A Lista dos Meus Desejos

Grégoire Delacourt · Capítulo 34 de 35

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A Lista dos Meus Desejos

Realizei todas as coisas da minha última lista exceto por dois detalhes.

 

Finalmente fiz uma depilação íntima integral — é curioso, supergarotinha — e ainda não decidi a quem dar um milhão. Espero o sorriso inesperado, uma notícia de desgraça no jornal, um olhar triste e benevolente; espero um sinal.

Passei duas semanas maravilhosas em Londres com minha filha. Redescobri os momentos antigos, quando a crueldade de Jo me levava a buscar refúgio em seu quarto, onde ela afagava meus cabelos até que eu recuperasse a calma de um lago. Ela me achou bonita, achei-a feliz. Fergus, seu namorado, é o único irlandês da Inglaterra que não bebe cerveja e esse detalhe me fez sentir uma mãe realizada. Certa manhã, ele nos levou a Bristol e me fez visitar o estúdio Aardman, onde ele trabalhava; deu meu rosto a uma florista pela qual Gromit passava correndo perseguido por um cão minúsculo. Foi um dia belo como a infância.

Quando nos despedimos em Saint-Pancras, não choramos.

Nadine contou que o pai fora visitá-la recentemente, parecia perdido, mas não escutei, depois sussurrou palavras de mãe ao meu ouvido: você merece uma vida bonita, mamãe, você é uma pessoa direita, tente ser feliz com ele.

Ele. Meu Vittorio Gassman; já se vai também mais de um ano e meio que vivo a seu lado. Ele continua tão bonito como no dia de nosso beijo no Negresco, seus lábios conservaram o perfume do Orange Pekoe, mas, quando ele beija os meus agora, meu coração não dispara, minha pele não se arrepia.

Ele foi a única ilha no meu sofrimento.

Telefonei assim que o chefe de Jo me confirmou que ele tirara uma semana de licença. O dia em que me soube traída. Telefonei sem acreditar um instante que ele se lembrasse de mim, talvez não passasse de um predador que adormecia a fidelidade das mulheres com uma xícara de chá no bar do Negresco, sob a deliciosa tentação de dezenas de quartos livres. Ele me reconheceu imediatamente.

Estava esperando, disse. Sua voz era grave, calma. Ele me escutou.

Ouviu minha raiva. Compreendeu a mutilação. E pronunciou suas três palavras reverenciais, Posso ajudá-la?.

O sésamo que me abria. Finalmente me rasgava. Fazia de mim a Bela etérea; Ariane Deume à beira do vazio numa certa sexta-feira genebrina de setembro de 1937.

Aceitei sua ajuda. Me entreguei.

Vamos diariamente à praia e diariamente nos sentamos sobre o incômodo cascalho. Eu não quis cadeirinhas de lona nem almofadas. Quero tudo como no nosso primeiro dia, o dia do meu sonho de virtual amante; quando decidi que nem a maldade de Jo nem a minha solidão eram razões suficientes. Não me arrependo de nada. Eu me ofertara a Jo. Amara-o sem resistência nem segundas intenções. Terminara por cultivar a lembrança de sua mão úmida por ocasião de nosso primeiro encontro na tabacaria des Arcades; ainda me acontecia chorar de alegria quando fechava os olhos e ouvia suas primeiras palavras, é você que é uma maravilha. Me acostumara a seu cheiro acre, animal. Perdoara-o diversas vezes porque o amor pede muitos perdões. Eu me preparara para envelhecer ao seu lado sem que ele jamais houvesse me dirigido palavras bonitas, uma frase floreada, vocês sabem, essas idiotices que viram a cabeça das garotas e as tornam fiéis para sempre.

Tentei emagrecer não para que ele me achasse mais bonita, mas para que sentisse orgulho de mim.

Você é linda, me diz agora o beneficiário disso, enquanto eu queria ser linda para outro; mas gostaria de vê-la sorrir às vezes, Jo. É um homem bom; que não conheceu a traição. Seu amor é paciente.

Às vezes, à noite, quando voltamos para casa, sorrio diante dessa imensa e deslumbrante mansão de Ville Franche-sur-Mer, cuja escritura de compra assinei com desenvoltura e o cheque com ligeireza; é quando encontro papai, sentado no terraço, na companhia da enfermeira; papai que olha o mar e, com seus olhos de criança, procura desenhos nas nuvens: ursos, mapas de terras prometidas, desenhos de mamãe.

Sorrio durante seis minutos, quando invento para ele uma vida nova no frescor da noite.

Você é um grande médico, papai, um pesquisador emérito; recebeu a comenda de cavaleiro da Legião de Honra por indicação do ministro Hubert Curien. Você criou um medicamento contra a ruptura de aneurisma baseado na enzima 5-lipoxigenase e está na lista do Nobel. Você tinha até preparado um discurso em sueco e todas as noites vinha ensaiá-lo no meu quarto e eu ria de sua dicção gutural e grave. Mas foi Sharp e Roberts que o abocanharam aquele ano, por sua descoberta dos genes duplicados.

Isso foi ontem à noite e papai apreciara sua vida.

Hoje à noite: você é um contratenor fabuloso. Você é irresistível, as mulheres uivam, seus corações disparam. Você estudou na Schola Cantorum da Basileia e foi o Giulio Cesare in Egitto, de Händel, que o tornou uma celebridade; exatamente, e foi assim que você conheceu mamãe. Ela cumprimentou-o após sua apresentação, foi ao seu camarim, segurava rosas sem espinhos na mão, chorava; você se apaixonou por ela e ela o resgatou em seus braços.

Lágrimas brotaram-lhe nos olhos, cintilantes, felizes.

Amanhã direi que você foi o pai mais maravilhoso e fantástico do mundo. Falarei do banho de chuveiro que mamãe o obrigava a tomar assim que você chegava porque temia que o cloreto de didecil nos transformasse em monstros alienígenas. Discorrerei sobre nossas partidas de Banco Imobiliário, revelarei que você trapaceava para me deixar ganhar e confessarei que uma vez você me achou bonita, que acreditei em você e que isso me fez chorar.

Sim, sorrio à noite; às vezes.