A fronteira

Don Winslow · Capítulo 3 de 25 · parte 3/3

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A fronteira

LIVRO 1: Memorial

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Tem bom coração, é linda e tola. Porém, fértil. Tinha atendido a seu propósito. Dera a Adán filhos e herdeiros. Os meninos gêmeos, Miguel e Raúl. Elena se pergunta o que será deles.

Eva é uma jovem mexicana, uma jovem de Sinaloa. Com o pai e o

marido aparentemente mortos, deve sentir que precisa obedecer ao irmão, e Elena fica imaginando o que Iván tem dito a ela.

Eu sei o que eu diria, pensa Elena. Você é uma cidadã americana, assim

como os meninos. Tem dinheiro suficiente para viver como uma rainha pelo resto da vida. Pegue seus filhos e volte correndo para a Califórnia. Crie os dois longe desse negócio, antes que fiquem presos nisso por mais uma geração. Levará algum tempo, mas o circo da mídia vai acabar levantando acampamento e seguindo para próxima cidade.

Torcia para que isso acontecesse.

A alquimia bizarra daquela época vulgar em que viviam transformara

Adán em um precioso produto público: uma celebridade. Imagens dele — antigos retratos de fichas policiais, fotos aleatórias tiradas em eventos sociais — estampam as telas das televisões, os monitores de computadores, as capas de jornais. Os detalhes de sua fuga da cadeia, em 2004, são citados com um deleite empolgante. “Especialistas” participam de painéis e debates abordando o poder de Adán, sua riqueza e influência. “Testemunhas” mexicanas são entrevistadas para falar sobre a filantropia de Adán — as clínicas que ele construiu, as escolas, os playgrounds (para vocês, ele é um traficante de drogas; para nós, é um herói).

Cultura de celebridade, pensa Elena.

Um oximoro.

Mesmo que fosse possível controlar a imprensa tradicional, cercar as redes sociais é como tentar segurar mercúrio — a substância escorrega por entre os dedos e se fraciona em mais mil pedaços. A internet, o Twitter, o Facebook estão eletrizados com as “notícias” sobre Adán Barrera — cada boato, sussurro, alusão e fração de informação equivocada viralizaram. Por trás do anonimato digital estão pessoas de dentro da organização que sabem que não deveriam se pronunciar, mas que estão vazando o que sabem, misturando frações de verdade com um punhado de informações falsas.

E os boatos mais perniciosos de todos…

Os que alegavam que Adán está vivo.

Claro que não era Adán, na Guatemala, e sim um sósia. O Chefão dos Céus, mais uma vez, tinha sido mais esperto que seus inimigos.

Adán está em coma, escondido em um hospital em Dubai.

Eu vi Adán em Durango.

Em Los Mochis, Costa Rica, em Mazatlán.

Eu o vi num sonho. O espírito de Adán veio até mim e me disse que tudo ficará bem.

Assim como com Jesus, pensa Elena, a ressurreição é sempre possível quando não há um corpo. E exatamente como Jesus, Adán agora tem discípulos.

Elena caminha da sala de estar até a imensa cozinha. Pensou em vender a casa, em se mudar para um lugar menor, agora que os filhos são adultos e foram viver suas vidas. As empregadas estão ocupadas preparando o café da manhã e desviam o rosto, parecendo ainda mais ocupadas, para tentar evitar seus olhos. Os criados sempre ficam sabendo primeiro. De alguma forma, eles sempre sabem de cada morte, cada nascimento, cada noivado apressado, ou caso secreto, antes de todos.

Elena se serve de uma xícara de chá de ervas e sai para a varanda. Sua

casa fica nas colinas acima da cidade, e ela olha para baixo, para o caldeirão de fumaça poluída que é Tijuana, e pensa em todo o sangue derramado por sua família — tanto no sentido ativo, como no passivo — para controlar o lugar.

Seu irmão Adán e seu irmão Raúl — morto há muito tempo — fizeram

isso. Tomaram a Plaza Baja e a transformaram na base de um império nacional que se ergueu e caiu, reergueu e agora…

Agora Iván Esparza o tem.

Da mesma forma que terá a coroa de Adán.

Com os filhos de Adán ainda pequeninos, Iván é o próximo na linha de

sucessão. Mal haviam recebido a notícia da Guatemala e ele já estava pronto para declarar que, com seu pai e Adán mortos, iria assumir.

Elena e Núñez o convenceram a não tomar esse caminho. — É prematuro — dissera Núñez. — Ainda não sabemos, com certeza,

se eles estão mortos. E de qualquer maneira, você não vai querer essa posição no topo.

— Por que não? — questionara Iván.

— É perigoso demais — respondera Núñez. — Exposto demais. Na

ausência de seu pai e de Adán, nós não sabemos quem se manterá leal.

— Um pouco de ambiguidade na morte deles tem sua utilidade —

dissera Elena. — A dúvida quanto a eles poderem estar vivos mantém os lobos a distância. Mas, se você anunciar que o rei está morto, todos, desde os duques até os barões, dos cavaleiros até os camponeses, verão a fraqueza no cartel Sinaloa como uma chance de tomar o trono.

Iván concordara, relutante.

Ele é um clássico, um estereótipo de narco e mimado de terceira

geração. Esquentado, inclinado à violência. Adán não gostava dele, nem confiava nele, e receava quanto a ele assumir, quando Nacho morresse ou se aposentasse.

Eu também tenho esse receio, pensa Elena. Mas as únicas alternativas são seus próprios filhos. São sobrinhos verdadeiros de Adán, o sangue Barrera corre nas veias

deles. Seu filho mais velho, Rudolfo, já cumpriu a pena, no sentido figurado e no literal. Ele ingressou jovem no negócio da família, traficando cocaína de Tijuana para a Califórnia, e se deu muito bem durante anos — comprou boates, foi dono de grandes bandas de música e agenciou campeões de boxe. Tem uma linda esposa e lindos filhos.

Ninguém amava mais a vida que Rudolfo.

Então, ele vendeu 250 gramas de cocaína a um policial infiltrado da Narcóticos em um motel, em San Diego.

Duzentos e cinquenta gramas, pensa Elena. Que estupidez, uma ninharia. Remanejavam toneladas de cocaína nos EUA, e o pobre Rudolfo caíra por menos de meio quilo. O juiz americano o condenara a seis anos numa prisão federal.

Uma supermax.

Florence, Colorado.

Porque ele tinha o sobrenome “Barrera”.

Custou tudo que a família tinha — dinheiro, poder, influência, advogados, chantagem e extorsão —, mas eles o tiraram (bem, Adán o tirou) depois de apenas dezoito meses.

Apenas dezoito meses.

Um ano e meio em uma cela de dois e dez por três e sessenta, 23 horas por dia, sozinho. Uma hora por dia para um banho de sol ou um pouco de exercício em uma jaula, com um vislumbre do céu.

Quando ele voltou e atravessou a ponte Paso del Norte, adentrando Juárez, Elena mal o reconheceu. Esquelético, pálido, assombrado… um fantasma. Seu filho, amante da vida, aos 35 anos, mais parecia ter 60.

Isso tinha sido há um ano.

Agora, Rudolfo foca em seus negócios “legítimos”, nas boates em Culiacán e Cabo San Lucas, e na música, nas inúmeras bandas que produz e promove. Às vezes, fala em regressar a la pista secreta, mas Elena sabe que ele tem medo de algum dia voltar para a cadeia. Rudolfo diz que quer a cadeira da cabeceira da mesa, mas está mentindo para si mesmo.

Luis, o caçula não a preocupa. Foi para a faculdade para ser engenheiro, graças a Deus, e não quer nada com o negócio da família.

Melhor assim, pensa Elena.

Era isso que queríamos, não era? Essa sempre foi nossa intenção — que nossa geração fizesse a fortuna da família, para que nossos filhos não precisassem sujar as mãos. Porque o negócio nos trouxe fortuna inimaginável, mas também nos fez visitar vezes demais o cemitério.

Seu marido, seu tio — o patriarca “Tío Barrera” —, seu irmão Raúl e,

agora, seu irmão Adán, todos mortos. Seu sobrinho Salvador e tantos primos, cunhados e amigos.

E inimigos.

Güero Méndez, os irmãos Tapia, tantos outros que Adán derrotara.

Tinham brigado por “terras”, e, agora, a única terra que vão herdar e dividir é a do cemitério.

Ou as cadeias.

Ali no México, ou em el norte. Passando décadas, ou o resto da vida, em celas. Como mortos-vivos.

Portanto, se Rudolfo quer administrar uma boate e brincar de fazer

música, e Luis quer construir pontes, melhor assim.

Se o mundo permitir.

— Todos vamos morrer jovens mesmo! — anuncia Ric Núñez. — Vamos pelo menos virar lenda!

Tinha sido uma noite regada a pedras de metanfetamina e coca, na nova

boate de Rudolfo, a Blue Marlin. Bem, foi onde parte do grupo, informalmente conhecido como Los Hijos, tinha ido parar. Ric, os irmãos Esparza e Rubén Ascensión, junto com um punhado de garotas, tinham passado por todas as boates da moda em Cabo, indo de uma sala VIP a outra, geralmente deixando gorjetas volumosas, até chegarem à sala privativa na Marlin, onde Ric teve a ideia de levar a coisa a “outro nível”.

Ele sacou o 38 e pôs em cima da mesa.

Dá para imaginar as canções que irão compor?, pensa Ric. Os corridos

sobre gente jovem, os descendentes de cartéis de drogas, vestidos de Armani, Boss, Gucci; dirigindo Rolls, Ferraris; cheirando pó de primeira, fazendo chover notas de cem dólares, jogando tudo fora em um jogo?

Los Hijos andam juntos desde sempre. Frequentaram a mesma escola

em Culiacán, brincavam juntos nas festas dos pais, viajavam juntos de férias para Cabo e Puerto Vallarta. Saíam escondidos e bebiam cerveja juntos, fumavam baseado, pegavam garotas. Alguns cursaram uns semestres na faculdade, a maioria ingressou diretamente no negócio da família.

Eles sabiam quem eram.

A geração seguinte do cartel Sinaloa.

Os filhos.

Los Hijos.

E as garotas? Sempre arranjam as garotas mais lindas. Desde a escola, mas agora ainda mais. Claro que arranjam — eles têm boa pinta, roupas, dinheiro, drogas, armas. Eles têm influência, entram nas salas VIP, recebem as melhores mesas nos restaurantes, cadeiras na primeira fila e credenciais para os camarins em grandes shows; porra, as bandas cantam para eles, sobre eles. Os maîtres abrem portas e as mulheres abrem as pernas.

Los Hijos.

Agora, uma das piranhas de Iván pega o celular e grita:

— Daria um milhão de visualizações no YouTube!

Porra, que demais, pensa Ric. Alguém estourando os miolos em um vídeo clipe por conta de um desafio. Para mostrar ao mundo que não damos a mínima, que somos capazes de qualquer coisa, qualquer coisa.

— Certo, quem ficar com o cano apontado para si, bota o cano na cabeça e aperta o gatilho. Se sobreviver, a gente faz de novo.

Ele gira a arma.

Com força.

Todos ficam na expectativa.

O cano para apontado direto para ele.

Iván Esparza cai na gargalhada.

— Porra, se fodeu, Ric!

O mais velho dos irmãos Esparza sempre pegou no pé dele, desde que eram pequeninos. Duvidando que ele pulasse do despenhadeiro para dentro do lago. Vá em frente, eu duvido, duvido que você arrombe o portão da escola, que roube o uísque do papi, que desabotoe a blusa daquela garota. Já mamaram garrafas de vodca, aceleraram barcos de corrida um em direção ao outro, até a beira de abismos, mas, isso…

Em meio ao cântico “Aperta! Aperta! Aperta!”, Ric pega a pistola e põe junto à têmpora direita.

Igualzinho àquele policial yanqui fez.

O que fez aquela gracinha no rosto de Iván.

Já faz o que, quase um ano, e a cicatriz continua intensa, mesmo depois dos melhores cirurgiões plásticos que o dinheiro pode pagar. Iván não tem problema com isso, claro, alegando que a marca o faz parecer ainda mais macho.

E jurando que, um dia, vai matar aquele gringo Keller. A mão de Ric treme.

Bêbado e chapado como está, tudo o que quer neste mundo, neste

momento, é não apertar o gatilho. Só quer voltar alguns minutos no tempo, até o instante em que teve essa ideia imbecil, e não sugeri-la.

Mas agora está enrascado.

Não pode amarelar, não na frente de Iván e Oviedo, não diante de

Rubén. Principalmente, na frente de Belinda, a garota sentada ao seu lado, com uma jaqueta preta de couro, um bustiê de lantejoulas e um jeans pintado em seu corpo. Belinda é tão doida quanto linda, uma garota que topa qualquer parada. Agora, está dando um sorriso que diz Vá em frente, namorado. Faça, e eu vou deixá-lo muito feliz mais tarde.

Se você viver.

— Vamos, cara, abaixe isso — diz Rubén. — Foi brincadeira. Mas esse é o Rubén. O cauteloso, o cuidadoso... do que foi que Iván o

chamou, uma vez? “Freio de Emergência.” É, talvez, mas Ric sabe de quem Rubén é filho. El Perrito, “O cachorrinho”, é absolutamente letal, como seu velho.

Mas ele não parece letal agora, parece amedrontado. — Não, eu vou fazer — diz Ric.

Estão falando que não, e ele sabe que são sinceros, mas também sabe

que vão menosprezá-lo se der para trás. Porque teria amarelado. Mas, se apertar o gatilho e o tiro não sair, será o cara.

E é ótimo assistir Iván tendo um troço.

— Era brincadeira, Ric! Ninguém esperava que você fizesse! — grita

Iván.

Ele parece prestes a pular por cima da mesa, mas tem medo de que a

arma dispare. Todos estão paralisados, olhando Ric. De canto de olho, ele vê o garçom particular saindo de fininho pela porta.

— Abaixe a arma — diz Rubén.

— Certo, aí vai — anuncia Ric.

Está começando a apertar o gatilho quando Belinda tira a arma da sua

mão, enfia na boca e aperta o gatilho.

Descarregada.

— Porra, meu Deus do céu! — grita Iván.

Todos têm um ataque. A chava doida apertou mesmo o gatilho! Com toda a calma, ela coloca a arma de volta na mesa e diz:

— Próximo.

Só que Rubén guarda a arma, dizendo:

— Pronto, acho que acabou.

— Mariquinha — diz Belinda.

Ric sabe que se fosse um cara fazendo aquilo, a brincadeira teria que continuar, e Rubén apertaria o gatilho em si mesmo ou na boca de quem tivesse feito a provocação. Mas tinha vindo uma garota, uma chica, então estava tudo bem.

— Nossa, que adrenalina — diz Belinda. — Acho que gozei.

A porta abre e Rudolfo Sanchéz entra.

— Que diabo está acontecendo aqui?

— Nada, só estamos nos divertindo um pouco — responde Iván, assumindo a liderança.

— Eu ouvi — retruca Rudolfo. — Podem me fazer um favor? Se vocês querem se matar, não façam isso no meu estabelecimento, está certo?

Ele pede educadamente, mas se fosse outro dono de boate, haveria problema. Iván se sentiria na necessidade de enfrentá-lo, talvez dar-lhe umas bolachas, ou, ao menos causar algum estrago, quebrar umas merdas, e depois jogar algumas notas para cobrir os danos, antes de sair.

Mas esse não é um dono de boate qualquer.

Rudolfo é sobrinho de Adán Barrera, filho de sua irmã, Elena. Um pouquinho mais velho, porém hijo como eles.

Rudolfo olha para o grupo como quem diz, Por que estão na minha boate, criando confusão? Por escolheram logo aqui? Então, pergunta:

— O que eu diria aos seus pais, se deixasse que vocês estourassem os miolos na minha boate?

Então para, parecendo constrangido, lembrando só que o pai de Iván está morto, assassinado pelos zetas na Guatemala.

Ric sente-se mal por ele.

— Desculpe, ‘Dolfo. Todo mundo tá chapado.

— Talvez seja melhor a gente só pedir a conta.

— Está tudo certo — diz Rudolfo.

Mas Ric nota que ele não fala nada do tipo Não, por favor, fique. Tomem mais uma rodada. Todos se levantam, dizem boa noite para Rudolfo, agradecem — demonstra respeito — e saem para a rua.

Onde Iván explode.

— Aquele malandro pendejo, piche filho da puta lambioso! Ele se acha

engraçado? “O que eu diria aos seus pais?”

— Ele não quis falar desse jeito — fala Rubén. — Acho que só

esqueceu.

— Não dá pra esquecer uma coisa dessas! — retruca Iván. — Ele estava

me sacaneando! Quando eu assumir…

Ric interrompe:

— O cara nunca mais foi o mesmo, desde que voltou. Ao contrário de todos ali, Rudolfo foi para a cadeia. Cumpriu pena em

uma prisão americana de segurança máxima, e dizem que isso o arrasou, que ele voltou para casa meio maluco.

— O cara é fraco — concorda Iván. — Ele não conseguiu suportar. — Nenhum de nós conseguiria — afirma Rubén. — Meu velho diz que

a cadeia é a pior coisa que pode acontecer com alguém.

— Ele saiu de lá bem — retruca Ric. — Seu pai é durão. — Ninguém aqui sabe — repete Rubén.

— Porra nenhuma — diz Iván. — Essa é a nossa vida. Se você vai

preso, vai preso. Tem que segurar as pontas, agir feito homem.

— Rudolfo segurou — pondera Ric. — Ele não sacaneou, não entregou

nada.

— Seu tio o tirou de lá — afirma Iván.

— Que bom — diz Ric. — Bom para Adán. Ele teria feito o mesmo por

você.

Todos sabem que Adán também fez isso quando seu sobrinho, Sal, foi

pego por ter matado duas pessoas do lado de fora de uma boate. Adán fez um acordo para que as acusações fossem retiradas, e todos ouviram o boato de que ele entregou os irmãos Tapia. Isso iniciou uma guerra civil que quase destruiu o cartel.

E Sal foi morto mesmo assim.

Teve os miolos estourados por Eddie Ruiz, o doido. Sal deveria estar aqui, bebendo com a gente, pensa Ric. Vá com Deus, mano.

Iván percebe as garotas olhando para ele.

— O que estão olhando? Vão logo, entrem nas porras dos carros! Então, tão depressa quanto ficou irado, ele fica todo feliz outra vez.

Joga os braços em volta de Ric e Rubén e grita:

— Nós somos irmãos! Irmãos, para sempre!

E todos gritam:

— Los Hijos!

Depois de cheirar, beber e gozar, a garota cai no sono.

Belinda sacode a cabeça dela.

— Sem força. queria que Gabi estivesse aqui.

Ela vira pro lado e olha para Ric.

Merda, pensa ele, a chica quer de novo.

— Não dá.

— Vou te dar alguns minutos — diz Belinda.

Ela encontra um baseado na mesinha de cabeceira, dá um trago e oferece a ele.

Ric aceita.

— Foi uma maluquice, o que você fez hoje.

— Eu fiz pra livrar você — responde ela. — Você se colocou numa armadilha.

— Você podia ter morrido.

— Poderia — concorda ela, gesticulando para que Ric passasse o baseado. — Não morri. De qualquer maneira, é minha função proteger você.

Belinda Vatos — “La Fósfora” — era a jefa do FEN — Fuerza Especial de Núñez, o braço armado da facção de Núñez, do cartel Sinaloa. É incomum ter uma mulher nessa função, mas Deus sabe que ela mereceu o lugar, pensa Ric.

Começou como mensageira, depois, virou mula, então deu um grande passo e se ofereceu para matar o operador Zeta que estava infernizando o pessoal em Veracruz. O cara não esperava que uma jovem linda, com seios fartos e redondos e uma cabeleira preta ondulada se aproximasse para dar dois tiros na cara dele, mas foi isso que Belinda fez.

Ela e a amiga tinham uma técnica. La Gaby entrava em um bar, ficava um pouco, depois saía fingindo estar bêbada e caía na calçada. Quando o alvo vinha ajudá-la, La Fósfora saía do beco e estourava o cara.

Ric logo descobriu que Belinda tinha gostos mais exóticos. Ela, Gaby e alguns de seus homens gostavam de raptar as vítimas e picá-las em pedacinhos, depois espalhavam nos degraus da porta da casa da família, como um recado.

Uma mensagem bem clara.

La Fósfora se tornou uma estrela do narcotráfico, posando em seus

trajes sexy para fotos no Facebook e em vídeos no YouTube, com canções escritas sobre ela, e o pai de Ric a promoveu ao posto máximo da segurança, depois que o encarregado anterior foi mandado para a cadeia.

Ric transou com ela pela primeira vez em um desafio. — Seria como meter o pau na morte — disse Iván. — É, mas uma chava doida dessas deve ser uma delícia na cama —

imaginou Ric.

— Se você sobreviver — respondeu Iván. — Ela pode ser como uma

daquelas aranhas sabe? Aquelas que matam o macho depois de acasalar. De qualquer maneira, ouvi dizer que é lésbica.

— Ela é bi — Corrigiu Ric. — Ela me falou.

— Então vai fundo — desafiou Iván. — De repente, você pode fazer um

ménage.

— Ela disse que quer exatamente isso — disse Ric. — Ela e aquela

garota, a Gaby, e que eu posso pegar as duas.

— Só se vive uma vez.

Ric foi para a cama com Belinda e Gaby, e o troço mais doido foi que

ele se apaixonou por apenas uma delas. Ainda transava com um monte de mulheres, incluindo a esposa, de vez em quando, mas o que sentia por Belinda era especial.

— Nós somos almas gêmeas — explicara Belinda. — No sentido de que

nenhum de nós dois tem alma.

— Você não tem alma? — perguntara Ric.

— Eu gosto de ficar louca, gosto de transar com os caras, gosto de

transar com as garotas e gosto de matar pessoas — dissera Belinda. — Eu tenho alma, só não é uma alma lá muito boa.

De volta ao presente, Belinda olha para ele e fala: — De qualquer maneira, eu não podia deixar o príncipe herdeiro

estourar os próprios miolos.

— Do que você está falando?

— Pense bem — diz ela, devolvendo o baseado. — Barrera

provavelmente está morto. O Nacho morreu com certeza. Rudolfo é um zero. Seu pai? Adoro seu pai, mataria por ele, mas ele é um procurador. Você é o afilhado.

Ric responde:

— Você está falando merda. Iván é o próximo na fila.

— É o que eu acho. — Ela pega o baseado, pousa na mesinha e lhe dá um beijo. — Deita, baby. Se não consegue transar comigo, eu vou transar com você. Anda, me deixa transar com você. — Ela lambe o dedo e enfia na bunda dele. — Você gosta disso, não gosta?

— Você é foda...

— Ah, você vai ver a foda, baby. Vou foder com você. Bem gostoso.

E é isso que ela faz.

Com a boca e com os dedos. E quando ele está quase gozando, Belinda recua a boca, enfia os dedos com tudo e diz:

— Isso tudo pode ser seu. O cartel inteiro, o país inteiro, se você quiser.

Porque você é afilhado de Adán Barrera, ele a ouve dizer.

É o herdeiro por direito.

Aquele que é sagrado.

El Ahijado.

Passam-se semanas, depois meses, depois um ano.

O aniversário da famosa batalha na Guatemala coincide com o Dia dos Mortos, e altares provisórios para Adán Barrera surgem pelo país inteiro, até em Juárez — com fotos dele, velas, moedas, garrafinhas de birita e confete. Alguns são deixados intactos, enquanto outros são destruídos por teóricos da conspiração furiosos que alegam não haver necessidade de altares, pois “Adán vive”.

Para Keller, as festividades natalinas vêm e vão com pouca fanfarra. Ele se reúne com Marisol e Ana para um jantar discreto e uma troca de pequenos presentes, depois volta a Juárez e dá a Chuy um novo videogame, de que o garoto parece gostar. Os jornais da manhã seguinte trazem histórias de brinquedos que surgiram magicamente para as crianças pobres nos vilarejos rurais e em bairros urbanos em Sinaloa e Durango, dados pelo “Tío Adán”. Cestos de comida chegam às praças da cidade, presentes de “El Señor”.

Keller nem dá muita importância para a noite de Ano Novo. Ele e Marisol jantam cedo, tomam uma taça de champanhe, e trocam um beijo singelo. Ele já está na cama, antes do fim da contagem regressiva da Times Square.

Duas semanas após o início do ano, Chuy some.

Keller volta do mercado, e encontra a televisão desligada, os cabos do Xbox desconectados.

No quarto de Chuy, a mochila que Keller comprou sumiu, assim como

as poucas roupas que o garoto possui. A escova de dentes não está na prateleira de barro do banheiro. Parece que as tempestades que revolvem dentro da cabeça dele o fizeram partir. Pelo menos levou os remédios, conforme Keller descobre ao vasculhar o quarto.

Ele circula pelo bairro de carro, perguntando nas lojas e cafeterias

locais. Ninguém viu Chuy. Passa por locais no centro da cidade que os adolescentes frequentam, mas ninguém viu Chuy. Considerando a possibilidade de o garoto ter decidido ir para Valverde, ele liga para Marisol, mas ninguém o viu por lá.

Pensa que o garoto talvez tenha atravessado a ponte de volta para El

Paso, onde foi criado, então vai até lá e circula de carro pelo bairro, indaga alguns membros relativamente hostis de gangues, que de imediato julgam que ele é algum tipo de policial e dizem que não viram nenhum Chuy Barajos.

Keller recorre a antigos contatos da Narcóticos de El Paso e descobre

que Chuy é uma “pessoa de interesse” em diversos homicídios locais, ocorridos em 2007 e 2008 e que gostariam muito de falar com ele. De qualquer forma, vão ficar de olho e ligarão para Keller caso o encontrem.

Voltando a Juárez, Keller encontra Terry Blanco no balcão do San

Martin, na avenida Escobar, tomando uma caguama.

— Quem é esse garoto? — pergunta o policial quando Keller explica o

favor que quer.

— Você sabe quem. Você o vê quando faz a ronda na minha casa. — Só passo lá para me certificar que você está bem — retruca Blanco,

que já bebeu mais de uma cerveja. — São tempos difíceis, Keller. Não sabemos mais a quem enviar relatórios, não sabemos quem está no comando... Acha que ele está vivo?

— Quem?

— Barrera.

— Eu não sei. Você viu o garoto?

— Tem ideia de quantos garotos fodidos estão espalhados pelo México?

— pergunta Blanco. — Porra, só em Juárez? Centenas? Milhares? Um a mais, o que tem? O que esse representa para você?

Keller não tem resposta para isso, então simplesmente diz: — Apenas o recolha, se o vir. E leve o garoto até mim. — Claro, por que não?

Keller deixa um dinheiro no bar para a próxima cerveja de Blanco. Então, ele entra no carro, liga para Orduña e explica a situação.

— Esse Barajos estava na Guatemala? — pergunta Orduña.

— Sim.

— Ele foi testemunha?

— De quê, Roberto?

— Certo.

— Olha só, você tem uma dívida com esse garoto — afirma Keller. — Ele matou Forty.

Depois de um longo silêncio, Orduña diz:

— Nós vamos cuidar bem dele. Mas, Arturo, você sabe que as probabilidades de encontrar são…

— Eu sei.

Ínfimas.

A longa guerra das drogas deixou milhares de órfãos, destruiu famílias e desalojou adolescentes. E isso não inclui os milhares que fogem da violência das gangues na Guatemala, El Salvador e Honduras, passando pelo México, tentando encontrar refúgio nos Estados Unidos. Muitos não chegam.

Chuy agora, além de monstro, virou fantasma.

O Senador Ben O’Brien liga.

Ele está em El Paso e convida Keller para um encontro. Na verdade, o que ele diz é:

— Keller, deixa eu pagar uma cerveja.

— Onde você está hospedado?

— The Indigo. Na rua Kansas. Conhece?

Keller conhece. Ele vai de carro até a cidade e encontra O’Brien no bar do hotel. O senador está de volta às raízes, vestindo uma camisa de brim e botas Lucchese. O chapéu Stetson está pousado no colo. Cumprindo a palavra, ele traz um jarro de cerveja, serve um copo para Keller e diz:

— Eu vi uma coisa interessante quando estava dirigindo por El Paso hoje. Um cartaz feito à mão escrito “Adán vive”.

Keller não está surpreso — viu os mesmos cartazes em Juárez e ouviu falar que estão espalhados por Sinaloa e Durango.

— O que posso dizer? O homem tem seguidores.

— Ele está se tornando um Che Guevara — diz O’Brien.

— Imagino que a ausência só aumente o afeto no coração. — Você ouviu mais alguma coisa? Sobre a morte dele? — Não acompanho mais esse mundo.

— Não vem com essa.

Keller dá de ombros. É verdade.

— Você lê os jornais americanos? — pergunta O’Brien. — Só as colunas de esportes.

— Então você não sabe o que está acontecendo por aqui? Com a

heroína?

— Não.

— Muita gente da lei está comemorando a suposta morte de Barrera —

diz O’Brien —, mas o fato é que isso não desacelerou o fluxo de drogas nem um pouco. Na verdade, só piorou a coisa toda. Principalmente com a heroína.

O’Brien conta que, de 2000 a 2006, as overdoses fatais por heroína se

mantiveram relativamente estáveis, com cerca de 2 mil por ano. De 2007 a 2010, subiram para 3 mil. Mas, em 2011, chegaram a 4 mil; depois bateram 6 mil em 2012 e 8 mil em 2013.

— Para dar uma dimensão, de 2004 até agora, perdemos mais de 7 mil

militares no Iraque e no Afeganistão.

— Para dar uma dimensão — retruca Keller —, nesse mesmo período,

mais de 100 mil mexicanos foram mortos pela violência das drogas, com mais 22 mil desaparecidos. E essa é uma estimativa conservadora.

— Você está reforçando meu argumento — diz O’Brien. — A perda de

vidas que você cita no México, a epidemia de heroína que existe aqui, a milhões de pessoas atrás das grades... O que estamos fazendo, seja o que for, não está funcionando.

— Se você me chamou aqui para falar isso, desperdiçou o tempo de nós

dois. Agradeço pela cerveja, mas o que você quer?

— Eu represento um grupo de senadores e congressistas que têm o

poder e a influência para demitir o atual diretor geral da Narcóticos e indicar um novo — explica O’Brien. — E queremos que seja você.

Keller nunca foi de ficar chocado com facilidade, mas dessa vez não deu

para evitar.

— Com todo respeito, você está completamente fora de si. — O país está inundado de heroína, o uso está acima de oitenta por

cento e a maior parte vem do México — diz O’Brien. — Tenho constituintes que vão a cemitérios para visitar seus filhos.

— E eu vi garotos mexicanos sendo enterrados com empilhadeiras — conta Keller. — Aqui, ninguém se importa, ninguém dá a mínima. Mas bastou garotos brancos começarem a morrer parar dizerem que é uma “epidemia de heroína”..

— Estou pedindo que você passe a se importar — diz O’Brien.

— Eu já lutei a minha guerra.

— Crianças estão morrendo — diz O’Brien. — E não acho que você seja o tipo que simplesmente recebe a pensão e fica com o rabo na cadeira enquanto isso acontece.

— Quer apostar?

— Pense a respeito. — O’Brien desce da banqueta e entrega seu cartão a Keller. — Ligue pra mim.

— Não vou ligar.

— Veremos.

O’Brien o deixa ali, sentado.

Keller faz as contas — O’Brien disse que as mortes por heroína subiram ligeiramente em 2010, mas tiveram um pico em 2011. E voltaram a subir, em meados de 2012.

Tudo isso enquanto Adán estava vivo.

Aquele filho da puta, pensa Keller. Barrera que armou isso — seu último presente maligno ao mundo. Keller se lembra de Shakespeare, “O mal feito pelos homens persiste depois deles”.

Não é que é verdade?

O fantasma e o monstro.

Comem no Garufa, um lugar argentino na Bulevar Tomás Fernández. Caro pra cacete, mas queria levá-la a um lugar bacana. Keller come filé, Marisol pede salmão e come com seu apetite escancarado, algo que ele sempre gostou nela.

— O que você está escondendo de mim? — pergunta Marisol, pousando o garfo.

— Por que você acha que estou escondendo alguma coisa?

— Porque eu conheço você. Anda, o que é? Conta.

Quando ele fala sobre seu encontro com O’Brien, Marisol se recosta na cadeira.

— Arturo, meu Deus. Eu estou perplexa.

— Não é?

— Achei que você fosse persona non grata. — Eu também.

Ele conta o que O’Brien falou e qual foi sua resposta. Marisol está quieta.

— Meu Deus, você não acha que eu devo aceitar, acha? — pergunta

Keller.

Ela continua quieta.

— Você acha?

— Art, pense no poder que você teria. O bem que poderia fazer. Você

poderia fazer uma mudança real.

Keller às vezes se esquece do ativismo político dela. Agora se lembra da

mulher que acampou no Zócalo, na Cidade do México, para protestar contra a fraude nas eleições, de suas marchas pelo Paseo de la Reforma, para protestar contra a brutalidade policial. Tudo parte da mulher por quem se apaixonou.

— Você é cem por centro contra literalmente tudo que a Divisão de

Narcóticos faz.

— Mas você poderia mudar as diretrizes.

— Não sei, não ...

— Certo — retruca ela. — Vamos pensar de outra maneira. Por que

você não poderia mudar as coisas?

Keller expõe suas razões. A primeira é que já se afastou da guerra

contra as drogas.

— Mas talvez a guerra não tenha se afastado de você — considera ela. Quarenta anos são mais que o suficiente, argumenta Keller. Ele não é

um burocrata, não é afeito a política. Não tem certeza se consegue sequer voltar a morar nos Estados Unidos.

Marisol sabe que a mãe de Keller era mexicana, e que foi o pai era

americano que os levou para San Diego, depois os abandonou. Mas ele foi criado como americano — UCLA, os US Mariners — depois ingressou na DEA, a Divisão de Narcóticos, que o levou de volta ao México, e lá passou mais tempo de sua vida adulta do que nos EUA. Marisol sabe que ele sempre ficou dividido entre as duas culturas — Arturo tem um relacionamento de amor e ódio com ambos os países.

E Marisol sabe que ele se mudou para Juárez quase por culpa, por achar

que deve algo à cidade que sofreu tanto pela guerra que os Estados Unidos travam contra as drogas, a ponto de sentir uma obrigação moral de ajudar em sua recuperação — mesmo que fosse uma pequena contribuição, como pagar impostos, comprar mantimentos, manter a porta de casa aberta.

E que foi por isso que cuidou de Chuy, sua cruz pessoal.

Mas Chuy se foi.

— Por que você quer morar em Juárez? — pergunta Marisol. — E diga a verdade.

— Porque Juaréz é um lugar real.

— Isso é. E não dá para andar uma quadra sem lembrar da guerra.

— O que você quer dizer com isso?

— Que não há nada aqui para você, a não ser lembranças ruins e…

Ela para.

— O quê? — pergunta Keller.

— Tudo bem, e eu. Estar perto de mim. Sei que você ainda me ama, Arturo.

— Não posso evitar o que sinto.

— Não estou lhe pedindo isso. Mas, se você está recusando esse trabalho para ficar perto de mim, não faça.

Terminam de jantar e dão uma caminhada, algo que não poderiam fazer alguns anos antes.

— O que você está ouvindo? — pergunta Marisol.

— Nada.

— Exatamente — diz ela. — Nada de sirenes de polícia, nem ambulâncias. Nada de tiros.

— Pax Sinaloa.

— Será que vai durar?

Não, pensa Keller.

Isso não é paz, é um período de calmaria.

— Eu levo você de carro pra casa — oferece.

— É muito longe — retruca Marisol. — Por que simplesmente não fico na sua casa?

— O quarto de Chuy está vazio.

— E se eu não quiser ficar no quarto de Chuy?

Ele acorda bem cedo, antes do amanhecer, com um vento frio batendo nas paredes e sacudindo as janelas.

Engraçado como as grandes decisões da vida nem sempre vêm após um

grande momento ou uma grande mudança, apenas parecem se acomodar como algo inevitável, algo que você nem decidiu, mas sempre esteve decidido por você.

Talvez tenha sido o cartaz que decidiu.

“ADÁN VIVE”

Pois era verdade, pensa Keller naquela manhã. O rei pode ter partido,

mas seu reino permanecia. Espalhando tanto sofrimento e morte, quanto se Barrera continuasse no trono.

Keller precisa admitir outra verdade. Se alguém neste mundo pode

destruir esse reino, diz a si mesmo — pela força da história, experiência, motivação, conhecimento e habilidade —, esse alguém é você.

Marisol também sabe disso. Naquela manhã, quando ele volta para a

cama, ela acorda e pergunta:

— O que foi?

— Nada. Volte a dormir.

— Pesadelo?

— Talvez.

Ele ri.

— O que é?

— Acho que ainda não estou pronto para ser um fantasma. Nem viver

com fantasmas. E você estava certa, minha guerra não acabou.

— Você quer aceitar o trabalho.

— Sim. — Keller põe a mão por trás da cabeça dela e puxa para mais

perto. — Mas só se você vier comigo.

— Arturo…

— Nós usamos nossa tristeza como se fosse uma medalha — diz Keller.

— Arrastamos a dor por aí como uma corrente. Mas é um fardo pesado demais, Mari. Eu não quero deixar que isso nos derrote, que nos diminua ainda mais. Nós já perdemos tanta coisa, não vamos perder um ao outro. Seria uma perda grande demais.

— A clínica…

— Vou cuidar de tudo, prometo.

Eles se casam no México, no Monastério de Cristo, no Deserto, têm uma breve lua de mel em Taos, depois seguem de carro para Washington, onde o corretor de imóveis de O’Brien já providenciou algumas casas para que vejam.

Ficam encantados com uma na Hillyer Place e fazem uma oferta.

Na manhã seguinte, Keller começa a trabalhar.

Porque sabe que o fantasma voltou.

E que junto veio o monstro.