A Lista dos Meus Desejos

Grégoire Delacourt · Capítulo 12 de 35

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A Lista dos Meus Desejos

Tenho um compromisso na sede da Central Lotérica, em Boulogne-Billancourt, periferia de Paris.

 

Peguei o trem hoje cedo. Disse a Jo que precisava visitar uns fornecedores; Synextile, Eurotessile e FilagilSabarent. Chegarei tarde, não me espere. Tem peito de frango na geladeira e ratatouille para requentar.

Ele me acompanhou até a estação, depois correu para a fábrica a fim de não perder a hora do estágio.

No trem, penso nos sonhos das gêmeas, em suas desilusões todas as noites de sexta-feira quando as bolinhas caem e mostram outros números que não seus números matutados, seus números pensados, pesados, sopesados.

Penso em minha comunidade do dedosdeouro, nas cinco mil Princesas Aurora que sonham espetar o dedo no fuso de suas rocas e ser acordadas com um beijo.

Penso nos ciclos de seis minutos de papai. Na banalidade das coisas. No que o dinheiro jamais conserta.

Penso em tudo o que mamãe não teve, em tudo com que sonhava e eu poderia lhe oferecer agora; uma viagem pelo Nilo, um casaco Saint Laurent, uma bolsa Kelly, uma faxineira, uma coroa de cerâmica em vez dessa horrível coroa de ouro que entristece seu maravilhoso sorriso, um apartamento na rue des Teinturiers, uma noite em Paris, Moulin Rouge e Mollard, o rei das ostras, e netos. Ela dizia: “As avós são as melhores mães, uma mãe precisa fazer muita coisa para se tornar uma mulher.” Sinto tanta falta de minha mãe quanto no dia de seu tombo. Sempre sinto frio ao seu redor. Sempre choro. A quem devo dar dezoito milhões, quinhentos e quarenta e sete mil, trezentos e um euros e vinte e oito centavos para que ela volte? Penso em mim, em tudo o que poderia fazer agora e não tenho vontade de nada. Nada que todo o ouro do universo possa oferecer. Mas será este o caso de todo mundo? A recepcionista é encantadora.

Ah! é da senhora o bilhete de Arras. Ela me faz esperar numa saleta, me oferece algo para ler, sugere chá ou café; obrigada, já bebi três hoje de manhã, e me sinto imediatamente estúpida e profundamente caipira. Pouco depois, ela volta para me buscar e me acompanha até o gabinete de um certo Hervé Meunier, que me recebe de braços abertos, ah, a senhora nos deu calafrios, disse rindo, mas enfim, está aqui e é o que importa. Sente-se, por favor. Sinta-se à vontade. A senhora está em sua casa. Minha casa é um amplo gabinete; o carpete é grosso, deslizo discretamente um pé para fora dos meus sapatos de salto baixo para acariciá-lo, afundar-me um pouco nele; uma climatização suave espalha um ar agradável e, do outro lado dos vidros, há outros prédios de escritórios. Diríamos imensos quadros, Hopper em preto e branco.

É aqui o ponto de partida das vidas novas. É aqui, diante de Hervé Meunier, que descobrimos a poção mágica. É aqui que recebemos o talismã que transforma a vida.

O Graal.

O cheque.

O cheque nominal. Para Jocelyne Guerbette. Um cheque no valor de 18.547.301 euros e 28 centavos.

Ele me pede o bilhete, bem como a carteira de identidade.

Verifica. Dá um breve telefonema. O cheque estará pronto dentro de dois minutos, deseja um café? Temos toda a gama Nespresso. Dessa vez, não respondo. Como preferir. Pois sou viciado no Livanto, ele tem uma característica untuosa, hum, suave, aveludada, bom, ehh, enquanto isso, recompõe-se, gostaria de lhe apresentar um colega.

Na realidade, a senhora precisa conhecê-lo.

É um psicólogo. Eu não sabia que possuir dezoito milhões era uma doença. Mas me abstive de qualquer comentário.

O psicólogo é uma psicóloga. Lembra Emmanuelle Béart; como ela, tem lábios de Pata Margarida, lábios tão inchados, diz o meu Jo, que explodiriam se mordêssemos. Usa um tailleur preto que valoriza sua plástica (como em cirurgia); estende-me uma mão ossuda e diz que não vai demorar. Precisa de quarenta minutos para me explicar que o que está acontecendo representa uma bênção e um infortúnio. Sou rica. Poderei comprar o que quiser. Poderei dar presentes. Mas atenção. Devo desconfiar. Porque, quando temos dinheiro, passamos a ser amadas de uma hora para outra.

Desconhecidos apaixonam-se subitamente. Vão pedi-la em casamento. Enviar-lhe poemas. Cartas de amor. Cartas de ódio. Vão pedir dinheiro para pagar o tratamento da leucemia de uma garotinha chamada Jocelyne, sua xará. Vão enviar fotografias de um cão martirizado e pedir para ser sua madrinha, sua salvadora; vão prometer-lhe um canil com seu nome, bombons, patê, um concurso canino. A mãe de um miopata lhe mandará um vídeo perturbador, no qual a senhora verá seu filhinho cair em uma escada e bater a cabeça na parede e ela pedirá dinheiro para instalar um elevador na casa. Outro lhe enviará fotografias da própria mãe babando e fazendo cocô na roupa e lhe pedirá, os olhos cheios de lágrimas e dor, que ajude a pagar uma enfermeira em domicílio, chegará a lhe enviar o formulário para que possa deduzir essa despesa dos impostos. Uma Guerbette de Pointe-à-Pitre descobrirá que é sua prima e lhe pedirá o dinheiro da passagem para ir visitá-la, depois dinheiro para um conjugado, depois dinheiro para lhe apresentar seu amigo curandeiro que a fará perder aqueles quilinhos a mais. Não falo dos banqueiros. Todos eles um doce, um mel instantâneo.

Madame Guerbette pra cá, salamaleques pra lá. Tenho investimentos sem encargos. Invista nos Dom. A lei Malraux. A Scellier. O ouro, a prata e as pedras preciosas. Eles não lhe falarão de impostos. Da taxa sobre a riqueza. Dos controles fiscais. Nem de despesas.

Sei de que doença fala a psicóloga. É a doença dos que não ganharam, são seus próprios medos que tentam me inocular, como uma vacina do mal. Protesto. Em contrapartida, há pessoas que sobreviveram. Ganhei apenas dezoito milhões. E os que ganharam cem, cinquenta, ou mesmo trinta? Justamente, me responde a psicóloga com um ar misterioso, justamente. Então, somente agora, aceito um café. Um Livato, acho, ou Livantino talvez, untuoso em todo caso. Uma pedrinha de açúcar, obrigado. Houve muitos suicídios, ela me informa. Inúmeras depressões, divórcios, ódios, dramas. Até facadas. Ferimentos provocados por agressões.

Queimaduras com gás. Famílias dilaceradas, destruídas. Noras enganadas, genros alcoólatras. Crimes encomendados; exatamente como nos filmes de segunda. Tive um sogro que prometeu mil e quinhentos euros a quem eliminasse sua mulher. Ela ganhara um pouco menos de setenta mil euros. Um genro que cortou duas falanges para conseguir um cartão de crédito ilimitado. Assinaturas falsas, escrituras falsas. O dinheiro enlouquece, sra. Guerbette, é a causa de quatro em cada cinco crimes. De uma depressão em cada duas. Não tenho conselhos a lhe dar, concluiu, apenas esta informação. Dispomos de uma célula de apoio psicológico, se precisar. Ela pousa a xícara de café na qual não molhou seu beiço de pata. Avisou aos parentes? Não, respondo. Ótimo, diz ela; podemos ajudá-la nisso, a encontrar palavras que minimizem o choque, porque será um choque, você vai ver. Tem filhos? Aquiesço. Pois bem, eles não a verão mais simplesmente como mãe, mas como uma mãe rica, e irão querer sua parte. E seu marido; talvez ele tenha um emprego modesto, pois bem, vai querer parar de trabalhar, cuidar da fortuna de vocês, digo fortuna de vocês porque ela pertencerá tanto a ele quanto à senhora, uma vez que ele a ama, ah, sim, ele lhe dirá que a ama, mandará flores nos próximos dias e meses, sou alérgica, interrompo-a, ...chocolates, o diabo a quatro, em todo caso vai adulá-la, hipnotizá-la, envenená-la. É um roteiro escrito antecipadamente, sra. Guerbette, escrito há muito, muito tempo, a cobiça queima tudo à sua passagem; lembre-se dos Bórgia, dos Agnelli e, mais recentemente, dos Bettencourt.

Ela me obriga então a jurar que compreendi perfeitamente tudo o que falou. Estende-me um papel de grife com quatro números de emergência; não hesite em nos ligar, sra. Guerbette, e não se esqueça, de agora em diante será amada pelo que não é. Em seguida, me conduz novamente até o sr. Hervé Meunier.

Que sorri com todos os seus dentes.

Seus dentes lembram os do vendedor do nosso primeiro carro usado, meu e do Jo, um Ford Escort azul 1983, um domingo de março no estacionamento do Leclerc. Chovia.

Seu cheque, ele diz. Aqui está. Dezoito milhões, quinhentos e quarenta e sete mil, trezentos e um euros e vinte e oito centavos, articulou lentamente, como se fosse uma condenação. Tem certeza de que não prefere uma transferência bancária? Tenho certeza.

Na verdade, não tenho certeza de mais nada.