A Lista dos Meus Desejos
— Papai, ganhei dezoito milhões.
Meu pai olha para mim. Não acredita no que ouve. Sua boca se abre num sorriso. Que se transforma em riso. Um riso nervoso no início, que se transforma em alegria. Enxuga as pequenas lágrimas que cintilam em seus olhos. Formidável, filhinha, deve estar contente.
Contou à sua mãe? Sim, contei à mamãe. E o que vai fazer com todo esse dinheiro, Jocelyne, você tem uma ideia? Pois é, papai, não sei.
Como não sabe? Todo mundo saberia o que fazer com uma soma dessas. Você pode ter uma vida nova. Mas gosto da minha vida, papai. Você acha que, se Jo soubesse, continuaria a me amar como sou? Você é casada?,ele me pergunta. Abaixo os olhos. Não quero que veja minha tristeza. Você tem filhos, querida? Porque, se for o caso, mime-os; nunca damos atenção suficiente a nossos filhos. Será que eu mimo você, Jo? Sim, papai, todo dia. Ah, isso é bom. Eu e sua mãe damos boas risadas com você, mesmo quando trapaceia no Banco Imobiliário e jura que é inocente, que a nota de quinhentos estava ali, na pilha de suas notas de cinco. Sua mãe é louca por você.
Todas as noites, quando você chega, assim que ouve sua chave na fechadura, ela faz um gesto muito bonito: arruma a mecha que ultrapassa um pouco sua orelha e se olha furtivamente no espelho, quer estar bonita para você. Quer ser seu presente. Quer ser sua Bela, sua Bela do Senhor. Acha que sua mãe vai chegar?,porque ela ficou de me trazer o jornal e o creme de barbear, o meu acabou. Ela vai chegar, papai, ela vai chegar. Ah, está bem, está bem. Como é o seu nome mesmo? Seis minutos passam depressa.