A única memória de Flora Banks

Emily Barr · Capítulo 20 de 29

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A única memória de Flora Banks

Capítulo 19

 

A fronha é fria embaixo do meu rosto. Eu me espreguiço. Estou descalça, e meus pés tocam o lençol preso ao pé da cama. Exploro as laterais: estou em uma cama de solteiro, minha cabeça está latejando e não quero abrir os olhos, porque estarei em Penzance e nenhuma das coisas na minha cabeça terá acontecido.

Toco meu rosto com os dedos. A pele está áspera, cheia de buracos e saliências. Levo os dedos às têmporas e sinto a pulsação.

Tem palavras no meu braço, palavras grandes escritas com caneta preta.

EU VI O DRAKE, está escrito. EM UM BARCO.

Eu vi o Drake. Em um barco. Quero me lembrar disso, mas não lembro. Não lembro, mas acredito nisso.

Este quarto tem duas camas, e tem uma pessoa dormindo na outra. Isso não acontece em casa.

A pessoa na outra cama está virada para mim, tem um espaço estreito entre nós, e ela parece dormir tranquilamente. Os olhos estão fechados e a pele é melhor que a minha. Ela tem faces vermelhas e cabelo castanho.

Provavelmente eu a conheço, ou não estaríamos dormindo no mesmo quarto. Talvez seja Paige. Paige tem pele lisa e cabelo escuro.

Tem um mapa na parede atrás dela, um mapa onde há ilhas e muito mar azul. Entre nós, em cima de uma mesinha, tem uma pilha de livros, mas foram escritos em um idioma estranho que não sei ler. O título de um deles é Neljäntienristeys. Ou eu perdi a capacidade de entender o sentido das palavras, ou essa é uma língua diferente.

Fecho os olhos de novo. Não tenho ideia de quanto tempo passei dormindo, mas está claro lá fora, o que significa que é dia. Olho para a janela, mas a persiana está abaixada, e só consigo ver a luz do sol em torno dela.

Olho para minhas mãos. Uma delas diz FLORA seja corajosa e Drake, e a outra diz Agi e lugar frio está na minha cabeça e EU VI O DRAKE EM UM BARCO. Mais acima, no braço, está escrito DRAKE, mas não com caneta. É como se meu próprio braço estivesse me dizendo isso. Agi é uma mulher de óculos. Essa mulher não usa óculos, mas está dormindo na cama, não precisa deles. As pessoas, digo em pensamento, não precisam usar óculos quando estão dormindo. Isso parece sensato. Sento e olho em volta: na mesa maior perto da cama dela tem um par de óculos, as pernas esticadas, olhando para a porta com seu olhar vazio.

Agi. Essa mulher se chama Agi e é minha amiga. Eu a conheço. Estou impressionada comigo mesma por me lembrar de tudo isso.

Por isso amo o Drake. Ele me beijou na praia e me fez lembrar.

Eu me sinto sã. E me sinto racional. Sinto que dormi por muito tempo.

Eu me sinto normal. Não estou flutuando no tempo e no espaço; sinto falta disso, mas estou satisfeita, porque tenho um trabalho a fazer.

Minha máquina está ao meu lado. Meu telefone. Pego o aparelho e olho o que está acontecendo, e me arrependo imediatamente.

Irmãzinha,

Imagine que você é mãe de um filho que está em seu leito de morte. Você tem certeza de que a outra filha, aquela de quem

você costuma cuidar, está bem, então vai ficar perto daquele que tem os tumores. Mas acontece que a outra filha não está

segura em casa com a amiga, e, quando você finalmente a rastreia, ela está no polo Norte procurando um garoto.

Eles descobriram onde você está em dois segundos, só precisaram procurar. A mamãe decidiu ficar junto do leito de morte, e

Steve acabou de partir para te buscar. Atenção: ele vai aparecer em Svalbard em um dia mais ou menos, e vai te achar muito

mais depressa do que você achou o seu Drake. Vai te trazer direto para Paris, provavelmente em uma camisa de força.

Eles acionaram a polícia, claro, e, se houver um policial nessa ilha, ele vai começar a te procurar assim que a pessoa certa

passar as mensagens certas.

A Paige contou a eles sobre sua ligação com o Drake, e também contou que não esteve com você em casa nem por um

momento e que te viu a caminho da estação com um casaco de pele, a mala e a palavra “Spitsbergen” escrita na mão em letras

grandes. Ela é uma boa detetive, embora tenha pensado que você estava a caminho da Gay Paree, já que, se entendi bem, você

disse que era isso que estava acontecendo. Ela achou que “Spitsbergen” era só uma obsessão. Diz que nunca imaginou que

você poderia realmente ir para lá. Os pais não estão contentes por ela ter te abandonado. Ela está muito arrependida e

preocupada, e caiu na real: parece que foi a mãe dela, aquela mulher tóxica, que a incentivou.

E então eles se deram conta de que você fugiu para o Ártico para a aventura de procurar o garoto. Nossa mãe é obcecada pela

sua proteção, superprotetora a ponto de não aceitar que você tem seus direitos, e eu sei que em alguma medida você sabe

disso. De agora em diante, ela vai ficar ainda mais desesperada para te manter no radar. Você vai ter que tirar o máximo

proveito da liberdade que tem agora.

Meu tempo está acabando. Odeio isso. Não quero morrer. Eu tenho vinte e quatro anos, e pessoas de vinte e quatro anos não

morrem. Não é justo. Eu me enfureço com a ideia de a cortina baixar, mas estou me forçando a deixar isso de lado por um

momento e pensar em você. Tenho algumas coisas para dizer:

Não deixe que eles te obriguem a voltar a tomar calmantes. Seja você mesma. Se você é difícil, esquisita, estranha ou

engraçada, tudo bem. Essa é você, Flora. A pessoa que é agora, com todas as suas imperfeições e dificuldades. A pessoa que

pode ser um chute no saco, que faz os pais arrancarem os cabelos, que escreve e-mails malucos e adoráveis, que se apaixonou

por um garoto em uma praia da Cornualha e foi atrás dele no fim da Terra. Essa é você. Essa é minha irmã. Você tem

amnésia, mas está viva. Então viva a sua vida.

Você perguntou por que eu fugi para Paris e cortei todo e qualquer contato com os pais. Foi porque eu não suportava ver

como eles te tratavam. Eles te mantinham medicada placidamente em casa. Não te deixavam ser quem você é. Eu avisei que,

se continuassem fazendo você tomar aqueles comprimidos (de que não precisa, não existe remédio para amnésia anterógrada,

já que você não tem epilepsia, e todas as pílulas são calmantes para te manter quieta e dócil), eu iria embora e nunca mais

falaria com eles. Eles continuaram, então eu fui embora. Mas mantive contato com você, minha Flora. Eles bloquearam meu

número no seu celular, mas sempre encontrei maneiras de te alcançar. Trocamos e-mails, conversamos, mandamos cartas. Eu

mandava cartões-postais sempre, mas nunca soube se você os recebia. Espero que sim.

Até duas semanas atrás, meu contato com os pais se limitava a um cartão de Natal, e só os vi uma vez, e foi graças a você.

Depois recebi a terrível notícia sobre mim e tudo mudou, voltei a precisar deles.

Então, essa é a verdade. Já disse isso antes, e queria poder ficar repetindo para sempre, mas não posso. Você não vai lembrar,

mas já parou de tomar os comprimidos antes, e coisas malucas e maravilhosas aconteceram. Os pais odiaram, mas você e eu

AMAMOS. Vivemos momentos juntos, e eu queria que você pudesse ter essas lembranças, minha querida. Nós caminhamos,

rimos, fizemos compras e brincamos de esconder. Vimos filmes. Passamos a noite toda conversando. Você é meu universo.

Espero poder te ver.

Se não der... bem, obrigado por tudo. Foi demais.

Beijos, Jacob

Olho para a mensagem de Jacob. Eu o amo e ele vai morrer. Já fugi antes. Minha mãe e meu pai mentem para mim há anos e anos, e não posso confiar neles. Preciso escrever isto: não confie na mãe e no pai. Preciso encontrar Drake, e essa é a única coisa em que posso pensar agora, porque uma pessoa da polícia vem me buscar e me levar para casa, e, se não o tiver encontrado até lá, nunca mais.

Meu pai está vindo. Escrevo isso no braço. As letras saem trêmulas.

Tem toneladas de mensagens e e-mails dos pais, mas não leio nenhum. Sento na cama e fico observando Agi dormir. Levanto, sento rapidamente de novo na cama. Minha cabeça dói. Estou enjoada. Sinto um gosto estranho na boca.

Meu estômago revira. Estou de calcinha e camiseta, mas o jeans na outra cama é meu (tem meu nome na etiqueta), e eu me visto o mais depressa que posso e abro a porta. Deve haver um banheiro por perto, porque sempre tem banheiros perto dos quartos.

Ando pelo corredor sabendo que preciso encontrar um banheiro com urgência. Tento abrir todas as portas, inclusive as que têm números, e a sexta porta se abre para um cômodo escuro com cheiro de gel de banho, vapor e outras pessoas. Encontro o interruptor e descubro que, sim, isso é um banheiro. Consigo trancar a porta depois de entrar e me debruço sobre o vaso antes de vomitar violentamente.

Tinha esquecido (é claro) como é vomitar, mas agora me lembro de quando eu era pequena. Meu estômago se comprime, e o vaso fica cheio de um líquido fino e fedido. Definitivamente, nunca mais vou beber cerveja. Assim que puder, vou escrever isso na minha mão e, mais tarde, vou anotar também no caderno. É importante que isso se torne uma regra de vida.

Ajoelhada, tento segurar o cabelo até tudo isso acabar. Meus olhos estão cheios de lágrimas, e quero voltar para a cama e dormir de novo. Mas a polícia está me procurando, e meu pai (ou “Steve”) vem me buscar, e, embora eu queira ir para Paris porque quero ver Jacob, não quero ver os pais que me doparam para me tornar mais fácil de comandar. Quero ver Drake. Não posso ir embora sem ver Drake. Eu o vi em um barco. Sei que vi. Vi Drake em um barco.

Jacob é a única pessoa em quem posso confiar, e ele vai morrer.

Como tem um chuveiro aqui, tiro toda a roupa e deixo a água quente lavar os vestígios de enjoo. Pego um pouco do gel de banho e do xampu que estão bem ali e me lavo adequadamente. Não tenho toalha, é claro, então me seco mais ou menos com o papel que tem ao lado do vaso e me visto. Tudo parece meio úmido, mas não faz mal. Escovo os dentes com um pouco da pasta de alguém no dedo. Minha boca fica imediatamente fresca e gostosa como neve.

Demoro um pouco para encontrar o quarto certo, mas é a única porta que não está trancada, porque não a fechei direito quando saí. A mulher, Agi, ainda dorme, e eu pego tudo que acho que é meu, inclusive o casaco de pele que tem FLORA na etiqueta, e a bolsa, onde está meu caderno, e saio. Não tem mais ninguém acordado. Olho o celular e descubro que é porque são cinco e dez da manhã.

Às oito, a mulher que trabalha na loja de sapatos chega e me encontra esperando na porta da loja. De acordo com minhas anotações, ela foi legal comigo e vendeu as botas para mim. Examinando o celular e o caderno, descobri muitas coisas e encontrei o recibo da compra entre as páginas. Tinha o nome da loja, e aqui estou eu, pronta para pedir ajuda a ela. Tenho uma folha de fatos que preparei agora há pouco, onde defini tudo que preciso falar e perguntar a ela.

A mulher para quando me vê.

— Flora. — Ela tem olhos bondosos, o cabelo longo e grisalho e está usando jeans e suéter vermelho. — Entra, é claro, mas o que você está fazendo aqui? Vou ligar para a pousada e pedir para a Agi vir te buscar.

— Preciso da sua ajuda com um assunto, e eles vêm me buscar de qualquer jeito. Um homem vem me buscar. É o meu pai. Eles chamaram a polícia, mas não quero ver a polícia.

— Seu pai vem te buscar? Ah, essa notícia é excelente. Fico muito satisfeita. E a polícia aqui é boa. Eles não têm muito para fazer. Não acontece muita coisa. Depois que terminarmos esta conversa, vou ligar para eles e avisar que você está aqui.

Entro na loja e sento onde ela diz que devo sentar, em uma banqueta atrás do computador, enquanto ela anda de um lado para o outro fazendo coisas.

— Desculpa — começo. — Eu devia saber, mas como é o seu nome?

Ela para, vira e olha para mim.

— Henny, minha querida, Henny Osterberg. E sabe de uma coisa? Eu ainda não tinha falado o meu nome. Você não esqueceu. Estou me apresentando agora.

— Ah, que bom! Como uma pessoa normal.

— Como uma pessoa normal. Um café?

Enquanto ela prepara o café, eu conto o que me trouxe aqui.

— Na última vez você disse para eu tentar no Instituto Polar — explico, estudando seu rosto para ter certeza de que é isso mesmo. É o que está escrito na minha folha de fatos, e eu copiei tudo do caderno. — Para procurar o Drake. Fui até lá, mas estava fechado. Ele veio para cá para estudar. Ele me beijou na praia.

Duas figuras sombrias se beijando em uma praia escura. Eu as vejo, mas não consigo ouvir o que dizem. Antes eu conseguia ouvir as palavras, e agora elas sumiram.

— Certo. O seu pai está vindo e você quer tentar encontrá-lo mais uma vez, enquanto pode? Os seus pais não vão entender sobre o garoto?

— Sim. Agora. Acho que o vi ontem à noite. Em um barco.

— Não conheço o seu Drake, minha querida. Falei para você ir ao Instituto Polar porque fica no mesmo prédio da UNIS, e é lá que a pesquisa acontece. — Ela me dá uma caneca. — Cuidado, está quente. Mas, Flora, ele está aqui, e você está certa. Toby o encontrou na cafeteria há alguns dias e falou que havia uma moça procurando por ele, e ele ficou um pouco assustado, porque... — Ela para e respira fundo. — Bem, ele tem uma namorada aqui. Lamento muito ter que dizer isso, mas é verdade. O Toby queria te contar, mas ficou com receio de te deixar muito perturbada tão longe de casa. Mas você precisa saber. É uma cientista russa mais velha que ele. Nadia Ivanova. Conheço a Nadia, porque ela está aqui há dois anos.

— O Drake tem namorada?

— Sinto muito, querida.

— Ele tem namorada. Mas sou eu. Não é Nadia Ivanova.

Drake é meu namorado. Era da Paige, mas depois eu o beijei na praia, e agora ele é meu. Empurro as palavras de Henny Osterberg para fora da minha cabeça.

— Onde ele mora?

Drake ficou amigo de uma garota porque pensa que estou em Penzance. Ele passa o tempo com uma cientista russa mais velha porque está solitário. Eles só falam sobre ciência, provavelmente.

— Bem, ela mora em um lugar afastado, uma casa do outro lado da água. Trabalha lá e vem para a universidade em um barquinho. Ela rema até aqui. Pelo que sei, o Drake passa muito tempo lá.

— Então eu o vi ontem à noite! Eu vi! Em um barco!

— Sim, Flora, parece que você o viu.

Bebo um gole do meu café. Eu o vi. Fiz o que vim fazer aqui, encontrei Drake. Andei pela cidade até encontrá-lo. Mal posso conter minha alegria. Estou sorrindo como uma idiota. Toco meu rosto. E agora essa mulher está me dizendo aonde tenho que ir para encontrá-lo.

— Ela mora do outro lado da água?

— Sim. Aparentemente, Longyearbyen não é suficientemente isolada! É a única casa do lado de lá. Dá para ver do píer.

— E o Drake está lá agora?

— Ah, não, menina. Vamos telefonar para a Nadia e pedir para o Drake vir aqui falar com você. Se o seu pai vem te buscar, é melhor ficar por perto. Mas entendo que você tenha que ter esse encontro antes de ir, ou acho que você vai acabar voltando, não é?

— Provavelmente.

— Tomou café da manhã?

— Não. Quer que eu vá buscar alguma coisa? Para você e para mim?

Henny me encara. Seja qual for o teste, parece que fui aprovada.

— Vai lá, então. — Ela me dá dinheiro. — Vá ao supermercado do outro lado da rua, na praça, na frente do bar. Compre alguma coisa na seção de padaria. Certo? Pode trazer leite também? Se conseguiu vir da Inglaterra até aqui, acho que consegue comprar comida. Confio em você.

Escrevo em um pedaço de papel: Padaria e leite. Henny. Loja. A maioria das inscrições desapareceu da minha mão, e escrevo nela também.

— Obrigada, Henny. Você é muito legal comigo.

— Volte direto para cá, e vamos tentar fazer o Drake vir te ver. Prometo que vou cuidar disso. Mas, Flora, você tem que voltar direto para cá. Certo?

— Sim. Eu volto depressa.

Pego minha bolsa, ponho o caderno e a folha de fatos dentro dela e saio da loja. Viro à direita, porque é lá que fica o supermercado com a padaria, e ando obediente ao longo da praça. Atravesso a rua. Sigo em direção ao supermercado. E continuo andando, desço a rua paralela à da loja de Henny.

Começo a correr. Eu me sinto mal com isso, porque ela é legal comigo, mas acabou de me dizer onde posso encontrar Drake, e não tem outra coisa que eu possa fazer senão ir até lá antes que a polícia me leve embora.

No período entre a hora em que saí da pousada e a chegada à loja de Henny, li minha troca de e-mails com Drake. Estou inundada de amor. Drake é real. Ele me beijou na praia, e depois escreveu mensagens maravilhosas para mim. Ele está aqui de verdade, e agora sei em que casa ele está.

Drake escreveu:

Não consigo parar de pensar em você.

E também:

Passo mais tempo do que você pode imaginar pensando em você nua.

Ele escreveu:

Seu corpo é perfeito. Eu sei que é.

E escreveu:

Também amo você.

Eu o amo e ele me ama. Mesmo que tenha uma pessoa chamada Nadia, quero ir até ele, respirar seu ar, olhar em seus olhos. Quero tocá-lo com meus dedos. Quero tocar seu rosto, seu cabelo. Quero sentir seu cheiro. Não posso ir para casa sem fazer essas coisas.

Corro para o píer. Hoje o sol está brilhando e as nuvens são finas e bonitas, e não vai nevar. Elas dançam pelo céu a caminho de outro lugar onde vão despejar a neve mais tarde.

Tem muitos barquinhos por ali, amarrados com cordas fortes ao píer de madeira. Um homem de macacão azul está fazendo alguma coisa em um barco grande, e ele sorri e levanta a mão para me cumprimentar. Aceno de volta e tento pensar depressa no que fazer. Preciso continuar em movimento.

Henny disse que a casa era a única que dava para ver. Só tem uma casa do lado de lá, um pouco acima da orla, à esquerda. Acho que já notei aquela casa antes. Sento, pego meu caderno e escrevo um bilhete rápido.

Desculpe, peguei seu barco emprestado. Não é roubo, vou devolver. Aqui está um dinheiro

pelo aluguel.

Caminho confiante em direção ao menor barco a remo, que está ancorado no canto da estrutura de madeira, e deixo o bilhete e o dinheiro embaixo de uma pedra ao lado dele. Desamarro a corda do barco como se tivesse todo o direito de usá-lo. Ela está enrolada em torno de uma estaca de metal no píer, é fácil soltá-la. Não sei bem o que fazer a seguir, então seguro a corda e pulo dentro do barco, que balança, mas não vira.

É difícil tirar os remos do lugar, e é claro que nem imagino como usá-los, mas consigo encaixá-los no suporte de metal.

Sob o sol brilhante do Ártico, começo a deslizar pela água para ir encontrar o amor da minha vida. Aconteça o que acontecer a seguir, vou encontrá-lo, e isso vai mudar tudo.

O homem no píer está gritando alguma coisa, mas não olho para trás. Já devo ter remado um barco antes, porque meus braços sabem o que fazer, e me inclino para trás e para a frente movendo os remos, que cortam a água, usando-os para me impulsionar como se estivéssemos em um meio sólido.

Isso não parece ser real, mas acho que é. Estou na água, remando ao encontro de Drake, e o mundo se reduziu ao meu entorno, de um jeito que isso é tudo que existe. Esta sou eu, Flora, sendo corajosa, finalmente.

O sol está à minha direita, ofuscando a visão desse lado. Assim que a cidade, os barcos, o homem e as máquinas ficam para trás, tento esquecê-los. Duas aves me acompanham por um tempo. São pequenas, e eu as reconheço de fotos, mas não sei o nome delas. São lisas e brilhantes, pretas e brancas, com bicos curvados e listrados de amarelo e vermelho. Elas deslizam sobre a água rumo à terra, balançando um pouco sobre a superfície, depois decolam usando a água como pista. Gosto de suas costas pretas, do rosto branco e do vermelho no bico. Elas são minhas amigas. Já as vi em livros quando eu era pequena.

Eu beijei o Drake, e trocamos e-mails apaixonados e maravilhosos que ninguém jamais viu, neste ou em outro mundo. Ele me amava naquela época e vai me amar agora.

Acho que estou remando errado. De repente penso que deveria estar de costas para Drake, de costas para a cabana. Estou remando de frente, olhando determinada para o destino. Isso não funciona, e meus braços estão protestando. Mudo de posição no barco e olho para a cidade, mas não me permito ver que agora tem duas pessoas acenando do píer.

É muito mais fácil remar assim, e me pergunto quando fiz isso antes. Não importa. Vejo o contorno da cidade ficando cada vez menor e mais longe. Mais aves pousam na água perto de mim, e algumas deslizam ao lado do barco por um tempo, me fazendo companhia.

— Obrigada — digo a elas. Papagaios-do-mar. São papagaios-do-mar. Fico muito feliz comigo mesma. — Obrigada, papagaios-do-mar — digo. Elas respondem que não foi nada.

Drake está na minha frente. Estou remando pela água cintilante em direção a Drake Andreasson, o amor da minha vida.