A Lista dos Meus Desejos
A gente sempre conta mentiras.
“Todos os sofrimentos são permitidos,
todos os sofrimentos são recomendados;
o importante é seguir em frente, é amar.”
FRANÇOISE LEROY, Le Futur intérieur
A gente sempre conta mentiras.
Por exemplo, sei perfeitamente que não sou bonita. Não tenho olhos azuis em que os homens se contemplem; em que tenham vontade de se afogar para que a gente mergulhe e os salve. Não tenho corpo de manequim; sou do tipo cheinha, gordinha, pronto. A que ocupa um lugar e meio. Os braços de um homem de compleição mediana não conseguem enlaçar completamente o meu corpo. Não tenho a graça daquelas a quem eles murmuram longas frases, com suspiros à guisa de pontuação; não. Atraio antes a frase curta. A fórmula brutal. O osso do desejo, sem invólucro; sem a gordura confortável.
Sei tudo isso.
E, ainda assim, antes de Jo chegar do trabalho, me acontece de subir ao nosso quarto e me plantar diante do espelho do armário — preciso lembrá-lo de prendê-lo na parede antes que um dia desses ele me esmague durante minha contemplação.
Fecho então os olhos e me dispo lentamente, como ninguém jamais me despiu. Sempre sinto um pouco de frio; fico arrepiada.
Quando estou completamente nua, espero um pouco antes de abrir os olhos. Saboreio. Divago. Sonho. Revejo os corpos perturbadores e lânguidos nos livros de pintura espalhados pela nossa casa; mais tarde, os corpos mais crus das revistas.
Em seguida, ergo lentamente as pálpebras, como se fosse em câmera lenta.
Observo meu corpo, os olhos pretos, os seios pequenos, minha boia de carne, minha floresta de pelos escuros, me acho bonita e, naquele instante, juro pra vocês, sou bonita, muito bonita mesmo.
Essa beleza me deixa profundamente feliz. Incrivelmente forte.
Me faz esquecer as coisas feias. O armarinho um pouco entediante. As fofocas e a loteria de Danièle e Françoise — as gêmeas donas do salão Coiff’Esthétique, contíguo ao armarinho. Essa beleza me faz esquecer as coisas imóveis. Feito uma vida sem histórias. Feito essa cidade pavorosa, sem aeroporto; essa cidade cinza, de onde é impossível fugir e aonde ninguém chega, nenhum ladrão de corações, nenhum cavaleiro branco montado num cavalo branco.
Arras. 42 mil habitantes, 4 hipermercados, 11 supermercados, 4 fast-foods, algumas ruas medievais, uma placa na rue Miroir-de-Venise indicando aos transeuntes e esquecidos que aqui nasceu Eugène-François Vidocq em 24 de julho de 1775. E depois meu armarinho.
Nua, deslumbrante diante do espelho, sinto que bastaria bater os braços para voar, leve e graciosa. Para meu corpo juntar-se aos dos livros de arte espalhados na casa de minha infância. Seria, então, belo como eles; definitivamente.
Mas nunca me atrevo.
O barulho de Jo, embaixo, sempre me surpreende. Um rasgo na seda de meu sonho. Visto-me às pressas. A penumbra cobre a alvura de minha pele. Conheço a beleza rara sob minhas roupas. Mas Jo nunca a vê.
Uma vez, ele me disse que eu era bonita. Isso faz mais de vinte anos, e eu tinha pouco mais de vinte anos. Estava elegante, vestido azul, cinto dourado, imitando Dior; ele queria fazer amor comigo. Seu elogio tinha por motivo as minhas belas roupas.
Estão vendo, a gente sempre conta mentiras.
Porque o amor não resistiria à verdade.
Jo é Jocelyn. Meu marido há vinte e um anos.
É parecido com Venantino Venantini, galã que fazia Mickey o gago em O trouxa, e Pascal o vilão em O testamento de um gângster. Maxilar enérgico, olhar triste, sotaque italiano sedutor, sol, pele dourada, arrulhos na voz capazes de arrepiar uma galinha, com a ressalva de que, no meu caso, o meu Jocelyno Jocelyni tem dez quilos a mais e um sotaque longe de aturdir as garotas.
Ele trabalha na Häagen-Dazs desde a abertura da fábrica, em 1990. Ganha dois mil e quatrocentos euros por mês. Sonha com um televisor tela plana para substituir o nosso velho Radiola. Com um Porsche Cayenne. Com uma lareira na sala. Com a coleção completa do James Bond em DVD. Com um relógio Seiko. E com uma mulher mais bonita e jovem do que eu: mas isso ele não me diz.
Temos dois filhos. Três, na verdade. Um menino, uma menina e um cadáver.
Romain foi concebido na noite em que Jo falou que eu era bonita, quando essa mentira me fez perder a cabeça, as roupas e a virgindade. Havia uma chance em milhares de eu engravidar na primeira vez e fui premiada. Nadine chegou dois anos depois e, desde então, nunca mais recuperei o peso ideal. Fiquei gorda, uma espécie de grávida vazia, um balão cheio de nada.
Uma bolha de ar.
Jo parou de me achar bonita, de me tocar; começou a passar a noite na frente do Radiola, tomando sorvetes que lhe davam na fábrica e depois bebendo cerveja 33 Export. E me acostumei a dormir sozinha.
sofrimento. Quando Uma noite, ele me acordou. Estava bem duro. Estava bêbado, chorava. Então assenti e naquela noite Nadège esgueirou-se em meu ventre e afogou-se em minhas carnes e meu saiu, oito meses mais tarde, era azul. Seu coração estava mudo. Mas tinha unhas sublimes, cílios compridos, e, mesmo sem jamais ter visto a cor de seus olhos, tenho certeza de que era bonita.
No dia do nascimento de Nadège, que foi também o de sua morte, Jo parou com as cervejas. Quebrou um monte de coisas na cozinha. Gritou. Falou que a vida era nojenta, que a vida era uma puta, uma puta escrota. Socou o peito, a testa, o coração e as paredes. Disse que a vida não dura nada. Isso é injusto. O negócio é aproveitar, puta merda, porque não temos tempo; meu bebê, continuou, falando de Nadège, minha filhinha, onde está você? Onde está minha pulguinha? Com medo, Romain e Nadine refugiaram-se no quarto e, a partir desse dia, Jo começou a sonhar com as belas coisas que tornam a vida mais suave e a dor menos profunda. Um televisor tela plana. Um Porsche Cayenne. James Bond. E uma mulher bonita. Ele estava triste.
Meus pais, por sua vez, me deram o nome de Jocelyne.
Havia uma chance em milhões de eu me casar com um Jocelyn e tinha de ser eu a premiada. Jocelyn e Jocelyne. Martin e Martine. Louis e Louise. Laurent e Laurence. Raphaël e Raphaëlle.
Paul e Paule. Michel, Michèle. Uma chance em milhões.
E fui a premiada.