A Lista dos Meus Desejos

Grégoire Delacourt · Capítulo 2 de 35

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A Lista dos Meus Desejos

Voltei a trabalhar no armarinho no ano em que me casei com Jo.

 

Estava lá fazia dois anos quando a dona da loja se engasgou com um botão, que ela mordera a fim de se certificar de que era de fato marfim. O botão deslizou sobre a língua úmida, insinuou-se na laringofaringe, atacou a membrana cricotireóidea e penetrou na aorta; a sra. Pillard, portanto, não se ouviu sufocar, tampouco eu, aliás, com o botão tapando tudo.

Foi o barulho da queda que me alertou.

Ao desabar, o corpo arrastou as caixas de botões; oito mil rolaram pela lojinha e foi a primeira coisa em que pensei ao descobrir o drama: quantos dias e noites eu passaria de quatro separando os oito mil botões fantasia, metal, madeira, infantil, alta-costura etc.

O filho adotivo da sra. Pillard veio de Marselha para o enterro, sugeriu que eu comprasse a loja, o banco concordou e, em 12 de março de 1990, um delicado pintor veio gravar Armarinho Jo, ex-Casa Pillard, na fachada e na porta do estabelecimento. Jo estava orgulhoso. Armarinho Jo, dizia, estufando o peito, como se condecorado, Jo, Jo sou eu, é o meu nome! Eu olhava para ele, achava-o bonito e ruminava que era uma sorte tê-lo como marido.

Esse primeiro ano de casamento foi fulgurante. O armarinho.

O novo emprego de Jo na fábrica. E o nascimento anunciado de Romain.

Até o momento, porém, o armarinho nunca rendeu muito.

Sou obrigada a enfrentar a concorrência de 4 hipermercados, 11 supermercados, os preços irrisórios do armarinho da feira de sábado, a crise, que deixa as pessoas medrosas e más, e o conformismo de meus concidadãos, que preferem a facilidade do prêt-à-porter à criatividade do artesanal.

Em setembro, recebo algumas encomendas de etiquetas, para costurar ou termocolantes; alguns zíperes, agulha e linha de quem pretende cerzir as roupas do ano anterior em vez de comprar novas.

No Natal, moldes de fantasias. A princesa é a que tem mais saída, seguida pelo morango e a abóbora. No lado masculino, o pirata funciona bem e ano passado foi a loucura do sumô.

Depois, é um marasmo, até a primavera. Uma ou outra venda de caixas de costura, duas ou três máquinas e fazenda a metro.

Esperando um milagre, faço tricô. E meus modelos são um sucesso.

Principalmente os cueiros para recém-nascidos, cachecóis e suéteres de crochê.

Fecho a loja entre meio-dia e duas e vou almoçar sozinha em casa. Às vezes, quando está sol, vou, com Danièle e Françoise, comer um croque-monsieur numa varanda, no L’Estaminet ou no Café Leffe, na praça dos Heróis.

São bonitas as gêmeas. Sei muito bem que me usam para valorizar suas silhuetas delgadas, suas pernas compridas, seus olhos claros de corsa; deliciosamente ariscas. Sorriem para os homens que almoçam sozinhos ou em dupla, fazem caras e bocas, às vezes arrulham. Seus corpos lançam mensagens, seus suspiros são garrafas ao mar e, eventualmente, um homem recolhe uma, o tempo de um café, uma promessa sussurrada, uma desilusão — os homens não têm nenhuma imaginação; chega então a hora de reabrir nossas lojas. É sempre nesse instante, no caminho de volta, que nossas mentiras aparecem. Estou cheia dessa cidade, tenho a impressão de viver num livro de história, ahhh, é irrespirável, diz Danièle, daqui a um ano estarei longe, ao sol, vou turbinar os seios. Se eu tivesse dinheiro, acrescenta Françoise, largaria tudo, assim, num piscar de olhos. E você, Jo? Eu seria bonita e magra e mais ninguém mentiria para mim, nem mesmo eu. Mas não respondo nada, me limito a sorrir para as bonitas gêmeas. A mentir.

Quando não temos fregueses, elas sempre me sugerem uma manicure ou um brushing, uma máscara ou um fuxico, como costumam dizer. Quanto a mim, tricoto boinas ou luvas que elas nunca usam. Sou gorda, mas, graças a elas, arrumada, com as unhas sempre em dia; sei quem está transando com quem, dos problemas da Denise da Maison du Tablier com a traidora Genièvre de Loos e seus 49º de álcool, da cerzideira do Chez Charlet-Fournie, que ganhou vinte quilos depois que seu marido se enrabichou pelo aplicador de xampu do Chez Jean-Jac, e todas as três temos a impressão de ser as três pessoas mais importantes do mundo.

Enfim, de Arras.

Da rua, em todo caso.

Pronto. Tenho quarenta e sete anos.

Nossos filhos partiram. Romain está em Grenoble, no segundo ano de uma faculdade de comércio. Nadine, na Inglaterra, onde é baby-sitter e faz filmes de vídeo. Um deles foi exibido num festival em que ela ganhou um prêmio e depois disso a perdemos de vista.

A última vez que nos reunimos foi no último Natal.

Quando o pai perguntou o que ela fazia, ela sacou uma pequena câmera da bolsa e a conectou no Radiola. Nadine não gosta das palavras. Fala muito pouco desde que começou a falar. Nunca disse mamãe estou com fome, por exemplo. Levantava-se e pegava alguma coisa para comer. Nunca disse: me faça recitar a lição, o poema, as tabuadas de multiplicação. Guardava as palavras consigo, como se fossem raras. Conjugávamos em silêncio, ela e eu: olhares, gestos e suspiros no lugar de sujeitos, verbos e predicados.

Na tela, surgiram imagens em preto e branco de trens, trilhos, agulhas ferroviárias; no início, era bem lento, depois tudo se acelerou imperceptivelmente, imagens sobrepuseram-se, o ritmo se tornou avassalador, fascinante; Jo se levantou, foi pegar uma cerveja sem álcool na geladeira; eu não conseguia desgrudar os olhos da tela, minha mão pegou a de minha filha, sujeito, ondas percorreram meu corpo, verbo, Nadine sorriu, predicado. Jo bocejava. Eu chorava.

Quando o filme terminou, Jo declarou que, em cores, com som e num televisor tela plana, seu filme não faria feio, filhinha, enquanto eu dizia obrigada, obrigada, Nadine, não sei o que você quis dizer com seu filme, mas eu realmente senti alguma coisa. Ela desconectou a pequena câmera do Radiola e sussurrou, olhando para mim: escrevi o Bolero de Ravel em imagens, mamãe, para que os surdos pudessem ouvi-lo.

Apertei então minha filha nos braços, contra minha carne flácida, e deixei minhas lágrimas fluírem porque, embora eu não entendesse tudo, pressentia que ela vivia num mundo sem mentiras.

Enquanto esse laço durou, fui uma mãe realizada.

Romain chegou mais tarde, na hora do panetone e dos presentes. Trazia uma garota no braço. Bebeu Tourtel com o pai, fazendo-se de difícil; isso é xixi de gato, disse, e Jo calou-o deixando escapar um cruel pois bem, então pergunte a Nadège o que o álcool faz, ela vai te dizer, sua besta, sua grande besta. A garota então bocejou e o Natal foi pra cucuia. Nadine não se despediu, ela se eclipsou no frio, volatilizada como vapor. Romain terminou o panetone; limpou os lábios com as costas da mão, lambeu os dedos e então me perguntei de que serviram todos aqueles anos ensinando-o a se comportar direito, a não apoiar os cotovelos na mesa, a dizer obrigado; todas essas mentiras. Ele, por sua vez, antes de ir embora, comunicou que estava largando os estudos para ir trabalhar, com a garota, como garçom no Palais Breton, uma creperia situada em Uriage, estância termal a dez minutos de Grenoble. Olhei para o meu Jo; meus olhos gritavam, fale alguma coisa, impeça-o, detenha-o, mas ele se limitou a erguer a garrafa para o nosso filho, como costumam fazer os homens nos filmes americanos, desejando-lhe boa sorte, e foi tudo.

Pronto. Tenho quarenta e sete anos.

Nossos filhos agora vivem suas vidas. Jo ainda não me trocou por uma mais moça, mais magra, mais bonita. Trabalha muito na fábrica; ganhou um prêmio no mês passado e está fazendo um estágio, disseram que um dia poderia ser gerente; gerente, isso o deixaria perto de seus sonhos.

Seu Cayenne, seu televisor tela plana, seu relógio-cronômetro.

Quanto a mim, meus sonhos me abandonaram.