A única memória de Flora Banks

Emily Barr · Capítulo 7 de 29

Páginas do PDF

A única memória de Flora Banks

Capítulo 6

 

 

— Eles disseram que voltariam — explico ao policial —, mas não voltaram. E eles sempre fazem o que dizem. Meu caderno diz que telefonei para eles sessenta e sete vezes.

A delegacia de polícia fica em um prédio cinza com telhas cor de laranja. É sem graça por fora, e por dentro também. A recepção é pequena, com uma fileira de três cadeiras azuis perto da janela.

O homem sentado na recepção é educado, mas não parece pensar que meu problema é a coisa mais interessante que vai acontecer hoje. A careca brilha embaixo da lâmpada acesa. Tem um papel em sua mão, e ele tenta ler o que está escrito ali. Sei que não tem nada a ver comigo.

— Sessenta e sete? — repete. Depois olha para mim com a testa franzida. — Sério?

— Eles sempre me dizem o que vão fazer. Sempre.

— Seus pais foram visitar seu irmão e não voltaram para casa quando você achava que voltariam?

— Isso.

— Já falou com seu irmão?

— Não.

— E eles são adultos plenamente funcionais?

— Sim.

— Você também?

Vejo que ele está olhando para as palavras escritas na minha mão, tentando ler a mensagem. O policial olha para o meu rosto. Olha nos meus olhos por alguns segundos, e sua atitude muda. Ele empurra os papéis para o lado.

— Ah. Eu sei quem você é.

Não sei o que responder, por isso não falo nada.

— Quantos anos você tem? Dezesseis, mais ou menos?

— Tenho dezessete e beijei um garoto na praia. Antes disso eu tinha dez e ia ao parque de diversões. Conheci a Paige quando tínhamos quatro anos.

A intenção era falar só as duas primeiras palavras. As outras deviam ter ficado na minha cabeça. Ele parece querer rir de mim, e eu odeio isso.

— Sim. Você já esteve aqui antes. Falou com os meus colegas. Sim, isso mesmo. Vou chamar alguém para atender você. Sente-se. Tem algum amigo? Vizinho? Algum outro familiar por perto?

— A Paige é minha amiga.

— Preciso do número do telefone da Paige, então. Vou pedir para ela vir te buscar. Talvez você possa ficar na casa dela.

Olho para o celular, procuro o nome e o número da Paige. Ela vem me buscar e vai cuidar de mim. Mas, quando penso nisso, sei que não é bem assim.

Tem mensagens no meu telefone, mas são todas minhas. Todas dizem coisas como: “Oi, Paige, você vai voltar logo?” Ela não respondeu. Espero que esteja bem. Subo a tela até encontrar a última mensagem que ela mandou para mim. Faz alguns dias e diz:

Flora, esta é a última vez que vou responder. Não

sou mais sua amiga, desde que você beijou meu

namorado. NÃO SOMOS AMIGAS. Me deixa em

paz.

 

Olho para as palavras. Beijei o namorado dela. Isso aconteceu, eu lembro. Beijei um garoto na praia. Era o Drake. Eu amo o Drake. Isso significa que Paige e eu não somos mais amigas.

Levanto a cabeça. Estou na delegacia porque os pais não voltaram para casa, e tem um homem de cabeça brilhante com uma caneta e um bloco amarelo de post-it na frente dele. Ele está esperando que eu diga o número do telefone da Paige para pedir que ela venha me buscar.

Levanto.

— Tudo bem, não precisa — falo, já a caminho da porta. Saio e corro pela rua, corro para casa. Estou sozinha. De repente, isso é empolgante. Corro e pulo pela rua. Danço. Posso fazer qualquer coisa.

Escrevo as palavras no braço: Falar com Jacob. Talvez Jacob possa me ajudar.

Se o policial telefonou para Paige, talvez ela possa tentar me ajudar, apesar de tudo. Posso ir bater na porta da casa dela, e provavelmente ela vai me deixar entrar. Mas não posso ir até lá, porque não conseguiria conversar com ela sobre os e-mails que troquei com Drake, e ela descobriria imediatamente, porque o nome dele está em tudo no meu mundo. Está nas minhas mãos, nos braços e em uma centena de bilhetes novos espalhados pela casa como borboletas.

Preciso tirar os novos bilhetes, caso os pais voltem. Tenho que me lembrar disso.

Tem muita coisa para lembrar.

— Olá? — falo para a casa vazia. Não tem sapatos na varanda, nem casacos, nem bagagem, nem vozes. Quero os pais aqui. — Cheguei! — acrescento e fico parada esperando.

Falar com o Jacob.

Os pais guardam a papelada em um arquivo e em pilhas em um quarto que tem uma cama de solteiro sem lençol. Começo pelas pilhas.

Escrevo um bilhete: Procurando o número do telefone do Jacob e colo na beirada da mesa com fita adesiva.

Não tem nada sobre a viagem dos pais. Não tem detalhes do trajeto, reservas de hotel, nenhuma carta. Eu provavelmente os encontraria, se desse uma boa olhada no computador grande.

Abro o arquivo e me acomodo para procurar rastros do meu irmão mais velho. Isso implica olhar vários papéis velhos e sem graça, verificar cada um para ver se tem o nome dele. Encontro um envelope com “Flora” na frente e tiro dele um maço de papéis, mas expressões como “lobo temporal”, “confabulação associada” e “ECG 8” pulam do texto e me deixam nervosa. Anoto algumas dessas palavras estranhas e guardo o papel no bolso. Depois devolvo as folhas ao envelope e empurro tudo para o fundo do arquivo.

Tem um cartão-postal com uma foto da Torre Eiffel. Isso é Paris. Viro o cartão e vejo que foi enviado para mim. A caligrafia é confusa. A mensagem é:

Olhando para isso agora e pensando em você. Você é brilhante. Beijos, Jacob

Olho para o cartão. Tiro uma foto dele. Não tem o número de telefone nem o endereço de Jacob. Deixo o cartão em cima do arquivo, que é um armário. Jacob estava pensando em mim em Paris. Devo ter visto esse cartão antes. Fecho os olhos com força e digo que também estou pensando nele. Espero que ele saiba.

Encontro um passaporte e, estranhamente, descubro que é meu. Foi emitido há dois anos e é válido por mais oito. Deixo o documento separado, só por precaução, e escrevo EU TENHO PASSAPORTE! em letras grandes na parte interna do braço esquerdo.

Penso em Drake. Ele me faz lembrar. Lembro de ter beijado o Drake. O cheiro do mar.

A pedra preta.

”A gente pode passar a noite.”

”Minha mãe.”

Ele está longe. Ponho o passaporte no bolso de trás do jeans.

Depois de muito tempo, encontro um papel com um endereço manuscrito embaixo da palavra Jacob. O endereço tem Paris, mas não tem um número de telefone.

Não parece um papel novo. Parece aquele tipo de papel que cai de dentro de um livro velho. Está escrito: Jacob, Rue Charlot, 25, apto. 3, 75003, Paris, FRANÇA.

Quando digito o endereço no computador, ele aparece em um mapa: é Paris, a capital da França, e pode ser onde ele mora ou um lugar onde morou um dia. Deve ter um jeito melhor de entrar em contato com ele. Mas, como não consigo pensar em que jeito poderia ser esse, escrevo um cartão explicando quem sou e dizendo que estou preocupada porque os pais não voltaram para casa, e peço para ele me ligar se estiver bem para isso, ou para pedir aos pais para me ligarem assim que possível, se ele receber o cartão. Acrescento meu endereço de e-mail, para garantir.

Leio a mensagem. Tudo certo, decido. Parece uma mensagem normal.

Encontro três selos na gaveta com a fita adesiva e canetas que funcionam mais ou menos e saio para levar o cartão ao correio.

Conto tudo ao Drake e anoto no meu caderno. O tempo passa, e Drake responde:

Ele deve estar no Facebook. Já procurou? Mas deve ter muitos Jacob Banks.

Tento procurar, mas não consigo, porque não tenho uma conta. Sigo as instruções para criar uma, mas, quando escrevo meu endereço de e-mail, descubro que já tenho uma, afinal. O laptop preenche a senha com vários pontinhos, eu clico em OK e vejo uma parte de mim que nem sabia que existia.

Tem uma foto da Paige comigo. Estamos de rosto colado, sorrindo para a câmera. Sinto falta da Paige. Ela não é mais minha amiga, embora esteja na lista dos meus amigos no Facebook. Só tenho cinco amigos na lista, e são pessoas da escola primária. Minha página não tem nada escrito. Não sei como isso funciona. Lembro de Jacob no Facebook quando eu era pequena, e lembro que o atormentava para sair da frente do computador e vir brincar comigo. Era azul naquela época, e é azul agora.

Escrevo “Jacob Banks” em uma caixa, mas as palavras aparecem como meu “status”, então, embora Jacob seja atualmente meu status de vida, sei que escrevi o nome no lugar errado. Escrevo em outra caixa e vejo o que aparece.

Muitos Jacob Banks em uma longa lista. Mas é impossível ver qualquer coisa sobre a maioria das pessoas que aparecem, e não sei qual é a aparência do meu irmão agora. Nas minhas lembranças ele é grande e maravilhoso. Nas fotos espalhadas pela casa ele ainda é um adolescente, mas acho que agora ele é mais velho. Alguns desses perfis têm palavras como “San Diego” embaixo das fotos, e eu sei que esses são outros Jacob Banks, e alguns têm fotos de adolescentes (adolescentes que não têm semelhança com as minhas fotos), e sei que também não são meu irmão. Tem a foto de um homem com uma grande cicatriz vermelha de um lado do rosto. Não clico nesse, porque não é meu irmão, e também está escrito que ele mora em Gay Paree, seja lá onde isso for.

Sempre que clico em uma foto que acho que pode ser a que procuro, aparece: “Você conhece Jacob? Para ver o que ele compartilha com amigos, envie uma solicitação de amizade”, e uma sugestão para “adicionar aos amigos”. Adiciono todo mundo que considero uma possibilidade, e as mensagens de “solicitação de amizade enviada” se acumulam, até não restar mais nada a fazer além de esperar.

Procuro na internet onde mais é possível encontrar pessoas. Isso me leva a um site chamado Twitter. Lá também tem muita gente com o nome dele, mas quase nenhum tem configurações avançadas de privacidade. Ali a busca é mais fácil, e vou olhando os perfis até eliminar cada um deles. Tento repetir o procedimento em outros sites, mas tudo fica muito difícil repentinamente. Quando conto isso ao Drake, ele acha engraçado eu ter enviado solicitações de amizade a todos os Jacob Banks, e decidimos que exploramos todas as conexões óbvias das redes sociais.

Tudo que podemos fazer é esperar. Decido dormir.

Embora não seja noite, aliso a colcha da cama dos pais e tiro a corrente da porta, porque posso dormir até a manhã seguinte. Deito no sofá e fecho os olhos.

Quando acordo está claro, e eu sinto medo. Leio tudo no meu caderno e todas as anotações que encontro, e as informações me deixam ainda mais amedrontada, embora minha única regra de vida, aparentemente, seja não entrar em pânico. Vou para o meu quarto e leio tudo que encontro embaixo da cama.

Mandei uma carta para Jacob. Os pais não voltaram para casa. Drake está no Ártico e eu o amo.

A porta do quarto deles está encostada, e eu bato educadamente antes de empurrá-la. A cama não foi desarrumada.

Preciso de ajuda. Corro até a casa da sra. Rowe. Ela abre a porta imediatamente.

— Finalmente! Trouxe os... — Uma pausa. Seus olhos são turvos e ela está muito mais velha. — Trouxe alguma coisa para mim?

— Não — respondo. — Sabe onde estão meus pais?

— Você gosta de geleia de morango?

— Você costumava ficar com os potes de geleia.

— Entra!

A casa tem um cheiro meio estranho.

— Preciso te dar um pouco de geleia.

Paro na porta da cozinha e olho para toda aquela geleia.

— Flora — digo a ela. — Eu sou a Flora. Você viu os meus pais?

Ela não responde. Pego a geleia e beijo seu rosto, porque sei como ela se sente. A geleia está mofada, mas não quero jogar fora, por isso guardo o pote no fundo do armário. Já tem dois lá dentro.

Não tem ninguém em Penzance que possa me ajudar. Ligo todos os aparelhos de comunicação. Tem um novo e-mail do Drake e uma série de mensagens no Facebook. Tenho onze “amigos”: seis são Jacob Banks, e os outros são conhecidos.

De acordo com minhas anotações, mandei solicitações para mais de vinte Jacobs. Se algum deles for o certo, ele vai saber quem eu sou. Faço chá em uma caneca que, de acordo com um bilhete preso à porta da geladeira, é a preferida da minha mãe (”MELHOR MÃE DO MUNDO!”) e me sento à mesa, que está coberta de coisas. Tem bilhetes amarelos por todos os lados. Neles está escrito Jacob, Mãe, Pai, França e Drake, Drake, Drake. Quando começo a analisar os seis perfis de Jacob que agora estão disponíveis para mim, meu celular apita. Notificação de mensagem.

Leio. Leio de novo. Imprimo para torná-la mais real e leio mais uma vez.

A mensagem diz:

Querida, mil desculpas pelo atraso! Está tudo bem?

Por favor, responda agora mesmo. Não podemos

usar o celular aqui. Perdemos o avião. Perdemos

suas ligações. Houve uma emergência terrível no

hospital e não pudemos ir a lugar nenhum. O Jacob

ficou muito mal, e por alguns dias tivemos que

confiar que você estava bem com a Paige e nos

concentrar nele. Seu irmão saiu do estado crítico e

nos demos conta de que o tempo havia passado.

Fique com a Paige.

Tem dinheiro para qualquer emergência em uma

caixa no fundo da graveta de meias do seu pai, e

um cartão de crédito, a senha é 5827. Por favor,

responda. O Jacob está muito doente, mas vamos

para casa assim que possível, pelo menos por um

tempo. Pensamos em você sempre. Te amamos

MUITO, Beijos, mamãe e papai

 

Leio de novo e de novo. Estão todos bem. Tem uma explicação. Eles não costumam me esquecer (eu esqueço coisas, não eles). Estão comigo o tempo todo, como se eu fosse um bichinho de estimação. Aposto que estão gostando de ficar longe de mim.

Eles não estão gostando disso. Houve uma emergência. Jacob está muito doente. Provavelmente pode morrer a qualquer momento. Pode já ter morrido. Minha mãe pode ter preferido não me contar por mensagem.

Escrevo 5827 na parte interna do pulso, vou procurar o dinheiro e o cartão e deixo tudo no centro da mesa.

Escrevo para Drake e conto que os pais perderam o avião e está tudo bem.

Tudo bem para mim. Os pais estão vivos e continuam na França. Mas não está tudo bem para o Jacob e não está tudo bem para minha mãe e meu pai.

Jacob é meu irmão, e não tenho ideia de como ele é agora, porque ele foi embora e nunca mais voltou. Sei que olhei cada pedaço de papel nesta casa e ainda não sei nada. Não vou nem poder sentir saudade quando ele morrer, porque as únicas lembranças que tenho dele são de quando eu era muito pequena.

Mas eu sinto saudade dele. Jacob me deixava pintar suas unhas dos pés. Ele me pegava no colo quando eu chorava. Eu o amo.

Fico triste por meus pais, que estão sentados ao lado do leito de morte do filho. Dá para entender que tenham se esquecido de mim.

Ando pela casa, sento em lugares diferentes, ponho água para ferver. O tempo todo espero pela resposta de Drake. Ela chega. Drake é o que tenho de mais certo na vida. Não sei o que faria sem ele.

Ele me beijou na praia. E me deu uma lembrança. E me deu uma pedra.

Drake escreve:

Ei, você percebeu uma coisa? Está vivendo de maneira independente. Está sozinha nessa casa há décadas. Foi à delegacia, fez

uma investigação, criou uma conta no Facebook e fez amizade com pessoas chamadas Jacob Banks. Você pode fazer qualquer

coisa. Você é corajosa.

Eu sou corajosa. O pensamento é intoxicante.

Ligo para o celular da minha mãe. A chamada cai na caixa postal e eu deixo um recado.

— Não tem necessidade de voltar correndo. Fiquem com o Jacob, ele precisa de vocês. Estou bem. A Paige e eu estamos bem aqui. De verdade.

A casa começa a me sufocar, por isso ponho os sapatos e uma jaqueta jeans, já que está muito quente para o lindo casaco de pele pendurado com meu nome escrito na etiqueta, e ando até a orla. A água é imensa e agitada, as nuvens são baixas: consigo ver uma tempestade se aproximando a oeste, além de Newlyn. Dou as costas para ela e me afasto, sigo para a Piscina Jubilee, onde tem poucas pessoas, algumas nadando vigorosamente, outras só se refrescando sem nem molhar o cabelo.

Tem gente sentada na cafeteria bebendo café, ou comendo bolo ou sanduíches. Paro para olhar através da balaustrada. Sinto falta do Drake. Preciso dele aqui, andando comigo e segurando minha mão.

Ele acha que eu posso fazer qualquer coisa.

Ele não pode vir por causa dos estudos.

Olho para a anotação em meu braço. Eu TENHO PASSAPORTE, está escrito.

Quando chego em casa, tem um recado da minha mãe na secretária eletrônica.

— Querida, está tudo bem? Por favor, liga para a gente de novo. Se você e a Paige estão mesmo bem, vamos ficar mais alguns dias. Mas não vou decidir sem falar com você primeiro. Amamos você. Queria muito ouvir a sua voz. — A voz dela estremece, e ela desliga de repente.

Olho para o meu celular e vejo que tem uma chamada perdida dela. Não acredito que deixei passar a chance de falar com ela. Meus olhos se enchem de lágrimas, e por um momento quero ir à França para poder abraçar minha família.

Quero ir à França, mas quero ir para “Svalbard” ainda mais.

Drake me encontraria do outro lado. Eu tenho passaporte. E não tem ninguém aqui para me impedir.

Ligo para minha mãe e, com cuidado, digo todas as coisas certas.