A única memória de Flora Banks

Emily Barr · Capítulo 6 de 29

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A única memória de Flora Banks

Capítulo 5

 

Estou sentada à mesa da cozinha com meu telefone. Eles vão mandar mensagem ou ligar, porque são duas e vinte e, de acordo com tudo o que li, tem um avião pousando exatamente agora, e é nesse avião que meus pais estão. Eles foram para a França porque meu irmão estava doente. Agora estão voltando, o que significa que talvez ele esteja melhor.

A casa está impecável. Melhor que isso. Olhando para ela, ninguém suspeitaria de que vivi esta semana de outra forma que não fosse limpa e diligente. Nem eu acreditaria, exceto por algumas fotos no meu celular mostrando o caos. Agora está tudo arrumado: varri e passei pano no chão, a louça está limpa e guardada. A porta dos fundos está aberta, deixando entrar o ar de primavera, perfumado por todas as coisas que brotam, desabrocham e crescem.

Tudo parece exatamente como deveria estar. Se eu não tivesse as anotações e as fotos, não suspeitaria de nada.

Beijei Drake na praia. Vivo nessa lembrança. Tê-la, possuí-la em sua nitidez cristalina, carregá-la em minha mente, não na pele, tudo isso me faz sentir um ser humano. Vivo nela tanto quanto posso, e no resto do tempo descubro (muitas e muitas vezes, desconfio) que nosso relacionamento continua. Trocamos e-mails, e são mensagens maravilhosas. Amo Drake e ele me ama. Ele me fez lembrar, e preciso encontrá-lo de novo, fazer minha memória funcionar outra vez.

Reuni todas as minhas anotações sobre o que aconteceu esta semana: estão organizadas em uma pasta, escondida embaixo da minha cama. Pasta embaixo da cama. A frase no pulso esquerdo é a única evidência. Quando os pais chegarem, só verão normalidade. Li tudo; no momento, estou bem confiante de saber a maioria dos fatos.

Coloco um CD e espero, ainda olhando para o celular. É um álbum de David Bowie, Hunky Dory, e descubro que sei todas as letras, sem saber como. Eles vão ouvir a música ao fundo quando ligarem para mim.

Estou usando uma camiseta de tamanho muito maior que o meu. Ela tem o cheiro do Drake.

O álbum chega ao fim. Aleatoriamente, coloco um CD dos Beatles e descubro que gosto muito dele. O nome do álbum é Abbey Road, e me pergunto se já o escutei antes, ou se é a primeira vez. Anoto em um post-it: Adoro Abbey Road.

Ligo para o celular deles. Ninguém atende. Já devem ter aterrissado. É provável que eu nunca tenha estado em um avião, mas sei, porque anotei, que não é permitido usar o celular a bordo.

— Desculpe — diz uma voz eletrônica feminina. — O número chamado não está disponível no momento. Para deixar um recado, aperte 1.

Decido deixar uma mensagem.

— Oi. Sou eu, a Flora. Liguem para mim quando puderem. Até já! — Aperto 1 e repito a mensagem.

Escrevo em uma folha pautada ao lado do telefone: Deixei um recado no celular deles. Somo o número de vezes que já fiz essa anotação na folha e vejo que deixei trinta e quatro recados. Eles certamente vão saber que estou pensando neles.

O celular pode ficar sem bateria. Pode quebrar, pode ser perdido, pode cair entre os assentos e ser deixado para trás.

Eles planejavam voltar do aeroporto dirigindo, mas odeiam dirigir.

Muitas coisas podem acontecer com um telefone pequeno. Refaço os preparativos para a volta dos meus pais. A chaleira com água está em cima do fogão, o bule está preparado com os sachês de chá, o bolo de gengibre está fatiado em uma travessa sobre a mesa, e tem pratos e xícaras para nós três. Olho para o celular e espero.

O bolo de gengibre está ficando ressecado nas beiradas. Os pais não voltaram para casa. Devo ter feito alguma coisa errada.

Tomo meus comprimidos e começo a bocejar. Eles ainda não chegaram.

Não tem bilhetes para me orientar. Não tem nada interessante em minha mão; todas as anotações são sobre telefonemas que dei, cronogramas que verifiquei, recados que deixei. Encontro um número de telefone do Aeroporto de Exeter e verifico se o avião pousou, porque os sites podem dar notícias erradas, e pensar em um avião no fundo do mar enquanto deixo vários recados me faz tremer.

Não consigo falar com uma pessoa de verdade, mas uma mensagem gravada informa que todos os voos vindos da França aterrissaram no horário previsto. Penso que, se houve algum acidente aéreo, outras pessoas vão querer saber, então ligo a televisão e acesso mais uma vez a internet. De novo, nenhuma notícia sobre um avião.

Acho que já liguei para o Aeroporto de Exeter antes. Acho que estou fazendo a mesma coisa várias vezes.

Meu pulso anuncia: Pasta embaixo da cama. Olho embaixo da cama e me distraio, absorta na visita que fiz à casa da tia de Drake. Pego o celular e olho todas as fotos que tenho nele, volto às fotografias da casa limpa e, antes delas, da casa suja. Olho para a foto do cartaz do gato desaparecido, e a de Drake de pé em cima de uma cadeira.

Não me lembro de tê-la tirado, mas tenho uma foto de Drake no meu celular, e quando a encontro eu olho para ela por um bom tempo.

Pego tudo que trouxe do quarto dele e enfileiro os objetos. Ponho as pedras uma ao lado da outra, ordenadas por tamanho, como estavam na foto que tirei na casa da tia dele. Faço uma longa fila de conchas no parapeito da janela do meu quarto para poder olhar cada uma delas. Tiro a camiseta vermelha e enterro o rosto nela, lembrando.

Quando volto ao presente, meus pais ainda não estão ali.

Pode ter acontecido alguma coisa ruim na viagem. Leio um bilhete que diz que eles escondem alguma coisa de mim. Talvez o segredo tenha a ver com eles não voltarem para casa.

Queria que a Paige estivesse aqui. Preciso de alguém que saiba como agir. Deve ter alguma coisa que não estou percebendo, alguma coisa óbvia, alguma coisa que vai resolver tudo instantaneamente. Pego o celular para mandar uma mensagem para ela e vejo que ela pediu muitas vezes para eu deixá-la em paz. Isso me faz chorar.

A última mensagem de minha mãe diz:

Estou ansiosa para te ver, Flora querida.

Se cuida! Lembre-se: pizza hoje.

Beijos, mamãe e papai

Sim, pizza! Paige e eu estamos ótimas.

 

Essa é a última linha da conversa. Preciso de alguém para me ajudar agora.

Encontro alguns números no verso de uma fotografia de Jacob. Tem um recado: “Me liga. Te amo”. Digito o número no telefone fixo. Alguém atende com uma voz estranha, falando outro idioma. Não pode ser Jacob, e eu desligo.

A sra. Rowe mora na casa ao lado. Lembro que ela me dava doces e trocava nossos potes vazios de geleia por barras de chocolate. Lembro que eu subia no muro e conversava com ela apoiada sobre a barriga, pendurada. Lembro que ela tinha filhos adultos gêmeos, um menino e uma menina, e que o filho dela também tinha gêmeos. Nessas lembranças eu sou menor. Ela pode morar na mesma casa, ou não. Os gêmeos de seu filho gêmeo podem ter mais gêmeos agora.

Saio, tomando o cuidado de deixar a porta da varanda entreaberta, e atravesso o jardim em direção à casa da sra. Rowe. Quando toco a campainha, que faz o barulho de que me lembro, a porta é aberta antes mesmo de o som silenciar.

— Aí está você! — ela diz. — Finalmente! Trouxe os... — Ela para. Olha para mim. Seus olhos são turvos e ela está muito mais velha. Tão velha que deve estar quase morta. — Trouxe alguma coisa para mim? — ela acaba perguntando.

— Não. Sabe onde estão meus pais?

— Você gosta de geleia de morango?

— Você costumava ficar com os potes de geleia.

— Entra!

Tenho a sensação de que passei em algum tipo de teste e a acompanho para o interior da casa, que é igual à nossa, mas invertida. Tem fotos dos filhos dela nas paredes, retratos desde quando eles eram bebês. Cada pedaço de parede tem uma foto. Paro na frente de uma.

— Olha! Olha, sra. Rowe. Esta sou eu! E este é o meu irmão Jacob. Aqueles são os seus gêmeos. Um menino e uma menina. E aqueles são os seus outros gêmeos. Os netos.

Os gêmeos netos têm mais ou menos a idade do Jacob. São dois meninos. Olho para os três meninos grandes e para mim. Estou vestida com um short cor de laranja e um colete amarelo, e estamos todos no quintal da nossa casa. Tento lembrar o momento em que a foto foi tirada. Não é justo, porque devo ter uns sete anos na fotografia. Devia me lembrar dela, mas não lembro.

— Sim, sim — ela responde, mas sei que não está escutando.

A casa tem um cheiro estranho.

— Aqui está — ela anuncia. — Geleia.

Paro na porta da cozinha e olho para a cena. Tem potes de geleia cobrindo toda a superfície da mesa, as bancadas e até alguns trechos do chão. Deve haver centenas deles.

— Uau — digo.

— Pegue um pouco de geleia, querida — ela diz.

— Flora — eu falo. — Eu sou a Flora. Você viu os meus pais?

Ela não responde. Acho que nem me ouve. Pego a geleia e a beijo no rosto, porque sei como é, e vou para casa.

A geleia está coberta de mofo, mas não quero jogar fora. Guardo o pote no fundo do armário.

Mando um e-mail para Drake e faço o melhor relato cronológico possível, tentando determinar o que deveria ter acontecido e quando e o que realmente aconteceu (nada). Conto sobre a geleia da sra. Rowe. Assim que mando o e-mail, percebo que deve ser uma mensagem estranha de receber. Verifico a caixa de entrada toda hora, mas ele não responde. Não tem nada dele, e não tem nada dos pais.

Encontro um número no verso de uma fotografia. Ligo para ele do meu celular, mas não consigo completar a ligação. Recebo uma mensagem de “número bloqueado”.

Acho que esqueci alguma coisa. Não consigo lembrar o que é. Puxo os cabelos numa reação frustrada, e a dor é bem-vinda. Repito o gesto. Bato a cabeça na parede branca desse quarto meio rosa idiota. Olho para a janela, sinto vontade de quebrar o vidro, me cortar, me jogar por ela. Quero provocar uma sensação intensa o bastante para me lembrar dela.

Paro ao lado da janela. Seria fácil. Não tem ninguém aqui para me impedir.

Drake me faz recuar. Lembro do Drake. Lembro dele me convidando para passar a noite a seu lado, e deito na cama para rever essa lembrança. E a revivo muitas vezes. Volto à praia como uma presença-fantasma e ando por ali na ponta dos pés, nos vejo sentados lado a lado.

— Frio — ele diz. — Já fui uma vez.

— Sorte sua.

— Passar a noite?

— Minha mãe.

Puxo uma cadeira para perto da janela do quarto e fico olhando as árvores lá fora. Não tem carros passando, porque a viela na frente da casa não é larga o bastante para isso. Algumas pessoas passam andando. Devemos ter vizinhos do outro lado também, mas não me atrevo a bater na porta da casa deles. Não sei se os conheço.

Nada acontece. Ninguém chega. A casa está quieta. Começo a me sentir mal. Tem alguma coisa que eu perdi. Se não soubesse que saí de casa hoje, pensaria que tinha alguma coisa a ver com o mundo todo, não com meus pais em particular. Mas não houve nenhum apocalipse, até onde eu sei.

Abro o laptop para olhar tudo de novo, e, por essa ser a primeira vez que não estou esperando um e-mail de Drake, as duas mensagens me pegam de surpresa, e eu grito e começo a chorar antes mesmo de ler.

O nome dele está lá, no topo da tela: Drake Andreasson. Com o coração aos pulos, eu me sento para ler, começando pela mais antiga.

A casa parece me sufocar quando olho para as palavras que ele escreveu.

Flora,

Bom, é sábado, e estou de volta do trabalho, e seus pais devem ter voltado para casa. Espero que esteja tudo bem com o seu

irmão.

Aqui é mágico, mas estou com saudade de você. Trabalhar nas antenas de satélite foi incrível, mas não parei de pensar em

você.

Você arrumou a casa? Seus pais ficaram impressionados? Queria poder te ver. Não consigo parar de pensar em todas as coisas

sobre as quais conversamos. O que acha de eu ir te ver no feriado?

Drake

A segunda mensagem diz:

F, escrevi aquele e-mail offline, porque a internet caiu. Depois baixei seu e-mail. Eles voltaram? Tem certeza de que não

mandaram nenhuma mensagem, você olhou? Talvez tenham ficado mais tempo com seu irmão. É estranho eles não terem

telefonado. Quanto tempo faz?

Espero que eles tenham chegado depois do seu último e-mail. Mande notícias.

D

Eles não voltaram. Escrevo para ele contando. Depois escrevo de novo, e de novo, e de novo.