A única memória de Flora Banks
Capítulo 15
Estou sentada na MARGEM de uma rua. Drake não está comigo. Ele não está em lugar nenhum.
Dentro da minha cabeça reina o descontrole. O fogo. A neve. Uma selva. Uma imensidão do Ártico. Tudo que já aconteceu e tudo que vai acontecer, tudo ao mesmo tempo.
O tempo é uma coisa aleatória. É o que nos faz envelhecer. Os humanos usam o tempo para organizar o mundo. Inventaram um sistema para tentar ordenar o aleatório. Os outros humanos, todos, menos eu, vivem contando horas e minutos, dias e segundos, mas essas coisas não são nada. O universo riria das nossas tentativas de organizá-lo, se ele se desse o trabalho de notá-las.
O tempo é que faz nosso corpo enrugar e apodrecer. Por isso eles o temem. O tempo não me afeta: eu sei que nunca vou envelhecer.
Não sou como eles. Posso olhar pela janela por um tempo e, em termos humanos, terei perdido uma noite. Posso passar horas e horas sentada sozinha à mesa do café da manhã, olhando para o pão e o peixe à minha frente. Posso ficar ali sentada, olhar e esperar até um dia e uma noite terem passado e chegar o café da manhã do dia seguinte, e a mulher de quem eu gosto chegar e sentar ao meu lado, e descobrir que, em termos humanos, só dois minutos se passaram.
Atravesso dias e noites. Não preciso dormir.
Sou a supermulher. Estou aqui por causa do Drake e, é claro, vou encontrá-lo.
Tenho quatro anos e hoje é meu primeiro dia na escola. Estou animada e ando até a escola segurando a mão da minha mãe. Porém, quando chegamos perto do prédio, decido que não quero ir. Quero ir para casa. Tento falar com minha mãe, mas ela ri e diz:
— Você vai ficar bem, minha querida.
Digo a ela que não quero ir. Pergunto por Jacob, mas Jacob foi para a escola dele, que é diferente.
— Vou para uma escola grande — eu disse a ele naquela manhã.
— Bom, eu vou para uma escola muito, muito grande — ele respondeu. — Queria poder ir com você para a escola, Flora, para cuidar de você.
Minha mãe riu.
— A Flora vai ficar bem, Jake.
— Eu sei. Ela vai dominar o lugar antes do Natal. Queria estar lá para ver.
Mas agora Jacob não está aqui, e estamos quase na escola, e não quero mais ir. Puxo a mão de minha mãe tentando falar com ela, mas ela nem percebe.
— Ah, olha — minha mãe diz. — É a Yvonne. Vem, Flora. Vem conhecer a garotinha da Yvonne.
Olho para a menina, ela olha para mim. Suas tranças são marrons, as minhas são loiras. Nós duas usamos moletom vermelho, saia cinza, meia curta branca e sapatos pretos e brilhantes. Ela sorri para mim. Sorrio de volta, apesar de me sentir envergonhada.
— Oi — eu falo.
— Oi — responde a menina.
— Essa é a Flora — minha mãe diz.
— E essa é a Paige — Yvonne apresenta.
Acordo e não sei onde estou. Em uma cama com lençol cor-de-rosa. Estou chorando, mas não sei por quê. A cama tem grades em volta. Olho para minhas mãos. Não tem nada escrito nelas. Sou jovem demais para ter ficado maluca. Sou pequena demais para escrever. Sou uma criança normal chorando por motivos comuns.
Ouço passos na escada. Alguém vem me ver. Choro ainda mais antecipando o carinho.
No entanto, estou pensando em Drake.
Estou em uma caixa de metal e não posso me mexer. Quando tento respirar, engasgo. Um lado meu está muito quente. Não tem ninguém aqui. Não consigo ouvir nada: só um zunido constante nos ouvidos. Um zunido tão alto que meu cérebro vai derreter.
Estou sentada em uma cama com lençóis me envolvendo. Pessoas que não conheço estão sentadas no pé da cama, olhando para mim. Sinto muito, muito, muito medo.
Olho para algumas palavras em uma tela. “Você não pode vir para cá, pode?”
— Posso! — respondo para elas. — Sim, eu posso vir para cá.
Agora estou na neve, em pé no meio de uma rua, sentindo o sol no rosto.
Corro pela rua na direção para a qual estou olhando. Continuo correndo. Tem uma criatura parada em um trecho de grama congelada, ao lado da estrada. A ponta das folhas atravessa a camada de neve, e o animal, que tem pelo branco e marrom e chifres, está comendo as folhinhas. Corro até ele, e o animal nem levanta a cabeça.
— Cadê o Drake? — grito. Ele levanta a cabeça, olha nos meus olhos, vira e vai embora.
Eu o sigo. Ando pela grama coberta de neve, satisfeita por estar usando botas reforçadas. A rena (ou algum animal parecido com uma rena) me leva até a beirada de um campo, onde para e come mais grama. Na minha frente tem uma encosta. A rena quer que eu vá até lá, e eu começo a subir.
— Drake! — grito enquanto ando, mas não sinto que terei uma resposta.
Está frio, e logo faço uma curva e desapareço de vista. Alguma coisa nisso me incomoda, e eu paro e levanto as mangas do casaco para ler meus braços.
Não saia da cidade! URSOS-POLARES, está escrito na parte interna do braço esquerdo.
Paro e olho em volta. Não vejo nenhum, o que significa que deve estar tudo bem, mas mesmo assim a rena pode estar me enganando.
Na palma da minha mão está escrito EU VI URSOS-POLARES. Fotos no telefone.
Eu os vi e não aconteceu nada. Estou viva. Isso me tranquiliza. Não vou olhar as fotos agora, porque tenho que encontrar Drake.
Duvido muito de que Drake esteja por aqui. Isso, é claro, é um teste de conto de fadas. Tenho uma missão e não devo me distrair dela. Há pedras, pontas afiadas e precipícios, embora ainda não tenha subido muito. Não estou em um caminho de verdade. Acho que só fui passando por cima de algumas pedras, escalando, e agora estou aqui, e posso voltar ou seguir em frente.
Leio meu braço de novo. Não saia da cidade. Isso significa que provavelmente é melhor voltar. Apesar de sentir que nada pode me ferir, uma briga com um urso-polar não é algo que eu deva procurar. Se já os vi, não preciso ver de novo.
Mesmo assim, o caminho à minha frente parece interessante. Posso continuar subindo e subindo, e chegaria ao cume e veria o que tem lá. Pode ser qualquer coisa. Uma cidade mágica, o limite da terra, Drake.
Vou subir mais um pouco e dar uma olhada. Depois vou voltar à cidade e continuar procurando. Se olhar em todos os lugares, vou conseguir encontrá-lo. Só preciso me concentrar em permanecer nessa realidade por um tempo. Não devo voltar ao passado.
As ondas quebram no cascalho à nossa frente. Está escuro e tem uma lâmpada de rua em algum lugar, iluminando onde estamos. Vejo um flash de luz. Estou usando um vestido azul e botas pesadas, e estou beijando Drake. Estou beijando Drake e ele está me beijando, e eu o amo e ele me ama, e à nossa volta tem pedras pretas e lisas.
Estou em cima de um pico, tremendo. À minha frente tem uma paisagem. É irregular, com neve, pedras e vegetação rasteira entre elas. Aqui não tem árvores, nenhuma árvore. Não tem casas. Não tem terra mágica. Não tem Drake. Todo mundo está me procurando.
Alguma coisa apita no meu bolso. Quando investigo, descubro que é um telefone, mas não é Drake. É uma mensagem de alguém chamado Jacob, e a mensagem diz apenas:
por favor, leia seus e-mails
Abro a caixa de e-mails. O telefone parece estar cheio deles.