A Lista dos Meus Desejos

Grégoire Delacourt · Capítulo 10 de 35

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A Lista dos Meus Desejos

Jo me encontrou no chão, na cozinha — como eu encontrara mamãe na calçada, trinta anos atrás.

 

Íamos sair para fazer compras juntas quando notei que havia esquecido a lista na mesa da cozinha. Subi de novo; mamãe me esperou na calçada.

Quando voltei a descer, no exato momento em que saí na rua, eu a vi olhar em minha direção e escancarar a boca, mas não saiu nenhum som; seu rosto se contorceu, fez o mesmo esgar do horrível personagem do quadro de Munch, O grito, e murchou igual a um acordeão. Bastaram quatro segundos para eu me tornar órfã.

Corri, tarde demais.

Corremos sempre tarde demais quando alguém morre. Como se por acaso.

Houve gritos, uma freada. As palavras pareciam escorrer da minha boca, como lágrimas, me sufocando.

Apareceu então a mancha em seu vestido, entre suas pernas. A mancha aumentou a olhos vistos, como um tumor vergonhoso. Senti na garganta o frio de um bater de asas, a ardência de um arranhão; em seguida, após a boca do personagem no quadro e a da minha mãe, foi a vez de a minha se abrir e um pássaro voar por entre meus lábios grotescos. Vendo-se ao ar livre, emitiu um pio aterrador; seu grito congelante.

Um grito fúnebre.

Jo entrou em pânico. Julgou ser a gripe criminosa. Quis ligar para o doutor Caron, mas recobrei a consciência e o tranquilizei.

Não é nada, não tive tempo de comer, me ajude a levantar, vou me sentar cinco minutos e vai melhorar, vai melhorar. Você está toda quente, ele disse, com a mão na minha testa. Vai melhorar, estou dizendo, além de tudo, estou menstruada, é por isso que estou quente.

Menstruada. A palavra mágica. Que afasta a maioria dos homens.

Vou esquentar alguma coisa pra você, ele disse, abrindo a geladeira, a não ser que prefira pedir uma pizza. Sorri. Meu Jo. Meu anjo. Talvez a gente pudesse comer fora, uma vez na vida, murmurei. Ele sorriu, pegou uma Tourtel. Vou enfiar um casaco, minha gata, e sou todo seu.

Jantamos no vietnamita a duas ruas de casa. Não havia quase ninguém e me perguntei como faziam para se manter. Pedi uma sopa leve com macarrão de arroz (bunthan), Jo, peixe frito (chaca), e peguei sua mão na minha, como na época do nosso noivado, vinte anos atrás. Você está com os olhos brilhando, ele sussurrou, num sorriso nostálgico.

E se você pudesse ouvir meu coração batendo, pensei, temeria que ele explodisse.

Os pratos não demoraram a chegar; mal toquei na minha sopa. Jo fez beicinho. Não está boa? Abaixei lentamente os olhos.

Tenho de lhe contar uma coisa, Jo.

Ele deve ter sentido a importância de minha confissão. Largou os pauzinhos. Limpou delicadamente os lábios com o guardanapo de algodão — sempre procurava se esforçar nos restaurantes —, pegou minha mão. Seus lábios secos estremeceram. Não é nada grave? Posso ficar sossegado? Não está doente, Jo? Porque... porque se acontecesse alguma coisa com você, seria o fim do mundo, eu...

Lágrimas marejaram os meus olhos e ao mesmo tempo comecei a rir, uma risada próxima da felicidade. Eu morreria sem você, Jo. Não, Jo, não é nada grave, não se preocupe, sussurrei.

Eu queria dizer que te amo.

E jurei intimamente que, jamais, nenhuma soma de dinheiro compensaria perder tudo isso.