A única memória de Flora Banks

Emily Barr · Capítulo 14 de 29

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A única memória de Flora Banks

Capítulo 13

 

 

Sigo o mapa e desço uma rua estreita, passo por uma escola e uma galeria de arte e vários outros edifícios. À direita há uma igrejinha de madeira. Tem montanhas em volta. As nuvens se movem rápidas no céu.

Sei exatamente onde estou (Longyearbyen) e por que estou aqui (Drake) e para onde vou (Pousada Spitsbergen). Estou caminhando na direção certa. Respiro fundo, saboreando cada segundo desse imenso alívio.

Tem alguém andando atrás de mim. É o homem que me ajudou a achar a bolsa. Quando me viro, ele acena. Não tenta me alcançar, e eu sigo meu caminho.

Enquanto ando, vejo uma linha escura se movendo na paisagem. A linha é seguida pelo cinza, e, quando me alcança, quando passa por mim, este mundo, este lugar onde sou ordinariamente humana é transformado.

A luz desaparece. Nada brilha. A terra mágica se torna cinza e sem graça, e a nuvem é um teto sobre minha cabeça. O céu ficou cinzento. A neve perdeu o brilho e se tingiu de cinza. Cada coisa se tingiu de cinza. A nuvem vai ficando mais baixa diante dos meus olhos, e sinto chuva no ar, a repentina mudança na atmosfera que significa que tudo vai ficar molhado. Quando alguma coisa cai em meu rosto, porém, claro que não é chuva. É neve.

Drake vive em um lugar nevado. Eu estou aqui. Estou no lugar nevado, como ele.

O céu atrás de mim e ao longe é azul. Lá tem sol e brilho. Aqui, a neve cai cada vez mais densa e mais rápida, cobre a rua e tinge tudo de branco.

Não sei para onde vou, mas isso não importa. Estou feliz aqui e agora. Sou uma garota no meio da neve, encantada com os flocos brancos que dançam no ar à minha volta. Estou em um belo lugar e uma coisa maravilhosa está acontecendo. Nada mais importa.

Estou no momento. Viver o momento sempre que posso deve ser uma das minhas regras de vida. Não é preciso ter memória para isso.

Esqueço que sempre esqueci tudo. Quando os flocos ficam menores e as nuvens começam a levar a neve para outro lugar mágico, tenho a sensação de que dormi uma noite inteira. Estou cheia de energia, pronta para tudo.

O hotel fica onde o mapa indicava que estaria. Tenho uma chave e um bilhete dizendo para eu ir ao quarto 5, e um mapa que informa em que prédio fica o quarto 5 (é o prédio 5, o que me agrada).

O prédio é de metal ondulado, tem bicicletas e esquis apoiados nas paredes e uma escada de concreto que sobe até a porta principal. Quando viro para subir a escada, vejo que o homem barbudo me seguiu até aqui. Aceno para ele, que acena de volta, vira e se afasta. Assim que passo pela porta, sou atacada pelo cheiro de meias e comida. Está quente aqui dentro, e eu tiro o casaco assim que fecho a porta. Um cartaz avisa para eu tirar os sapatos também, e é o que faço, sento no primeiro degrau da escada e desamarro as botas, que apareceram nos meus pés como num passe de mágica e são o calçado ideal para esta localização. De algum jeito, meus tênis estão na minha bolsa. Estão em uma sacola plástica dentro da bolsa a tiracolo.

A cozinha está arrumada e tem armários com plaquinhas dizendo para as pessoas não usarem certas coisas e não roubarem o leite dos outros. Isso me dá uma ideia. Encho uma chaleira com água e levo ao fogo, encontro uma caneca, pego um saquinho de chá de uma caixa e escolho o leite de melhor aparência na geladeira. Tenho certeza de que ninguém vai se importar se eu pegar um pouquinho.

Tem uma cozinha em casa, e lá tem mais e menos do que tem aqui. Tento pensar. Tem mais, porque lá tem um bule de chá. Tem menos caixas de chá, só uma. Mais e menos. A mulher na cozinha de casa é minha mãe. O homem é meu pai. Eu sou a Flora e não tenho dez anos. Tenho dezessete. Sei disso porque consigo lembrar que beijei um garoto na praia.

Todo mundo tem uma caneca favorita na nossa cozinha. A minha é cor-de-rosa e branca. A da minha mãe tem uma inscrição: “MELHOR MÃE DO MUNDO!” A do meu pai tem um homem desenhado.

Estou muito satisfeita comigo, e troco a caneca branca que peguei por outra, com uma estampa cor-de-rosa. Faço o chá e olho em volta procurando gente com quem conversar.

Quero ir ao Flambards. A ideia aparece do nada em minha cabeça. O Flambards fica muito longe. Escrevo uma mensagem para minha mãe.

Podemos ir ao Flambards?

 

Não tem ninguém aqui. Queria saber o que todo mundo está fazendo. Coisas na neve, imagino. Coisas frias. Coisas que as pessoas fazem em lugares como este.

Se visse alguém, mostraria a fotografia no meu celular e perguntaria se a pessoa viu Drake. Vim procurá-lo porque o beijei na praia.

Mesmo que este lugar só exista na minha cabeça, estou aqui sozinha, e estou vivendo. Isso é real.

Minha chave abre o quarto número 5, e eu entro, tranco a porta e sento na cama. Minha cabeça gira. Estendo as mãos para a frente, movimento os dedos e leio as palavras. FLORA seja corajosa. Eu tenho sido corajosa. Segui as instruções nas minhas mãos. Meu braço arde, e, quando levanto a manga da blusa, descubro que entalhei o nome do Drake na pele com algum tipo de lâmina cega, aparentemente. Olho para aquilo por muito tempo. É assustador, empolgante e terrível que eu tenha entalhado uma palavra no braço.

Estou em um lugar estranho que deve ficar muito longe do meu lugar habitual. Este não é o meu quarto, mas as coisas nele são tão familiares que devem ser minhas. Este é meu novo quarto. O lugar que criei para mim. Minha casa. Pego todas as anotações que encontro e fico sentada na cama, e começo a ler tudo de novo.

“Medicação” e “comprimidos” são as palavras que saltam aos olhos. Eu tomo remédios, e é isso que me faz enfrentar os dias. Se tomei alguma coisa recentemente, não anotei. Sinto uma tontura.

Tem uma bolsa grande em uma das camas. Deixo o caderno de lado e tiro tudo de dentro dela, enfileirando os objetos para poder olhar as coisas que trouxe comigo. São praticamente só roupas. Pego uma camiseta vermelha e cheiro, embora não saiba por quê.

Não vejo nenhum comprimido. Preciso fazer alguma coisa quanto a isso, mas não sei nem por onde começar.

Minhas mãos tremem, e eu levanto e me aproximo da janela, apoio as mãos na vidraça para firmá-las. Estava nevando, tenho certeza de que estava nevando, mas agora não está mais. Tem uma encosta bem inclinada atrás da janela, e consigo ver meu reflexo no vidro de um jeito apagado e translúcido, sobreposto às rochas cobertas de neve.

Mesmo sendo um reflexo ruim, vejo que minha aparência não é boa. A menina na janela tem olhos estranhos e pele esquisita. Levanto a mão para tocar meu rosto. Sinto as saliências, mas tenho certeza de que antes ele era liso. Um espelho se materializa na parede, e eu olho realmente para mim.

Não era assim que eu me via. Não reconheço meu rosto. Está vermelho e cheio de manchas, é o rosto de outra pessoa. Tem bolinhas por todos os lados. São saliências vermelhas com a ponta amarelada. A menina no espelho é feia. Minha mãe diz que sou bonita.

Quando passo os dedos pelo rosto, não costumo senti-lo assim repulsivo. Não creio que a pele tenha sido uma das minhas preocupações. Pego a caneta e escrevo cuidadosamente O que aconteceu com a minha pele? na parte interna do braço. Escrevo também em um papel amarelo que colo no espelho. E escrevo no meu caderno.

Uma porta é aberta em algum lugar do prédio. Fico feliz porque as pessoas estão começando a chegar. Talvez possa voltar à cozinha e ver o que tem para jantar neste lugar. Estou com fome.

Quando escuto vozes bem na frente da porta, decido sair e me juntar às pessoas. Pego a foto de Drake e repito em voz baixa as palavras que preciso dizer. Meu rosto horrível me deixa acanhada, por isso uso um pouco da maquiagem que encontro na escrivaninha. Espalho a base, faço uma linha sobre os olhos com lápis preto, passo o rímel grosso e o batom vermelho que não posso ter usado antes. É novo, com a ponta inclinada, e pinto os lábios como se aquilo fosse giz de cera. Acho que não ficou muito bom, mas ajeito as beiradas com o dedo e decido que é o suficiente.

Se você tem pele ruim, pode desviar o olhar das pessoas usando batom vermelho. Essa é uma regra.

Troco o suéter por outro cor-de-rosa, pego o casaco na cama extra e saio do quarto, pronta para passar a noite perguntando às pessoas sobre Drake. Minhas anotações relatam que tenho uma amiga chamada Agi, e vou ver se consigo fingir que a reconheço quando ela se aproximar de mim. Repito o nome dela mentalmente muitas vezes. Agi Agi Agi. Mandei uma mensagem para minha mãe dizendo que estou bem em Penzance.

Ainda está claro. Mesmo sendo noite, a claridade é intensa como ao meio-dia. Essa é a magia deste lugar.

— Oi! — O homem no corredor usa calça de pijama e tem uma toalha pendurada no ombro.

São só sete horas, mas acho que aqui tudo funciona de um jeito diferente. Se você passa o dia todo nas montanhas cobertas de neve, vai querer vestir seu pijama. Tenho a sensação de que alguma coisa não está certa, mas não sei por quê.

Tenho um quarto aqui. Isso me anima, e por um segundo tudo que faço é me parabenizar pelo feito. Tenho um quarto no Ártico. A noite tem neve e sol, e Drake e eu estamos aqui, em Svalbard.

— Você está ótima — diz o homem. — Quais são seus planos?

— Ah. — Olho em volta pensando em uma resposta. — Nenhum. Quer dizer, não sei. Nada em especial. Mas minha pele está meio feia, por isso decidi usar batom. Para as manchas não aparecem muito.

Ele assente.

— Vai sair? O que fez ontem?

— Ontem?

Ele não me conhece, ou nunca perguntaria o que fiz ontem. As pessoas me contam o que fiz ontem. Não perguntam. Se ele perguntasse o que fiz hoje, porém, eu teria dito que comprei botas, aparentemente, e procurei Drake e entalhei o nome dele na pele.

— Não sei — respondo, e ele não pergunta por quê.

— E hoje? Tem planos? Está muito arrumada para alguém que só vai tomar café.

Abro a boca para discordar dele.

Depois fecho.

Se ele acha que vou tomar café, então devo estar a caminho do café mesmo. O que significa que é hora do café da manhã. Não vou procurar entretenimento noturno e jantar. Vou tomar café da manhã.

Isso significa que a noite passou e eu não notei. Tento entender essa possibilidade bizarra. Um dia se passou, o dia em que eu tinha que ter encontrado Drake, e não encontrei Drake.

— Escureceu? — pergunto.

— Não. Talvez escureça no fim de agosto. Daqui a três meses.

— Três meses.

Não sabia que o “sol da meia-noite” quer dizer que nunca fica escuro.

— Você tem que fechar a persiana. Não esqueça. Se deixar a luz entrar no quarto a noite toda, não vai dormir nunca. — Ele me encara curioso. — Você dormiu?

— Sim, um pouco. Obrigada, eu só...

— Tudo bem. Você sabe que o café só começa a ser servido daqui a meia hora?

— Sim. Estou um pouco...

— Eu sei. Todos nós ficamos assim.

Essa é a melhor coisa que ele poderia ter dito. Quando estou me afastando, ele diz:

— Não venha para cá no inverno.

Não respondo, porque tem neve, e isso significa que já deve ser inverno, e o que ele falou não faz sentido.