A Lista dos Meus Desejos

Grégoire Delacourt · Capítulo 22 de 35

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A Lista dos Meus Desejos

Por um triz não tive um amante.

 

Logo depois do nascimento do corpinho morto de Nadège.

Quando Jo quebrou um monte de coisas dentro de casa e parou de beber oito ou nove cervejas por noite, chapado em frente ao Radiola.

Foi quando ele virou um crápula.

Bêbado, não passava de um grande legume. Um traste; tudo que uma mulher detesta num homem, vulgaridade, egoísmo, inconsequência. Mas continuava manso. Um legume. Um molho congelado.

Não, a sobriedade é que foi a responsável pela crueldade de Jo. No início, culpei sua abstinência. Ele substituíra suas dez cervejinhas pelo dobro de Tourtel. Parecia querer beber todas a fim de descobrir o famoso 1% de álcool que supostamente continham, segundo as informações minúsculas no rótulo, e alcançar a ebriedade que lhe faltava. Mas no fundo das garrafas e dele mesmo não havia senão esta malvadeza. Estas palavras incubadas em sua boca: foi seu corpo gordo que asfixiou Nadège. Todas as vezes que você se sentava, você a estrangulava. Meu bebê morreu porque você não cuidou dele. Seu corpo é uma lata de lixo, minha pobre Jo, uma grande e nojenta lata de lixo. Uma leitoa. Você é uma leitoa. A porra de uma leitoa.

Fiquei destroçada.

Eu não respondia. Ruminava que ele devia estar sofrendo de uma maneira atroz. Que a morte de nossa filhinha o enlouquecera e ele voltava aquela loucura contra mim. Foi um ano negro; trevas. Eu levantava durante a noite para chorar no quarto de Nadine, que dormia de punhos cerrados. Eu não queria que ela escutasse, que visse o quanto ele me machucava. Eu não queria aquele tipo de vergonha. Pensei cem vezes em fugir com as crianças e disse comigo que aquilo passaria. Que o sofrimento dele terminaria por ficar mais leve, voar; nos deixar. Há infortúnios tão pesados que somos obrigados a deixá-los partir. Não podemos guardar tudo, represar tudo. Eu esticava meus braços no escuro; abria-os, esperando que mamãe viesse aninhar-se neles. Rezava para que seu calor me irradiasse; que as trevas não me carregassem. Mas as mulheres estão sempre sozinhas em meio ao mal dos homens.

Se não morri nessa época, foi graças a uma frasezinha banal.

Depois, à voz que a pronunciara. Depois, à boca de onde ela saíra.

Depois, ao belo rosto no qual essa boca sorria.

— Posso ajudá-la? Nice, 1994.

Oito meses desde que enterráramos o cadáver de Nadège.

Caixão branco laqueado horrível. Duas pombas de granito alçando voo sobre a lápide. Eu vomitara, não aguentara. O doutor Caron me receitara uns remédios. E repouso. E ar puro.

Foi no mês de junho. Jo e as crianças ficaram em Arras. A fábrica, o fim das aulas; suas noites sem a minha presença; requentar pratos no micro-ondas, ver fitas no vídeo, filmes deploráveis a que ousamos assistir quando mamãe não está; noites a se dizerem ela voltará logo, as coisas vão melhorar. Um pequeno luto.

Contei ao doutor Caron que não suportava mais a crueldade de Jo. Dissera palavras que nunca pronunciara. Fraquezas; meus medos de mulher. Confessei o meu pavor. Senti vergonha, fiquei congelada, petrificada. Chorei, babei, aprisionada em seus velhos braços ossudos; suas pinças.

Chorei de nojo do meu marido. Dilacerei meu corpo assassino; a ponta do facão de carne desenhou gritos em meus antebraços, empapando meu rosto com meu sangue culpado.

Enlouqueci. A ferocidade de Jo me consumira, aniquilara minhas forças. Cortei minha língua para fazê-lo calar, furei meus ouvidos para não mais escutá-lo.

Assim, quando o doutor Caron pai me disse, com todo o seu mau hálito, vou lhe receitar um tratamento, sozinha, três semanas, vou salvá-la, Jocelyne, então seu mau hálito trouxe a luz.

E eu partira.

Nice, centro Saint-Geneviève. As irmãs dominicanas eram encantadoras. Vendo seus sorrisos, a gente diria não haver horror humano que elas não pudessem conceber e, consequentemente, perdoar. Seus rostos eram luminosos, como os das santas nos pequenos marcadores de página dos missais de nossa infância.

Eu dividia um quarto com uma mulher da idade que mamãe teria. Éramos, ela e eu, nas palavras das irmãs, pacientes leves.

Precisávamos de repouso. Reencontrar-nos. Redescobrir-nos.

Precisávamos nos amar novamente. Reconciliar-nos, enfim. Nosso status de pacientes leves permitia-nos sair.

Todas as tardes, depois da sesta, eu caminhava até a praia.

Uma praia desconfortável, coberta de cascalho. Se não houvesse o mar, julgaríamos um pequeno terreno baldio. Neste momento, quando olho para a água, o sol bate nas costas. Passo creme. Meus braços são muito curtos.

— Posso ajudá-la? Meu coração dá um pinote. Eu me viro.

Ele está sentado a dois metros de mim. Veste camisa branca e calça bege. Está descalço. Não vejo seus olhos por causa dos óculos escuros. Vejo a boca. Seus lábios da cor de uma fruta da qual acabam de sair aquelas duas palavras atrevidas. Eles sorriem. Então a presença atávica de todas as mulheres que resultaram em mim vem à superfície: — Isso não se faz.

— O que é que não se faz? Eu querer ajudá-la ou você aceitar? Meu Deus, ruborizo. Apanho a saída de praia, cubro os ombros.

— Eu estava de saída, de toda forma.

— Eu também — ele rebate.

Não nos mexemos. Meu coração dispara. Ele é bonito, não sou bonita. Ele é um predador. Um garanhão. Um cafajeste, tenho certeza. Ninguém aborda você assim em Arras. Nenhum homem se atreve a lhe dirigir a palavra sem perguntar antes se você é casada.

No mínimo, se está com alguém. Ele, não. Entra sem bater. Mete o ombro. O pé na porta. E isso me agrada. Levanto. Ele já está de pé.

Me oferece o braço. Eu me apoio. Meus dedos sentem o calor sob sua pele curtida. O sal deixou-lhe vestígios de um branco sujo.

Saímos da praia. Seguimos pelo Passeio dos Ingleses. Apenas um metro nos separa. Mais adiante, quando estamos defronte ao Negresco, sua mão segura meu cotovelo; como se eu fosse cega, ele me ajuda a atravessar. Gosto dessa vertigem. Fecho demoradamente os olhos, seja o que Deus quiser. Entramos no hotel. Meu coração dispara. Perco a razão. O que será que me deu? Vou pra cama com um desconhecido? Estou louca.

Seu sorriso, contudo, me tranquiliza. E sua voz.

— Venha. Eu lhe ofereço um chá.

Ele pede dois Orange Pekoe.

— É um chá leve, originário do Ceilão, ideal para se beber à tarde. Já foi ao Ceilão? Abaixo os olhos. Tenho quinze anos. Uma sentimental.

— É uma ilha no oceano Índico a menos de cinquenta quilômetros da Índia. Virou o Sri Lanka em 1972, quando...

Interrompo.

— Por que está fazendo isso? Ele pousa delicadamente sua xícara de Orange Pekoe. Então segura meu rosto em suas mãos.

— Ainda há pouco eu a vi de costas na praia e a imensa solidão de seu corpo me deixou perturbado.

Ele é uma coisa. Tipo Vittorio Gassman em Perfume de mulher.

Estendo então meu rosto, meus lábios buscam os seus, encontram. É um beijo raro, inesperado; um beijo quente com gosto de oceano Índico. Um beijo que dura, um beijo que diz tudo; minhas carências, seus desejos, meus sofrimentos, suas impaciências. Nosso beijo é meu sequestro; minha vingança; é todos os que não tive, o de Fabien Derôme no primário, o do meu tímido cavaleiro de “L’Étéindien”, o de Philippe de Gouverne a quem nunca ousei abordar, os de Solal, do príncipe encantado, de Johnny Depp e Kevin Costner antes dos implantes, todos os beijos com que sonham as adolescentes; os anteriores aos de Jocelyn Guerbette. Empurro lentamente meu desconhecido.

Meu murmúrio.

— Não.

Ele não insiste.

Se ele é capaz de ler minha alma só de olhar minhas costas, conhece agora, fitando meus olhos, meu pavor de mim mesma.

Sou uma mulher fiel. A maldade de Jo não é uma razão suficiente. Minha solidão não é uma razão suficiente.

Voltei para Arras no dia seguinte. A raiva de Jo passara. As crianças haviam preparado croque-monsieur e alugado A noviça rebelde.

Mas nada nunca é tão simples.