A Lista dos Meus Desejos
Sou feliz com Jo.
Ele não se esquece de nenhum de nossos aniversários. Nos fins de semana, passa o tempo na garagem, consertando coisas. Fabrica pequenos móveis, que vendemos nos bricabraques. Há três meses, instalou uma rede wi-fi, pois eu resolvera escrever um blog sobre meus tricôs. Às vezes, quando termina de comer, ele dá um beliscão na minha bochecha dizendo você é boazinha, Jo, você é uma boa menina. Eu sei. Pode parecer a vocês uma observação machista, mas vem do coração. Jo é desse jeito. O requinte, a leveza e a sutileza das palavras não são sua praia. Não leu muitos livros; prefere resumos a raciocínios; imagens a legendas. Gostava muito dos episódios de Columbo, porque o assassino ficava óbvio desde o início.
Pois eu gosto muito das palavras. Das frases longas, dos suspiros que se eternizam. Gosto muito quando as palavras às vezes escondem o que dizem; ou o dizem de uma maneira nova.
Quando eu era mais moça, fazia um diário. Parei no dia em que mamãe morreu. Ao cair, ela arrastou minha caneta, estilhaçando um monte de coisas.
Portanto, quando Jo e eu conversamos, sobretudo sou eu quem falo. Ele me escuta, bebendo sua cerveja falsa; às vezes chega a opinar com a cabeça, como se diz, para sinalizar que compreende, que se interessa por minhas histórias e, ainda que não seja verdade, é gentil de sua parte.
Nos meus quarenta anos, ele tirou uma semana de folga na fábrica, deixou as crianças na casa da mãe e me levou para Étretat.
Nos hospedamos no hotel da Agulha Oca, em regime de meiapensão. Passamos quatro dias maravilhosos, e, pela primeira vez na vida, achei que estar apaixonada era isso. Dávamos longos passeios de mãos dadas pelos penhascos; às vezes, quando não havia mais gente, ele me imprensava nas pedras, beijava minha boca e sua mão safada vinha se perder dentro de minha calcinha. Tinha palavras simples para descrever seu desejo. O básico do básico. Que tesão. Você me deixa louco. E uma noite, na hora violeta do penhasco de Aval, eu disse obrigada, disse me possua, e ele fez amor comigo ao ar livre, às pressas, brutalmente; e foi bom. Quando chegamos de volta ao hotel, estávamos com as faces vermelhas e a boca seca, feito adolescentes de pileque, essa é uma boa recordação.
Aos sábados, Jo gosta de vadiar com os colegas da fábrica.
Jogam cartas no Café Georget, conversam assuntos de homens; falam das mulheres, trocam seus sonhos, às vezes assobiam para meninas da idade de suas filhas, mas são bons sujeitos; ladram mas não mordem, como se costuma dizer; são nossos homens.
No verão, as crianças ficam na casa de amigos e Jo e eu descemos para o Sul, para três semanas em Villeneuve-Loubet, no camping do Sorriso. Lá, nos reencontramos com J. J. eMarielle Roussel, que conhecemos no local, casualmente, já se vão cinco anos — eles são de Dainville, só quatro quilômetros de Arras! —,e Michèle Henrion, de Villeneuve-sur-Lot, capital da ameixa, uma mulher mais velha que a gente, solteirona convicta; é porque ela gosta da fruta, declara Jo; gosta de cair de boca. Uma bebidinha descontraída, grelhados, sardinhas; a praia em Cagnes, em frente ao hipódromo, quando faz muito calor, uma ou duas vezes o Aquário, os golfinhos, os leões-marinhos e em seguida os tobogãs de água, nossos incansáveis gritos de pavor, que terminam em risadas e alegrias de criança.
Sou feliz com Jo.
Não é a vida que sonhavam minhas palavras no diário da época em que minha mãe era viva. Minha vida não tem a graça perfeita que ela me desejava à noite, quando vinha se sentar ao meu lado na cama; quando acariciava delicadamente meus cabelos, murmurando: você tem talento, Jo, você é inteligente, terá uma vida feliz.
Até as mães mentem. Porque também têm medo.