A única memória de Flora Banks

Emily Barr · Capítulo 23 de 29

Páginas do PDF

A única memória de Flora Banks

Parte três

22

 

Não faço ideia de onde estou.

Não consigo pensar. Na minha cabeça, palavras vêm e vão, mas nada se encaixa.

Não faço ideia.

Nenhuma ideia.

Não tenho ideias.

Uma mulher está chorando. Ela está chorando, chorando e chorando. Não gosto disso.

Sinto cheiro de alguma coisa de que gosto. Tem uma bebida em cima da mesa, na minha frente. Se esticar a mão, eu pego a caneca. Se pegar a caneca, posso beber. Não devo derrubar a bebida.

Olho para ela. A caneca é cor-de-rosa e branca. Estico a mão e a toco. Está quente. Seguro pela alça. Levanto. A bebida respinga na mesa. Eu a devolvo. Reclino a cabeça e fecho os olhos. Tem algumas palavras na minha mão.

Abro os olhos. Tem uma caneca em cima da mesa na minha frente. Não vou tentar pegá-la.

Tem gente em algum lugar nesta sala, conversando. Tento entender o que dizem.

— Ela está bem.

— Não está. Você devia ter visto antes. Não suporto olhar para ela desse jeito. Isso não é certo. Não é justo. Ela está lá.

— Ela está viva. Está segura. Ah, meu Deus, eu sei, Steve. Eu sei. Mas não vai ser assim para sempre. É só por enquanto. Só para mantê-la aqui novamente. Não posso perdê-la. Não posso deixá-la fazer tudo de novo. Melhor que fique assim a...

— Ela está respirando. Não está viva. Não é a mesma coisa.

Fecho os olhos.

Tem uma televisão ligada. Um homem e uma mulher na tela, falando diretamente para mim, dizendo “a reforma da cozinha”. De repente ela para, e as palavras “Homes under the Hammer” aparecem na tela. “Casas sob o Martelo.”

Não sei por que casas estariam embaixo de um martelo.

Estou em uma poltrona confortável na sala de estar, assistindo televisão. Fecho os olhos por um momento.

— Ela devia saber sobre ele. Pelo menos que tinha um irmão.

— Não vejo necessidade de perturbá-la desse jeito. É melhor assim.

— Ela vai lembrar dele em algum momento.

Estou sentada à mesa, e tem comida na minha frente. Olho para ela. Massa, vegetais e coisas.

— Qual é o nome disso? — pergunto.

— Lasanha de vegetais, querida — responde uma mulher. Olho para o rosto dela. Seus olhos estão vermelhos. Ela esteve chorando. Não tem comida diante dela. Ela é minha mãe.

O homem está sentado na minha frente. Ele também tem um prato de lasanha de vegetais e está comendo pedaços grandes. Ele levanta a cabeça e sorri, mas vejo grandes bolsas escuras embaixo de seus olhos. Seu cabelo é espetado. Ele é meu pai.

— Come — ele diz.

— Eu gosto disso?

— Muito.

— E você adora pão de alho — diz minha mãe. — Vai, come um pedaço.

Pego um pedaço de pão, apesar de ser amarelo e ter pontinhos verdes. Não parece muito bom. Pego para que ela fique feliz.

Experimento a lasanha de vegetais. É boa.

Olho para minhas mãos. Em uma delas está escrito: FLORA seja corajosa. Não tem mais nada nelas. Olho os dois braços. Não sei por que estou fazendo isso, mas não tem nada neles. Tem um curativo pequeno na parte interna de um dos braços, e eu começo a puxar o esparadrapo.

— Não faz isso — diz minha mãe. Ela olha para o meu pai. — Vou procurar um jeito de remover essa tatuagem — fala para ele. — Ela não precisa do próprio corpo dizendo para ela ser corajosa cada vez que olha para baixo.

— Sério?

— Isso pode encher a cabeça dela de ideias.

Não tenho ideias.

Nenhuma ideia.

Aos poucos as coisas vão ficando mais claras.

Meus pais estão vestidos de preto. E estão sérios. A maquiagem e o perfume de minha mãe me dizem que eles vão a algum lugar.

— Aonde vocês vão? — pergunto.

— A lugar nenhum. Você precisa ir dormir agora, Flora.

— Não quero ir dormir. Não estou cansada.

— Precisa tomar o remédio.

Ela me leva para cima, me faz subir mais uma escada, e entramos no meu quarto com as paredes completamente cor-de-rosa, a colcha rosa, a mobília branca, as cortinas cor-de-rosa e um quadro com fotos de pessoas. Tem fotos do homem, da mulher e de mim. Tem uma caixa de Lego, bonecas e ursinhos de pelúcia.

— Por que não veste seu pijama, meu bem? — ela diz. Enquanto me visto, ela conta comprimidos e pega um copo de água em algum lugar. Minha mãe me entrega a água e me dá comprimido após comprimido. Engulo todos, um a um, tomando um gole de água depois de cada um.

— Para a cama agora.

Entro embaixo do cobertor e deito a cabeça no travesseiro. Ela põe um ursinho em meus braços.

— Você vai dormir, querida. — Ela beija minha testa e sussurra: — Desculpa, Flora. Desculpa. Sei que isso é errado. Seu pai tem razão. Mas não posso perder você também. Não posso.

Fecho os olhos e mergulho na escuridão.

Acordo e vejo a luz em torno das cortinas. Por um segundo penso que estou em um lugar onde nunca escurece, nem mesmo à noite: um lugar que tem a luz do dia entrando pelas frestas da persiana mesmo que sejam três da manhã. Mas sempre escurece à noite, portanto esse lugar não pode existir. A luz lá fora significa que é dia.

Tem um caderno sobre o travesseiro, ao lado da minha cabeça. Eu pego o caderno, abro e começo a ler.

Você é Flora Banks.

Você tem dezessete anos e mora em Penzance, na Cornualha. Quando tinha dez anos,

apareceu um tumor no seu cérebro, e os médicos o removeram quando você tinha onze.

Parte da sua memória se foi com ele. Você consegue lembrar da sua vida antes da doença,

mas desde a cirurgia não consegue construir novas memórias.

Você tem AMNÉSIA ANTERÓGRADA. Consegue manter as coisas na cabeça por

algumas horas e, quando as esquece, sente uma confusão repentina. Seu pai e eu te

ajudamos a lembrar quem é e o que está acontecendo.

Você consegue lembrar como fazer as coisas (como ligar o chuveiro). Lembra de nós e

às vezes de pessoas que conheceu antes dos dez anos. Esquece outras, mas tudo bem,

porque as pessoas aqui te conhecem e entendem.

Você nunca pode morar fora de Penzance, e nunca vai querer ir embora, porque esta

cidade está mapeada na sua cabeça e é o seu lar. Morávamos nesta casa antes da sua

doença, por isso você a conhece bem. Sempre vai morar conosco, e nós sempre vamos

cuidar de você. Você nunca pode ir a lugar nenhum sozinha: você não quer e não precisa ir.

Você é boa em leitura e redação e gosta de assistir televisão. Vamos sempre garantir que você tenha tudo de que precisar. Você toma remédio duas

vezes por dia, e vai tomar para sempre.

Beijos,

Mamãe

Leio tudo duas vezes, até absorver a informação. Moro aqui. Nunca saio. Isso é bom. Não consigo nem imaginar sair daqui.

Levanto e sinto tontura. Começo a enxergar tudo preto e sento no chão. Daqui consigo enxergar embaixo da cama. Tem uma caixa lá. Estico o braço e a puxo para mim.

Está vazia. Tem uma caixa de sapatos vazia embaixo da minha cama. Acho que devia ter coisas dentro dela, mas não sei por que penso isso. Não sei por que haveria de ter coisas dentro dela, e não sei por que está vazia.

Desço a escada. Tem cartas no capacho, e eu vou pegá-las. Ando cambaleando. Nada parece real.

Tem três envelopes. Dois são brancos e datilografados, endereçados ao sr. e sra. Banks, e o terceiro é marrom, também datilografado, e endereçado só à sra. Banks.

— O que está fazendo? — Minha mãe pega as cartas da minha mão e as examina, uma, duas, três, e as deixa de lado. — Por que está olhando as cartas, Flora?

Dou de ombros. Não sei.

— Não sei — respondo. — Elas estavam no chão e eu peguei.

— Porque é isso que as pessoas fazem?

— É o que as pessoas fazem — repito.

Ela sorri.

— Tudo bem, querida. Desculpa.

Estou sentada no sofá com as costas eretas, um pouco nervosa, porque meu pai acabou de me dizer que tem uma visita para mim, e não tenho ideia de quem viria me visitar.

Uma garota entra na sala. Ela tem cabelo comprido, escuro e enrolado, e veste um short de brim e uma camiseta cor-de-rosa e verde.

— Flora! — ela diz. — Ah, meu Deus, Flora. É muito bom te ver.

Ela senta ao meu lado no sofá. Olho para ela.

— Sou a Paige. Lembra? Paige. Sua amiga.

Ela é familiar. Paige usava tranças e nós nos conhecemos no primeiro dia de aula.

— Flora? — ela diz. — Flora. Fala alguma coisa.

— Tudo bem — meu pai interfere. — É só dar alguns minutos. Ela está melhorando. Quer beber alguma coisa?

— Ah, não, obrigada.

— Vou deixar vocês conversarem, então — meu pai avisa, mas não vai embora. Ele acrescenta: — Eu sei que isso é chocante. É só por enquanto. Neste momento, depois do Jacob, a Annie precisa saber que ela está segura. Entende?

— Sim. É claro, é claro que sim. Tudo bem. Olha, nós vamos ficar bem. Só vou conversar com ela um pouco e lembrar que nós somos amigas de novo.

— Não conta que deixaram de ser. — A voz dele é firme. — Não fale nada sobre aquilo.

— Tudo bem. Pode deixar. Prometo. É sério, pode ir.

— É claro. Vou fechar a porta. Podem conversar.

No momento em que a porta é fechada, a garota chamada Paige muda completamente. Ela segura meu rosto entre as mãos e olha nos meus olhos.

— Flora — fala, com tom urgente. — Flora, olha para mim. Tenta se concentrar. Flora, sou eu. Ai, meu Deus, não acredito no que eles fizeram com você.

Ela segura meu braço e empurra a manga da blusa para cima.

— Olha isso! Não é o seu braço. Essa não é a sua mão. — Ela pega minha mão direita, onde tem as palavras FLORA seja corajosa. Lambo o dedo e as esfrego, mas elas não saem.

— Seja corajosa. Se eles te dessem meia chance, você seria a pessoa mais corajosa do mundo. Aposto que a tatuagem não vai ficar aí por muito tempo, vai?

Não sei do que ela está falando. Seguro a ponta do curativo no outro braço. Ela afasta minha mão do esparadrapo.

— Olha — diz —, não sei quanto disso tudo você consegue entender, mas vou falar assim mesmo. Sinto muito, Flora. Muito mesmo, de verdade. Fui horrível com você. Estourei com você, e o único culpado era o Drake. Flora, você é minha heroína. Você é incrível, e, Flora, me escuta: o Drake mentiu para você. Ele te beijou. Você lembrou, e essa lembrança é real. Ele é um filho da puta por ter falado que não aconteceu. Não acredito que ele desceu tanto. A gente não liga mais para ele. — Ela levanta as sobrancelhas. — Você esqueceu, não é? E eu tenho um namorado novo. Mas você. Você foi ao Ártico! Você fez isso. Chegou lá escrevendo bilhetes sobre tudo. Foi ao polo Norte, você é espetacular. Flora, eu daria qualquer coisa para ser tão forte quanto você, e é por isso que eu sofro vendo a sua mãe te manter desse jeito. Todo mundo quer você fora daqui, e é o que vai acontecer. Lamento muito pela sua mãe, sei que ela está vivendo um momento difícil e que se agarra a você, mas ela não pode fazer isso, e o seu pai não devia concordar, porque ele sabe que é errado. Ele odeia isso. Eu vejo. Mas ele está fazendo o que a sua mãe quer por causa do Jacob. Ai, meu Deus, desculpa. Eu devia ter ido com você. A gente devia ter desmascarado o Drake juntas.

Estou olhando para ela, tentando formar algumas palavras. Eu fui ao Ártico? Nunca fui a lugar nenhum. Nem sei o que é Ártico. As palavras dela são ruídos.

Fico sentada olhando para ela. É a Paige. Ela é minha melhor amiga.

— Eu venho ver você todos os dias. Onde eles guardam os comprimidos? No banheiro? Espero que sim.

Eu sempre vejo a embalagem de comprimidos. Minha mãe está sempre me dando comprimidos.

— Cozinha. — Essa é a palavra para o lugar onde eles estão. Tenho certeza de que é essa a palavra. — Reforma da cozinha — acrescento e franzo a testa, porque não sei por que disse isso.

— Cozinha. Tem certeza? Isso vai ser complicado. Vou ter que pensar em um plano. Temos que conseguir. Você nem imagina as coisas que o seu irmão disse que faria comigo se eu não conseguisse. Mas você precisa confiar em mim. Confia em mim?

Não faço ideia. Respondo que sim com a cabeça.

— Certo. — Vejo que ela está pensando muito. — Tudo bem. Hoje vamos deixar tudo normal. Eu volto na sexta-feira para o seu aniversário. Aí a gente cuida disso.

— Aí a gente cuida disso — eu digo.

Ela me encara.

— Meu Deus, Flora. Eles fizeram uma lobotomia em você. O Jacob avisou que fariam. Ele disse que era exatamente isso que ia acontecer. — Ela segura meu rosto entre as mãos e olha em meus olhos. — Flora, você é um ser humano incrível. É livre e maravilhosa. Seu espírito não se compara a nada na Terra, porque ele brilha, apesar de tudo que tentam fazer com você. E você está drogada até os ossos! Além dos ossos. Eles te transformaram em um zumbi. Você nem imagina o que fez ou o que é capaz de fazer. Eles te mataram, Flora. Sua própria mãe te matou.

Olho para ela consternada. Minha mãe não me matou, porque estou viva. Estou viva? Não tenho certeza.

— Vou dizer mais uma coisa. O seu irmão te adorava. Ele deu as costas para os seus pais porque eles te drogavam, não tanto quanto agora, mas muito. Ele cuidava de você de longe. Era brilhante. Mas agora ele está morto. E agora eu vou cuidar disso.

Olho para ela. Odeio essas coisas que ela está dizendo. Jacob é meu irmão. Eu pintava as unhas dos pés dele. Ele me pegava no colo. Uma lágrima escorre pela minha bochecha. Ela me abraça forte.

— Você beijou o Drake, sim, e, embora ele fosse meu namorado, fico feliz por você ter beijado. Beijou um homem bonito e inteligente. E depois se lembrou disso. Tudo que tem de ruim nisso é problema dele, mas eu te culpei e sinto muito.

— Eu beijei o Drake? — Vou tentar lembrar disso, se é importante, se já lembrei antes. Não consigo me imaginar beijando alguém.

— Sim. Não consigo acreditar que ele fingiu que você tinha inventado. Só para dar a impressão de que a sua aventura não foi culpa dele, apesar de ter sido. Eu sei que você o beijou porque tenho uma foto. A Lily tirou. Não acreditei nela, e ela me mandou a foto. Aqui. — Ela vira o celular, e me inclino para olhar a tela.

Vejo uma foto escura no contorno, com uma faixa de pedras iluminada demais. As pedras brilhantes levam a duas pessoas sentadas. O garoto está de costas para a câmera. Pode ser qualquer um. A menina é loira. Ela usa um vestido branco que brilha na luz. Está inclinada para o menino, beijando-o. Olho para ela.

— É você. — Paige toca a menina na tela com o dedo. — E este é o Drake.

— Esta sou eu? — Seguro o telefone mais perto do rosto, tentando enxergar. Não pensei que tivesse essa aparência.

— É. Olha.

Paige usa os dedos para fazer a garota ficar maior na tela. A imagem fica meio turva. Olho em volta procurando um espelho e, quando vejo um na parede, nós duas levantamos e paramos diante dele.

— Está vendo? — diz Paige. Ela vir minha cabeça no mesmo ângulo da garota da foto. Olho para mim e, quando ela segura o celular, olho para a foto.

— Sim — respondo. Sim, é uma foto minha beijando um garoto em uma praia cheia de pedras muito brilhantes. Olho para o garoto. É o Drake. Eu o beijei na praia, mas não sinto nada.

Paige me leva de volta ao sofá e me faz sentar.

— O Drake sabe exatamente o que eu penso dele — ela diz. — Nós trocamos algumas mensagens. Ele diz que se sente muito mal. Alega que agiu no calor do momento, que imaginou que você não lembraria e por isso tudo acabaria bem. Ele também disse que nunca tinha tentado beijar você antes, mas não sei se acredito. Sei lá. As implicações são grandes. Mas tudo bem. Esquece o Drake. É o seguinte: quer sair daqui e voltar a viver a vida?

Ela está olhando para mim de um jeito que sugere que essa é uma pergunta muito importante. Vejo que ela espera uma resposta afirmativa, por isso assinto. É claro que quero viver a vida. Estou confusa com as palavras dela, mas vou pedir para ela escrever tudo, assim posso pensar nisso mais tarde.

Meus pais entram na sala, Paige muda completamente e diz a eles que precisa ir embora.

— Eu venho te ver de novo amanhã, Flora — ela avisa. — Tudo bem, sra. Banks?

— Já passou da hora de me chamar de Annie, Paige. Sim, é claro, tudo bem. É bom para ela ter companhia. Sei que nada do que aconteceu é sua culpa. Você é muito boa com ela.

— Não fui. Queria ter sido. Ela não teve culpa de nada. A culpa foi toda do Drake.

Paige me abraça na porta de casa. Não quero que ela vá embora. Quero que ela explique as coisas até eu entender tudo.

— Até amanhã — ela cochicha. — Eu posso te ajudar. Amo você.