A Lista dos Meus Desejos
Foi o pó do reboco no salto do sapato que me deu a prova antes que eu visse.
Jo consertara o suporte do armário, mas, principalmente, fixara-o na parede porque ele ameaçava cair havia um bocado de tempo. Fizera dois grandes buracos no fundo do armário, bem como na parede, o que explicava o pó do reboco no armário e nos meus sapatos.
Fixado o armário, ele provavelmente quis espanar o pó farinhento de meus sapatos e foi então que descobriu o cheque.
Quando? Quando o encontrara? Desde quando sabia? Desde que eu regressara de Paris, quando foi me buscar na estação? E murmurara ao meu ouvido que estava feliz com a minha volta? Antes de Le Touquet? Levara-me até lá sabendo o mal que me causaria? Pegou minha mão na praia já sabendo que me trairia? E quando brindamos juntos na sala do restaurante do hotel e ele exprimiu o desejo de que nada mudasse e tudo durasse, já ria da minha cara? Preparava sua evasão de nossa vida? Ou teria sido depois, ao chegarmos em casa? Eu não me lembrava do dia em que ele fixara o armário. Não estava em casa e ele não dissera nada. Tratante. Ladrão.
Claro, liguei para a sede da Nestlé, em Vevey.
Não existia Jocelyn Guerbette. A telefonista riu muito, quando insisti, quando lhe contei que ele estava passando a semana com eles, fazendo estágio de gerente e chefe de unidade para a fábrica Häagen-Dazs, de Arras, sim, sim, Arras, senhorita, na França, no Pas-de-Calais, código postal 62000. Ele lhe contou uma lorota, minha cara. Aqui é a sede da Nestlé Worldwide, acha que aqui formamos gerentes ou estoquistas?, claro que não. Avise à polícia se quiser, veja se ele não tem uma amante, mas acredite, madame, ele não se encontra aqui. Ela deve ter sentido claramente que eu estava surtando um pouco, porque, num dado momento, sua voz ficou mais amistosa e, antes de desligar, ela acrescentou um sinto muito.
Na fábrica, o chefe de Jo confirmou o que eu já presumia.
Ele pedira uma semana de folga e não aparecera nos últimos quatro dias; deve voltar na próxima segunda.
É o que você pensa. Não verá mais o Jo. Ninguém mais verá esse safado. Com dezoito milhões no bolso, o passarinho voou.
Evaporou. Raspou o último e do meu prenome e, num passe de mágica, o cheque ficou no seu nome. Jocelyne sem e. Jocelyn Guerbette. Em quatro dias, teve tempo de ir para os cafundós do Brasil. Do Canadá. Da África. Da Suíça, talvez. Dezoito milhões instalam uma distância entre você e o que você deixa pra trás.
Uma distância absurda, impossível de percorrer.
A recordação do nosso beijo, cinco dias antes. Eu sabia. Era o último beijo. As mulheres sempre adivinham essas coisas. É um dom que temos. Mas eu não me dera ouvidos. Brincara com o fogo.
Quisera acreditar que Jo e eu era para sempre. Aquela noite eu deixara sua língua acariciar a minha com aquela incrível doçura sem ousar deixar meu medo se expressar.
Acreditara que, depois de sobreviver à insuportável tristeza da morte de nossa filhinha, depois das cervejas vagabundas, das ofensas, da ferocidade e das mágoas, do amor brutal, animal, éramos inseparáveis, unidos, amigos.
Eis por que aquele dinheiro me assustara.
Eis por que eu calara o inacreditável. Represara a histeria. Eis por que, no fundo, não quis. Pensara que, se lhe desse o seu Cayenne, ele sumiria com ele, zarparia para longe, na velocidade do raio, não voltaria mais. Realizar os sonhos dos outros era correr o risco de destruí-los. Seu carro, ele que o comprasse sozinho. Em nome de seu orgulho. De seu miserável orgulho de homem.
Eu não estava enganada. Pressentira que aquele dinheiro seria uma ameaça para nós dois. Que era fogo. Caos incandescente.
Sabia, na carne, que, se podia fazer o bem, aquele dinheiro também podia fazer o mal.
A Pata Margarida tinha razão. A cobiça queima tudo à sua passagem.
Eu achava que meu amor era um dique. Uma barragem intransponível. Não ousara imaginar que Jo, o meu Jo, me roubaria.
Trairia. Abandonaria.
Destruiria minha vida.