A Lista dos Meus Desejos

Grégoire Delacourt · Capítulo 5 de 35

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A Lista dos Meus Desejos

Só nos livros é que a gente pode mudar de vida.

 

Apagar tudo com uma palavra. Fazer desaparecer o peso das coisas. Apagar as ruindades e, no fim de uma frase, descobrir-se subitamente no fim do mundo.

Danièle e Françoise jogam na loteria há dezoito anos.

Apostando dez euros toda semana, constroem sonhos de vinte milhões. Uma mansão na Côte d’Azur. Uma volta ao mundo. Até mesmo uma simples viagem à Toscana. Uma ilha. Um lifting. Um diamante, um Santos Dumont Lady da Cartier. Cem pares de Louboutin e Jimmy Choo. Um tailleur Chanel cor-de-rosa. Pérolas, pérolas verdadeiras iguais às de Jackie Kennedy, como podia ser tão bonita! Nos fins de semana, como tantos outros, elas esperam o Messias. Todos os sábados seus corações disparam quando as bolinhas rodopiam. Prendem a respiração, ficam sem ar; achamos sempre que vamos morrer, dizem em coro.

Doze anos atrás, as duas ganharam o suficiente para abrir o Coiff’Esthétique. Me fizeram levar um buquê de flores todos os dias em que duraram as obras e, apesar de eu ter desenvolvido uma alergia crônica a flores, desde essa época somos amigas. Juntas, elas ocupam o último andar de uma casa que dá para o jardim du Gouverneur, na avenue des Fusillés. Françoise esteve diversas vezes para casar, mas à ideia de abandonar a irmã preferiu abandonar a ideia do amor; em compensação, em 2003, Danièle foi morar com um representante comercial de xampus especiais e tinturas profissionais L’Oréal, um sujeito alto e tenebroso com voz de barítono, cabelos cor de azeviche; um excêntrico. Ela sucumbira ao cheiro selvagem de sua pele opaca, derretera-se pelos fios negros das falanges de seus dedos compridos; Danièle sonhara amores animais, lutas, sexo na lama, carnes misturadas, mas se o grande símio tinha os colhões cheios, como era de se esperar, seu interior revelou-se vazio, imensamente, tragicamente desértico. Era uma transa ótima, ela me confidenciou um mês depois, ao voltar, mala debaixo do braço, uma transa antológica, mas, logo em seguida, fim da linha, o representante cai num soninho, ronca, de madrugada sai para fazer seu porta a porta capilar, nível cultural zero, e eu, podem falar o que quiser, preciso falar, conversar; afinal, não somos animais, isso não, precisamos de alma.

Na noite em que ela voltou, fomos as três jantar no La Coupole, camarões cor-de-rosa sobre leito de endívias para Françoise e para mim, linguiça de Arras gratinada com queijo maroille para Danièle, o que posso fazer, um rompimento me abre um buraco, um abismo, preciso tapá-lo e, uma garrafa de vinho depois, elas prometeram uma à outra, rindo às gargalhadas, nunca mais se separar ou, caso uma das duas encontrasse um homem, dividi-lo com a outra.

Depois quiseram ir dançar no Copacabana; talvez a gente tope com dois bonitões, disse uma; dois ricaços, rebateu a outra, rindo, e não as acompanhei.

Desde o 14 de julho dos meus treze anos, “L’Étéindien” e meu peito incipiente, não danço mais.

As gêmeas desapareceram na noite, carregando com elas suas risadas e o tac-tac ligeiramente vulgar de seus saltos pelo calçamento, e voltei para casa. Atravessei o boulevard de Strasbourg, percorri a rue Gambetta até o Palácio de Justiça. Um táxi passou, minha mão tremeu; eu me vi fazendo sinal, embarcando. Ouvi-me dizer “longe, o mais longe possível”. Vi o táxi arrancar comigo no banco de trás, eu, que não me volto, não me cumprimento, não me dirijo nenhum último gesto, não sinto nenhum arrependimento; eu, que parto e desapareço sem deixar vestígios.

Sete anos atrás.

Mas voltei.

Jo dormia de boca aberta em frente ao Radiola; um filete de saliva brilhava em seu queixo. Desliguei o televisor. Estendi um cobertor sobre seu corpo encolhido. Em seu quarto, Romain lutava no mundo virtual de Freelancer. No dela, Nadine lia as conversas entre Hitchcock e Truffaut; tinha treze anos.

Ela ergueu a cabeça quando empurrei a porta do quarto, sorriu para mim e me pareceu linda, muito linda. Eu gostava de seus grandes olhos azuis, chamava-os olhos de céu. Gostava de sua pele clara, que nenhum mal ainda arranhara. De seus cabelos pretos; uma moldura ao redor de sua palidez delicada. Gostava de seus silêncios e do cheiro de sua pele. Ela recuou para a parede, não disse nada quando fui deitar a seu lado. Depois acariciou lentamente meus cabelos como minha mãe fazia e retomou sua leitura, em voz baixa dessa vez, como faz um adulto para aplacar os temores de um fedelho.