A única memória de Flora Banks
Capítulo 23
— Vai, Flora — diz minha mãe, com um grande sorriso que não alcança os olhos. — Sopre as velas.
— Sopre as velas — repito. Tem um bolo em cima da mesa, na minha frente. As cortinas da sala estão fechadas e está escuro, embora tenha luz lá fora. Talvez este seja um lugar onde está sempre claro, mesmo no meio da noite.
— Vai! — insiste meu pai.
Olho em volta. Paige está sentada ao meu lado.
— Quer que eu sopre com você? — ela pergunta. Depois segura minha mão e a afaga. — Vem, vamos soprar suas velas de aniversário juntas. Um, dois, três...
As velas estão na minha frente, em cima do bolo. São muitas. Muitas chamas pequeninas. Imito Paige e sopro as velas, e elas tremulam e apagam, a maioria delas. Sopramos de novo e todas as chamas se apagam.
Meus pais aplaudem. Olho para eles, de um para o outro. Os dois estão olhando para mim e sorrindo. Olho para mim mesma. Estou de vestido branco, um vestido de festa, e sapatos amarelos.
— Agora tem que cortar o bolo — diz meu pai, pegando uma faca, que entrega para mim.
Minha mãe tira a faca da mão dele antes que eu possa pegá-la.
— Eu faço isso — ela diz. — A Flora não precisa de uma faca afiada.
Paige ainda segura minha mão. Sinto que ela fica tensa com as palavras de minha mãe.
Tem música tocando. Um homem cantando sobre uma banda de um clube de corações solitários, mas não sei o que isso significa. Não sei o significado de nada.
Olho para a luz que entra pelas beiradas da cortina. Por alguma razão, aquilo me entristece.
— Não chora, Flora — Paige fala baixinho.
Minha mãe me dá um pratinho, que é branco com a volta dourada. Tem uma fatia de bolo no prato. Eu o pego e olho para o bolo. É marrom. É bolo de chocolate. Tem círculos coloridos em cima. Parece bom, mas não quero.
Olho para minha mãe. Ela está me observando e sorri quando vê que estou olhando para ela.
— Come, querida — ela diz. — Agora você tem dezoito anos!
— Uma adulta — comenta Paige, e vejo que ela olha para minha mãe.
— Sim, uma adulta — minha mãe concorda. — Do jeito dela.
Ninguém fala nada. O cantor diz que gostaria de levar a gente para casa.
Minha mãe fala depressa, as palavras se atropelando:
— Lamento. Mas não vou perdê-la também, Paige. Não vou. Ela é tudo que tenho e vou mantê-la segura. Cuidar dela. Não suporto fazer outra coisa. Sou mãe dela, e ela vai ficar comigo, e eu vou cuidar de todas as necessidades dela. Ela está bem. Estou mudando a dose, agora que ela se acostumou a estar de novo em casa. Ela só precisa... não pensar nunca mais em fugir para lugar nenhum. É pela segurança dela.
— O dr. Epstein mandou um cartão de aniversário para a Flora — diz Paige. — Ela agora tem dezoito anos.
— Aquele homem não vai chegar perto dela.
Meu pai começa a falar depressa. Ele parece concordar com Paige, não com minha mãe, mas sei que não pode ser.
— Talvez a gente deva sair um pouco com a Flora hoje à tarde? É aniversário dela. E o dia está lindo. Vamos andar na praia?
— Eu posso levar a Flora para ver o mar — diz Paige. — Ela sempre gostou disso. Prometo que vou cuidar dela. Vai ser bom para ela. Posso até levá-la ao cinema. Presente de aniversário. Alguma coisa assim. Ela pode sair de casa de vez em quando, não pode?
— Ótima ideia, Paige — meu pai aprova. — Vai ser muito bom para a Flora sair com você.
— Juro que vou cuidar dela.
Todos olham para minha mãe. Ela está olhando para o copo. Percebo que ela e Paige estão bebendo alguma coisa com bolhas em um copo alto de vidro fino. Meu pai bebe um líquido alaranjado em um copo mais grosso. Olho para as bebidas deles. Eu sei alguma coisa sobre isso.
— Cerveja! — falo, apontando o copo.
Paige cai na risada. Meu pai sorri. Minha mãe franze a testa.
— Isso mesmo — diz Paige. — É cerveja.
Olho para o meu copo. Tem limonada nele. Dois cubos de gelo e uma fatia de limão. Isso é bom.
— Não devo beber cerveja porque passo mal — falo, sem saber de onde vêm as palavras. Não sei o que estou dizendo.
— Essa é uma boa regra de vida — Paige responde, depois de alguns segundos.
— Sim, é mesmo — meu pai concorda. — Muito bem, Flora.
Minha mãe não fala nada.
Eles estão conversando, e eu paro de ouvir. Faço um esforço para comer um pedaço de bolo, porque é meu aniversário. Bebo minha limonada. Ouço música. Olho para minhas mãos. Em uma delas está escrito FLORA seja corajosa.
— Vamos!
Paige está parada na porta de casa. Minha mãe toca meu ombro. Eu pulo, assustada, porque ela está atrás de mim, e eu tinha esquecido que ela estava aqui.
— Só uma volta na praia — ela diz. — Mais nada. Promete?
— É claro que prometo, sra. Banks. Eu vou cuidar dela. A senhora sabe que vai ser bom para a Flora respirar um pouco de ar fresco.
— Sim, eu tenho andado com ela pela praia de vez em quando. Tem razão, ela gosta disso. Tudo bem. Um passeio de aniversário. Mas promete que vai trazê-la de volta nos próximos vinte minutos. Vinte minutos é o limite máximo.
— É claro. Quando a gente voltar, ela vai poder abrir o meu presente.
— Isso. Vai ser ótimo. Também temos mais algumas coisas para ela. Tentei espalhar os presentes ao longo do dia para ela ter sempre a alegria de abrir um pacote.
Paige sorri. Ela enrosca o braço no meu e me leva para fora, pelo portão, por uma alameda e até a calçada.
O sol brilha. O céu é azul. O ar tem cheiro de flores e coisas lindas. Paige me leva para fora do jardim e para um parque do outro lado da rua.
— Vamos por aqui — ela diz. — Você gosta de passar por aqui.
Deixo Paige me levar por caminhos que passam entre árvores muito verdes e um lago. Ela me leva até um banco e me faz sentar. Depois fica diferente. Segura meu rosto entre as mãos e olha nos meus olhos.
— Certo, Flora. Hoje vamos começar a trazer de volta você de verdade. Você vai parar de tomar o remédio. Os comprimidos que você está tomando agora não têm nenhum efeito. Eu troquei as embalagens quando estava decorando o seu bolo. E os comprimidos ruins estão aqui. — Ela tira um frasco marrom do bolso e o sacode.
— Os comprimidos ruins estão aí — repito.
— Sim. Os que a sua mãe vai te dar agora são placebos. Acabou a porcaria. Pode ser difícil, mas espero que não seja muito difícil, porque faz pouco tempo que você voltou a tomar remédio. A sua pele vai ficar estranha de novo. Você vai começar a acordar. Vai visitar lugares diferentes na sua cabeça. Vai começar a querer escrever coisas. Sua mãe vai perceber, por isso não temos muito tempo. Vou ficar por perto todo o tempo que eu puder. Você não vai lembrar que eu falei tudo isso, e não temos muito tempo. Vou te dar uma carta, está bem? É muito importante que você leia quando estiver sozinha. Tenho que te levar de volta às quatro e meia, por isso você não pode ler agora. Queria que pudesse e que a gente conversasse sobre ela. Mas você vai ter que ler a carta e guardá-la, e vai ter que continuar lendo enquanto volta ao normal.
Ela toca meu joelho e o afaga.
— Não se preocupe — diz. — Eu sei que você não está entendendo. Sei que não pode entender. Ainda assim, eu preciso falar. Flora, se cuida. Vamos resolver tudo isso para você. Posso ver o seu braço?
Estendo o braço sem saber o que ela quer ver. Paige levanta a manga do meu cardigã e pega
uma caneta no bolso dela. Bem no alto, acima do curativo, ela escreve: Trancar porta.
Pegar carta do Jacob no sutiã e ler.
Franzo a testa.
— Ler?
— Sim. Tenho uma carta para você, e vamos guardá-la no seu sutiã para que eles não vejam. — Ela pega um papel dobrado e afasta minhas roupas do corpo. Empurra o papel para dentro do meu sutiã e arruma as roupas de volta. Depois olha para mim e assente. — É isso. Certo. Agora vamos dar uma olhada rápida no mar, e depois vou te levar de volta para casa.
Estou debruçada sobre uma grade, ao lado de Paige, que é minha amiga, e estamos olhando para o mar. A água está na metade da orla. Tem pedras na praia. A maioria é cinza e preta. Tem uma foto de um gato presa na grade.
Adoro o cheiro do ar. Adoro me debruçar em uma grade e olhar para a água. Algumas aves voam alto no céu. Elas gritam. Quero ficar debruçada nessa grade, respirando o ar fresco e olhando para o mar o tempo todo.
Tem um curativo no meu braço. Levanto a manga e puxo a ponta do esparadrapo. Quando olho embaixo da gaze, vejo letras cortadas na pele. Não entendo, não gosto, por isso devolvo o curativo ao lugar.
Tem carros passando atrás de nós. Tem muita gente na praia. Muitos estão deitados e usam pouca roupa. Crianças correm. Pessoas nadam. Comem. Leem. Vivem.
— Ah, Flora. Você quer ficar aqui, mas não podemos. Desculpa.
Olho em volta.
— Não podemos?
— Hoje não. Tenho que te levar de volta. Mas não se preocupa. Não é por muito tempo, e vamos a um lugar melhor que este. Vem. — Ela segura minha mão, e ficamos juntas na calçada esperando uma brecha no trânsito. Deixo Paige me levar para o outro lado da rua e para a casa onde passo todo o meu tempo.
Eles me dão presentes. Abro os pacotes e agradeço. Meus pais me deram um ursinho de pelúcia. É grande, com um laço no pescoço. Eu o abraço com força.
Paige me dá uma bolsa nova. É branca com flores vermelhas e cabe muita coisa nela. Abro a bolsa. Tem garrafinhas lá dentro, coisas com cheiro bom. Tem um batom. Tem colares e echarpes. Um caderno novo e muitas canetas.
Adoro. Adoro tudo que tem dentro da bolsa.
— Obrigada — eu falo para ela e repito o agradecimento muitas vezes.
Paige ri.
— Não foi nada, Flora! De verdade. Fico feliz por ter gostado tanto.
Estamos na porta de casa. Paige está indo embora.
— Não vai — eu falo. Quero que ela fique comigo.
— Eu preciso ir. Mas volto amanhã. Talvez a gente possa sair de novo.
Ela olha para minha mãe, que assente.
— Acho que sim — ela fala.
— Fez bem para a Flora sair hoje — meu pai comenta. — Obrigado, Paige, e obrigado por passar o aniversário com ela. Somos muito gratos, e sei que a Flora também é.
— A Flora também é — repito, e é verdade.
Ele ri.
— Viu?
Paige se despede de mim com um abraço. Ela me puxa para perto e cochicha:
— Vai ao banheiro agora e lê seu braço. — E em voz alta: — Amanhã às onze estarei aqui. Tudo bem?
— Até lá — responde minha mãe.
Entro no banheiro e leio meu braço.
Tem um curativo, e acima dele está escrito: Trancar porta. Pegar carta do Jacob no
sutiã e ler.
Tranco a porta. Tem alguma coisa dobrada e pontuda no meu sutiã. Pego o papel e desdobro, sento no chão e começo a ler.