A única memória de Flora Banks

Emily Barr · Capítulo 4 de 29

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A única memória de Flora Banks

Capítulo 3

 

Estou sentada no chão do meu quarto, lendo um livro.

O livro é preto, de capa dura, e na frente tem um adesivo branco que diz:

A HISTÓRIA DA FLORA. LEIA SE ESTIVER CONFUSA.

Não é minha letra. Tenho quase certeza de que é a caligrafia da minha mãe.

Você é Flora Banks.

Você tem dezessete anos e mora em Penzance, na Cornualha. Quando tinha dez anos,

apareceu um tumor no seu cérebro, e os médicos o removeram quando você tinha onze.

Parte da sua memória se foi com ele. Você lembra como fazer coisas (como preparar uma

xícara de chá, como ligar o chuveiro) e consegue lembrar da sua vida antes da doença, mas

desde a cirurgia não consegue construir novas memórias.

Você tem AMNÉSIA ANTERÓGRADA. Consegue manter as coisas na cabeça por

algumas horas, depois esquece. Quando esquece as coisas, você sente uma confusão

repentina. Tudo bem. Isso é normal para você.

Quando ficar confusa, você tem que olhar para a sua mão, suas anotações, seu celular e

este livro. Essas coisas ajudam a lembrar onde você está e o que está acontecendo. Você se

tornou muito, muito boa em anotar coisas. Seu nome escrito na mão faz você se sentir

estável, e você sempre segue suas dicas e se recorda do que está acontecendo.

Você lembra de nós e da sua melhor amiga, Paige, e de pessoas que conheceu antes dos

dez anos. Outras você esquece, mas tudo bem, porque os moradores daqui te conhecem e

entendem.

Você nunca vai morar em outro lugar que não seja Penzance, porque é aqui que está

segura. Esta cidade está mapeada na sua cabeça e é o seu lar. Você sempre vai morar

conosco, e nós sempre vamos cuidar de você, e você vai ficar bem.

Você é brilhante e forte. Não é esquisita.

É muito boa em ler e escrever, e percebe melhor as coisas que muita gente sem nenhum

histórico médico.

Vamos garantir que você sempre tenha tudo de que precisar. Você toma remédio duas

vezes por dia, e vai tomar para sempre.

Beijos,

Mamãe

Fecho o livro. Como posso ter esquecido que tenho amnésia? Como, porém, poderia lembrar?

Sei que tenho dezessete anos. Beijei Drake. Cada detalhe do nosso beijo ainda está em minha cabeça. Eu estava sentada na praia. Ele chegou e sentou ao meu lado. Eu tinha dezessete anos, e ainda tenho.

Meu quarto continua como era quando eu tinha dez anos. A decoração é cor-de-rosa e branca, com babados e bonecas e brinquedos de criança. Tem Barbies, ursinhos e Lego.

As palavras neste livro não são mais verdadeiras. Agora consigo lembrar uma coisa, e não é algo anterior aos meus dez anos. É de um dia que sinto que pode ter sido ontem. Decido fazer um teste.

Ponho uma fileira de brinquedos na cama. Uma Barbie de cabelo castanho, uma ambulância de Lego e uma boneca mole chamada Phyllis, depois um Bicuço, o hipogrifo cinza. Olho para eles. Barbie, Lego, boneca, hipogrifo. Jogo o cobertor cor-de-rosa fino em cima deles e escrevo no meu caderno:

Barbie, ambulância Lego, boneca Phyllis, Bicuço. Tiro o cobertor e verifico, mas sabia que estava certa, porque teria acertado de qualquer jeito. Preciso sair do quarto e voltar horas depois para ver se vou me lembrar deles.

Cubro os brinquedos de novo e arranco uma página do fim do caderno.

Que brinquedos estão na cama?, escrevo e deixo a folha no chão, perto da porta, com uma caneta para eu poder escrever a resposta quando voltar.

Beijei um garoto e estou apaixonada. Tenho dezessete anos e não preciso de um quarto de menininha. Isso é ridículo. Pego os ursinhos, ponho todos na caixa de Lego e empurro tudo para o canto do quarto. Cubro a caixa com um lençol do cesto de roupa suja. Esses brinquedos pertencem a uma criança, e eu não sou criança.

Posso pintar este quarto. Se fosse pintá-lo, seria de branco. Seria simples e vazio, como um quarto normal, e qualquer coisa poderia acontecer dentro dele.

Sento no chão, olho para o volume coberto da caixa de Lego e revejo minhas lembranças.

Eu estava sentada no chão (provavelmente neste chão), brincando com uma ambulância de Lego. Era uma menininha normal. Estava conversando com alguém grande, sentado comigo no chão. Ele me ajudava a levar uma menina de Lego para o hospital. Eu estava feliz. Era meu irmão, Jacob.

Era meu primeiro dia de aula. Eu estava com medo e agitada, então levantei quando ainda não havia amanhecido e vesti o uniforme, pendurei a mochila nas costas e esperei quanto pude antes de ir acordar os pais e meu irmão. Todos reclamaram e resmungaram porque ainda era cedo.

Eu me arrumava para passar o dia fora. Era excitante, porque íamos a um lugar com brinquedos de parque. Eu mal podia esperar. Estava agitada e impaciente, perguntando a todo mundo se eu já podia entrar no carro. Mal podia esperar para chegar lá. Eles riram de mim e explicaram que precisávamos tomar café da manhã primeiro. Não consigo me lembrar do dia nesse lugar com brinquedos. Queria lembrar... Flambards. O nome do lugar era Flambards.

— Mãe? — grito, me perguntando onde ela está e se é hora de uma xícara de chá. Ela não responde. Corro até a cozinha e ponho a água para ferver assim mesmo e, quando vejo todos os bilhetes nas paredes, entendo o silêncio. Eles viajaram, foram ver Jacob, que é a pessoa grande na minha primeira lembrança, que é meu irmão, que está doente.

Começo a entrar em pânico. Não posso ficar aqui sozinha. Não quero ficar sozinha. Preciso de alguém. Preciso da minha mãe. Preciso do meu pai. Preciso de pessoas à minha volta. Se Jacob está doente, devia ter vindo para casa para receber cuidados.

Lembro de ter beijado Drake na praia, mas não lembro mais nada. Subo a escada correndo para o meu quarto, não olho para a porta do quarto dos meus pais, porque não quero ver que eles não estão lá.

Tem um bilhete com a minha letra. Que brinquedos estão na cama? Levanto o cobertor e vejo uma Barbie, uma ambulância de Lego, uma boneca mole chamada Phyllis e um hipogrifo. Anoto tudo, porque tem uma caneta ao lado da pergunta, mas nem imagino por que tenho que anotar. Isso é tão frustrante que me faz chorar.

Se vou ficar sozinha, tenho que deixar bilhetes melhores que este para mim. Viro uma página no livro e escrevo: Regras de vida da Flora. Sublinho. Tento pensar em uma, mas tudo que me vem à cabeça agora é: não entre em pânico. Escrevo.

Não entre em pânico, porque provavelmente está tudo bem e, se não estiver, o pânico só vai piorar as coisas.

Olho para o que escrevi. Parece sensato.

Ando de um cômodo ao outro olhando para as coisas. Escrevo bilhetes cada vez mais longos e os ponho em lugares estranhos, dizendo a mim mesma por que estou sozinha e quanto tempo isso vai durar, me perguntando por que também não me lembro disso. Grudo bilhetes em volta da fotografia de Jacob: Mãe e pai estão com Jacob porque ele está doente, escrevo. Não sei quanto ele está doente, mas é grave. Carrego todas as mensagens que troquei com os pais, copiando-as em post-its e colando os papéis em uma fileira na parede da cozinha. Tomo meus comprimidos quando eles mandam uma mensagem me dizendo para tomar o remédio.

Minha mãe escreve:

Tome os comprimidos, querida.

 

Respondo:

Podemos ir ao Flambards quando vocês

voltarem?

 

Ela não responde.

Decido mandar uma mensagem para a Paige, porque ela devia estar aqui comigo e eu não consigo encontrá-la dentro de casa. Porém, quando acho o nome dela no celular, surge na tela uma lista de mensagens que ela mandou, todas dizendo que tenho que parar de ligar para ela, porque beijei seu namorado. Fico olhando para o celular. Sinto medo de novo. Se os pais não estão aqui, Jacob está doente, Paige me odeia e Drake está em Svalbard, não tenho ninguém.

Paige não é mais minha amiga. Beijei o namorado dela na praia. Eu lembro. Sei que isso é verdade. É claro que ela não quer me ver. Olho para as palavras dela. Conheci Paige no nosso primeiro dia na escola, quando tínhamos quatro anos. Nós duas usávamos tranças.

Olho para um bilhete ao lado da cama no qual tem a palavra Drake. Escrevi o nome dele e desenhei um coração em volta. Encontro a pedra preta. Fico em pé ao lado da janela do meu quarto e levo a pedra aos lábios. Ele me deu a pedra. Eu me lembro disso. Lembro sim.

A segunda-feira passa, e eu não saio de casa para nada. Lembro o beijo. Pode desaparecer da minha cabeça a qualquer momento, e eu mergulho nele de novo e de novo, até ser mais real que a casa à minha volta. Quando fico confusa, sem saber por que estou sozinha, tenho a lembrança e me recordo do restante com os bilhetes que estão em todos os lugares.

Jacob está doente, eles dizem. Pais estão em Paris com ele. PENSAM QUE A PAIGE ESTÁ AQUI, MAS ELA NÃO ESTÁ, PORQUE ESTÁ MUITO BRAVA COMIGO. PAIGE NÃO É MAIS MINHA AMIGA. Esse fato está em todos os lugares para onde olho, ocupa minha cabeça e me faz chorar. Paige não é minha amiga. Tenho que deixar os pais acreditarem que ela está aqui para não se preocuparem, mas ela não está aqui porque não é minha amiga. Eu mereço isso.

Entre pensamentos sobre Drake e lembranças do beijo, toco “Brilha, brilha, estrelinha” no piano, adapto a letra para a canção do alfabeto, depois para outra música infantil. Tomo banho e tento ler um livro. Fico quieta no meio do quarto e ouço o silêncio.

Encontro uma lata de tinta branca no armário embaixo da escada e começo a pintar meu quarto. Quero que seja branco porque é uma cor normal e adulta, e eu gostaria de ser uma adulta normal. Puxo a cama e a caixa de brinquedos para o meio do cômodo e uso um lençol e um cobertor cor-de-rosa fino para proteger as tábuas do assoalho. Estou coberta de respingos de tinta, e só pintei metade do quarto, mas estou satisfeita com o resultado.

Respondo com cuidado às mensagens que os pais mandam do aeroporto, depois da França, e anoto a que horas eles chegaram e o que disseram. Lembro de dizer a eles que Paige está comigo. Finjo que estamos vendo televisão. Eles ficam satisfeitos. Tomo os comprimidos. A dose extra à noite me deixa com muito sono.

Encontro um bilhete que diz: M e P escondem alguma coisa de mim. Não gosto disso. Colo o bilhete na parede e olho para ele por um tempo. Depois vou ao quarto deles e olho tudo, para o caso de eu descobrir qual é o segredo, mas não tem nada de interessante ali, não que eu esteja vendo. Viro as páginas dos livros para ver se tem alguma coisa escondida. Olho nas gavetas. Encontro uma pilha de cartões presos com elástico no fundo de uma gaveta de roupas da minha mãe. É uma coleção de dezessete cartões de Dia das Mães, todos enviados por mim. O primeiro tem um carimbo de tinta dos meus pés. O quarto tem meu nome escrito com letras infantis enormes, minha assinatura. Os seis seguintes são escritos por mim com palavras como Para Mamãe e amor, Flora cada vez mais legíveis. O que vem depois deles foi escrito pelo meu pai. Os seguintes são meus de novo.

Não pode ser esse o segredo. Vou continuar procurando.

Tomo sopa no almoço e como metade da lasanha no jantar, e nas duas vezes encho a pia com água quente e detergente, lavo a louça e deixo tudo em ordem. Bebo café, depois chá, depois água e vou para a cama no meu quarto meio branco, sentindo que fiquei tão ocupada que não tive tempo de sair, gostando do cheiro de tinta. Tenho que me lembrar de terminar o trabalho.

Ficar em casa sozinha não vai dar problema.

Deitada na cama, leio tudo que escrevi sobre Drake. Ele saiu do país. Está no Ártico. Tento imaginá-lo lá, mas tudo o que vejo é neve. Imagino se tem lojas. Na minha cabeça, o polo Norte não tem lojas ou prédios de nenhum tipo, mas ele não está realmente no polo Norte. Está na universidade em “Svalbard”, e na universidade deve ter comida, deve ter camas.

As aulas do curso dele são em inglês. Sei disso porque ele me contou, e eu lembro.

Pego no sono imaginando como é ser normal. Imagino minha cabeça cheia de imagens nítidas de todas as coisas que realmente aconteceram, arquivadas para eu poder voltar a elas e vê-las sempre que quiser. Não consigo imaginar esse luxo e adormeço chorando por tudo que me falta. Espero acordar e ainda conseguir lembrar.

Acordo à noite assustada. Meu coração está acelerado e eu sento na cama, olhando em volta. A casa está tão quieta que o silêncio sufoca, é uma presença.

Minha mão treme quando a estendo em direção ao abajur. Beijei Drake na praia, tenho dezessete anos, mas tem mais alguma coisa. Tateio procurando o abajur sobre o criado-mudo. Tem alguma coisa errada. Não encontro a luminária, por isso levanto da cama, agitada demais para continuar no escuro por mais um momento. Minha cama está no meio do quarto, é por isso que não encontro o interruptor. O quarto tem cheiro de tinta. Meus pés grudam nas tábuas do assoalho. Estou no corredor, sinto o velho tapete sob os pés, depois corro e pulo os degraus da escada e abro a porta do quarto dos pais. Sei que ver um deles vai me acalmar. Entro no quarto devagar, não quero acordá-los. Um raio estreito de luz entra pelo vão entre as cortinas e ilumina parte da cama, que está arrumada e vazia.

Eles não estão aqui. O pânico surge, ameaça me dominar, e eu corro para o interruptor na parede, pisco com a luz forte e olho em volta. Eles não estão aqui. É o meio da noite, mas meus pais não estão na cama. São eles que cuidam de mim e não estão aqui. Eles sempre estão na cama à noite, e não sei o que fazer quando não estão. Eles são tudo. Não sei o que fazer sem eles. Estou respirando depressa. Tem um bilhete em cima do travesseiro do meu pai. Ando devagar em direção à cama e pego o papel. É um pedaço de folha pautada arrancada de um caderno, e a caligrafia é do meu pai:

Querida Flora, estamos fora porque o Jacob está doente. A Paige está com você. Tudo explicado nos

bilhetes na cozinha. Beijos

Na cozinha eu junto as peças. Paige não está aqui porque beijei o namorado dela. Eu me lembro disso. Estou sozinha em casa. Não existe a menor chance de voltar a dormir. Estou sozinha, e não tem ninguém neste país que saiba ou se importe.

Posso fazer qualquer coisa.

Decido fazer um bule de chá, levar para o quarto, voltar para a cama e tentar ler um livro. Posso fazer qualquer coisa, mas olhar para um livro com uma xícara de chá é a única atividade em que consigo pensar.

Posso sair de casa e ir para onde quiser. Poderia, mas não vou.

Acendo as luzes por onde passo e olho para os bilhetes que meus pais e eu deixamos pela casa. Seguindo as instruções deles, vejo primeiro se a porta da frente está trancada (está, e a corrente está no lugar), depois vou olhar a porta dos fundos (também trancada). Ponho água para ferver e, enquanto espero, ando por ali lendo bilhetes. Muitos dos que têm minha letra contam sobre Drake. Eu sei que beijei o Drake. A lembrança é clara na minha cabeça, nítida, definida e real, se destacando na imprecisão de todo o resto.

São duas e quinze. A maioria das pessoas em Penzance está dormindo. Tenho a casa e o mundo só para mim. Sento na frente do computador grande, o que os pais usam, e olho para ele meio em transe, pensando no que fazer.

Devo ter cochilado, porque acordo sobressaltada na frente do computador e tenho que lembrar tudo de novo. Acho que é hora de voltar para a cama, por isso pego o laptop, porque tem nele um adesivo com a inscrição laptop da Flora, e subo a escada levando-o embaixo do braço, com a caneca de chá morno na outra mão.

As paredes do quarto são brancas e cor-de-rosa, e o chão é de madeira polida com um lençol e um cobertor respingados de tinta. Um quadro de fotos com legendas ocupa a maior parte de uma parede que ainda é cor-de-rosa.

Tem alguma coisa ao lado da cama, um volume embaixo de um cobertor, e encontro uma caixa de brinquedos. Não quero uma caixa de brinquedos. Beijei um garoto na praia e tenho dezessete anos. Pego a caixa e a deixo no corredor, perto da escada. Vou pintar o resto do quarto. Quero que seja branco, como os quartos normais. Aprovo minhas atitudes passadas, presumindo que tenha sido eu que comecei a pintar as paredes.

Estou olhando para a página de Svalbard na Wikipédia quando noto um e-mail. Não sabia que recebia e-mails. É só um “1” vermelho ao lado do ícone do envelope que me faz clicar, e, quando vejo o nome, quase não consigo respirar.

É uma mensagem de Drake, e ela diz apenas:

Flora, não consigo parar de pensar em você.

Leio de novo e de novo. São oito palavras, mas são as melhores oito palavras do mundo. Copio a mensagem muitas vezes e espalho bilhetes para mim mesma pelo quarto.

Drake me fez lembrar. Talvez agora eu também me lembre disso.

Fico feliz por estar sozinha, porque, se os pais estivessem aqui, tudo seria seguro e controlado, e eu nunca estaria com o computador ligado às vinte para as três da manhã.

Leio as oito palavras de novo e de novo. Eu amo Drake, e sei que ele escreveu essa mensagem para mim. Ele não consegue parar de pensar em mim. E eu não consigo parar de pensar nele. Mal consigo digitar a resposta, porque estou desesperada para contar que ele me fez lembrar.

Quando consigo escrever as palavras certas na ordem certa, mando a mensagem, mesmo sabendo que deveria esperar até amanhã. Assim que mando o e-mail, deito e sonho com Drake em sua casa nova e estranha. Eu o imagino em um lugar vazio e coberto de neve, com casas feitas de gelo e uma vida fria, espartana, e me pergunto se poderia mandar para ele alguma coisa útil. Talvez prepare um pacote com coisas da Cornualha, coisas de que ele possa precisar.

Quando amanhecer, vou à praia procurar outra pedra preta para enviar a ele.

Acordo tarde, o sol atravessa as cortinas finas e ilumina minha cama. Viro de lado enrolada na colcha cor-de-rosa e bocejo. Algumas paredes foram pintadas de branco e a cama está no meio do quarto. São quinze para as onze.

Estou totalmente desorientada e meu coração dispara. Não sei por que estou na cama no meio do quarto. Leio minha mão. Leio o caderno ao lado da cama. Leio tudo que está colado nas paredes ainda cor-de-rosa. Eu sou a Flora. Tenho dezessete anos. Fiquei doente quando tinha dez anos e tenho amnésia anterógrada. Beijei Drake na praia. Paige me odeia. Estou sozinha.

Drake escreveu para mim. Flora, não consigo parar de pensar em você.

O laptop está no chão. Segundos depois estou sentada na cama, olhando para ele. Releio a resposta que mandei para Drake no meio da noite. É curta, o que acho que é bom, mas ainda é muito mais longa que a mensagem dele para mim. Ajeito o cabelo atrás das orelhas e começo a ler. Escrevi às três da manhã.

Querido Drake,

Estou muito feliz por ter notícias suas. Nunca pensei que isso aconteceria. Também não consigo parar de pensar em você! E o

mais incrível é que eu me lembro! Eu me lembro de nós dois sentados na praia, com a maré subindo. Lembro cada palavra

que dissemos. Lembro de ter beijado você. Tudo isso. Todo o resto desaparece da minha cabeça, mas o beijo ainda está lá.

Não consigo parar de pensar em você.

Eu devia ter passado a noite toda com você. Queria poder voltar no tempo e mudar isso (viu? Eu lembro de verdade).

A Paige não quer mais ser minha amiga, porque sabe de tudo. Eu esqueci essa parte, mas tinha anotado. Fico triste, mas não a

culpo.

Meus pais foram para a França, porque meu irmão Jacob mora lá e está doente. Estou em casa sozinha. Vou ficar sozinha até

sábado. Por isso estou com o computador ligado no meio da madrugada.

Conta mais sobre Svalbard. Lembro que você disse que foi para lá quando tinha dez anos e viu o sol da meia-noite, e agora,

aos dezenove, finalmente foi morar lá. Conta o resto.

Flora

Queria que ele tivesse respondido à noite. Olho para a caixa de entrada esperando o e-mail chegar. Eu o assustei. Não faço ideia de que horas são no polo Norte. Talvez eu pergunte. Qualquer que seja o horário, nove horas já se passaram desde que mandei mensagem, e ele já deve ter visto e não respondeu.

Levo o laptop para baixo para fazer café e torrada. Verifico se o volume do som está alto, porque, no momento em que o e-mail chegar, um ruído vai me avisar. Não ligo o rádio, embora possa ouvir a música que eu quiser, com os pais fora.

Posso ouvir música tão alto quanto quiser, e eu quero. Quero pôr uma música bem alto e dançar pela cozinha. Mesmo Drake estando no polo Norte e não tendo respondido à mensagem, nada pode apagar o fato de ele ter dito que não consegue parar de pensar em mim.

Neste momento, Drake é a única pessoa do mundo. O curso que ele foi fazer no polo Norte deve durar um ano, talvez dois ou três. Não sei. Depois disso ele pode voltar. Ou ele e eu podemos ir para algum outro lugar. Podemos morar juntos. Podemos nos casar. Eu posso ser sua esposa. Sra. Flora Andreassen. Ele tem dezenove anos e eu, dezessete, e isso significa que vamos ter idade suficiente para isso. Ele pode cuidar de mim, e eu, do meu jeito, posso cuidar dele. Vou me lembrar de tudo se estiver com Drake.

Drake me fez lembrar. Vou ser normal por causa dele. Tenho que passar a vida ao lado dele, porque ele faz minha memória funcionar.

Não me sinto uma criança.

Faço café, ponho algumas fatias de pão na torradeira e olho para a tela do laptop tentando, com a força da minha vontade, obrigá-lo a apitar anunciando a chegada de um novo e-mail.

Minha mãe manda uma mensagem que diz:

Bom dia, querida. Como você e a Paige estão? Não

esqueça os remédios.

 

Tomo os comprimidos. O telefone fixo toca. Eu atendo, e uma voz feminina diz:

— Só queria ter certeza de que você não se matou deixando o gás aberto.

— Paige! — respondo. Mas ela já desligou.

Nada mais acontece. Depois de um tempo, deito no sofá, ligo a televisão e pego no sono.

Acordo assustada e descubro que já se passou mais de uma hora. Segundos depois, estou na frente do laptop. Drake respondeu. Tem um e-mail novo na caixa de entrada.

Por um momento, não me permito ler a mensagem. Depois me sento diante do laptop e a devoro.

Flora,

Sério? Você lembra? Isso é maluco e incrível.

Falou com o médico? Isso significa que pode estar começando a se recuperar?

Está bem aí sozinha? Isso é surpreendente, sua mãe sempre pareceu superprotetora. Ela deixou você sozinha? Espero que o

seu irmão fique bem.

Sua mensagem me fez imaginar coisas que poderiam ter acontecido, mas não aconteceram. Queria ter repetido o convite

naquela noite. Teríamos encontrado um jeito. Passo mais tempo do que você pode imaginar pensando em você nua.

Isso é uma coisa horrível para dizer? É, não é? Desculpa. Tenho pensado sempre em você, e a gente nem pode se ver. Nunca

imaginei que isso pudesse acontecer. E se a sua memória está voltando, então... qualquer coisa pode acontecer.

Quando os seus pais voltam? Ei, se cuida. Lembra de comer e essas coisas. Continue lembrando!

Drake

Leio a mensagem várias vezes, e em todas fico chocada com o fato de ele querer me ver nua. Isso me faz corar no corpo todo, mesmo estando sozinha. Não sei como lidar com ele fazendo esse tipo de comentário. Tento gravar o e-mail na memória (sinto que é possível), depois imprimo a correspondência e guardo tudo em uma pasta.

Ele passa mais tempo do que posso imaginar pensando em mim nua. Fecho os olhos e tento absorver essa informação. É assustador. Não tenho mais dez anos.

A casa muda. Não está mais vazia, exceto pelo silêncio ensurdecedor. Ela se torna um lugar mágico. Cada superfície parece brilhar. Tem um encantamento no ar. Troco mensagens com Drake enquanto o dia vira noite e a noite vira dia. Ele precisa trabalhar em sua estação de satélite, mas, sempre que pode, corre para o computador e escreve para mim. Respondo sempre, muitas vezes, deixando as mensagens acumularem para quando ele tiver tempo de ler tudo.

As respostas dele são brilhantes e douradas.

As mensagens progridem. Em uma ele está pensando em mim nua, em outra está contando o que gostaria de fazer com o meu corpo nu, e eu me esforço para escrever as respostas apropriadas. Não sei como uma conversa desse tipo deve progredir, por isso escrevo só o que eu penso e espero que seja suficiente. As coisas que ele diz são estranhas e novas, mas adoro todas elas. Minhas palavras aparecem na tela diante dele, no lugar gelado, e ele responde assim que pode. É inebriante. Sabe-se lá como, estou fazendo isso certo.

Eu me pego digitando:

Não tem nada que as pessoas façam juntas que eu não faria com você, se você quisesse.

Assim que escrevo, desejo me explicar melhor, porque imediatamente começo a imaginar pessoas fazendo coisas horríveis umas com as outras, e não foi isso que eu quis sugerir. Porém mandar outro e-mail começando com “exceto...” não seria nada romântico, por isso começo a escrever, paro e deleto a mensagem. Espero que Drake entenda o sentido do que escrevi.

Às vezes me pego sentada diante do computador grande dos pais, olhando para páginas aleatórias e me perguntando o que é que estou fazendo ali. Meus e-mails estão no laptop. Acho que migro para o outro computador sem nem perceber quando estou preocupada com os pais. Às vezes eles enviam mensagens de texto dizendo que estão bem, mas Jacob está muito doente e é um momento difícil para todos. Eu respondo, digo com entusiasmo para não se preocuparem comigo. Eles perguntam sobre a Paige, mas sei que a Paige me odeia, porque está escrito em todos os lugares, então falo que ela perdeu o celular e transmito os recados dela.

Encontro um bilhete que diz: Falei para a minha mãe que a Paige perdeu o celular, assim eles não ligam para ela. Então devo ter dito a mesma coisa duas vezes. É provável que eu tenha dito muitas e muitas vezes.

Minha memória não melhorou. Mas me lembro do beijo. E me apego a isso.

Na terça-feira não como o curry que está em um recipiente na geladeira, apesar de a etiqueta dizer “COMER NA TERÇA-FEIRA”. Devoro algumas torradas e uma banana e não saio de casa, porque isso significaria me afastar do computador. Fico sentada olhando para ele e, quando não estou olhando para ele, corro até o banheiro ou fervo água para o chá. Tomo os remédios quando minha mãe manda mensagem. Paige liga no fixo e diz: “Não pôs fogo na casa? Maravilha”.

É quarta-feira. Eu devia tomar uma ducha. Porém tomar banho significa deixar o laptop em um lugar seco. Não posso deixá-lo. Levo o computador de um cômodo para o outro e passo o dia de pijama, olhando para a tela. Redijo longas mensagens que reviso e mando, e também escrevo mensagens curtas de improviso. Eu amo Drake e digo isso a ele, e ele fala que também me ama. “Também te amo.” Olho para mim nua na frente do espelho e me imagino pelos olhos dele.

Lembro do beijo. Está lá, na minha cabeça. Fica lá. Não vai embora. Outras coisas vêm e vão, mas o beijo fica.

Falamos mais sobre sexo. Até recuperar a memória, eu não seria capaz de ter o tipo de relacionamento que outras pessoas têm. Drake me convidou para passar a noite com ele, e eu respondi imediatamente que não podia por causa da minha mãe. Eu me arrependo disso. O arrependimento é um sentimento estranho.

Escrevo:

Daria tudo pela chance de te beijar de novo, te tocar e sentir suas mãos no meu corpo.

As palavras saem de mim sem censura e cheias de alegria. Algo que nunca imaginei existir dentro de mim se liberta.

Queria ter dito a coisa certa quando você sugeriu que passássemos a noite juntos. Daria qualquer coisa para ter você comigo

aqui na minha cama, onde estou agora. Qualquer coisa.

Ele responde:

E eu daria qualquer coisa para estar aí. Acordar ao seu lado e te tocar. Seu corpo é perfeito. Eu sei que é. Se não fosse tão

esquisito, eu pediria para você me mandar uma foto.

Não posso. Tirar uma foto nua é uma ideia impossível, e eu digo isso a ele. Eu nunca me atreveria a tirar uma foto minha e mandá-la anexada a um e-mail. Eu não posso.

Você vai ter que imaginar. Talvez um dia... quem sabe?

Ele responde:

Espero que sim. Quando seus pais voltam? Sábado?

É o que está escrito. Que dia é hoje? Quarta?

Quinta. Você tem mais dois dias antes de alguém perguntar o que está fazendo na frente do computador por tanto tempo.

Eles gostam quando eu fico na frente do computador. Significa que estou segura.

Consigo perceber o tom divertido quando ele escreve de volta:

Eles sabem o que é internet? A maioria dos pais não quer que as filhas fiquem conversando com homens pela internet.

Isso vale para meninas de dez anos. Eu tenho dezessete.

Acordo tarde, com as palavras “Beijei o Drake” na cabeça. Eu beijei o Drake. Mantenho isso na cabeça. Eu o beijei na praia a noite passada. E, embora tenha dormido desde então, todos os detalhes ainda estão nítidos em minha memória e quero que continuem ali para sempre. Sinto um calor e uma luminosidade me envolvendo. Eu amo o Drake.

Ele disse: “A gente pode passar a noite...”

Eu respondi: “Minha mãe”.

Pego uma caneta para anotar tudo antes de esquecer. Beijei o Drake. Não vou perder isso de jeito nenhum. Minha cama está no meio do quarto, e as paredes estão parcialmente pintadas de branco.

Olho os bilhetes que deixei ao lado da cama.

Descubro que:

Apesar de me lembrar do beijo, não me lembro de nada que parece ter acontecido depois dele. Isso é devastador.

Meus pais estão na França.

Meu irmão Jacob está muito doente.

Decidi pintar meu quarto de branco.

Paige não é mais minha amiga. Ela sabe que beijei o Drake.

Drake está no Ártico. Nós trocamos e-mails.

Olho para as fotos no celular. Leio tudo de novo. Leio os e-mails que Drake me mandou. Quando estou relendo, um novo e-mail chega.

Drake escreve:

Sinto muito, Flora .

Vou ter que sair da cidade e ir para a base do satélite no polo Norte para fazer a pesquisa, ou vão me expulsar do curso quase

antes de ele começar. Os satélites ficam longe da cidade e não vou ter sinal de celular, muito menos wi-fi. E, de qualquer

modo, você precisa se preparar para a volta dos seus pais. Mando um e-mail amanhã no meio da noite, no seu fuso horário.

Concordo escolhendo cuidadosamente as palavras, torcendo para serem adequadas.

Tudo bem. Se cuida. Amo você.

Fecho o laptop e olho em volta. De acordo com tudo que acabei de ler, esta casa tem sido um paraíso encantado de amor há dias. Um lugar lindo, um novo e cintilante universo. Tudo tem sido impecável e perfeito.

Beijei o Drake há vários dias, mas ainda me lembro disso. Não sei por que, mas quero saber. Deve ser porque o amo. Pode ser por causa da pedra. Preciso perguntar a um médico. Talvez seja o começo da minha recuperação. Vou tentar achar um médico e perguntar. Escrevo um bilhete para mim mesma sobre isso.

Desço tentando entender minha realidade. Estou apaixonada. Escrevo cartas de amor no computador e recebo cartas de amor. Este é um lugar encantado. Tenho dezessete anos e amo um garoto. Antes disso eu tinha dez, e agora cresci.

Isso é o que estou pensando quando entro na cozinha e paro sem conseguir me mover, incapaz de respirar.

Fomos assaltados. Eu fui assaltada enquanto dormia. Alguém entrou no meu mundo perfeito de sonho e revirou tudo.

Pensamentos invadem minha cabeça e desaparecem antes que eu consiga me agarrar a eles. Este cômodo não é como deveria ser. A cozinha é uma bagunça, com tudo espalhado. E cheira mal. Todos os pratos estão fora do armário e há trilhas de migalhas. Os pratos usados estão por todos os lados, nem foram empilhados na pia. Só foram deixados em lugares aleatórios.

Tem café em tudo. São riozinhos secos e círculos marrons em quase todas as superfícies.

Isso não deve ser coisa de assaltante. Meu coração volta a bater no ritmo certo enquanto examino os detalhes. Eu fiz isso. Fui eu. Escrevi que o lugar era encantado e mágico, mas a verdade é que não era.

Eu nunca devia escrever coisas que não são verdadeiras.

Não encontro nada que sugira que saí de casa desde domingo, quando, aparentemente, fui até a praia com a minha mãe. Eu volto para o corredor e me examino no espelho grande. A menina no reflexo se espanta com a desconhecida desarrumada. Meu cabelo está grudado na cabeça. Devo estar com o mesmo pijama há muito tempo. Sinto o cheiro que exalo. Os vizinhos devem sentir também. Os pais provavelmente podem sentir meu cheiro da (confirmo olhando para a parede) França.

Leio os bilhetes presos nas paredes da cozinha e verifico a comida na geladeira. Os pratos de terça, quarta, quinta e sexta-feira ainda estão lá, mas eu sei que isso não significa que é segunda. Parece que tomei as doses certas de comprimidos. Preciso confirmar que dia é hoje, e não me atrevo a abrir o laptop de novo, porque isso significa que vou escrever para Drake, e sei que isso é algo que estou tentando evitar. “Que dia é hoje?” Desculpa esfarrapada para recomeçar a conversa. Além do mais, acabei de ler que ele está trabalhando e sem acesso a e-mails. Ele não poderia responder, e isso me deixaria triste.

Lembro do beijo. Lembro das nossas conversas. Lembro das ondas quebrando na praia de cascalho, do cheiro do mar e da luz da lua. Lembro da pedra. Abaixo a cabeça e a vejo em minha mão.

Em cada lugar que olho, a casa está pior. Tem cartas empilhadas no capacho e um cartão de “destinatário não encontrado” deixado pelo carteiro. Tiro fotos de tudo, da bagunça, da devastação e de mim mesma, para poder me lembrar disso.

Todas as janelas estão fechadas, mas, quando me aproximo de uma delas, vejo o sol brilhando lá fora. A casa precisa de ar fresco. Abro as janelas.

Tem post-its em todos os lugares, e muitos deles dizem coisas como “EU O AMO” e “ele quer me ver nua”. Recolho todos e os guardo em um envelope, que escondo embaixo da cama.

Telefono para um número que leio em um cartão preso no quadro de avisos da cozinha.

— Alô — responde uma voz masculina. — Táxi do Pete.

— Oi — respondo. — Hoje é sexta?

— Hoje? Sim, flor. Sexta-feira. Precisa de um táxi, meu amor?

— Não, obrigada. Tchau.

Desligo o telefone. Os pais voltam para casa amanhã, e tenho muito trabalho a fazer.

Vou cuidar de mim primeiro. Começo a encher a banheira e despejo uma enorme quantidade de sabonete líquido na água. Enquanto o banheiro vai se enchendo de vapor, dou uma olhada no espelho, deslizo os dedos pelo cabelo e fito meus olhos.

Sou uma pessoa diferente.

O espelho embaça. Escrevo o nome dele com a ponta do dedo. DRAKE. Depois escrevo FLORA e seja corajosa. Cerco todas as palavras com um coração.

Passo um bom tempo olhando para meu corpo nu, imaginando se ele ficaria decepcionado se o visse. Deslizo as mãos pelo corpo, pela cintura, tento sentir a pele pelos dedos dele.

Sinto o cheiro no ar e tento entender por que o forno está ligado, mas, quando desço enrolada na toalha, descubro que o acendi em algum momento mas não pus nada dentro. O cheiro no ar é das migalhas deixadas por outros pratos assados ali.

Desligo o forno e volto ao banheiro. A água é quente, a banheira está bem cheia, e fico feliz ao constatar que não deixei a água transbordar.

Drake me pediu uma foto nua em um de seus e-mails. Eu respondi que não. Isso, considero ao entrar na água quente demais, é bom. Drake tem na cabeça uma menina estranha e bonita. Se me visse agora, meu verdadeiro eu, ficaria decepcionado. Estava escuro na praia.

Reclinada na banheira, estudo meus braços e mãos. Isso é importante, porque posso estar prestes a apagar mensagens vitais. E não posso escrever um bilhete na mão para me lembrar de olhar as anotações em minhas mãos. Neste momento, não tem nada nelas que não esteja em minha cabeça.

Lavo o cabelo com xampu e condicionador. Esfrego o corpo e depilo as axilas e pernas. Quando saio da banheira, estou rosada como uma lagosta e muito mais cheirosa que uma lagosta ou minha versão anterior.

Com as janelas abertas, a casa começa a respirar novamente. O cheiro que pairava no ambiente vai se dispersando, e o ar que entra me faz lembrar que tem um mundo lá fora. É cheiro de mar, do ar fresco que vem do Atlântico.

Enrolada na toalha, fico olhando pela janela e descubro que estou chorando. Não sei se a troca de e-mails com Drake realmente aconteceu, se os pais estão viajando de verdade, se meu irmão Jacob está tão doente na França que eles tiveram de me deixar aqui e correr para lá. Não sei se o menino grande que lembro de quando era pequena é meu irmão Jacob. Não acredito que a Paige não está falando comigo, porque ela é minha melhor amiga e nós nos conhecemos quando tínhamos quatro anos, no primeiro dia da escola. E só sei de tudo isso porque li as anotações, mas poderia ter escrito qualquer coisa. Tem um garoto no polo Norte que me ama tanto quanto eu o amo? Beijei mesmo um menino? Ele me convidou para passar a noite a seu lado?

Sim. Sim, convidou. Sei disso porque lembro. Beijei Drake na praia, essa é a única coisa que eu sei.

O mundo começa a ficar branco nas extremidades. Volto caminhando até o quarto, meio trêmula, e sento na cama. Depois deito e fecho os olhos.

Quando acordo, está escuro. Todas as janelas estão abertas e o ar da noite sopra frio em meu rosto.

Não fechei as cortinas. A luz do meu quarto está acesa. A cama está no meio do quarto e as paredes são parcialmente brancas. Leio as anotações e vou entendendo tudo. Os pais voltam no sábado. Encontro um pijama limpo na gaveta. É de algodão branco, e sinto frio com ele, por isso visto também um suéter e calço meias de lã. A casa está quieta.

Beijei um menino na praia ao luar. Todos os pelos dos meus braços ficam em pé.

Todas as janelas estão abertas, e eu me arrepio e vou fechando uma por uma. Ouço gritos distantes na orla, mas esses sons são de outro universo. A sala está mortalmente quieta, a televisão permanece cinza e muda, acusando-me de não assistir a ela, conforme as instruções. O sofá está arrumado, com uma almofada um pouco mais funda, mas intocado, exceto por esse detalhe. Sento só para criar a impressão de que tenho estado ali.

Arrumo a cozinha antes de perceber que são duas da manhã. Os pratos estão na lavadora, o chão foi varrido, mas ainda não passei o pano, e recolhi com a esponja uma quantidade ridícula de migalhas, que joguei na lata de lixo.

Devia voltar para a cama, mas faço uma xícara de chá de hortelã e abro o laptop, sem ter a menor ideia do que vou encontrar. Pode ou não haver uma sequência de e-mails entre mim e Drake, uma sequência de tirar o fôlego. Não acredito inteiramente na Flora que escreveu que isso aconteceu. Tenho medo de encontrar só o meu lado dessa correspondência. Não quero ter mandado mensagens para ele como uma pobre garotinha perturbada. Seria insuportável.

Mas não: está tudo ali na tela. Leio as mensagens com espanto e entusiasmo crescentes.

A conversa terminou há doze horas, com nós dois dizendo que íamos fazer coisas.

Drake deve estar dormindo ao lado de suas antenas de satélite. Eu subo, deito e volto a dormir também.