A única memória de Flora Banks

Emily Barr · Capítulo 2 de 29

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A única memória de Flora Banks

Parte um

1

 

A música é muito alta, a sala muito cheia, e tenho a sensação de que tem mais gente na casa do que qualquer ser humano seria capaz de conhecer. As notas baixas vibram pelo meu corpo. Estou em um canto há algum tempo: respiro fundo e começo a andar entre desconhecidos.

Olho para minha mão. FESTA, ela anuncia, em letras pretas e grossas.

— Já percebi — resmungo, embora não saiba por que estou aqui.

O ar cheira a suor, álcool e perfume, tudo misturado a alguma coisa enjoativa. Preciso sair daqui. Quero sentir o ar fresco. Quero ir me apoiar na balaustrada e olhar para o mar. O mar fica fora desta casa.

— Oi, Flora — alguém diz. Não reconheço. É um garoto alto e magro sem cabelo.

— Oi — respondo, com toda a dignidade que consigo reunir. Ele usa calça jeans. Todos os garotos aqui, e a maioria das garotas, usam jeans. Já eu estou usando um vestido branco e brilhante com saia justa e sapatos amarelos que nem são legais, e não são do meu número.

Imagino ter me vestido para uma festa: estou me destacando como a pessoa que entendeu tudo errado.

Olho para minha mão. Ela diz: Tenho 17 anos. Olho para baixo, para mim outra vez. Pareço uma adolescente, mas não me sinto como tal.

Quando eu era mais nova, adorava me vestir para ir a festas. Eu colocava um vestido apropriado, como o de hoje, e as pessoas me abraçavam e diziam que eu parecia uma princesa. Mas não tenho mais idade para isso. Se tivesse uma caneta à mão, eu escreveria no braço, para enfatizar: “Sou mais velha do que penso ser”. Eu não devia mais usar vestidos de festa. Devia usar jeans.

— Bebida?

O menino está apontando para uma mesa onde há copos de plástico e garrafas. Olho para o meu pulso: Não beber álcool, ele avisa. Todo mundo ali está bebendo o que tem nas garrafas. Pode ser álcool.

— Sim, obrigada — respondo, para ver o que acontece. Minha mão também informa que Drake está indo embora. Namorado da P. A festa está acontecendo porque alguém vai embora. O P é de Paige. Namorado da Paige. Coitada da Paige. — Aquela vermelha, por favor.

Lambo o dedo e esfrego Não beber álcool até as palavras ficarem ilegíveis.

O garoto alto me passa um copo de plástico cheio de vinho. Faço uma careta no primeiro gole, mas segurar um copo com bebida alcoólica me faz sentir que tenho a ver com aquele lugar, e eu vou procurar a Paige.

Tenho dezessete anos. Estou em uma festa. Drake vai embora. Drake é o namorado de Paige.

Uma mulher toca meu braço e me detém. Eu me viro para encará-la. Ela tem cabelo loiro, quase branco, cortado em leves camadas, e dá para ver que é mais velha que todo mundo, porque há linhas em seu rosto. É a mãe de Paige. Não sei por que, mas ela não gosta de mim.

— Flora — ela grita para se fazer ouvir acima da música. Sorri com a boca, mas não com os olhos. Faço a mesma coisa. — Flora, você veio e está bem.

— Sim — grito e assinto vigorosamente.

— Vou avisar a sua mãe. Ela já me mandou três mensagens perguntando de você.

— Tudo bem.

— O Dave e eu estamos saindo. Vai ficar bem? Eu sei que você sempre precisa de babá.

Ela agora está sendo maldosa.

— Sim, é claro.

Ela olha para mim por um instante, depois vira e se afasta. Essa mulher é mãe da Paige, e esta casa é dela.

A música para e eu suspiro aliviada. Era alta, cheia de berros. Porém imediatamente outra começa, e agora as pessoas à minha volta estão pulando e dançando daquele jeito que eu jamais seria capaz de imitar. É evidente que estão contentes com a nova e animada canção.

— Põe Pixies de novo! — alguém grita perto do meu ouvido. Eu me sobressalto, e vinho respinga em meu vestido. Parece sangue.

Uma garota dá um passo para trás e pisa no meu pé. Ela tem o cabelo bem curto e usa brincos enormes e um batom vermelho e borrado que faz sua boca parecer um machucado.

— Ai, desculpa — ela diz e retoma a conversa.

Preciso ir embora. Tenho que sair daqui. Festas não são como eu pensava que fossem, com vestidos, brincadeiras e bolo. Não acho a Paige. Não tenho com quem conversar.

Estou seguindo para a porta, para o cheiro do mar e o barulho que não tem música, para minha casa, quando alguma coisa tilinta e alguém faz um “shhh” que ecoa pela sala. Todas as conversas são interrompidas, e eu me detenho, viro e olho para aqueles rostos.

Ele está de pé em cima de uma cadeira. É o Drake. Drake é o namorado de Paige, e Paige é minha melhor amiga. Eu me sinto em terra firme com ela. Eu a conheci quando tínhamos quatro anos e fomos para a escola. Ela usava tranças, eu também, e estávamos nervosas. Lembro as brincadeiras de pular no parquinho. Lembro que aprendemos a ler uma ao lado da outra: eu já sabia e a ajudei. Nos anos seguintes, eu a ajudava com os trabalhos, e ela escrevia peças para encenarmos e encontrava árvores nas quais podíamos subir. Lembro que começamos juntas o último ano do fundamental I, animadas com a ideia de ir para o fundamental II.

Conheço Paige, e quando a vejo me surpreendo por ela ser adulta. Isso significa que Drake é seu namorado de verdade.

Noto que ele tem cabelo escuro e usa óculos de armação preta. Ele está de calça jeans, como todo mundo. Não o reconheço.

Ele olha para os convidados. Quando me vê, sorri por um instante e desvia o olhar. Isso significa que, embora eu não o reconheça, nós nos conhecemos. Tem uma garota loira parada ao lado da cadeira, olhando para ele. Está muito perto. Acho que já a vi antes. Ela não devia estar olhando para o Drake daquele jeito, se ele é namorado da Paige.

— Ei, valeu, pessoal, por terem vindo — ele fala para a sala cheia de gente. — Eu não esperava uma festa de verdade. Só estou na cidade há cinco minutos. Cinco meses, para ser mais exato. Tem sido incrível estar aqui com a tia Kate e o tio Jon, e eu não esperava fazer uma montanha de novos amigos neste lugar. Pensei que a Cornualha seria só um postinho avançado de Londres, que eu andaria naqueles ônibus de dois andares e, tipo, comeria aquela comida inglesa horrorosa e viraria um hooligan do futebol. Em vez disso, vivi momentos incríveis. Mantenham contato. Se alguém quiser ir para Svalbard me visitar na mais linda paisagem da Terra, vai ser legal. Eu sonho em morar lá desde sempre, e é muita sorte ter essa oportunidade. Mas isso não significa que a Cornualha não foi incrível, porque foi.

Alguém atrás de mim fala em voz baixa:

— Ele devia se gabar mais sobre o Ártico — e outra pessoa ri.

Tenho um telefone na mão. Uso o aparelho para tirar uma foto dele, para lembrar por que estou aqui. Não sei o que significa Svalbard. É uma palavra estranha. Mas vejo que ele gosta dela.

Bebo o resto do vinho, que ainda é horrível, e olho ao redor procurando mais. Estou meio enjoada.

— É claro — ele continua —, no tempo que passei aqui, tive a sorte de conhecer a bela Paige. — Uma pausa, ele sorri e fica levemente corado.

A pessoa atrás de mim resmunga:

— Muita areia para o caminhãozinho dele.

O grupo todo concorda.

— E, por intermédio dela — Drake continua —, conheci muitos de vocês, pessoas legais. Vou sentir saudade. É isso. Obrigado, todo mundo. Vou postar fotos de neve no Facebook para todo mundo ver. Ah, e um agradecimento especial à Paige, Yvonne e Dave por emprestarem a casa para esta festa, quando tudo o que eu planejava era um encontro no bar. Continuem bebendo e tentem não destruir a casa.

Algumas pessoas aplaudem quando ele desce da cadeira meio desajeitado, mas é um aplauso estranho, porque todo mundo segura um copo e bate palmas sem de fato bater palmas.

Tento entender o que ele acabou de dizer. Ele está indo embora. Vai para algum lugar que tem neve e está animado com isso. Ele passou cinco meses aqui em Penzance, na casa da tia Kate e do tio Jon. Paige organizou esta festa para ele.

Paige está em um canto, cercada por um grupo de pessoas. Ela levanta a cabeça e, usando apenas as sobrancelhas, pergunta se estou bem. Balanço a cabeça em uma resposta afirmativa.

Paige é linda, com o cabelo negro, longo, grosso e levemente enrolado, pele acetinada e covinhas que aparecem nas bochechas quando ela sorri. Parece uma boneca de porcelana. Hoje ela usa um vestido azul justo, meia-calça e botas. Puxo meu “vestido de festa” branco e tento não olhar para os sapatos horríveis, e me sinto toda errada.

Queria me olhar no espelho. Não vejo nenhum por ali.

Tem uma mensagem na parte interna do meu braço. Cinema com a Paige amanhã. Para ela se animar.

Encho de novo meu copo com vinho e saio discretamente por uma porta lateral, como se alguém fosse notar ou se importar com a minha partida. O ar frio atinge meu rosto, e o mar enche meus ouvidos e pulmões. Fecho os olhos por alguns segundos. Graças a Deus saí de lá.

Estou no meio da rua e é noite. Olho em volta tentando entender. Tem uma faixa branca sob os meus pés. Estou exatamente no meio da pista. Um carro vem rápido em minha direção e buzina. Olho para os faróis se aproximando, mas o veículo desvia e segue em frente, ainda buzinando enquanto desaparece ao longe.

Eu não devia estar fora de casa sozinha. Não devia ficar no meio da rua. Acabei de receber a autorização de atravessar a rua sem a companhia de um adulto. Por que estou fora à noite? Por que estou sozinha? Onde está a minha mãe?

Estou usando um vestido branco e um sapato amarelo esquisito. O vestido tem uma mancha vermelha na frente, mas nada dói quando toco a região. Estou segurando um copo de plástico cheio de suco de uva. Derrubei um pouco no vestido branco.

Tenho dez anos. Não sei por que meu corpo é de adulta. Odeio isso e quero ir para casa. Corro pela rua e descubro que estou perto do mar. Tem música vindo de algum lugar. Eu me apoio em uma grade e tento não entrar em pânico.

Bebo um gole do que tem no copo e faço careta. Não é suco de uva. Mas o gosto horrível é familiar, o que significa que eu já devia estar bebendo essa coisa antes.

Olho para minha mão. FLORA, ela diz, e essa sou eu. Essas marcas na minha mão formam meu nome. Eu me apego a elas. Sou Flora. Embaixo do nome está escrito: seja corajosa. Fecho os olhos, respiro fundo e me controlo. Não sei por que estou aqui, mas vou ficar bem.

Tenho 17 anos, está escrito ali.

E na outra mão: FESTA e Drake está indo embora. Namorado da P. Tem mais alguma coisa borrada e ilegível. No braço: Cinema com a Paige amanhã. Para ela se animar. E no outro pulso: Mãe e pai: Morrab Gardens, 3.

Sei quem é Paige. Minha melhor amiga. Eu a conheci quando entramos na escola, aos quatro anos. Drake é namorado dela, mas está indo embora, e Paige precisa se animar.

Sei que tenho pais e sei onde moro. Meu endereço é Morrab Gardens, 3. Preciso ir para casa, e é isso que vou fazer. Minha cabeça está estranha. Estou tonta.

Olho para o reflexo da lua no mar. Tem um cartaz preso à balaustrada, um gato perdido, avisa a mensagem. Gato preto e branco sem orelhas. Desaparecido desde terça-feira. Tem um número de telefone, para o caso de alguém o encontrar. Tiro uma foto do cartaz, depois outra, e outra. Não gosto de pensar em um gato preto e branco sem orelhas perdido por aí. Ele não vai conseguir ouvir o barulho do trânsito. Preciso procurá-lo.

Viro o telefone e tiro uma foto do meu rosto. Olho para ele e vejo que estou diferente. Mais velha do que deveria estar. Não tenho dez anos.

Teve uma festa. Drake está indo embora. Paige está triste. Tenho dezessete anos. Preciso ser corajosa.

A água é negra. É uma grande área escura que se estende para a noite. O reflexo da lua brilha na escuridão. A esplanada iluminada é onde a terra termina.

Estou pensando se desço à praia e estrago os sapatos amarelos e estranhos dos quais nem sei se gosto caminhando sobre pedras ásperas e na areia molhada.

Posso sentar lá e beber o copo de vinho tinto que estou segurando, e olhar para a água por mais um tempo. Desço com cuidado alguns degraus gastos na parte central e sigo pelas pedras. Os saltos não afundam. A areia pedregosa é mais sólida do que parece. Encontro um lugar para sentar e fico olhando para a água.

As ondas fazem barulho nas pedras, e ouço passos atrás de mim. Não olho em volta. De repente, alguém senta ao meu lado.

— Flora — diz o garoto com um sorriso largo. Nossos ombros se tocam. — Isso é vinho, não é? — Pega o copo da minha mão e toma um gole. Olho para ele. O garoto usa óculos, tem cabelo escuro e está de calça jeans.

Eu me afasto um pouco.

— Sou eu — ele diz. — o Drake. Flora, está tudo bem?

— Você é o Drake?

— Sim. Ah. Sim. Entendi o que aconteceu. Tudo bem, Flora. Conheço você há meses. Sou o namorado da Paige.

Não sei o que dizer.

— Está tudo bem. Sério. Mas vinho? Você não bebe.

Quero falar alguma coisa, mas não tenho palavras. Quero tentar fingir que sou normal. É o Drake. Ele organizou uma festa, e agora está na praia.

— O que você está fazendo aqui? — pergunto. — Aqui na praia?

Olho para as palavras em minha mão esquerda. Consigo enxergá-las com dificuldade à luz do poste atrás de nós. Drake está indo embora, conta a mão esquerda. A mensagem abaixo dela é ilegível. A mão direita me diz para ser corajosa.

Ele pega minha mão esquerda e lê o que está escrito. A dele é morna.

— Drake está indo embora — diz. — Namorado da P. — Olhamos juntos para as palavras. — Flora seja corajosa — continua, lendo a outra mão. — Adoro as mensagens nas suas mãos. Funciona? Elas te ajudam a lembrar?

Ele está segurando minhas duas mãos.

E diz:

— Eu era o namorado da Paige.

Não sei por que ele está aqui. Drake está indo embora. Vai para outro lugar.

A noite está ficando mais fria, e um vento gelado sopra do mar contra meu rosto.

— Como vai ser? Para onde você vai? — falo depressa, porque é desconfortável.

Ele ainda segura minhas mãos. Gosto de sentir a mão morna na minha. Vejo em seus olhos que eu já devia saber a resposta para o que perguntei.

— Vai ser incrível — Drake responde. — Frio. Já estive lá uma vez. Faz muito tempo. Fomos a Svalbard nas férias para ver o sol da meia-noite. Eu tinha dez anos e queria morar lá para sempre. Agora, depois de nove anos, finalmente vou realizar esse sonho. Vai ser épico. — Ele suspira. — As aulas do meu curso são em inglês, porque tem gente do mundo inteiro. Sorte a minha, porque sou péssimo com idiomas.

Ele se mexe, e um lado inteiro do meu corpo agora toca o dele. Drake solta minha mão esquerda e segura a direita com mais força.

É impossível prestar atenção no que ele está dizendo, porque minha pele adquiriu vida própria. Tornou-se hipersensível, e tudo o que ela quer, todas as partes da minha pele, é que ele me toque.

Ele é namorado da Paige, e não sei o que faz aqui.

— Sorte sua — consigo falar. Apoio a cabeça em seu ombro, já que não tenho nada a perder. — Você tem dezenove anos. Eu tenho dezessete. — Parece importante lembrar. Levanto a cabeça, porque ele é namorado da minha amiga.

Drake endireita as costas, me abraça e puxa minha cabeça sobre seu ombro. Eu me apoio nele, sinto os braços me envolvendo.

— A Paige e eu terminamos — ele conta.

Ele me olha, e eu olho para ele. Quando seus lábios tocam os meus, sei que essa é a única coisa no mundo que posso fazer.

Carros passam lá em cima. As ondas vêm e vão perto dos nossos pés. Estou beijando Drake. Quero sentar com ele na praia para sempre. Nem imagino como ou por que isso está acontecendo, mas sei que essa é a única coisa boa que já aconteceu em toda a minha vida. Luzes brilham. O resto do mundo desaparece.

Consigo voltar à realidade. Uma onda quebra na praia, e o vento despenteia meu cabelo.

— Ei — ele diz. — Olha só. Quer ir comigo para algum lugar? Tipo agora? A gente pode passar a noite...

Olho para ele. Podemos passar a noite juntos. Tudo em mim fica tenso. Quero passar a noite com ele. Eu não saberia o que fazer. Drake quer que eu passe a noite com ele. A noite. Esta noite.

Tenho que ir para casa.

— Mas minha mãe... — digo. Nós nos olhamos, e não consigo terminar a frase. Não consigo desviar os olhos dos dele. Tento beijá-lo novamente, mas ele se afasta.

— Sua mãe — diz. — Ai, meu Deus. Desculpa. Foi uma péssima ideia. Onde eu estou com a cabeça? Eu não...

Drake para. Não consigo falar, então assinto. Ele me encara com uma expressão difícil de interpretar.

— Eu estou bem — declaro. — Ah, desculpa. Eu não... nunca...

Puxo uma mecha de cabelo e a ponho na boca. Não consigo terminar as frases. Quero dizer que nunca imaginei que isso aconteceria comigo. Que tenho certeza de que nunca aconteceu antes. Que estou confusa e ainda tento me colocar no momento. Que vou amá-lo para sempre por me fazer sentir normal. Que adoraria passar a noite com ele. Mas não posso ser desleal com minha amiga. E não posso passar a noite toda fora de casa, porque simplesmente não posso.

— Ela chamaria a polícia — acrescento, pensando em minha mãe.

— A polícia. Jesus. Eu sou um idiota. Esquece o que eu falei.

Os pelos dos meus braços estão arrepiados de frio. O mar está batido, venta muito, e a lua e as estrelas desapareceram atrás das nuvens. O céu é tão inexpressivo quanto o mar.

— Acontece — ele continua — que eu posso falar tudo isso, porque, tipo, qual é? Você não vai lembrar mesmo. Eu estava em um bar com você e a Paige, olhando para você, toda linda e loira, diferente de todas as outras garotas do mundo, e imaginei como seria ficar com você. Você é muito diferente. E sempre sorriu para mim. E eu queria olhar para você e ouvir as coisas que você diz, porque são diferentes das coisas que as outras pessoas dizem. — Ele segura meu rosto entre as mãos. — Você vai ficar bem, Flora?

Respondo que sim, balançando a cabeça. Quero escrever que o beijei agora. Seria estranho rabiscar no meu braço enquanto ele está falando. Quero anotar que ele queria me levar para passar a noite em algum lugar. Não quero esquecer. Talvez a gente possa ir. Eu posso encontrar um jeito. Posso ter uma noite de gente normal, adulta.

— Eu vou ficar bem — digo. — Escuta, se a gente for para algum lugar agora, eu dou um jeito. Tenho certeza de que consigo dar um jeito.

— Não. Desculpa. Pisei na bola. Não dá. Mas, sabe... talvez a gente possa manter contato? Só... me conta se você está bem? Vai me contar, não vai?

— Manter contato. — Quero beijá-lo de novo. Quero que ele continue me beijando. Agora que o beijei, quero apagar tudo no mundo à nossa volta até não existir nada além de Drake, eu e a praia.

A água agora está perto de nós, e recuamos na estreita faixa de areia. Ele respira fundo e aperta minha mão com mais força.

— Flora Banks — diz. — Se cuida. Não conta nada disso para a Paige. Não conta para a sua mãe. Não escreve na mão. — Ele pega uma pedra da praia e a segura no centro da mão aberta. É uma pedra pequena e lisa. Mesmo ao luar, dá para ver que é perfeitamente preta, embora a maioria das pedrinhas ali seja cinza. — Pega. É para você.

Ele põe a pedra na minha mão e a fecha.

— Vou guardar para sempre — falo.

Nós dois ficamos em pé. Estou congelando, estática e confusa. Quero ir para a cama e lembrar este momento incansavelmente. Drake está em pé na minha frente, e nós nos olhamos.

— Bem — ele diz. — Bom, eu vou... Ah, não posso voltar para a casa da Paige. Não agora. Vou embora, e amanhã cedo deixo a cidade quietinho.

Ele me beija nos lábios outra vez. Inclino o corpo para ele, sinto os braços me envolvendo. Sei que nunca mais vou me sentir desse jeito.

— Quer que eu te leve para casa? — Drake pergunta, e eu balanço a cabeça, recusando a oferta. Fico na praia e o vejo ir embora. Drake sobe a escada e volta ao mundo real. Para e acena antes de sair da minha vida para sempre.

Beijei o homem dos meus sonhos. E ele está indo embora para um lugar gelado e distante, onde tem um sol da meia-noite. Olho para o céu escuro.

Quando chego em casa, minha mãe está esperando de camisola, com o cabelo solto e uma xícara de chá nas mãos. Ela beija meu rosto e me olha da cabeça aos pés.

— Foi divertido? — pergunta.

— Foi.

— Você bebeu.

— Um pouco.

— Manchou o vestido. Tudo bem. Foi legal?

Sorrio para ela.

— Sim. Foi ótimo, obrigada. Na verdade, foi absolutamente, completamente ótimo.

— Que bom. A Paige veio com você até aqui?

— Sim.

— Ótimo. Pode devolver meus sapatos, então.

Tiro os sapatos amarelos e subo. No meu quarto, visto o pijama e escrevo cada detalhe do encontro com Drake. Faço as anotações no fim de um caderno velho onde minha mãe não vai pensar em olhar, e escondo o caderno sob todas as outras coisas na caixa embaixo da cama. Escrevo uma nota em um post-it para lembrar que o caderno está lá, e de manhã eu acordo e leio tudo várias vezes.

Leio, mas não é necessário, porque eu lembro.

A pedra preta está em cima do criado-mudo. Eu lembro. Tenho dezessete anos.