande esforço.

— Um ataque para prevenir. Agora ele virá atrás de você. Você precisa ir para algum lugar seguro, vá…

Ele fica inconsciente.

As campainhas disparam.

Uma enfermeira vem correndo, empurra Ric para fora do caminho e verifica os monitores.

Ela grita algo e mais enfermeiras entram, depois um médico, e eles levam Núñez pelo corredor, em direção à sala de cirurgia. Ric não consegue ouvir tudo o que eles falam, só o suficiente para saber que a pressão arterial de seu pai caiu e que eles precisam “abrir” de novo, para conter a hemorragia.

Ric fica sentado na sala de espera com a mãe.

Ele está apavorado pelo pai, mas diz a si mesmo que não pode ter sentimentos agora; sua responsabilidade é ter sangue frio e pensar.

Nós estamos em guerra com Tito Ascensión e com o Cartel Nuevo Jalisco.

CJN não controla somente Jalisco, mas a maior parte de Michoacán e algumas regiões de Guerrero. Ele tem operações na Cidade do México e um porto disponível em Puerto Vallarta. Agora Tito vai avançar para Baja, Juárez e Laredo, e para os portos de Manzanillo e Mazatlán.

Tito é um lutador experiente, um general de campo comprovado e um

matador impiedoso. Ele já ganhou guerras. As pessoas o temem com razão, e terão medo de ficar contra ele; parte do pessoal de Sinaloa vai mudar de lado por medo, ou só por achar que ele irá vencer.

Pior, e Ric detesta pensar isso, Tito tem laços antigos e fortes com Iván.

Ele foi o guarda fiel de Nacho Esparza, o cabeça de sua segurança e de seu braço armado. Ele lutou para os Esparza contra o cartel Golfo, contra o cartel Juárez, contra os zetas, e derrotou todos eles.

É claro que sua próxima jogada será ir até Iván e propor uma aliança

contra nós e Elena. E se ele fizer isso e Iván aceitar, estaremos liquidados.

Não teremos como ganhar.

A matemática simplesmente não soma.

Não somos páreo para eles, em termos de homens, dinheiro e material

do CJN e dos Esparza. Eles formarão um novo cartel e nos destruirão.

Só há uma jogada a ser feita.

Ele sabe que deveria pedir o conselho e a aprovação paterna — é na

verdade uma decisão a ser tomada por seu pai — mas a dura verdade é que Ricardo está incapacitado de tomá-la, nesse momento, e Ric não tem tempo para esperar.

Ric vai até lá fora e pega o celular.

Dirigindo para a reunião, Ric sabe que se tiver errado a estimativa — se Iván e Tito já tiverem feito um acordo — ele está morto.

Eles vão matá-lo no instante em que ele aparecer. Foi burrice não trazer segurança, mas Ric temia causar exatamente o

que estava tentando evitar: uma guerra com Iván. O cara já está paranoico, com medo de levar a culpa pelo atentado contra Núñez, e se Ric aparecer com um exército armado, Iván vai achar que está sendo encurralado.

Ric vai correr o risco.

Ele está com uma Glock 19 na cintura do jeans, por baixo de uma

jaqueta de beisebol dos Tomateros.

— A pistola não tem pino de segurança, portanto, não vá estourar a

própria bunda — disse Belinda, carregando um pente. — Apenas aponte e aperte.

— Espero não precisar.

— Você não deveria fazer isso — ela disse, enquanto ele entrava no carro. — Eu não deveria deixar você fazer isso.

— A decisão não é sua.

Ela sorriu.

— Ei, Ric? Você agora é Michael.

Iván marcou a reunião em um posto de gasolina Pemex, saindo da Estrada 15, na periferia sul de Eldorado. Conforme Ric vai chegando, ele gostaria de não ter concordado com esse lugar. O posto fica no meio de um imenso estacionamento, quase vazio a essa hora da noite, com apenas alguns trailers rebocadores estacionados nas margens.

Qualquer um deles pode estar, pensa ele, cheio de pistoleiros dos Esparza.

Ou pistoleiros do CJN.

Ou ambos.

Ele desce do carro e caminha até o posto. É uma boa caminhada — ele sente a arma nas costas.

Iván está sentado na mesa de um reservado, perto da máquina de café, de um micro-ondas e de uma prateleira cheia de sacos de salgados e porcarias.

Ric senta de frente para ele.

— Não fui eu — diz Iván.

— Não achei que tivesse sido.

— Mas ficou desconfiado — afirma Iván.

— Tá, tudo bem, fiquei desconfiado.

— Não posso culpá-lo — diz Iván. — Teria sido uma jogada inteligente. Se ele não fosse seu pai…

— Foi Tito — diz Ric, à procura de sinais de surpresa no rosto de Iván. Ele parece surpreso, mas talvez esteja fingindo.

— Olha, eu teria achado que foi o Damien — fala Iván.

— Tito — repete Ric. — Meu pai foi atrás dele.

— Péssimo erro — diz Iván —, correr atrás de Tito Ascensión e não o pegar. Mas jogar Rubén na cadeia? Isso também torna você um alvo.

— Acredite, eu percebi.

— Então, por que está aqui?

— Preciso de você do nosso lado — declara Ric.

— Eu sei — diz Iván. — Mas, lembrando que alguns dias atrás você apontou uma arma pra minha cara, por que eu deveria?

— Baja — diz Ric. — Nós lhe daremos de volta. Iván assimila, depois afirma:

— O Tito também daria.

— Isso não é dele pra dar.

— Nem seu — responde Iván. — É de Elena.

— Eu vou falar com ela.

Iván dá um sorriso debochado.

— Você vai falar?

— Sim.

— Aí, ela vai até Tito — diz Iván.

— Está vendo? — pergunta Ric. — Vai funcionar perfeitamente. — Nós teríamos que lutar contra ela pra isso. — Se ficar do nosso lado, você vence — diz Ric. — Se ficar com Tito, eu também venço.

— Talvez.

— Ei, Ric — diz Iván. — Aquele com quem eu estiver é que vai ganhar. — Acho que é por isso que estou aqui.

Iván olha ao redor do posto, depois pela janela. Então, olha de novo para

Ric e diz:

— Eu poderia vender você a Tito, neste momento. Ele pagaria bem.

Depois, ele poderia trocar você por Rubén.

— Mas você não vai fazer isso — fala Ric, embora não tenha tanta

certeza.

Iván leva um bom tempo para responder, então diz: — Não, não vou. Então, Baja, hein?

— Você fica com as travessias da fronteira e a maior parte do mercado

doméstico. Eu só quero os bairros que nós já temos, em La Paz e em Cabo.

— E quanto a Mazatlán?

— Sua.

— Sem querer ofender, mas o seu pai aprovou isso? — Ainda não.

— Nossa — diz Iván. — Olhe pra você, todo crescido. — Temos um acordo?

— Até agora — considera Iván. — Mas, de novo, sem querer ofender, o

que acontece se seu pai não sobreviver? Isso faria de você o patrón. Eu sei que você é El Ahijado, e tudo mais, mas não sei se vou aturar isso.

— O que você quer?

— Ser o próximo da fila — responde Iván —, depois de seu pai, claro.

— Como eu lhe falei — diz Ric —, eu não quero o cargo, mas…

— O quê?

— Se eu concordasse — diz Ric —, isso lhe daria motivação para matar meu pai.

Iván o observa, por alguns segundos.

— Todo crescido. Então, não, sem acordo, El Ajihado. Tito vai me dar o trono.

Está tudo desmoronando, pensa Ric, e eu não posso levantar desta mesa sem um acordo. Meu pai vai me odiar por isso, mas…

— Vou lhe contar o que eu vou fazer — diz Ric. — Se meu pai morrer em paz, na cama, ou se aposentar, eu cedo o lugar pra você. Mas, se ele for assassinado, por qualquer pessoa, eu fico.

— Eu lutaria com você pelo cargo.

— Vamos torcer pra que nunca chegue a isso — diz Ric. Ele estende a mão. — Fechado?

Iván aperta sua mão.

— Mais uma coisa — diz Ric. — Meu pai nunca saberá do nosso acordo.

— Estimo as melhoras a seu pai — diz Iván. — Diga a ele que eu desejo que ele se recupere logo.

Ric caminha de volta até o carro, sabendo ter o acordo de que tanto precisava, e com total consciência de que acabou de dar a Iván um motivo para matar seu pai e ele.

Ele pega o celular para checar se o pai ainda está vivo.

Quando chega a noite de Candlemas, até o entusiasmo de Marisol pelas festividades já diminuiu.

Ela não foi à igreja, não tomou atole, certamente não comprou uma estátua do menino Jesus.

— Para mim, chega de comemorações— ela diz a Keller.

Uma coisa que ela faz é tentar entender a explicação dele sobre o Dia da Marmota.

— Uma marmota sai de sua toca — diz ela.

— Sim.

— E se ela vir a própria sombra… o que acontece, mesmo?

— São mais seis semanas de inverno.

— E se ela não vir — continua ela — é primavera? — Sim.

— O que uma coisa tem a ver com a outra? — pergunta Marisol. —

Como pode o fato de uma marmota não enxergar a própria sombra, de alguma maneira, dar início à primavera?

— É só uma tradição.

— Uma tradição besta.

— Verdade — diz Keller. — Não possui a lógica inerente de engolir

uvas e jogar água suja pela janela.

Ele nem tenta explicar o significado atual do Dia da Marmota de acordo

com a cultura pop — do ciclo interminável de um mesmo dia — mas o dia foi assim para ele.

Primeiro, houve a tentativa fracassada de capturar um chefão das

drogas, desta vez Tito Ascensión, do cartel Novo Jalisco. Agora foi a tentativa de assassinato do chefe do cartel Sinaloa, Ricardo Núñez.

Entre uma coisa e outra, Roberto Orduña teve sucesso. Seguindo uma

pista recebida, o pessoal das FES invadiu uma casa em Zihuantanejo e capturou os três irmãos Rentería.

Orduña ligou para Keller e disse a ele que os Rentería confessaram a

morte dos estudantes.

— Qual motivo eles alegaram? — perguntou Keller. — Eles acharam que os garotos fossem recrutas para Los Rojos — disse

Orduña. — Triste, não é?

Keller não engole a história dos Rentería, da mesma forma que não

acredita no acontecimento improvável de Orduña ter tido sorte em encontrar todos eles no mesmo lugar, ao mesmo tempo. Foi Eddie Ruiz que deu os nomes. Será que ele também deu a localização?

E quem deu a ele a ordem?

Se Ruiz estiver administrando algo, significa que alguém está

administrando Ruiz.

— Nós achamos que havia um carregamento de heroína naquele ônibus

— diz Keller.

— Vocês têm dados da inteligência para respaldar isso? — pergunta

Orduña.

— Estou trabalhando nisso.

— Heroína de quem?

— De Sinaloa? — sugere Keller. — Ricardo Núñez?

— Bem, ele está fodido.

— Ele vai sobreviver?

— Parece que sim — diz Orduña. — E agora, os dois maiores cartéis do México vão cair no pau.

Dia da Marmota, pensa Keller.

Outra guerra.

Mais mortes.

As festividades terminaram, como sempre terminam.