A única memória de Flora Banks

Emily Barr · Capítulo 9 de 29

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A única memória de Flora Banks

Parte dois

8

 

Estou olhando pela janela, e tudo é branco, porque tudo que tem lá fora está coberto de neve. Não sei bem o que é a neve. Sei que é branca e fria, mas não sei como é de perto, ou como é a sensação de tocá-la, ou como ela vai parar lá.

Olho para minha mão. Está escrito: FLORA seja corajosa.

A neve continua até onde consigo ver, e tem voltas e desenhos próprios e picos e vales, tudo perfeitamente branco. Não tem nada feito por humanos nessa paisagem, exceto a sombra de um avião, e eu estou dentro dele, com o nariz colado à janela, olhando para baixo.

É sempre bom comprar o assento da janela, porque assim você pode saber onde está. Escrevo isso no meu caderno e vejo que essa se torna minha segunda regra de vida.

Olho para o mundo lá fora. Devemos estar chegando ao destino, porque o nada coberto de neve lá embaixo é a superfície de Spitsbergen, e Spitsbergen é a maior ilha do arquipélago de Svalbard, e essa é a ilha para onde vou, e Drake está lá, está lá de verdade, nessa ilha abaixo de mim.

Nunca fui tão corajosa. Tenho lido meus bilhetes sem parar, por isso sinto que, neste momento, sei o que estou fazendo. Estou em um avião a caminho de Svalbard para procurar Drake. Ele perguntou: “Você não pode vir para cá, pode?” Foi praticamente um convite. Minha resposta é: “Sim, posso”.

Olho para o cartão que me colocou dentro deste avião. Tem uma data nele, mas, quando examino de perto, vejo que deve estar errada. De acordo com o cartão, hoje é domingo. E isso significa que os pais deviam ter voltado ontem. Tenho certeza de que esperei por eles por mais tempo que isso. Talvez eu tenha deixado o tempo se alongar e parecer maior do que realmente é.

Talvez tenha entrado em pânico e ido à delegacia sem motivo.

Às vezes acho que vi um movimento na superfície da neve e penso que pode ser um animal, mas não tenho noção de escala e não sei se poderia ver um animal, ou alguma coisa em movimento, desta altura.

Consegui chegar até aqui (quase à cidade de Longyearbyen, quase até Drake). Consegui. Não sei como cheguei ao aeroporto em Londres, mas estava lá, cercada de gente. Respirei fundo, sentei no chão e tentei encontrar minha mãe, mas então reli todas as anotações e descobri que estava sozinha a caminho do polo Norte para visitar Drake. Não sabia como chegar daquele lugar grande, fedido e sem janelas, com telas de televisão e muita gente passando por mim, ao lugar onde está Drake.

Comecei a chorar, mas eles continuaram me ignorando. Queria minha mãe e meu pai, mas eles não estavam lá. Queria Drake, mas ele também não estava lá. Encontrei uma mulher que tinha a palavra “Informação” escrita sobre a cabeça, e ela me fez entregar todos os pedaços de papel que eu tinha e me disse exatamente para onde ir e o que fazer, e, quando fui aos lugares certos e mostrei as coisas certas, fui parar dentro de um avião que me levou a um lugar chamado Oslo.

Viajar é excitante, desde que você faça exatamente o que dizem.

Tive um momento de pânico quando percebi que passaria horas no aeroporto de Oslo. Queria perguntar a alguém se podia simplesmente sentar e esperar, mas, quando percebi que ninguém ligava, decidi que era isso que ia fazer. O aeroporto era limpo e fácil de circular, e comprei um guia Lonely Planet da Noruega em inglês, porque ele tinha muitas páginas sobre Svalbard, e me sentei em uma cafeteria e comi coisas estranhas com peixe e ervas, e algumas pessoas falaram comigo em norueguês, mas, quando percebiam que eu não conhecia o idioma, reagiam surpresas e iam falar com outra pessoa. Comprei um batom vermelho, porque estava lá. Vou usar o batom em Svalbard, porque esse é o tipo de coisa que faz uma garota que tem um namorado.

Até aqui eu consegui. Troquei todo o dinheiro da caixa em cima da mesa por dinheiro da Noruega, e no momento eu sinto que tenho muito dinheiro, mais um cartão de crédito. Agora tenho moedas com um buraco no meio. Dá para pendurar em um colar.

Quando entrei no avião, estava tão agitada que mal consegui prender o cinto de segurança. É o avião que vai me levar até Drake, e estou quase chegando. Estou no assento da janela e o banco ao lado do meu está vazio, e olho para a paisagem branca lá embaixo em busca de sinais da cidade e de um aeroporto.

No caminho aterrissamos em um lugar chamado Tromsø, e foi confuso, porque todo mundo desembarcou e ficou na pista, sob o sol pálido, e eu não sabia o que tinha que fazer, porque algumas pessoas encerravam a jornada ali e seguiam para o aeroporto e para suas coisas inimagináveis em Tromsø. Outras não. Fiquei com o grupo, olhei para os aviões pequenos nas pistas, para o cartaz onde estava escrito “Tromsø Lufthavn” e para o sol frio, e me encantei com o fato de ter conseguido chegar ao Ártico. Depois perguntei a uma mulher o que eu devia fazer. Ela me falou, e eu fiz: todo mundo, ela disse, precisava passar pela segurança dentro do aeroporto, e foi o que eu fiz, e foi fácil. Entrei em uma fila, mostrei meu passaporte a um homem e voltei lá para fora. Logo estávamos novamente no avião, e de repente todo mundo parecia diferente.

Drake tem razão. Sou capaz de mais coisas do que imaginava.

Todas essas pessoas, menos eu, têm cara de quem está a caminho de Svalbard. Muitos são garotos que parecem um pouco com Drake. Fortes, espertos e confortáveis. Adequados ao ambiente.

Alguns, como Drake, são cientistas. Sei disso porque um entrou no avião em Tromsø usando uma camiseta com a inscrição “Ciência, vadias” no peito, e outros o cumprimentaram de um jeito barulhento.

Nenhum deles tem um casaco de pele falsa que enfiou com dificuldade no bagageiro. Nenhum deles usa vestido de algodão e legging. Nenhum deles se aproxima do fim de uma viagem secreta para encontrar o grande amor de sua vida.

Nenhum deles parece estar perseguindo a única memória que conseguiu reter depois de ter uma parte do cérebro removida.

Seguro minhas duas pedras em uma das mãos.

O aviso de cinto de segurança acende, e alguém começa a falar. É norueguês, mas sei que a voz está dizendo que vamos pousar, porque dá para perceber que o avião está descendo, e, embora eu ainda não consiga ver um lugar, sei que devemos estar nos aproximando de um.

Colo o rosto na janela e olho. Drake está lá fora em algum lugar, e eu estou descendo do céu para encontrá-lo.

“A gente pode passar a noite.”

“Minha mãe.”

Agora minha mãe não está aqui.

Esta é uma terra encantada. É um lugar de conto de fadas, um lugar no qual uma princesa pode encontrar um belo príncipe. Tem neve caindo do céu em flocos grandes, caindo no meu cabelo, no casaco, na rua e nos prédios e montanhas. Flutuando no ar como penas. Eu não sabia que era assim que a neve caía.

Não sei que horas são.

O céu está encoberto desde que subi para o azul de onde olhei a brancura cintilante, e agora tem neve em todos os lugares à minha volta. A neve no chão é mais cinza que branca, e nada é como era em minha cabeça. Deve ser quase noite, porque tenho a impressão de que está escurecendo.

Tem montanhas por todos os lados, cobertas de neve. A cidade pareceu pequena quando a atravessei a bordo do ônibus do aeroporto, e agora estou em seu limite. As montanhas são altas, desaparecem em nuvens de neve, e a ilha se estende para longe. Cheguei ao topo do planeta, o fim da Terra, para encontrar o homem que amo, o homem que me faz lembrar. Estou aqui. Eu me lembro disso, de novo e de novo. Pego uma caneta, levanto um pouco a manga e escrevo no pulso: Estou em Svalbard.

Sublinho três vezes.

Tem alguém andando na rua, vindo em minha direção pela neve. Detalhes vão surgindo à medida que a pessoa se aproxima. Olho com atenção, me atrevo a ter esperança. Vejo que é um homem, que ele usa uma grande jaqueta impermeável, como todo mundo aqui, e botas pesadas de neve. Ele também usa um chapéu de lã.

Pode ser Drake.

Pode realmente ser Drake.

Devo ter contado a ele que estava a caminho e esqueci. Ele veio me procurar. Sorrio, e meu sorriso se transforma em risada. Começo a andar na direção dele, depois corro. Vou correr para os braços dele. Este é o fim da minha jornada.

É isto: vim para o lugar mágico coberto de neve e encontrei meu final feliz. Aconteceu. Eu fiz acontecer. Fiz uma coisa corajosa e funcionou. Devo ser corajosa sempre. Definitivamente, essa é uma das minhas regras.

Agora vamos conversar e rir. Ele vai ver que me curou. Antes de beijar Drake, eu nunca teria sido capaz de embarcar em dois trens, um avião e outro avião. Vamos para o lugar onde ele mora.

Estou perto demais da pessoa quando percebo que nem toda a minha vontade poderia fazer esse homem ser Drake. Paro e olho para seu rosto. Ele tem faces vermelhas e olhos azul-claros.

— Desculpe — digo, me obrigando a não desviar o olhar e passando os dedos pelo cabelo, agora molhado pela neve derretida. — Pensei que fosse... — Minha voz some. Não consigo dizer a palavra.

— Tudo bem.

Esse homem, o que está falando comigo, não é nada parecido com Drake. É mais velho, mais gordo e nem usa óculos.

— Lamento não ser quem você esperava. Está tudo bem?

Ele caminha para o prédio de um andar e fala comigo por cima do ombro. Corro para alcançá-lo.

— Sim. Acho que sim.

— Vai ficar aqui? Acabou de chegar?

— Sim. — Está escrito no meu livro que vou ficar aqui. Espero que esteja certo. Se for isso mesmo e tiverem um quarto reservado para mim, vou ficar bem impressionada comigo. Vou ficar perplexa. Vou me sentir capaz de tudo.

— Já se registrou?

— Não. — Sigo o homem para dentro do prédio e para um saguão amplo onde ele se senta e tira as botas de neve, e eu faço a mesma coisa, embora esteja usando um par de tênis horrível e velho, que chuto rapidamente, enquanto ele demora um pouco mais. O interior do edifício é quente e confortável. O homem vai para trás do balcão da recepção e sorri para mim.

— Bem-vinda à Pousada Spitsbergen — diz e digita alguma coisa no teclado do computador. — Srta. Banks, sim?

— Sim! — concordo. Funcionou! Eu sou brilhante. Posso fazer coisas acontecerem. Ninguém fez isso por mim. Eu mesma fiz.

Ele empurra por cima do balcão uma chave em uma argola de plástico. Tem panfletos em todos os lugares, ofertas de excursões e sugestões de coisas para fazer aqui. Vejo as palavras “trenó puxado por huskies”, “passeio de barco”, “caiaque”, “esqui cross country”. É coisa demais. Tudo que eu quero é Drake.

— Fez reserva para cinco noites? — ele pergunta. — Pode me dar seu cartão de crédito, por favor?

Passo o cartão para ele. Estou satisfeita por ele ter confirmado minha reserva de cinco noites. Vai ser demais, mas foi uma decisão sensata. Os pais estão em Paris. Jacob vai morrer.

Esse fato preenche minha mente. Eu o empurro para um canto. Agora não.

— Talvez eu não fique as cinco noites. Meu namorado... — faço uma pausa e deixo a palavra pairar deliciosamente no ar — estuda aqui. Vou encontrá-lo. Mas vou pagar pelas cinco noites, é claro.

Drake é meu namorado. Eu o beijei na praia.

— Seu namorado? — Ele assente. — Eu devia ter imaginado. Ele está na UNIS?

— Se esse é o lugar onde as pessoas estudam... — Encaro o homem. — Sim. Ele vai para um lugar científico com coisas de satélite. Você o conhece? O nome dele é Drake Andreasson.

— Drake Andreasson. Não, acho que não. Ele está aqui há muito tempo?

— Hum. — Perco a noção do tempo. Não tenho ideia de quanto tempo faz que ele está aqui. — Não sei. Algumas semanas? — Deve ser isso.

— Ah, bom, por isso. As pessoas vêm e vão o tempo todo. Onde ele mora? No Nybyen?

Não tenho o endereço dele.

— Em um apartamento — digo com firmeza. E pego a chave que o homem me deu, depois digito cuidadosamente os quatro números escritos no meu pulso quando ele vira o teclado para mim. São os únicos números com que eu tenho que lidar, e eles funcionam.

— E ele não veio encontrar você no aeroporto? Não vai ficar na casa dele? Se ele mora em um apartamento, não seria mais fácil?

Não consigo pensar em nenhuma resposta que não seja a verdade.

— Ele não sabe que eu vim — explico.

O homem assente e olha para mim.

— Vai ficar tudo bem, espero — ele diz. — Spitsbergen é muito segura. Se tiver algum problema, pode falar com a gente. Sim? Vou avisar meus colegas e todos nós ajudamos, se precisar.

— Sim, mas não vou precisar — respondo.

— É claro. Mas se precisar...

Ele me diz que tenho que sair e atravessar a rua para o “Prédio 5” e subir a escada para o primeiro andar, onde vou encontrar meu quarto, que é o número 5. Como tudo é número 5, vai ser fácil lembrar. Se tinha alguma coisa fácil para eu lembrar, era isso. Não escrevo o grande número 5 no braço na frente dele, porque quero dar a impressão de que sou normal.

— Boa sorte — diz o homem. — O café da manhã é servido aqui a partir das sete e meia.

Calço os tênis de novo e volto para a neve lá fora, eufórica.