A Lista dos Meus Desejos

Grégoire Delacourt · Capítulo 33 de 35

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A Lista dos Meus Desejos

O mar está cinzento em Nice.

 

A rebentação ao longe. Rendados de espuma. Algumas velas agitando-se, como mãos pedindo socorro e que ninguém alcançará mais.

É inverno.

A maioria das persianas dos prédios do Passeio dos Ingleses continua fechada. São como curativos em fachadas deterioradas. Os velhos estão recolhidos em casa. Veem as notícias na televisão, a previsão nada boa da meteorologia. Mastigam demoradamente antes de engolir. Fazem subitamente as coisas durar. Depois adormecem no sofá, com a manta sobre as pernas, o aparelho ligado. Precisam resistir até a primavera, caso contrário serão encontrados mortos; com as temperaturas dos primeiros dias quentes, os cheiros nauseabundos se insinuarão sob as portas, nas lareiras, nos pesadelos.

As crianças estão longe. Só chegam nos primeiros dias de verão.

Quando podem aproveitar o mar, o sol, o apartamento do vovô.

Retornam quando podem tomar as medidas, planejar seus sonhos: aumentar o salão, reformar os quartos, o banheiro, instalar uma lareira, colocar um vaso de oliveira na sacada e um dia comer suas próprias azeitonas.

Há cerca de um ano e meio, eu estava sentada aqui, sozinha, no mesmo lugar, na mesma estação. Sentia frio e esperava por ele.

Eu acabava de sair viva, resserenada, das enfermarias do centro. Em poucas semanas, matara alguma coisa em mim.

Alguma coisa de terrível a que chamam bondade.

Eu permitira que ela saísse de mim, como um pus, uma criança morta; um presente que damos e tiramos em seguida.

Uma atrocidade.

Há uns dezoito meses eu me deixara morrer a fim de parir outra. Mais fria, mais angulosa. A dor sempre nos remodela de uma forma curiosa.

E depois a carta de Jochegara, pequeno clímax no luto daquela que um dia fui. Um envelope remetido da Bélgica; no verso, um endereço em Bruxelas, place du Grand-Sablon. Dentro, quatro páginas de uma letra imprecisa. Frases espantosas, palavras novas, como que saídas diretamente de um livro. Sei agora, Jo, que o amor tolera mais facilmente a morte que a traição.2 Sua letra medrosa. No fim, ele queria voltar. Só isso. Voltar para nossa casa. Reencontrar a casa. Nosso quarto. A fábrica. A garagem. Seus pequenos móveis remendados. Reencontrar nossas risadas. E o Radiola e as cervejas sem álcool e os colegas aos sábados, meus únicos amigos de verdade. E você. Queria me reencontrar, a mim. Re-ser amado por você, ele escrevia, e compreendi: amar é compreender.3 Ele prometia. Serei perdoado. Tive medo, fugi. Jurava. Esgoelava-se. Te amo, escrevia. Sinto sua falta. Estava sem ar. Não mentia, sei disso; mas era tarde demais para suas palavras esmeradas e bonitas.

Minhas prodigalidades misericordiosas haviam derretido. O gelo aflorava. Cortante.

À sua carta, ele juntara um cheque.

Quinze milhões, cento e oitenta e seis mil e quatro euros e setenta e dois centavos.

Nominal para Jocelyne Guerbette.

Pronto, peço-lhe perdão, diziam os algarismos. Perdão pela minha traição, minha covardia; perdão pelo meu crime, meu desamor.

Três milhões, trezentos e sessenta e um mil e duzentos e noventa e seis euros e cinquenta e seis centavos triunfaram sobre seu sonho e o asco de si mesmo.

Decerto comprara seu Porsche, seu televisor tela plana, a íntegra dos filmes do espião inglês, um Seiko, um Patek Philippe, um Breitling talvez, reluzente, rutilante, algumas mulheres mais jovens e bonitas que eu, depiladas, esticadas, perfeitas; decerto passara maus momentos, como sempre quando se possui um tesouro — lembrem-se do gato e da raposa que roubam as cinco moedas que Stromboli entregara a Pinóquio; decerto vivera um tempo como um príncipe, como sempre almejamos fazer quando a fortuna cai bruscamente na nossa cabeça, para se vingar por não tê-la possuído mais cedo ou, simplesmente, não tê-la possuído. Hotéis cinco estrelas, Taittinger Comtes de Champagne, caviar e, depois, os fricotes, posso muito bem imaginar meu ladrão: não gosto desse quarto, o chuveiro vaza, a carne veio passada, os lençóis arranham; quero outra garota; quero amigos.

Quero o que perdi.

Nunca respondi à carta do meu assassino. Deixei-a escorregar, fugir de minha mão — as folhas borboletearam por um instante e, quando tocaram finalmente o chão, reduziram-se a cinzas e comecei a rir.

Minha última lista.

Ir ao cabeleireiro, fazer as mãos e depilação. (Pela primeira vez na vida arrancar os pelos das pernas/axilas/virilhas — mas não tudo, enfim — por alguém que não seja eu, hum, hum.) Passar duas semanas em Londres com Nadine e seu namorado ruivo.

Dar um dinheiro a ela para fazer o próximo curta. (Ela me enviou o roteiro, a partir de um conto de Saki, é genial!!!) Abrir uma poupança para o vigarista do meu filho.

Escolher um novo guarda-roupa. (Visto 38 agora!!!!! Homens sorriem para mim na rua!!!!!) Organizar uma exposição dos desenhos da mamãe.

Comprar uma casa com um grande jardim e uma varanda de onde se veja o mar, CapFerrat, onde papai ficará bem. Lembrar de não perguntar o preço, apenas fazer o cheque, com desenvoltura :-) Trazer o túmulo da mamãe para perto de mim e de papai.

(No jardim da casa mencionada?) Dar um milhão para alguém aleatoriamente. (Quem? Como?) Morar com ele. (Ao lado, na verdade.) E esperar :-( E isso é tudo.

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2 Nas palavras de André Maurois (1885-1967), “O amor tolera mais facilmente a ausência ou a morte do que a dúvida ou a traição

3 Segundo Françoise Sagan (1935-2004), “Amar não é ‘simplesmente amar’, é acima de tudo compreender” (in Qui je suis).