A Lista dos Meus Desejos
Pois, afinal, o que era minha vida?
Uma infância feliz — até o auge de meus dezessete anos, até o Grito de mamãe e, um ano depois, o AVC de papai e seus alumbramentos infantis a cada seis minutos.
Centenas de desenhos, de pinturas retratando os dias maravilhosos; a excursão maluca de calhambeque até os castelos do Loire, Chambord, onde caí na água e papai e outros senhores mergulharam para me socorrer. Outros desenhos; autorretratos de mamãe, nos quais está radiosa, cujos olhos não parecem refletir nenhum sofrimento. E uma pintura do casarão onde nasci, em Valenciennes, mas do qual não me lembro.
Meus anos de colégio, simples e calmos. No fundo, até mesmo o não beijo de Fabien Derôme foi uma bênção. Ele me ensinou que as feias também sonham com os mais bonitos, mas que entre elas e eles existem todas as beldades do mundo; inúmeras e intransponíveis montanhas. Então eu procurara ver a beleza onde ela se escondia para mim agora: na gentileza, na honestidade e na delicadeza, e isso foi Jo. Jo e sua brutal ternura que derrubaram meu coração, esposaram meu corpo e fizeram de mim sua mulher. Sempre fui fiel a Jo; até mesmo nos dias de tormenta, até mesmo nas noites de tempestade. Amava-o a despeito dele, da maldade que deformou seus traços e o fez dizer coisas tão horríveis quando Nadège veio a morrer no umbral de meu ventre; como se, colocando o nariz do lado de fora, ela houvesse aspirado o ar, provado do mundo e decidido que ele não lhe agradava.
Meus dois filhos vivos e nosso anjinho foram minha alegria e minha melancolia; ainda tremo às vezes por Romain, mas sei que o dia em que ele se sentir machucado e não houver ninguém para curar suas feridas, é para cá que ele voltará. Para os meus braços.
Eu gostava da minha vida. Gostava da vida que Jo e eu havíamos construído. Gostava da maneira como as coisas medíocres embelezaram-se aos nossos olhos. Gostava da nossa casa simples, confortável, amiga. Gostava do nosso jardim, da nossa modesta horta e dos miseráveis tomates-cereja que ela nos oferecia. Gostava de cultivar a terra gelada com meu marido. Gostava de nossos sonhos de primaveras próximas. Esperava, com o fervor de uma jovem mãe, ser avó um dia; aventurava-me nos bolos copiosos, nos crepes irresistíveis, nos chocolates densos. Queria novamente cheiros de infância em nossa casa, outras fotografias na parede.
Um dia eu instalaria um quarto no térreo para o papai, cuidaria dele e, a cada seis minutos, reinventaria uma vida para mim.
Eu gostava das milhares de Isoldas no dedosdeouro. Gostava de sua gentileza, calma e poderosa, como se fosse um rio; regeneradora feito um amor de mãe. Gostava daquela comunidade de mulheres, de nossas vulnerabilidades, nossas forças.
Gostava profundamente da minha vida e soube disso no exato instante em que ganhei esse dinheiro que estragaria tudo, e por quê? Por um pomar maior? Tomates mais consistentes, mais vermelhos? Uma nova variedade de tangerinas? Uma casa maior, mais luxuosa; uma banheira com marolas? Por um Cayenne? Uma volta ao mundo? Um relógio de ouro, diamantes? Seios falsos? Plástica no nariz? Não. Não. E não. Eu possuía o que o dinheiro não podia comprar, mas apenas destruir.
A felicidade.
Minha felicidade, em todo caso. Minha. Com seus defeitos.
Suas banalidades. Suas pequenezas. Mas minha.
Imensa. Fulgurante. Única.
Portanto, alguns dias após regressar a Paris com o cheque, tomei minha decisão: decidi queimar aquele dinheiro.
Mas o homem que eu amava o havia roubado.