A Lista dos Meus Desejos
Ali está ele, o nosso fujão.
Ficou pequenininho, encolheu. Sua testa está grudada no vidro do trem que corre e cuja velocidade desenha campos impressionistas e magistrais. Ele dá as costas para os outros passageiros, como uma criança manhosa; não se trata de manha, mas de traição, de punhalada.
Ele descobrira o cheque. Esperara que ela falasse. Levara-a a Le Touquet para isso; para nada. Então adivinhara Jocelyne, pressentira sua necessidade de calma, sua ternura pelas coisas duradouras. Pegara o dinheiro porque ela iria queimá-lo. Ou doá-lo. Vitimas de miopatia babões, pequenos cancerosos luzidios. Era mais dinheiro do que ele poderia ganhar em seiscentos anos de Häagen-Dazs. Agora ele soluça a semente de uma autorrepulsa, a aterradora eclosão. A passageira ao lado, sussurrando, pergunta: está tudo bem, cavalheiro? Ele a tranquiliza com um gesto cansado. O vidro do trem esfria sua testa.
Ele se lembra da mão doce e fresca de Jocelyne quando ele foi quase levado pela febre maligna. As imagens bonitas sempre voltam à superfície quando queremos afogá-las.
Quando o trem chega à estação de Bruxelas-Midi de madrugada, ele espera todos os passageiros desembarcarem para deixar o vagão. Seus olhos estão vermelhos; como os dos homens insones, aglutinados a fim de se aquecer nas biroscas ventosas das estações; homens que mergulham o biscoito maria ou o pãozinho em seus cafezinhos pretos feito piche. É o primeiro café da sua vida nova e não está bom.
Escolheu a Bélgica porque lá falam francês. É a única língua que ele conhece. E olhe lá. Nem todas as palavras, dissera a Jocelyne pronunciara quando a cortejara atrapalhadamente; ela rira, esta: simbiose, ele fez não com a cabeça, então ela lhe explicara que era o que ela esperava do amor e seus corações dispararam.
Ele caminha sob o chuvisco que pinica sua pele. Observem, faz um esgar, fica feio. Era bonito quando Jocelyne olhava para ele. Era o próprio Venantino Venantini. Em certos dias, era o homem mais bonito do mundo. Ele atravessa o boulevard du Midi, percorre o de Waterloo, sobe a avenue Louise, a rue de la Régence até a place du Grand-Sablon. É onde fica a casa que alugou. Pergunta-se por que escolheu uma tão grande. Talvez acredite no perdão. Talvez acredite que Jocelyne virá encontrá-lo um dia; que um dia compreendemos as coisas que não explicamos. Que um dia todos se reúnem, inclusive os anjos e as filhinhas mortas. Rumina que deveria ter procurado a definição de simbiose no dicionário, desde aquela época. Mas por enquanto a excitação prevalece. É um homem rico. Seu bel-prazer é soberano.
Compra um carro vermelho superpotente e caro, um Audi A6 RS. Compra um relógio Patek Philippe com calendário anual, um Omega Speedmáster Moonwatch. Uma tevê de tela plana da marca Loewe e a edição de colecionador da trilogia Jason Bourne. Alcança seus sonhos. Compra uma dúzia de camisas Lacoste. Botas Berluti.
Weston. Bikkembergs. Manda fazer um terno sob medida no Dormeuil. Outro na Dior, que ele não gosta. Joga fora. Contrata uma faxineira para o casarão. Almoça nos cafés ao redor da Grande-Place. El Gréco. Le Paon. À noite, pede uma pizza ou um sushi. Mergulha novamente na cerveja, a autêntica; a dos homens perdidos, dos olhares turvos. Gosta da Bornem Triple, adora a vertigem da Kasteelbier, que alardeia seus 11º de álcool. Suas feições se adensam. Engorda lentamente. Passa as tardes nas varandas dos bares tentando fazer amigos. As conversas são raras. As pessoas estão sozinhas com seus celulares. Lançam milhares de palavras no vazio de suas vidas. No escritório de turismo da rue Royale, recomendam-lhe um cruzeiro para solteiros pelos canais de Bruges; há duas mulheres para vinte e um famintos; é um filme ruim. No fim de semana, ele vai ao mar. Em Knokke-le-Zoute, hospeda-se no Manoir du Dragon ou no Rose de Chopin. Empresta dinheiro que não vê mais. Às vezes sai à noite. Frequenta boates. Troca alguns beijos tristes. Tenta seduzir umas garotas. Elas riem. A coisa não transcorre muito bem.
Ele paga inúmeras taças de champanhe e às vezes consegue tocar um seio, um sexo exaurido, violáceo. Suas noites são roxas, frias e desencantadas. Volta sozinho. Bebe sozinho. Ri sozinho. Vê filmes sozinho. Às vezes pensa em Arras, então abre outra cerveja para se distanciar, recolocar as coisas na imprecisão.
Às vezes, escolhe uma garota na internet, como se fosse uma sobremesa num carrinho de restaurante. A garota vem entregar-se no escuro de seu casarão, engole suas cédulas e apenas o chupa porque ele não consegue uma ereção. Observem-no depois que ela bate a porta: ele escorrega para o ladrilho frio, é uma tragédia sórdida, encolhe-se todo, é um cachorro velho; soluça, baba seus medos e seu muco, e das sombras de sua noite nenhuma benevolente estende-lhe os braços para o recolher.
Jocelyn Guerbette fugiu há dez meses, quando começa a tiritar de frio.
Toma uma ducha escaldante, mas o frio não vai embora. A fumaça exala de sua pele e, mesmo assim, ele treme. A polpa de seus dedos está azul e enrugada, parece prestes a se soltar. Ele quer voltar.
Falta Jocelyne. Ele Está isolado. O dinheiro não compra o amor.
pensa em sua risada, no cheiro de sua pele. Gosta de seu casamento, de seus dois filhos vivos. Gosta do medo que costumava sentir, de que ela fosse bonita demais, inteligente demais para ele. Gostava da ideia de poder perdê-la, aquilo o fazia um marido melhor. Gosta quando ela ergue os olhos de um livro para lhe sorrir. Gosta de suas mãos firmes, seus sonhos esquecidos de estilista. Gosta de seu amor e de seu calor e compreende subitamente o frio, o glacial. Ser amado esquenta o sangue, aferventa o desejo. Ele sai arrepiado do chuveiro.
Não soca a parede como fazia, e há nem tanto tempo assim.
Conseguiu domar seu sofrimento por Nadège, não toca mais no assunto; para não fazer Jocelyne sofrer ainda mais.
Não abre a garrafa de cerveja. Seus lábios tremem. Sua boca está seca. Observa o grande salão à sua volta, o vazio. Não gosta daquele sofá branco. Da mesa de centro dourada. Das revistas dispostas para fazer bonito, que ninguém lê. Esta noite, não gosta mais do Audi vermelho, do relógio Patek, das garotas pagas e que não se tomam nos braços; de seu corpo estufado, de seus dedos inchados nem daquele frio.
Não abre a garrafa de cerveja. Levanta-se, deixa acesa a luminária da entrada, se porventura Jocelyne vier procurá-lo esta noite, se porventura uma indulgência golpeá-la, e sobe. É uma grande escadaria, imagens de queda afloram. Um corpo que cai. E o ventou levou. O encouraçado Potemkin. Sangue se esvaindo dos ouvidos. Ossos quebrados.
Seus dedos agarram-se ao corrimão; a ideia do perdão só começa quando nos levantamos.
Parte para Londres. Duas horas de trem e de mãos úmidas.
Como quando vamos a um primeiro encontro amoroso. Quarenta metros abaixo do nível do mar, ele sente medo. Vai visitar Nadine.
Ela se recusou de início. Ele insistiu muito. Quase suplicava. Um assunto de vida ou morte. Descobriu essa expressão extremamente melodramática, mas ela a fez sorrir, e foi nesse sorriso que ele mergulhou.
Marcaram encontro no Caffè Florian, no terceiro andar da famosa loja Harrods. Ele chega antes da hora. Quer poder escolher a mesa certa, a cadeira certa. Quer vê-la chegar. Ter tempo de reconhecê-la. Sabe que o sofrimento redesenha os rostos, muda a cor dos olhos. Uma garçonete se aproxima. Com um gesto, ele sinaliza não querer nada. Sente vergonha de não conseguir dizer em inglês: estou esperando minha filha, não estou muito bem, senhorita, estou com medo, fiz uma tremenda besteira.
Ali está ela. Está bonita e magra e ele revê a graça, a perturbadora palidez de Jocelyne no armarinho da sra. Pillard, numa época em que ele jamais teria imaginado virar um ladrão, um assassino. Levanta-se. Ela sorri. É uma mulher; como o tempo voa.
Suas mãos tremem. Não sabe o que fazer. Mas ela aproxima o rosto.
Beija-o. Bom dia, papai. Papai; há mil anos. Ele precisa sentar. Não está passando muito bem. Está com falta de ar. Ela pergunta se tudo ok. Ele responde que sim, sim, é a emoção, estou muito feliz. Você está tão bonita. Ousou dizer isso à filha. Ela não ruboriza. Está pálida, na verdade. Ela diz: é a primeira vez na minha vida que você fala isso, papai, uma coisa tão pessoal. Ela poderia chorar, mas é forte. Quem chora é ele, o velho. Ele que desaba. Escutem-no. Você é tão bonita, minha filhinha, igualzinha à mãe. Igualzinha à mãe. A garçonete se aproxima de novo, desliza, silenciosa como um cisne.
Calmamente, Nadine emite in a few minutes, please, e Jocelyn compreende pela música da voz de sua filha viva que tem uma chance de lhe falar e que essa chance é agora. Então se atira.
Desamparado. Roubei sua mãe. Eu a traí. Fugi. Estou com vergonha e sei que a vergonha é sempre tardia. Eu. Eu. Procura as palavras. Eu.
As palavras não vêm. É difícil. Diga como posso ser perdoado. Me ajude. Nadine ergue a mão. Já terminou. A garçonete chega. Two large coffees, two pieces of fruit cake; yes, madam, o ladrão não compreende nada mas aprecia a voz da filha. Observam-se. O sofrimento mudou a cor dos olhos de Nadine. Tinha-os azuis antes, no tempo de Arras. Agora são cinza, um cinza de chuva; uma rua secando. Ela olha para o pai. Procura no rosto triste e turvo aquele que sua mãe amou. Tenta redescobrir as feições do ator italiano, a risada clara, os dentes brancos. Lembra-se do belo rosto que a beijava à noite quando ela ia dormir; dos beijos de seu pai, que tinham gosto de sorvete de creme, de cookie, de bombom, de banana, de caramelo. O que vivemos de bonito torna-se feio porque a pessoa que embelezava sua vida o traiu? A dádiva maravilhosa de um filho torna-se ignóbil porque o filho virou assassino? Não sei, papai, diz Nadine. Só sei que mamãe não está bem; que, para ela, o mundo caiu.
E quando ela acrescenta, cinco segundos mais tarde, o mundo caiu para mim também, ele sabe que terminou.
Estende a mão na direção do rosto da filha; gostaria de tocá-lo, acariciá-lo pela última vez, aquecer-se nele, mas sua mão gelada se petrifica. É uma despedida curiosa e triste. Nadine finalmente abaixa os olhos. Ele compreende que ela permite que ele se vá sem lhe fazer a afronta de assistir à fuga de um covarde. É seu presente por ter elogiado sua beleza.
No trem de volta, ele se lembra das palavras da própria mãe quando lhe anunciaram que seu marido acabava de morrer de um infarto no escritório. Ele me abandonou, seu pai nos abandonou! Patife, patife! E, mais tarde, após o enterro, quando soube que o coração explodira quando ele tentava escapar das garras da almoxarife, uma divorciada sôfrega, ela se calara. Definitivamente.
Engolira as palavras, costurara a boca e Jocelyn ainda criança vira o câncer do mal dos homens no coração das mulheres.
Em Bruxelas, vai à livraria Tropismes, na galeria dês Princes.
Lembra-se do livro do qual ela às vezes erguia os olhos para lhe sorrir. Era bonita lendo. Parecia feliz. Ele pede Bela do Senhor, escolhe a versão capa dura, a que ela lia. Compra um dicionário também. Em seguida, passa os dias mergulhado na leitura. Procura a definição das palavras que não compreende. Quer descobrir o que a fazia sonhar, o que a deixava tão bela e a fazia às vezes erguer os olhos para ele. Talvez visse Adrien Deume e talvez o amasse justamente por isso. Os homens pensam que são atraentes como Senhores, ao passo que são simplesmente assustadores. Escuta os suspiros de Bela; os solilóquios da religiosa do amor. Às vezes entedia-se com os longos monólogos. Pergunta-se por que não há mais pontuação ao longo de várias páginas; lê então o texto em voz alta e, no eco do grande salão, sua respiração se altera, acelera; sente subitamente uma vertigem, como no ápice de um arrebatamento; alguma coisa de feminino, gracioso, e compreende a felicidade de Jocelyne.
Mas o final é cruel. Em Marselha, Solal derrota Ariane, obrigando-a a ir para a cama com o ex-amante; a bela é uma cocote sem graça. E vem a derrocada genebrina. Ao fechá-lo, Jocelyn se pergunta se o livro não estimulava a mulher a pensar que havia superado “o tédio e o fastio” que consumiram os amantes romanescos e alcançado, à sua maneira, um amor cuja perfeição não estava nas costuras, nos penteados e nos chapéus, mas na confiança e na paz.
Bela do Senhor talvez fosse o livro da perda e Jocelyne o lesse para avaliar o que conseguira salvar.
Quer voltar agora. Tem um monte de palavras para ela; palavras que nunca pronunciara. Agora sabe o que simbiose quer dizer.
Tem medo de telefonar. Medo da própria voz. Medo de que ela não atenda. Medo dos silêncios e dos soluços. Ele se pergunta se não deve simplesmente voltar, chegar hoje à noite na hora sossegada do jantar, enfiar a chave na fechadura, empurrar a porta. Acreditar nos milagres. Na canção de Reggiani, na letra de Dabadie, Est-cequ’il y a quelqu’un/ Est-cequ’il y a quelqu’un/ D’icij’entendslechien/ Et si tu n’est pas morte/ Ouvre-moi sans rancune/ Je rentre um peu tard je sais1. Mas e se ela mudou a fechadura. Mas e se ela não estiver lá.
Decide então escrever uma carta.
Mais tarde, semanas depois, quando a carta está terminada, ele a leva à agência dos correios da place Poelaert, perto do Palácio da Justiça. Está preocupado. Pergunta várias vezes se a remessa 1 Em tradução livre: “Alguém em casa? Alguém em casa?/ Daqui ouço o cachorro/ E se você não estiver morta/ Abra para mim sem rancor/ Sei que estou chegando um pouco tarde.” (N.T.) simples é suficiente. É uma carta importante. Observa a mão que joga no cesto sua mensagem repleta de esperanças e desabafos; e logo em seguida outras cartas caem, cobrem a sua, asfixiam-na, fazem-na desaparecer. Ele se sente perdido. Está perdido.
Entra no casarão vazio. Sobrou apenas o sofá branco. Vendeu tudo, deu tudo. O carro, o televisor, Jason Bourne, o Ômega, não encontrou o Patek, dane-se.
Espera no sofá branco. Espera que uma resposta deslize debaixo da porta. Espera, espera e nada acontece. Sente calafrios e, à medida que os dias passam, estáticos, o frio entorpece seu corpo.
Parou de comer, não se mexe mais. Bebe míseros goles de água e, quando as garrafas estão vazias, não bebe mais. Às vezes, chora. Às vezes, fala sozinho. Pronuncia os nomes deles. Era a simbiose, ele não enxergara.
Quando começa sua agonia, está feliz.