A fronteira
LIVRO 1: Memorial
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Só sabe que está ali, em Valverde.
Que foi atraído por ela.
Keller sabe que os dois jamais poderão voltar a ser como antes.
Compartilham tristezas demais, muitas pessoas queridas que se foram, e cada morte é como uma pedra na edificação de um muro tão alto que é impossível transpor.
— Eu tenho atendimento clínico hoje à tarde — diz Marisol. Ela é a prefeita e única médica da cidade. Há trinta mil pessoas no vale
de Juárez, e Marisol é a única clínica geral em horário integral.
Por isso decidiu abrir uma clínica gratuita na cidade. — Eu vou com você — diz Keller.
Marisol pendura a bengala no pulso e segura no corrimão ao descer a escada externa. Morrendo de medo de que ela caia, Keller vai logo atrás, uma das mãos prontas para ampará-la.
— Faço isso várias vezes por dia, Arturo — diz ela.
— Eu sei.
Pobre Arturo, pensa ela. Carrega tanta tristeza.
Marisol sabe o preço que ele já pagou por aquela guerra — o assassinato de seu parceiro, o afastamento da família, e as coisas que ele viu e fez, e que o despertam à noite, ou, pior, o mantêm preso em pesadelos.
Ela própria pagou seu preço.
Os ferimentos externos são óbvios, a dor crônica que os acompanha, nem tanto, mas tudo ainda é tão real. Perdeu a juventude e a beleza — Arturo gosta de pensar que ela ainda é bonita, mas Marisol sabe que é preciso encarar a realidade. Eu sou uma mulher com uma bengala na mão e um saco de merda amarrado às costas, pensa.
Essa não é a pior parte. Marisol é perspicaz o bastante para saber que sofre de um caso grave de culpa do sobrevivente. Por que está viva, se tantos não estão? E sabe que Arturo sofre do mesmo mal.
— Como vai Ana? — pergunta Keller.
— Estou preocupada com ela. — Está deprimida, bebendo demais. Ela está na clínica, você vai ver por si mesmo.
— Nós estamos ferrados, não? Todos nós?
— Um bocado — responde Marisol.
Todos veteranos de uma guerra inenarrável, pensa. Uma guerra que deixou marcas demais para estar encerrada de verdade.
Não houve vitória nem derrota.
Não houve reconciliação nem tribunais de crimes de guerra. E, certamente, nenhum desfile, nem medalhas, discursos, agradecimentos nação liberta.
Apenas uma diminuição lenta e aturdida da violência.
E uma sensação de perda que esmaga a alma, um vazio que não pode ser preenchido, por mais ocupada que ela se mantenha no gabinete ou na clínica.
Os dois passam caminhando pela praça.
Os idosos no coreto observam.
— Já vão começar os boatos — diz Marisol. — Até as cinco da tarde, estarei grávida de um filho seu. Até as sete, já estaremos casados. Lá pelas nove, você terá me deixado por uma mulher mais jovem, provavelmente, uma güera.
O povo de Valverde conhece Keller muito bem. Ele morou na cidade
depois que Marisol foi alvejada e ficara para cuidar dela até que se recuperasse. Frequentava a igreja, ia às festividades, aos enterros. Mesmo não sendo um dos seus, ele não é exatamente um estranho ou apenas mais um yanqui.
O povo ama Keller pelo que fez por Marisol.
Keller sente, mais do que vê, o carro que vem se aproximando por trás
deles. Leva a mão à arma sob o casaco e a mantém no cabo. O carro, um antigo Lincoln, passa por eles bem devagar. O motorista e o passageiro nem se dão ao trabalho de disfarçar seu interesse em Keller.
Keller os cumprimenta com um movimento da cabeça. O halcón assente em resposta enquanto o carro segue. Sinaloa está de olho nele.
Marisol não percebe. E pergunta:
— Você o matou, Arturo?
— Quem?
— Barrera.
— Tem uma piada antiga, uma bem ruim, sobre uma mulher que ouve
do marido a seguinte pergunta na noite do casamento: “Você é virgem?”, e ela responde “Por que todo mundo fica me perguntando isso?”.
“Por que todo mundo fica perguntando isso?” Marisol conhece uma
esquiva quando a ouve. Fizeram uma promessa de nunca mentir um para o outro, e Arturo é um homem de palavra. Como ele não responde diretamente, desconfia do que seja a verdade. — Apenas me diga a verdade. Você o matou?
— Não. Não, Mari, eu não o matei.
Keller está morando na casa de Ana, em Juárez, há apenas alguns dias, quando Eddie Ruiz aparece. Ele fez uma oferta à repórter veterana, que aceitou — a casa tinha lembranças demais para ela.
“Eddie, o doido” esteve na incursão na Guatemala. Keller presenciou
quando o jovem — um pocho, um mexicano-americano de El Paso — despejou uma lata de parafina por cima do chefe Zeta ferido, Heriberto Ochoa, depois tacou fogo.
Eddie não aparece sozinho.
Com ele está Jesús Barajos — “Chuy” —, um esquizofrênico de dezessete anos levado à psicose pelos horrores que suportou, presenciou que impôs aos outros. O garoto, que virou matador narco aos onze anos, nunca teria chance, e Keller o encontrou na selva guatemalteca, calmamente chutando uma bola de futebol na qual tinha costurado o rosto de um homem que ele mesmo decapitara.
— Por que trouxe ele aqui? — pergunta Keller, analisando os olhos vagos de Chuy.
Quase matara o garoto na Guatemala. Uma execução por ter matado Erika Valles.
E Ruiz o levava até lá? Até ele??
— Eu não sabia o que fazer — responde Eddie.
— Entregue para o cartel.
— Vão matá-lo — diz Eddie. Chuy passa direto pelos dois e, se encolhe no sofá, onde pega no sono. É pequeno e magrinho, mas tem a expressão feroz de um coiote mal alimentado. — De qualquer maneira, não posso levá-lo para onde estou indo.
— Pra onde você vai?
— Vou atravessar o rio e me entregar. Em quatro anos eu saio.
Foi a barganha que Keller arranjara para ele.
— E quanto a você? — pergunta Eddie.
— Não tenho planos. Acho que só sigo vivendo.
Só que não faz ideia de como seguir em frente.
A guerra acabou, e ele não faz ideia de como viver.
Ou do que fazer com Chuy Barajos.
Marisol veta sua ideia de entregar o menino às autoridades mexicanas.
— Ele não sobreviveria.
— Mari, ele matou…
— Eu sei. Ele está doente, Arturo. Precisa de ajuda. Que tipo de ajuda vai receber do sistema?
Nenhuma, Keller sabe, só não tem certeza se ele se importa. Quer que aquela guerra acabe, não quer arrastar memórias dela por aí, como uma bola na corrente, personificada em um catatônico literal que assassinou pessoas que ele amava.
— Não sou você. Não consigo perdoar como você perdoa.
— A guerra não vai acabar para você até que perdoe.
— Então, acho que não vai acabar nunca.
Mas não entrega Chuy.
Mari encontra um psiquiatra que vai tratar gratuitamente o menino e
consegue medicamentos por meio de sua clínica, mas o prognóstico é “cauteloso”. O melhor a se esperar para Chuy é uma existência marginal, uma meia-vida. Mas as piores lembranças, serão ao menos silenciadas.
Keller não sabe explicar por que aceitou cuidar do garoto. Talvez por penitência.
Chuy fica pela casa, como outro fantasma na vida de Keller, dormindo
no quarto extra, jogando no Xbox comprado no Walmart de El Paso, ou devorando qualquer coisa que Keller prepare, quase sempre enlatados. Keller monitora o coquetel de medicamentos de Chuy e assegura-se de que ele tome tudo nos horários certos.
Keller o acompanha às consultas psiquiátricas e fica sentado na sala de
espera, folheando edições em espanhol da National Geographic e da Newsweek. Depois, pegam o ônibus para casa e Chuy se acomoda em frente à televisão enquanto Keller providencia o jantar. Raramente se falam. Às vezes, Keller ouve gritos do quarto de Chuy e vai acordá-lo dos pesadelos. Sempre o acorda e embora às vezes fique tentado a deixar o garoto sofrer.
Algumas noites, Keller pega uma cerveja e senta nos degraus de fora,
que levam ao pequeno pátio dos fundos da casa de Ana, lembrando-se das festas que aconteciam ali — a música, a poesia, as discussões políticas fervorosas, o riso. Foi ali que conheceu Ana, Pablo e Giorgio, e El Búho — “O Coruja” —, decano do jornalismo mexicano que editava o jornal onde Ana e Pablo trabalhavam.
Outras noites, quando Marisol vai à cidade para visitar algum paciente
que colocou no Hospital Juárez, ela e Keller saem para jantar ou vão ao cinema de El Paso. Ou, às vezes ele vai de carro até Valverde, a encontra durante o expediente da clínica, os dois dão uma caminhada pela cidade, ao pôr do sol.
Nunca vai além disso, e ele volta para casa de carro. A vida se acomoda em um ritmo surreal, onírico. Boatos da morte e sobrevivência de Barrera circulam pela cidade, mas
Keller presta pouca atenção. De vez em quando, um carro passa lentamente pela casa, e, vez ou outra, Terry Blanco vem perguntar se Keller ouviu algo, ou se sabe de algo.
Keller não ouviu, nem sabe de nada.
Fora isso, como prometido, eles o deixam em paz.
Até que a paz acaba.
Eddie Ruiz dá descarga no vaso sanitário de aço preso à parede de concreto. Depois, enfia um rolo de papel higiênico vazio no ralo e sopra, fazendo baixar mais o nível da água do vaso. Feito isso, pega seu colchão de espuma na chapa de concreto, dobra por cima da privada e aperta várias vezes como se estivesse fazendo massagem cardíaca em alguma vítima caída que precisasse de ressuscitação. Então, remove o colchão, enfia três rolos de papel higiênico no vaso, põe a mão sobre o rolo do alto e berra:
— El Señor!
Ele espera alguns segundos até ouvir:
— Eddie! ¿Qué pasa, m’ijo?
Eddie não é filho de Rafael Caro, mas fica contente que o velho chefão das drogas o chame assim, que talvez até pense nele como um filho.
Caro está na Florence literalmente desde que a instituição inaugurou, em 1994; foi um dos primeiros hóspedes da cadeia de segurança máxima. Eddie acha isso impressionante pra cacete: desde 1994, Rafael Caro está sozinho, em uma caixa de concreto de 2,10 m x 3,60 m — cama de concreto, mesa de concreto, banco de concreto, escrivaninha de concreto — e ainda bate bem da cabeça.
Kurt Cobain bateu as botas, e Caro estava em sua cela. Bill Clinton botou a moça para fumar seu charuto, e Caro estava em sua cela. Umas porras de uns malucos fizeram um avião mergulhar nas torres, invadimos a porra do país errado, um negro foi eleito presidente... Caro estava sentado na mesma cela.
Vinte e três horas por dia, sete dias por semana.
Porra, pensa Eddie eu tinha quatorze anos, estava no primeiro ano do Ensino Médio, batendo uma punheta em cima da seção de cartas da Penthouse quando fecharam aquela porta da cela Caro, e o cara ainda está aqui, continua são. O falecido Rudolfo Ruiz cumpriu só dezoito meses e apagou. Ele só estava no meu segundo ano e prestes a perder a porra da cabeça. E já teria perdido se não tivesse Caro para conversar pelo “telefone da privada”.
Caro ainda está inteiríssimo — , e Eddie compreende por que o homem foi um grande personagem no jogo das drogas. O único erro que cometeu (um erro fatal) foi apostar no cavalo errado, em uma corrida de dois pôneis — Güero Méndez contra Adán Barrera.
Sempre uma aposta ruim, pensa Eddie. Caro recebeu o que recebem muitos dos inimigos de Adán: extradição
para os EUA. O que foi pauleira para ele, já que suspeitavam de sua participação na tortura e morte de um agente da Narcóticos chamado Ernie Hidalgo. Mas não conseguiram provar, então ele recebeu a pena máxima pela acusação de tráfico — de 25 a perpétua, em vez de perpétua sem direito a condicional.
Mas os federais ficaram muito putos e o mandaram para Florence, onde
botam figuras como Unabomber e Timothy McVeigh, antes de passarem o rodo nele e em um bando de terroristas. Osiel Contreras, antigo chefe do cartel do Golfo, está ali, junto com alguns grandes narcos.
E eu, pensa Eddie.
O maldito Eddie Ruiz, primeiro e único americano a chefiar um cartel
mexicano, se isso vale de alguma coisa.
Na verdade, ele sabe exatamente o que vale.
Quatro anos.
O que é meio problemático, pois não são poucos os habitantes desta
instituição que se perguntam por que uma pena de apenas quatro anos.
Para um cara da estirpe de Eddie.
Eddie, o doido.
O ex-Narco Pólo, apelidado por sua escolha de camisas. O cara que
lutou com os zetas até a paralisação, em Nuevo Laredo, que foi o primeiro a levar os sicários de Diego Tapia contra os zetas, depois contra Barrera. Que sobreviveu à execução de Diego pelos mariners, e depois montou seu próprio grupo, uma parcela da antiga organização de Tapia.
Algumas dessas pessoas se perguntam por que Eddie voltaria aos EUA,
onde já era procurado por acusações de tráfico, por que se entregaria e só pegaria quatro aninhos em uma cadeia federal.
A especulação óbvia era Eddie ser um rato dedo-duro, que teria
entregado seus amigos em troca de redução de pena. Eddie negava isso com veemência.
— Diga um cara que tenha caído desde que eu dancei. Um. Sabia que não havia resposta para isso, porque ninguém mais caíra. — E se eu fosse fazer algum acordo — Eddie reforçava —, acha que
concordaria em ficar em Florence? A pior cadeia supermax do país?
Também não existia resposta para isso.
— E uma multa de sete milhões de dólares? — perguntava Eddie. — Que porra de acordo é esse?
Mas o xeque-mate era sua amizade com Caro, pois todos sabiam que Rafael Caro — um cara que sofrera a dura paulada de 25 anos sem emitir uma palavra de reclamação, nem de cooperação nem sequer olharia para um soplón, um informante; muito menos seria amigo de um.
Portanto, se Eddie está de bem com Rafael Caro, está de bem com todo mundo. E grita de volta pelo tubo:
— Está tudo bem, Señor? Contigo?
— Eu estou bem, obrigado. Quais as novas?
Novas?, pensa Eddie.
Nada.
Nunca há nada de novo neste lugar — todos os dias são iguais. É acordado às seis, quando enfiam um negócio que chamam de comida pela abertura no metal. Depois do “café da manhã”, Eddie limpa a cela. Religiosa e meticulosamente. O propósito do confinamento na solitária é transformá-lo em um animal, e Eddie não vai colaborar com isso vivendo na imundície. Então, mantém a si mesmo, à cela e às roupas limpos. Depois de limpar todas as superfícies, lava a roupa na pia de metal, torce e pendura para secar.
Não é difícil cuidar da roupa.
Tem duas camisas cor de laranja, duas calças de sarja, dois pares de meias brancas, duas cuecas e um par de sandálias de plástico.
Depois de lavar roupa, faz exercícios.
Cem flexões.
Cem abdominais.
Eddie é um cara jovem, ainda tem só 33 anos, e não pretende deixar que a prisão o envelheça. Com 35, quando der no pé, vai estar em forma, bonitão, com a cabeça boa.
A maioria dos caras naquele lugar nunca mais verão o mundo.
Vão morrer naquele buraco.
Exercícios feitos, ele em geral toma um banho no pequeno cubículo do canto da cela e depois assiste a um pouquinho da TV preto e branco que ganhou por ser um “prisioneiro modelo”, algo que em seu pavilhão significa não gritar o tempo todo, não pintar a parede com a própria merda, e nem tentar acertar um jato de urina nos guardas através do buraco da porta.
A televisão é de circuito fechado, vigiado de forma rígida — apenas
programas educacionais e religiosos, mas algumas das mulheres são razoavelmente gatas, e Eddie tem ao menos a chance de ouvir vozes humanas.
Por volta do meio-dia, enfiam pela porta algo que chamam de almoço.
Em algum momento da tarde, ou à noite, ou na porra da hora que der na telha deles, os guardas vêm para levá-lo para sua grandiosa hora lá fora. Alternam os horários, pois não querem correr o risco de criar uma rotina que ajude Eddie a escapar orquestrando um ataque aéreo ou algo assim.
Mas quando decidem aparecer, Eddie fica de costas para a porta e põe as
mãos pelo vão para ser algemado. Abrem a porta e ele se ajoelha, como na Primeira Comunhão, enquanto acorrentam seus tornozelos e prendem a corrente às algemas.
Então, o conduzem até o pátio de exercícios.
O que é um privilégio.
Em seus primeiros meses ali, Eddie não tinha permissão para sair; em
vez disso, era levado a uma sala interna sem janelas que parecia uma piscina vazia. Mas, agora, pode até pegar um ar fresco, na jaula de 6 m x 6 m, com paredes de concreto e arame farpado enroscado nas vigas vermelhas do alto. Ali tem uma barra para exercícios e uma cesta de basquete, e, se a pessoa não fez merda e os guardas estiverem de bom humor, podem até deixar alguns outros presos entrarem ali, para conversarem.
Caro não pode ir ali fora.
Ele é assassino de policial, não ganha porra nenhuma. Mas Eddie costuma ficar sozinho. Faz barra, alguns arremessos de
basquete e lança a bola de futebol americano para si mesmo. Nos tempos do Ensino Médio, no Texas, era um astro na defesa, o que o tornava mega importante e lhe rendia muita bocetinha das animadoras de torcida. Agora, arremessa uma bola, corre atrás dela e ninguém vibra.
Adorava acertar os adversários com a bola. Atingi-los com tanta força
que o ar escapava dos pulmões, e a bola, das mãos. Arrancava o coração da porra do peito deles.
O baile de formatura do Ensino Médio.
Noites de sexta-feira.
Muito tempo atrás.
Cinco dias por mês, Eddie não vai ao pátio de exercício, mas só até o corredor, onde pode falar ao telefone por uma hora.
Eddie costuma ligar para a esposa.
Primeiro para uma, depois para a outra.
É capcioso, porque nunca teve um divórcio oficial de Teresa, a esposa dos EUA, portanto, tecnicamente, não é de fato casado com Priscilla, a esposa do México. Tem uma filha de três anos e um filho um ano e meio, — com Priscilla, e uma filha de treze anos e um filho de dez com Teresa.
As famílias não estão, “cientes”, uma da outra então, Eddie precisa ser cauteloso para se lembrar com quem ele está falando ao telefone, e ficou conhecido por escrever os nomes dos filhos nas mãos, para não ferrar tudo e perguntar pelo nome errado, o que seria esquisito.
O mesmo acontece com as visitas mensais.
Ele precisa alternar e inventar alguma desculpa para Teresa ou Priscilla sobre por que não pode vê-la naquele mês. Costuma ser mais ou menos a mesma coisa para qualquer uma das duas:
— Benzinho, preciso usar o tempo para ver meu advogado.
— Você ama seu advogado mais que sua esposa e seus filhos?
— Tenho que ver meu advogado para voltar pra casa, pra minha esposa e meus filhos.
Bem, para qual casa e para qual família é outra questão capciosa, mas nada que precise ser calculado por mais dois anos. Eddie tem pensado em se tornar mórmon, como aquele cara na série Big Love, e Teresa e Priscilla poderiam se tornar “esposas irmãs”.
Mas aí teria que morar em Utah.
De vez em quando, usa mesmo a visita mensal para se consultar com seu advogado, “Minimum Ben” Tompkins, que tem que vir de San Diego, principalmente agora que seu grande cliente está entre os desaparecidos.
Eddie estava na Guatemala quando El Señor caiu.
Mas Eddie não conta a ninguém sobre isso. Nem deveria ter estado lá e deve uma àquele filho da puta do Keller, pela firmeza de levá-lo junto e deixar que matasse Ochoa.
Às vezes, Eddie usa essa lembrança para superar os momentos difíceis lembra de como foi despejar, uma lata de parafina por cima do chefe Zeta, e depois riscar um fósforo nele. Dizem que a vingança é um prato que se come frio, mas até que foi bem gostoso ver aquela quentura, ver Ochoa se retorcendo como a Bruxa Málvada e também, gritando que nem a bruxa da história.
Foi o troco pelo amigo de Eddie que Ochoa matou queimado. Então, deve a Keller ficar de bico calado.
Mas, porra, deveria ter recebido uma medalha por ter liquidado Ochoa,
em vez de ser jogado na ADX Florence.
E o Keller também.
São dois heróis do caralho.
Texas Rangers.
Barrera virou comida de formiga, e Tompkins precisava de um novo
pagamento, portanto, ficou muito feliz com as mensagens de Eddie sobre o que fazer com o dinheiro guardado em contas espalhadas pelo mundo.
Sete milhões em multa, vai tomar no cu, Tio Sam, pensa Eddie. Isso é o
que caía dos meus bolsos, o troco que ficava nas almofadas do sofá.
Eddie é dono de quatro boates em Acapulco, dois restaurantes, uma
revenda de carros e outras merdas que já até esqueceu. Além disso, botou uma grana para pegar um bronze, em várias ilhas. Só precisa cumprir sua pena e sair, e estará arranjado pelo resto da vida.
Mas, neste momento, está em Florence, e Caro quer saber “quais as
novas”.
Eddie pensa que Caro não quer saber o que há de novo em Florence, mas
o que há de novo no mundo, o que Eddie fica sabendo quando está na jaula de exercícios ou em pé, perto da cama, conversando com seus vizinhos pela ventilação.
E Caro pergunta:
— O que você ouviu dizer sobre Sinaloa?
Eddie não sabe por que Caro se importa com essa merda. Esse mundo o
deixou para trás há muito tempo, então, por que está pensando nisso? Mas, por outro lado, em que mais ele vai pensar? Então, para ele, é bom simplesmente conversar fiado, como se ainda estivesse no jogo.
Como aqueles coroas lá de El Paso, que ficavam pelo campo de futebol,
contando histórias de quando jogavam, depois discutindo sobre quem o novo técnico deve escalar como atacante, se devem atacar ou ficar na retranca, essas coisas.
Mas Eddie respeita Caro e fica feliz em matar tempo com ele. — Ouvi dizer que eles estão dando um gás na produção de chiva —
conta.
Sabe que Caro não vai aprovar.
O velho gomero estava lá nos anos 1970, quando os americanos queimaram e envenenaram os campos de papoulas, lançando os plantadores ao vento. Caro estava presente na famosa reunião em Guadalajara, quando Miguel Ángel Barrera, o famoso M-1 em pessoa, disse aos gomeros para deixarem a heroína e aderirem à cocaína. Ele estava lá quando M-1 formou a Federación…
Eddie e Caro conversam sobre bobagens por mais um minuto, mas é incômoda a comunicação através do encanamento. Por isso os narcos morrem de medo da extradição para uma cadeia de segurança máxima americana — no aspecto prático, não há como tocar os negócios lá de dentro, como fazem em uma cadeia mexicana. Nos Estados Unidos as visitas são limitadas — quando existem —, além de monitoradas e gravadas. Assim como as ligações. Portanto, mesmo o chefão mais importante só recebe informações fragmentadas e dá ordens vagas. Após um curto período, isso desaba.
Faz muito tempo que Caro está preso.
Se fosse uma escalação da NFL, ele já estaria de fora.
Eddie está sentado à mesa, de frente para Minimum Ben.
Admira o estilo do advogado — um paletó de linho esportivo, camisa azul e gravata borboleta xadrez, que dá um belo toque. Cabelos fartos e brancos como a neve, bigode com pontas viradas ao estilo guidão e cavanhaque.
Se a situação tivesse a ver com frango, em vez de bagulho, Tompkins seria o Coronel Sanders na logo do KFC.
— O Departamento Penitenciário vai transferir você — diz Tompkins. — É um procedimento operacional padrão. Você tem uma boa ficha aqui, portanto, tem direito a uma transferência para “um degrau abaixo”.
O sistema prisional federal americano possui uma hierarquia. O grau mais severo são as prisões supermax, como a Florence. Em seguida vêm as penitenciárias, ainda todas muradas, porém com celas em pavilhões, não solitárias. Então, as instituições correcionais, edificações com dormitórios e cercas de arame. E, finalmente, um acampamento com segurança mínima.
— Para uma penitenciária — diz Tompkins. — Por conta de suas acusações, você não pode ir a um nível inferior, até a data de sua soltura. Depois podem até transferi-lo para uma casa de reintegração. Meu Deus, Eddie, achei que você ficaria feliz com isso.
— Sim, fiquei, mas…
— Mas o quê? — pergunta Tompkins. — Você está confinado na
solitária, Eddie, trancafiado 23 horas por dia. Você não vê ninguém…
— Talvez essa seja a questão. Será que preciso explicar? — Claro, ali
ele fica na solitária e a solitária é uma merda, mas está conseguindo lidar com isso, já se acostumou. E está seguro ali, num lugar onde ninguém tem acesso a ele. Se o colocarem numa cela, num pavilhão qualquer, a nuvem do dedo-duro pode começar a chover sobre ele. Eddie não quer falar isso em voz alta, porque nunca se sabe qual guarda está recebendo propina. — Eles me prometeram proteção.
Tompkins baixa o tom de voz.
— E você vai ter. Cumpra sua pena, depois você vai entrar no programa. Eu preciso sobreviver à minha pena para entrar no programa de
proteção, pensa Eddie. Se eu for transferido, a papelada vai comigo. Podem manter meu acordo pré-sentencial sob sigilo, mas em uma penitenciária? Aqueles guardas venderiam a mãe por uma barra de chocolate.
— Pra onde vão me mandar?
— Estão falando em Victorville.
Eddie quase engoliu a língua.
— Você sabe quem manda em Victorville? La Eme. A máfia mexicana.
É o mesmo que me mandarem para Culiacán.
A La Eme faz negócios com todos os cartéis, menos os zetas, mas são
mais chegados a Sinaloa. Basta uma olhada no meu interrogatório pré-sentencial e vão furar meus olhos.
— Você vai ser colocado numa unidade de proteção — diz Tompkins. Eddie se debruça sobre a mesa.
— Olha só, me colocarem em uma cela de proteção é o mesmo que
anunciar para a penitenciária inteira que sou um delator. Acha que eles não vão conseguir me pegar numa cela de proteção? Tem ideia de como isso é difícil? Um guarda pode largar uma porta destrancada. E corto os pulsos antes de deixar que me ponham no isolamento.
— O que você quer, Eddie?
— Quero ficar onde estou.
— Não dá.
— Qual é? Estão precisando da minha cela?
— Algo assim. Você sabe como é o Departamento Penitenciário. Quando dão início ao andamento da papelada…
— Eles não se importam se eu morrer.
Foi uma bobagem de se dizer, e Eddie sabe disso. É claro que não se importam se alguém ali morre. Pessoas morrem na cadeia o tempo todo, e, na maior parte das vezes, a administração despacha o corpo como “sem perda”, adição por subtração. Assim como o público. Você já é uma porra de um lixo, então, se alguém te apagar, melhor ainda.
— Farei o que eu puder — diz Tompkins.
Eddie está bem certo de que o advogado não pode fazer exatamente nada. Se a papelada for com ele para V-Ville, vai ser um homem morto.
— Preciso que você ligue para uma pessoa — diz Eddie.
Keller atende ao telefone. É Ben Tompkins.
— O que você quer? — pergunta, com desagrado.
— Agora eu represento Eddie Ruiz.
— Por que isso não me surpreende?
— Ele quer falar com você. Diz que tem informações valiosas.
— Estou fora do jogo — responde Keller. — Nenhuma informação me interessa.
— Ele não tem informações valiosas para você. Ele tem informações valiosas sobre você.
Keller pega um voo até Denver e depois vai de carro até Florence.
Eddie pega o telefone para falar através do vidro.
— Você precisa me ajudar.
Ele conta a Keller sobre sua transferência iminente para Victorville.
— O que isso tem a ver comigo? — pergunta Keller.
— É isso? Estou por conta própria?
— Bem, estamos todos, não é mesmo? De qualquer forma, eu não mando em mais nada.
— Papo.
— Verdade.
— Você está me deixando passar aperto — diz Eddie. — Está me deixando numa situação que nenhum de nós quer.
— Você está me ameaçando, Eddie?
— Estou pedindo sua ajuda. Mas se eu não conseguir, vou ter que me
ajudar. Você entende.
Guatemala.
A incursão que nunca aconteceu.
Quando Keller ficou lá, sem fazer nada, enquanto Eddie transformava
Heriberto Ochoa em uma fogueira humana.
Depois, entrou na mata para procurar Barrera. E só Keller saiu.
— Se você quiser falar de determinadas coisas, talvez eu ainda tenha
alguma influência e possa transferir você para a Ala-Z, Eddie — sugere Keller.
Ala-Z.
Basicamente, pior do que Florence.
A Ala-Z é onde jogam quem ferra tudo. Tiram a roupa, algemam as
mãos e os pés e jogam e largam a pessoa lá.
É um buraco negro.
— Acha que consegue cumprir dois anos na Ala-Z? — pergunta Keller.
— Vai sair falando um monte de merda que nunca aconteceu. Ninguém vai acreditar numa palavra do que você disser.
— Então, me deixa ficar onde eu estou.
— Você não está analisando isso direito — retruca Keller. — Se ficar
em Florence, as mesmas pessoas com quem está preocupado irão ficar imaginando o motivo.
— Então, pense em alguma coisa melhor. Se eu me ferrar, não vou cair
sozinho. Só pra você entender: meu próximo telefonema não será para você, será sobre você.
— Vou ver o que posso fazer — responde Keller. — E preciso que você faça outra coisa por mim. — O quê?
— Eu quero um Big Mac. Batata frita grande e uma Coca. — Só isso? Achei que fosse querer transar.
Eddie pensa, um segundo, então responde:
— Não, eu prefiro o hambúrguer.
Eddie ouve a batida na privada e sabe que Caro quer falar com ele. Faz todo o processo de tirar a água do vaso, depois põe o ouvido junto ao rolo de papel higiênico.
— Ouvi falar que você vai ser transferido — diz Caro.
Não demorou nada, pensa Eddie. Caro é mais bem informado do que eu imaginava.
— Isso mesmo.
— Para Victorville.
— Aham.
Não está mais com medo de ir para lá depois que recebeu uma ligação de Keller dizendo que seu histórico está impecavelmente limpo. Qualquer um que pegar os papéis, poderá ler nas entrelinhas que Eddie pegou quatro anos porque seu advogado é bem melhor que a promotoria do governo.
— Não se preocupe — diz Caro. — Nós temos amigos por lá. Eles vão cuidar de você.
— Obrigado.
— La Mariposa — fala Caro.
Outro nome para La Eme.
— Vou sentir falta de nossas conversas — continua o antigo chefe do crime..
— Eu também.
— Você é um bom garoto, Eddie. Demonstra respeito. — Caro fica em silêncio por alguns segundos, depois diz: — M’ijo, quero que faça uma coisa para mim, em V-Ville.
— Qualquer coisa, señor.
Eddie não quer fazer, seja o que for.
Só quer cumprir sua pena e sair.
Deixar o xadrez, deixar o jogo.
Ainda pensa em produzir um filme sobre sua vida, o que chamam de “bio-pic”, que teria que ser, tipo, um mega sucesso, se conseguissem alguém como DiCaprio para interpretá-lo.
Mas não pode dizer não a Rafael Caro. Ou, a La Eme lhe receberá de outra maneira em V-Ville. Talvez o apaguem na hora, ou podem evitá-lo. De qualquer forma, não vai sobreviver sem ser cooptado por uma gangue.
— Eu sabia que essa seria sua resposta. — Caro abaixa o tom de voz, e Eddie mal consegue ouvir: — Encontre um mayate para nós.
Um cara negro.
— De Nova York. Com previsão de soltura em breve. Faça com que fique em dívida com você. Está entendendo?
Meu Deus, pensa Eddie. Caro ainda está no jogo.
Ele faz as contas. Caro já cumpriu 20 de seus 25 anos de pena. Como é
uma pena federal, podem fazê-lo cumprir cada dia ou podem reduzir para 85 por cento, talvez, até menos.
O que faz com que Caro esteja perto de sair.
E ele quer voltar pro jogo.
— Entendi, señor — diz Eddie. — Quer abordar um cara negro que
esteja perto de sair, mas por quê?
— Porque Adán Barrera estava certo — responde Caro. Heroína é coisa do passado.
E passado é futuro.
Isso ele não precisa dizer.
Keller dá um alô para Ben O’Brien.
— Ligue de volta, numa linha limpa.
A primeira vez que Keller encontrou O’Brien foi em um quarto de hotel
em Georgetown, algumas semanas antes da incursão na Guatemala. Não trocaram nomes, e Keller, que nunca foi muito de política, não o reconheceu como senador do Texas. Só sabia que o homem representava determinados interesses dispostos a financiar uma operação para eliminar a liderança Zeta, pois a “Z Company” estava se apossando de campos valiosos de óleo e gás no nordeste do México.
A Casa Branca tinha acabado de rejeitar oficialmente a operação, mas
enviou O’Brien para autorizá-la sob sigilo. O senador viabilizou uma linha de fundos através de seus contatos no setor de petróleo e montou uma equipe de mercenários por meio de uma empresa da Virgínia. Keller tinha pedido demissão da Narcóticos e ingressado na Tidewater Security como consultor.
Agora, O’Brien retorna a ligação.
— O que houve?
Keller conta sobre a ameaça de Eddie.
— Você tem alguma influência no Penitenciário? Para mandar apagar o
relatório pré-sentencial de Ruiz?
— Repita na minha língua.
— Preciso que você arranje alguém do Departamento Penitenciário e
limpe tudo que houver na ficha de Ruiz a respeito do acordo — explica Keller.
— Agora estamos aceitando chantagem de traficantes de drogas? — pergunta O’Brien.
— É bem isso. A menos que você queira responder a uma porção de perguntas sobre o que aconteceu na Guatemala.
— Vou providenciar.
— Desgosto disso tanto quanto você.
Maldito Barrera, pensa Keller, ao desligar o telefone.
Adán vive.
Elena Sánchez Barrera está relutante em admitir, até para si mesma, que seu irmão morreu.
A família manteve as esperanças durante um longo silêncio de dias, depois semanas, e agora meses, enquanto tentavam obter informações sobre o que acontecera em Dos Erres.
Até agora, não tinham nenhuma informação nova. Parece que nem as autoridades disseminaram o que sabiam aos escalões inferiores — como se metade do pessoal da justiça acreditasse no boato de que a morte de Adán tivesse sido uma cortina de fumaça para ajudá-lo a evadir da prisão.
Até parece, pensa Elena. A polícia federal é literalmente subsidiária do cartel de Sinaloa. O governo nos favorece porque o cartel paga bem, mantém a ordem e não é um grupo de selvagens. Portanto, a ideia de que Adán forjou a própria morte para evitar a captura é tão ridícula quanto quem acredita nela.
Se não foi a polícia, foi a mídia.
Elena já tinha ouvido o termo “circo da mídia”, mas nunca compreendera o significado de verdade até que os boatos sobre a morte de Adán começaram a circular. Então, ela foi cercada — repórteres tiveram até a audácia de acampar diante de sua casa, em Tijuana. Não conseguia sair pela porta sem ser assediada com perguntas sobre Adán.
— De quantas formas eu posso dizer que “eu não sei”? — indagou aos repórteres. — Só posso dizer que amo meu irmão e rezo por sua segurança.
— Então, pode confirmar que ele está desaparecido?
— Amo meu irmão e rezo por sua segurança.
— É verdade que seu irmão era o maior traficante de drogas do mundo?
— Meu irmão é um homem de negócios. Eu o amo e rezo por sua segurança.
Cada novo boato incitava um novo assédio.
— Ouvimos falar que Adán está na Costa Rica. — É verdade que ele está se escondendo nos Estados Unidos? — Adán foi visto no Brasil, Colômbia, Paraguai, Paris… — Só posso dizer que amo meu irmão e rezo por sua segurança. O bando de hienas teria comido a pequena Eva viva, deixando-a em
fiapos, se a tivessem encontrado. E não foi por falta de tentativa. A mídia invadiu Culiacán e Badiraguato. Um repórter ambicioso da Califórnia até rastreou o condomínio de Eva em La Jolla. Como não a encontraram, importunavam Elena.
— Onde está Eva? Onde estão os meninos? Há boatos de que eles foram
sequestrados. Estão vivos?
— A señora Barrera está reclusa — disse Elena. — Pedimos que
respeitem a privacidade dela nesse momento difícil.
— Vocês são pessoas públicas.
— Não somos. Somos empresários do ramo privado. Elena tinha se aposentado da pista secreta oito anos antes, quando
concordara em entregar a Plaza Baja para Adán, para que fosse repassada aos Esparza. E fizera aquilo de bom grado — estava cansada das matanças, da constância da morte, que vinha com o negócio, e ficou feliz em viver de seus muitos investimentos.
E Eva entende do comércio de drogas tanto quanto de partículas físicas.