A Lista dos Meus Desejos

Grégoire Delacourt · Capítulo 16 de 35

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A Lista dos Meus Desejos

Eu havia escondido o cheque debaixo da palmilha de um sapato velho.

 

Às vezes, à noite, esperava Jo começar a roncar, saía da cama e andava sem fazer barulho até o armário para mergulhar a mão no sapato e puxar o tesouro de papel. Então me trancava no banheiro e, ali, sentada na tábua do vaso, desdobrava o papel e o contemplava.

Os algarismos me davam tontura.

No meu aniversário de dezoito anos, papai me presenteara com o equivalente a dois mil e quinhentos euros. É muito dinheiro, ele falou. Com isso, pode pagar a cautela do apartamento, fazer uma bela viagem, comprar todos os livros de moda que quiser, um carrinho usado se preferir; e ele então me parecera riquíssimo. Hoje compreendo que fui rica de sua confiança; o que é a maior riqueza do mundo.

Clichê, eu sei. Mas verdadeiro.

Antes de sofrer o AVC que desde então o prende a um ciclo de seis minutos de presente, ele trabalhou mais de vinte anos na ADMC, a indústria química de Tilloy-les-Mofflaines, a quatro quilômetros de Arras. Supervisionava a fabricação do cloreto de didecil amônio e do glutaraldeído. Mamãe exigia que ele passasse sistematicamente pelo chuveiro tão logo botava os pés em casa.

Papai sorria, prestando-se de boa vontade àquela exigência. Se o glutaraldeído era efetivamente solúvel na água, este não era o caso do cloreto de didecil. Mas lá em casa os tomates nunca ficaram azuis, os ovos não começaram a explodir e tentáculos não nos empurraram pelas costas. Milagres a serem creditados à milagrosa ação do sabonete de Marselha.

Mamãe ensinava desenho às classes primárias e às quartas-feiras à noite dirigia a oficina de modelo vivo no museu de Belas-Artes. Tinha um maravilhoso traço a lápis. O álbum de fotografias de nossa família era um caderno de desenhos. Minha infância se assemelha a uma obra de arte. Mamãe era bonita, e papai a amava.

Olho para este maldito cheque, e é ele que me encara.

Que me acusa.

Sei que a gente nunca dá atenção suficiente aos pais e quando tomamos consciência disso já é tarde. Para Romain, não passo de um número de telefone na memória de um celular, recordações de férias em Bray-Dunes e alguns domingos na baía de Somme. Não o cerco de mimos, como tampouco cerquei meus pais. Sempre transmitimos nossos erros. Nadine é diferente. Ela não fala. Ela dá. Cabe a nós decodificar. Receber. Desde o último Natal ela me envia seus curtas de Londres, pela internet.

O último dura um minuto.

Há apenas um único plano e efeitos de zoom um tanto bruscos. Vemos uma velha numa plataforma da Victoria Station. Ela tem cabelos brancos; diríamos uma grande bola de neve. Ela desembarcou de um trem, dá alguns passos, descansa a mala pesada no chão. Olha em volta; a multidão a contorna, como a água um seixo; e então, num abrir e fechar de olhos, ela está absolutamente só, minúscula, esquecida. A mulher não é uma atriz. A multidão não é uma multidão de figurantes. É uma imagem real. Pessoas reais. Uma história real. Um mero destroço. Como trilha sonora, Nadine escolheu o adagietto da quinta sinfonia de Mahler e fez desse minuto o minuto mais perturbador que me foi dado ver sobre a dor do abandono. Da perda. Do medo. A morte.

Dobro o cheque. Eu o esgano em meu punho.