A única memória de Flora Banks
Capítulo 7
Pego a pedra e olho para ela. Esqueço tudo, mas não vou esquecer a história dessa pedra. Ela é pequena e lisa na minha mão.
Se eu pudesse beijar Drake agora, no Ártico, o beijo seria diferente. Seria intenso e louco. Não seria só um beijo. Imagino isso dia e noite. Eu me lembraria dele de novo. Tenho certeza. Lembrei uma vez e lembraria duas vezes. Lembraria três vezes. Lembraria até o infinito.
Arrumo a casa. Aspiro tudo, embora não haja nada para ser aspirado. Está chovendo, e a chuva lava as janelas. Ouço música, Beatles, uma coisa chamada Abbey Road, e descubro que gosto.
Os pais estão seguros e vão voltar e tudo vai ficar normal de novo, dependendo do Jacob.
Encontro fotos de Svalbard na internet. Fico olhando para o lugar, o lugar real, onde ele está...
Vejo as fotos no meu celular e descubro que tirei uma de Drake na festa. Assim que a encontro, uso como tela inicial e passo muito tempo olhando para ela, tentando entender o que tem nesse rosto que faz o meu ficar vermelho, minha pele formigar e todo o meu corpo começar a derreter. Olho para o cabelo escuro, as faces salientes, os óculos pesados.
Ele me beijou e me fez lembrar. Lembro de tudo isso. Lembro do cheiro dele. Da sensação dos lábios nos meus. Quando tirei aquela foto, não sabia que nos beijaríamos. Também tirei a foto do cartaz de um gato desaparecido, mas esqueci de sair e procurar o pobre gato sem orelhas.
Ponho os sapatos e saio, verificando se a chave está na minha mão antes de bater a porta da frente. Depois corro pela rua em direção ao mar. Atravesso a rua principal desviando de dois carros, porque não consigo esperar até não ter nenhum passando. Eles buzinam e se irritam, mas ninguém vai me atropelar. Eles não dirigem o carro para cima de mim e aceleram mais, como poderiam fazer se eu fosse um gato sem orelhas.
A maré está baixando. Aquela linha plana de água na beirada da terra é meu horizonte. Não consigo imaginar nada além dela. Lembro de uma viagem de carro a um parque temático quando eu tinha dez anos; essa é a única vez que me recordo de ter saído daqui.
Olho para minha mão esquerda: PEDRA, eu leio, mas já sabia disso. Corro para a praia. Não demoro para encontrar uma preta. Não é exatamente igual à minha, mas é bem parecida: lisa e cabe na palma da mão. Seguro a nova pedra, a pedra de Drake, a levo aos lábios e beijo, beijo de novo, de novo e de novo. A brisa morna sopra meu cabelo. Um homem com um cachorro olha para mim, mas não me importo.
Ando por ali olhando para os gatos, mas todos têm orelhas. Tem mais cartazes do gato desaparecido. Tiro mais fotos deles.
Quando chego em casa, tem um e-mail do Drake. Coloco o laptop em cima da mesa da cozinha, a pedra de Drake ao lado e a chaleira no fogo com água para ferver. Faço esforço para preparar uma xícara de chá antes de ler o e-mail. Ansiosa, pego minha caneca preferida e ponho um saquinho de chá dentro dela. Juntos, podemos começar a fazer alguns planos.
Quando me sento com o chá e finalmente me permito abrir o e-mail, estou formigando, pronta para devorar suas palavras.
Oi, Flora.
Olha, desculpa. Se você estivesse aqui as coisas seriam diferentes, mas você não está. Nós dois nos empolgamos muito, e
acho que a gente precisa esfriar a cabeça, porque isso não pode dar certo a distância, e você não pode vir para cá, pode?
Fico feliz por você se lembrar do tempo que passamos juntos. Isso é muito importante. Vamos deixar como está. Sinto muito
por tudo.
Com amor,
Drake
Leio de novo, para ter certeza, mas ainda é a mesma mensagem.
Não sei qual é a distância até Svalbard, mas sei que deve ser longe.
Sento com as duas pedras juntas na mão. Não vou perder o Drake.
Meus dedos apertam teclas do laptop. Encontro um voo e faço uma reserva.
Procuro lugares onde me hospedar em Svalbard e faço uma reserva no mais barato. Reservo um quarto para cinco noites, porque isso vai me dar tempo para pensar e encontrar o Drake.
É fácil. Pago com o cartão de crédito que encontrei em uma caixa em cima da mesa, depois vou buscar meu passaporte para ver se está em ordem. Não acredito que ele existe. Tem minha foto no documento. É válido por mais oito anos. Parece mágica, mas preciso acreditar que é real.
Ele disse: “Você não pode vir para cá, pode?” Foi uma pergunta, e minha resposta é: “Na verdade, eu posso sim”, e vou fazer uma surpresa para ele.
Vou pôr a pedra na mão dele, vamos nos beijar, vamos para onde ele mora, seja onde for, e vamos conversar e nos beijar mais, fazer todas as coisas que falamos em fazer juntos. O mundo em minha cabeça vai se tornar realidade. Vou começar a lembrar tudo.
Se você estivesse aqui as coisas seriam diferentes.
Meu estômago embrulha quando penso nisso. Tenho que ir procurar Drake porque ele me fez lembrar. Tenho que ir procurá-lo porque o adoro. O e-mail disse que, para isso dar certo, temos que estar juntos, e temos mesmo. Ele está certo.
Anoto as coisas que vou colocando na mala. Duas calças jeans, todos os meus suéteres, alguns pijamas e meu casaco novo de pele falsa. Pego roupa íntima e a escova de dentes, e também um pouco de maquiagem para ficar bem. Encontro uma camiseta vermelha que deve ser muito grande para mim, e estou quase a deixando de lado quando vejo a etiqueta, onde prendi um bilhete que diz ESTA CAMISETA É DO DRAKE, então a cheiro, lembro aquele cheiro, a dobro com cuidado e ponho na mala. Todas as minhas roupas têm meu nome escrito nas etiquetas, e vejo se estou levando só as coisas que me pertencem, se não tem nada da minha mãe. Vou ser eu mesma nessa viagem.
Pego os livros de que preciso para lembrar quem eu sou e escrevo uma longa mensagem para meu futuro eu sobre aonde vou, por que vou e o que tenho que fazer quando chegar lá. Leio um relato que escrevi sobre ter ido à casa dos tios de Drake, onde peguei várias coisas dele. Encontro todas essas coisas e ponho cada uma delas na mala. Levo pedras e conchas, com um bilhete me explicando por quê.
Imprimo os e-mails para poder ler tudo onde estiver.
Não imprimo o que acabou de chegar.
Escrevo bilhetes com horários e números dos voos. Escrevo o número do meu passaporte.
Verifico meus e-mails de novo e de novo, mas nada muda. Digito uma mensagem para Paige avisando que vou me ausentar por um tempo e gosto de como as palavras “vou me ausentar” surgem na tela. Conheci Paige quando tínhamos quatro anos. Ela não é mais minha amiga. Não mando a mensagem. Deleto.
Deixo um bilhete para os pais avisando que estou bem. Mando uma mensagem para eles contando que Paige e eu vamos ao cinema.
Bato na porta ao lado para informar à sra. Rowe que a casa vai ficar vazia, mas os pais chegarão em alguns dias. A sra. Rowe tem gêmeos que são adultos, e um de seus gêmeos também tem gêmeos. Ela me dá uma geleia, mas está mofada. Guardo o pote no armário. Tem mais três potes iguais lá dentro.
Saio de casa com minha mala e tranco tudo. A sra. Rowe acena para mim da janela do andar de cima, e eu aceno de volta. A mala tem rodinhas e faz barulho quando puxo. Ninguém mais olha para mim. Estou seguindo um impulso, viajando para o Ártico para encontrar o homem que me fez lembrar, e ninguém sabe disso.
Estou usando um vestido de algodão e um cardigã, legging, tênis e o casaco de pele que, aparentemente, comprei em Penzance no dia em que fui à casa da tia de Drake, porque, se colocar o casaco na mala, não vai caber mais nada. É ridículo, mas é o único jeito de levá-lo. Estou com calor e me sinto boba, mas é um casaco que devo ter comprado para essa viagem, e o polo Norte é frio e tenho que levá-lo.
Ando pelo meio da cidade, passo por lojas e pessoas, e, quando estou esperando para atravessar a rua na faixa de pedestres no alto da ladeira que desce para a estação, alguém bate no meu ombro.
Eu me assusto e viro.
— Oi, Flora — ela diz, e eu miro aqueles olhos escuros.
— Oi. — O homem verde aparece e eu começo a atravessar a rua puxando a mala.
Paige me segue. Prefiro que ela não me acompanhe. Ando mais depressa.
— Casaco legal — ela diz. — Vai a algum lugar? — Paige me acompanha, anda ao meu lado com facilidade, embora seja mais baixa que eu. Olho para ela tentando determinar quanto me odeia, tentando lembrar se ela respondeu à minha mensagem.
— Gostei do casaco, por isso comprei.
— Aonde você vai?
Não posso falar a verdade.
— Meus pais foram para a França — digo —, por causa do meu irmão Jacob. Você sabe. Ele mora lá, está muito doente, e eles foram visitá-lo. Não achavam que iam ficar longe por muito tempo, mas ele está pior do que pensavam, e eles acabaram demorando mais.
— Eu sei. Eu sei que eles foram ver seu irmão. Eu ia ficar na sua casa de babá, mas não fui porque você beijou meu namorado. Lembra? Tenho perguntado todos os dias como você está. Vou parar de perguntar, se você vai para a França. Vai para a França?
Quero dizer “Svalbard”, mas respondo:
— Sim. Para Paris.
— Sozinha? Seus pais vão te encontrar?
— Sim.
— Que bom. Toma cuidado. Tem certeza de que vai conseguir?
— Sim.
Paige me encara por um minuto mais ou menos, depois vira e se afasta. Carros passam depressa a caminho da saída da cidade. Eu a vejo ir embora. Ela não olha para trás.
Minhas mãos estão cobertas de anotações. A palavra Spitsbergen está escrita ali com caneta tipo marcador, e me pergunto se ela sabe que esse é o nome da ilha onde Drake mora. É claro que sabe. Mesmo assim, acho que acreditou que vou para Paris.
Ando atrás dela, longe o bastante para não dar a impressão de que a estou seguindo. Ela sabe que estou lá, mas não olha para trás. Entro na estação, e ela continua e passa pelo estacionamento.
O trem está esperando na plataforma em frente ao prédio da estação. É comprido e assustador. Olho mais uma vez minha folha de instruções. Preciso entrar nesse trem e ficar nele até London Paddington, que é a última parada. É assim que minha jornada vai começar. Uma coisa de cada vez.